Matriarca do samba e ialorixá símbolo de resistência da cultura negra no Brasil, Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, teve sua história e os mistérios que cercam seu legado investigados no episódio “Tia Ciata: a matriarca do samba”, do programa Caminhos da Reportagem. Exibida nesta segunda-feira (27) pela TV Brasil, a produção já está disponível no YouTube e no site oficial da emissora.
Em entrevista ao Mundo Negro, a jornalista Luciana Barreto comentou sobre os bastidores da reportagem e as revelações com a produção: “Nós começamos essa investigação sobre a vida da Tia Ciata através de uma foto que, supostamente, seria inédita. O mais interessante para mim e para a equipe foi descobrir, ao longo do percurso, que o registro que era nosso ponto de partida não era inédito. No entanto, foram muitas outras lacunas na vida dessa personagem que inacreditavelmente estavam aguardando para serem preenchidas. Qual o rosto real da Tia Ciata? Quantos filhos teve? Como era a esfera de poder desta mulher? Por que ainda não temos essas respostas? Tudo isso mostrou que a Tia Ciata, como outras personagens fundamentais para a história do Brasil, sofrem de apagamento e negligência. Isso é revoltante”, destacou.
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A vida e o legado de Tia Ciata se entrelaçam com a história do samba e da cultura negra no país. Baiana do Recôncavo, ela fez parte do movimento de mulheres que migrou para o Rio de Janeiro no final do século XIX e início do século XX, conhecido como “diáspora baiana”. Na capital federal, tornou-se referência religiosa, humanitária e cultural, exercendo uma influência que continua a reverberar mais de cem anos após a sua morte.
Debates sobre a imagem e o patrimônio
Uma das dúvidas apontadas pela produção diz respeito à verdadeira imagem de Hilária. A historiadora e pesquisadora Angélica Ferrarez, estudiosa das “tias do samba”, argumenta que a famosa foto feita na Bahia pelo fotógrafo alemão Rodolpho Lindemann não seria de Ciata, já que ela mudou-se para o Rio em 1876, aos 22 anos, e a imagem teria sido tirada quando ela já morava na capital carioca.
Por outro lado, a bisneta e presidente da Casa de Tia Ciata, Gracy Mary Moreira, explica que a bisavó viajava com frequência para a Bahia por ser “mãe pequena” no terreiro de João Alabá, famoso babalaô e fundador do primeiro terreiro de candomblé do Rio de Janeiro. Gracy também destaca um estudo de antropologia forense realizado com a foto de Lindemann e imagens de familiares para verificar a hereditariedade.
Outro ponto abordado é o patrimônio e os descendentes de Ciata. O inventário de Hilária, arquivado no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, registra que quatro filhos dividiram a quantia de três contos de réis. A pesquisadora Jéssica Costa pontua que essa riqueza econômica garantiu estabilidade para a família após a sua morte, em 1924.
O quintal da Praça Onze
O programa também destaca a importância da casa de Ciata na extinta rua Visconde de Itaúna, na Praça Onze. Foi em seu quintal que Ciata possivelmente participou da criação de “Pelo Telefone”, o primeiro samba registrado no Brasil, em 1916, por Donga e Mauro de Almeida. O escritor e historiador Luiz Antônio Simas analisa que o local era um núcleo de extrema relevância tanto para a religião quanto para a música popular urbana em formação.
A planta do imóvel foi reconstituída pela arquiteta Luciana Mayrink, mostrando que as manifestações religiosas ocorriam no terreiro ao fundo do terreno, enquanto o samba acontecia no galpão da frente, forming um quintal protegido.
Essa herança deixada por Ciata e outras tias ilustres, como Tia Carmem, Tia Amélia e Tia Perciliana, permanece viva no presente. O episódio mostra esse paralelo ao visitar o Cafofo da Tia Surica, em Madureira. A cantora e matriarca da Portela também realiza festas com rodas de samba em seu quintal e ressalta a continuidade dessa tradição: “Nós não vamos ser eternos. Então, os que estão vindo agora que deem continuidade. Porque dizem que o samba morre. O samba não morre, nem agoniza.”
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