Se você gosta de teatro, de interpretação e do tipo de atuação que continua ecoando depois que a luz acende, existe um motivo para assistir “Ultimatum”: Valéria Monã e Orlando Caldeira.
Há espetáculos que se sustentam pela encenação. Outros pela dramaturgia. Em “Ultimatum”, o encontro desses dois atores cria um terceiro elemento: presença. Daquelas que reorganizam a atenção do público.
Montado a partir do último texto inédito de Domingos Oliveira e dirigido por Marcio Meirelles, o espetáculo trabalha num território exigente, onde ensaio, ficção, memória e realidade se cruzam continuamente. Não é uma peça que entrega respostas ou conduz o espectador pela mão. Exige escuta, disponibilidade e precisão dos intérpretes. E é justamente nesse terreno que Valéria Monã e Orlando Caldeira revelam a dimensão dos seus trabalhos.
Valéria Monã aparece como uma atriz que domina algo raro: maturidade de linguagem. Sua interpretação não busca impacto imediato nem excesso emocional. O que impressiona é o controle. A forma como administra ritmo, silêncio, escuta e deslocamentos internos da cena. Existe uma segurança construída por trajetória, mas sem acomodação. Ela não atua para confirmar experiência, atua para continuar investigando. E isso produz um efeito potente: o público não assiste apenas a uma personagem, acompanha uma atriz pensando e construindo em tempo real.
Em cena, Valéria lembra algo que o teatro brasileiro nem sempre reconheceu como deveria: atrizes negras não são apenas presença simbólica ou força narrativa. São também elaboração técnica, sofisticação interpretativa e pensamento cênico.
Orlando Caldeira entra por outro caminho e talvez aí esteja uma das grandes forças do espetáculo. Há nele uma qualidade muito difícil de encontrar: intensidade sem ansiedade. Orlando não disputa atenção nem força protagonismo. Trabalha a cena com inteligência, escuta e disponibilidade. Existe rigor no modo como ocupa o espaço e constrói relação com os parceiros. Sua atuação tem densidade sem rigidez e presença sem excesso.
Interpretando Breno e Manuel, Orlando demonstra domínio de mudança de registro, composição e condução dramática. Não existe caricatura nem marcação evidente. Existe um ator que entende que atuar não é exibir recurso, mas produzir sentido.
Ao lado de Valéria, o que surge não é um contraste geracional. É continuidade. Uma atriz que representa permanência, pesquisa e repertório encontra um ator que aponta caminhos de renovação sem romper com a tradição do ofício.
Também há mérito importante na direção de Marcio Meirelles, que evita transformar o último texto de Domingos Oliveira em homenagem estática. A montagem mantém a inquietação, a fragmentação e o caráter vivo que atravessam a escrita do autor.
Esta observação não ignora a qualidade do elenco de “Ultimatum”, que sustenta uma montagem complexa e exigente com alto nível de entrega. Mas, considerando o recorte editorial do Mundo Negro e seu compromisso histórico com a crítica e a visibilidade da produção artística negra, o foco em Valéria Monã e Orlando Caldeira é uma escolha consciente. Não para isolá-los do conjunto, e sim para reconhecer, com a atenção crítica que merecem, dois intérpretes que transformam presença em linguagem e reafirmam o lugar central de artistas negros na elaboração estética do teatro brasileiro contemporâneo.
A peça estará disponível até o dia 21 de junho, no teatro Sesc Arena de Copacabana. Sábado e domingo, às 18h.
Em um movimento de retorno às origens para curar o presente, incorporando o princípio ancestral de Sankofa, a intelectual Aza Njeri lança a obra ‘Somos Sol Vivo: ensaios radicais sobre experiências da Vida‘. No livro, a pesquisadora desenvolve o conceito de “Solaridade”, uma provocação para que a sociedade brasileira abandone as bases coloniais e reconstrua seu imaginário a partir da valorização comunitária.
Com uma narrativa fluida e emocionante, a doutora em Literaturas Africanas tece reflexões que entrelaçam sua própria história pessoal e familiar com análises críticas sobre o sistema sociopolítico global, a educação e as artes. O coração da obra bate no conceito de “Sol Vivo”, cunhado pela autora como um princípio essencial de vitalidade e responsabilidade coletiva. Em contraposição ao individualismo adoecedor do Ocidente, a Solaridade orienta os valores de convivência para uma perspectiva comunitária de existência, onde o brilho de cada indivíduo é nutrido pela coletividade.
Em suas redes sociais, a escritora celebrou a chegada da obra, que condensa uma longa trajetória de dedicação acadêmica e espiritual. “Esse livro é a reunião dos meus últimos sete anos de pesquisa, um trabalho aprofundado que perpassa as filosofias africanas, filosofias afrodiaspóricas, principalmente as de terreiro. Passa por um trabalho pelas artes, pensando música, literatura e cinema, e, principalmente, faz uma crítica ao mundo contemporâneo”, destaca a autora. “Essa obra é muito especial porque eu me dediquei durante muito tempo para pensá-la e estou muito feliz em saber que agora ela ganha o mundo para também acender outros sóis.”
