Jambalaya : Um prato criado na América, mas por mãos africanas

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Jambalaya da chef Aline Chermoula - Foto: Divulgação

Os pratos típicos da cultura preta dizem muito sobre ancestralidade e memória do povo diaspórico. Muitas receitas típicas da cultura culinária nas Américas revelam fatos de como se deu a diáspora africana no continente americano

A cozinha preta foi elaborada dentro do ambiente hostil da escravização dos africanos e por isto traz vestígios da cultura culinária europeia, mas sempre criada a partir de memórias do continente africano.

A exemplo disto temos um prato emblemático do Sul dos EUA: o Jambalaya.

Jambalaya uma  delícia da culinária afroamericana com toques de sabores europeus. Uma Especialidade da Chermoula Cultura Culinária.

O prato é robusto, uma comida de estilo campestre encontrada em toda a Louisiana, estado localizado no sul dos Estados Unidos, com forte influência da cultura negra.

Uma incrível combinação de diferentes temperos. A iguaria tem como base o arroz com especiarias que ganha pedaços de linguiça, camarão, aromáticos e ervas frescas.

Embora muitos atribuam ao jambalaya uma tentativa de recriação da paella por imigrantes espanhóis em Louisianna, nos EUA, sabemos que a hipótese considerada bem mais provável é a de que ela venha, na verdade, da diáspora africana nas Américas.

O Jambalaya deriva do Jollof, um prato a base de arroz com especiarias e carne de cabrito, presente em países do Oeste africano, países como Gana, Senegal e Nigéria, região do chamado “cinturão do arroz”.

Jollof: Foto reprodução Instagram

Essa população, que foi presa, traficada e escravizada em fazendas no sul dos EUA, tinha o domínio da técnica de plantio em áreas alagadas, assim como o conhecimento do preparo de uma variedade de arroz trazida da África por europeus para fins comerciais. Esse mesmo território africano estadunidense foi batizado de “Carolina Gold Rice”. As receitas de jambalaya são diversas e variam conforme a família que a prepara.

O arroz Jollof tem um forte poder na África Ocidental e, por conta disso, há um ponto de discórdia com alguns Estados nacionais africanos reivindicando a propriedade da receita. Mas fato é que na África Ocidental o Jollof é um prato perfumado e único, reverenciado em toda a região por seu sabor harmonioso e tempero sutil. A verdade é que este prato está para além dos Estados nacionais da contemporaneidade africana, que só expulsou os colonizadores europeus a mais ou menos 80 anos.

O Jollof foi originado na região onde vivia o povo wolof, entre o Senegal e Gâmbia, que por sua vez chama o prato de ‘benachin’ . A refeição viajou por toda a região da costa ocidental e tornou-se diversa misturando a herança e a cultura do local onde é preparada, mantendo a sua magia e sendo apreciada em toda a África.

Enquanto herdeiros da diáspora somos responsáveis pela preservação da memória  e promoção nossas receitas ancestrais. Eu faço este resgate a partir de ferramentas de pesquisa, para desta forma nutrir o corpo e a cabeça e assim contribuir para  perpetuação da memória de nossas tradições de matrizes africanas e valorização de nossa cultura culinária, contando nossas próprias histórias, legado que nos roubaram quando implantaram a escravização de pessoas no continente africano.

Nossas receitas ancestrais que nos foram passadas através da oralidade por nossas bisas, avós, tias e mães são preciosas fontes de sabores e pesquisas. Essas receitas ancestrais dizem muito mais sobre nós do que podemos imaginar.

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