Ao longo dos ensaios, Somos Sol Vivo se revela um verdadeiro tour de force. A autora utiliza a educação e a pesquisa como ferramentas inegociáveis de reparação histórica de populações marginalizadas. O livro apresenta ao leitor uma “gramática de resistência”, fortalecendo os debates contemporâneos sobre o letramento racial.
Para estruturar essa jornada, cada capítulo é conectado a um Adinkra—conjunto de símbolos visuais do povo Ashanti (Gana) que sintetiza provérbios, valores e conceitos filosóficos fundamentais. A obra ainda estabelece conexões profundas com as filosofias Bacongo e Ubuntu (“Eu sou porque nós somos”), mostrando como o apagamento da presença negra na constituição simbólica do país empobrece nossa compreensão de mundo.
A obra já está disponível para venda no site oficial da editora HarperCollins Brasil. Aza Njeri reforça o convite para que o público se reconecte com essas reflexões urgentes. “Venha conhecer esse meu novo trabalho, feito para acender o seu sol com muito respeito, e lembrar a todos, todas e todes que a nossa humanidade, ela é inegociável”, convida a escritora.
Aza Njeri é professora e pesquisadora de literaturas, culturas, artes e filosofias africanas e afro-diaspóricas. Integra o corpo docente da PUC-Rio, além de atuar como roteirista, crítica teatral e literária, e criadora de conteúdo no YouTube.
O Haiti chega à Copa do Mundo 2026 com uma história que poucos conhecem; entenda quem é o adversário do Brasil hoje em Filadélfia.
O Haiti entra em campo nesta sexta-feira (19), às 21h30, horário de Brasília, para enfrentar o Brasil pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo 2026, no Lincoln Financial Field, em Filadélfia. A partida marca apenas a segunda participação haitiana em um Mundial, 52 anos depois da primeira. A memória dessa história foi resgatada nesta sexta-feira pelo comentarista e apresentador Marcos Luca Valentim, dos canais Globo e do perfil @ubuntuesporteclube, em vídeo publicado em suas redes sociais no dia do jogo, lembrando que a trajetória do Haiti é uma das mais singulares do continente americano.
No século XVIII, a ilha de Saint-Domingue, atual Haiti, era a engrenagem mais lucrativa do sistema colonial europeu. Sob domínio francês, a ilha produzia sozinha mais da metade do açúcar e do café consumidos no mundo ocidental, tornando-se a possessão colonial mais rentável do planeta. Essa riqueza era extraída de uma estrutura demograficamente insustentável: em 1789, a população era composta por aproximadamente 500 mil pessoas escravizadas, 40 mil mulatos livres e apenas 30 mil brancos. A violência necessária para manter esse sistema era proporcional à desproporção que o sustentava.
Em agosto de 1791, numa cerimônia religiosa conhecida como Bois-Caïman, lideranças escravizadas do norte da ilha organizaram o início de uma revolta que se espalharia por todo o território. O que começou como levantes fragmentados ganhou coesão com a ascensão de Toussaint Louverture, um ex-escravizado que havia obtido a liberdade em 1776 e desenvolvido por conta própria um domínio notável de estratégia militar e política. Toussaint organizou a população rebelde num exército disciplinado, capaz de enfrentar tropas coloniais profissionais, e conduziu o movimento com uma habilidade que desconcertou as potências europeias que tentaram, sucessivamente, suprimir a revolução.
Foto: reprodução / wikipedia
Toussaint navegou pelas contradições geopolíticas da época com precisão calculada, aliando-se inicialmente aos espanhóis da parte oriental da ilha para fortalecer suas forças, e mudando de lado quando a França revolucionária promulgou a abolição da escravidão em 1794, tornando-se rapidamente a principal liderança militar do território. Em 1801, com o controle consolidado sobre toda a ilha, redigiu uma constituição que aboliu formalmente a escravidão e estabeleceu a autonomia do território, enviando uma cópia diretamente a Napoleão Bonaparte, que havia assumido o poder na França com planos de reestabelecer o controle colonial.
A resposta de Napoleão foi uma expedição de mais de 20 mil soldados veteranos das campanhas europeias. Toussaint foi capturado por meio de uma armadilha diplomática em 1802, deportado para a França e morreu preso no forte de Joux em abril de 1803, sem ver o desfecho do processo que havia estruturado. Antes de morrer, teria alertado que a França havia cortado apenas o tronco da árvore da liberdade, e que ela voltaria a crescer porque suas raízes eram profundas. Jean-Jacques Dessalines assumiu o comando, derrotou os franceses na Batalha de Vertières em novembro de 1803 e proclamou a independência em 1º de janeiro de 1804. O novo país recebeu o nome de Haiti, palavra de origem taína que significa “terra das montanhas”, em homenagem aos povos originários que habitavam a ilha antes da colonização. A derrota francesa na ilha também contribuiu para a decisão de Napoleão de vender o território da Louisiana aos Estados Unidos em 1803, alterando de forma permanente a configuração política da América do Norte.
O Haiti se tornou a primeira república negra e independente do mundo, o primeiro país do hemisfério ocidental a abolir definitivamente a escravidão e a única nação cuja independência resultou de uma revolta vitoriosa de pessoas escravizadas. O impacto desse evento atravessou fronteiras e décadas. No Brasil, onde cerca de 40% de todos os africanos escravizados trazidos às Américas haviam desembarcado, o temor de uma revolta similar marcou o debate político por gerações e esteve presente no contexto da Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835.
Foto: reprodução / wikipedia
A seleção haitiana chegou pela primeira vez a uma Copa do Mundo em 1974, na Alemanha Ocidental, após vencer as eliminatórias da CONCACAF disputadas em Porto Príncipe. No Grupo D, os Granadeiros enfrentaram Itália, Polônia e Argentina. No dia 15 de junho de 1974, no Olympiastadion de Munique, o atacante Emmanuel Sanon marcou contra a Itália de Dino Zoff, que não sofria um gol havia mais de 1.100 minutos. Por seis minutos, o Haiti liderou sobre os italianos. A Itália reagiu e venceu por 3 a 1, mas o gol de Sanon atravessou décadas. Ele marcaria novamente contra a Argentina na última rodada, tornando-se até hoje o único jogador haitiano a marcar em Copas do Mundo. O Haiti perdeu os três jogos e foi eliminado na fase de grupos, mas deixou uma marca que meio século não apagou.
A volta ao Mundial em 2026 chegou de forma surpreendente. O Haiti terminou na liderança de um grupo considerado difícil nas eliminatórias da CONCACAF, superando seleções mais tradicionais da região como Costa Rica e Honduras, e garantiu vaga direta para o torneio. A campanha foi disputada integralmente em campos neutros porque a grave crise de segurança provocada por gangues que controlam partes significativas do território haitiano impediu a realização de jogos no país. Cerca de 80% da população vive na pobreza, e grupos armados detêm controle territorial suficiente para paralisar estradas e impedir o funcionamento de instituições. Classificar-se para um Mundial nessas condições é um resultado que extrapola qualquer tabela de pontos.
Brasil e Haiti acumulam três confrontos anteriores: o amistoso de abril de 1974 em Brasília, vencido pelo Brasil por 4 a 0 numa preparação para a Copa daquele ano; o amistoso de agosto de 2004 em Porto Príncipe, disputado durante um conflito armado que havia derrubado o governo haitiano e que ficou conhecido como o Jogo da Paz, com vitória brasileira por 6 a 0; e o jogo da Copa América Centenário de 2016, nos Estados Unidos, com goleada de 7 a 1. O confronto desta sexta-feira em Filadélfia é o quarto da história e o primeiro em uma Copa do Mundo. Para o Haiti, é a segunda vez em 52 anos que chega a esse palco, representando uma nação que construiu sua identidade na resistência e que hoje escreve mais um capítulo dessa história.
Fontes: InfoMoney, Agência Brasil, FIFA, Trivela, Flashscore, Haitian Times, Wikipedia
MARTA - Produção: Conspiração / Creditos: Laura Campanella
Produção da Conspiração com Globo Filmes percorre locações no Rio de Janeiro e em Alagoas; estreia está marcada para 8 de abril de 2027
A cinebiografia da jogadora Marta Vieira da Silva iniciou as filmagens no Brasil em junho, após concluir a primeira etapa na Suécia, e chega aos cinemas em 8 de abril de 2027. O filme, intitulado “Marta”, é estrelado por Alice Carvalho e dirigido por Andrucha Waddington, com roteiro de Elena Soárez e Thais Tavares. A produção é uma realização da Conspiração em coprodução com Globo Filmes, TV Globo e a produtora sueca Fox In The Snow, que também assina a distribuição no Brasil.
As gravações em território nacional percorrem locações com significado direto para a trajetória da atleta. No Rio de Janeiro, a equipe utilizou a Granja Comary, centro de treinamento da Seleção Brasileira em Teresópolis, além do Estádio de São Januário e do Estádio Nilton Santos, conhecido como Engenhão. A produção segue em ritmo intenso ao longo de julho e ainda passará por Alagoas, estado onde Marta nasceu, em Dois Riachos, em 1986.
Ao lado de Alice Carvalho no papel principal, o elenco reúne Karina dos Santos como Rosana, Vitoria Ribeiro como Formiga, Camila Cocão como Simone Jatobá, Raissa Borges como Katia Cilene, Sophia Dinis como Ester e Betina Bion como Andrea Suntaque. A escolha de reencenar figuras reais do futebol feminino brasileiro indica que o roteiro não se limita à trajetória individual de Marta, mas recupera o contexto coletivo em que sua carreira se desenvolveu.
A passagem pela Suécia na primeira etapa das filmagens não é casual. Marta construiu parte central de sua carreira europeia no país, onde defendeu o Umeå IK entre 2004 e 2008 e conquistou dois títulos da Liga dos Campeões da UEFA feminina. Foi nesse período que se consolidou como melhor jogadora do mundo pela FIFA, prêmio que recebeu seis vezes entre 2006 e 2018, recorde absoluto na categoria.
A Conspiração chega ao projeto com uma trajetória consolidada no audiovisual brasileiro e internacional. A produtora acumula dez indicações ao Emmy Internacional, entre elas a vitória na categoria Melhor Comédia com “A Mulher Invisível”. No cinema, integrou a coprodução de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 e maior bilheteria brasileira do período pós-pandemia. A Globo Filmes, coprodutora do projeto, opera desde 1998 e reúne mais de 560 títulos lançados, com filmes como “Cidade de Deus”, indicado ao Oscar em quatro categorias, e “Bacurau”, premiado em Cannes.
“Marta” estreia nos cinemas brasileiros em 8 de abril de 2027.
Juntos desde 2020, a CUFA (Central Única das Favelas) e o iFood anunciaram a consolidação e a ampliação de sua parceria institucional, para fortalecer o ecossistema periférico, unindo a tecnologia social e a tecnologia digital de cada organização. O foco principal da nova fase é a aceleração do empreendedorismo e a geração de oportunidades reais para a população periférica em todo o Brasil.
A aliança, que vai muito além das ações em momentos de crise humanitárias, já colocou de pé iniciativas de peso como o iFood Acredita e o iFood ChegaJunto, que apoiam projetos sociais e o desenvolvimento local. Agora, o objetivo é estruturar soluções duradouras baseadas na emancipação econômica e na inclusão digital.
Para os próximos anos, as frentes de atuação incluem programas de formação, aceleração de negócios, apoio à formalização e ampliação do acesso de empreendedores locais a ferramentas tecnológicas e novos mercados. A estimativa é de que mais de 3 mil pessoas sejam diretamente impactadas somente em 2026 em diversas regiões do país.
“A favela nunca foi um lugar de escassez de ideias, mas sim de oportunidades de escala. Quando a CUFA se une ao iFood, não estamos falando de ajuda, estamos falando de conexão de potências. O iFood entende essa grandeza e nos acompanha na construção de soluções que geram autonomia real, emancipação econômica e dignidade. É uma parceria de quem acredita na capacidade produtiva da favela e seus territórios”, afirma Kalyne Lima, Presidente Nacional da CUFA.
A parceria também visa desenhar novos projetos que usem a inovação como chave para o desenvolvimento sustentável das periferias. Luana Ozemela, CSO e Vice-Presidente de impacto e sustentabilidade do iFood, destaca a importância de construir soluções ao lado de quem vive e entende a realidade desses territórios.
“Acreditamos que a transformação social acontece quando conectamos tecnologia, conhecimento e oportunidades. A parceria com a CUFA é um exemplo concreto disso. Ao unir a inteligência territorial e a capacidade de mobilização da CUFA com a tecnologia e a escala do iFood, conseguimos ampliar o alcance de iniciativas que fortalecem o empreendedorismo, geram renda e impulsionam o desenvolvimento das favelas. Mais do que apoiar projetos, queremos construir soluções duradouras ao lado de quem conhece profundamente esses territórios e sua potência. Essa parceria reforça nossa convicção de que inovação e inclusão precisam caminhar juntas para promover impacto real e sustentável”, diz Luana.
Além dos programas de aceleração, o iFood consolidará seu apoio à cultura e à articulação comunitária ao patrocinar a agenda completa de eventos nacionais da CUFA, celebrando a identidade e a força produtiva das favelas brasileiras.
Fotos: Rafael Borgatto e
Renato Pizzutto/Band/Divulgação
O participante da 13ª edição do MasterChef Brasil causou indignação após proferir uma fala racista que foi exibida na TV Band na última terça-feira (16). Durante a avaliação dos jurados, o biomédico Reinaldo Bockor tentou explicar o conceito de sua receita utilizando uma analogia desrespeitosa: “Ele [o prato] tem que ter um pouco de manteiga no caldo, trouxe uns legumes, rasguei com a mão, imaginei aquela ‘mama criola’ rasgando com a mão assim, cozinhando para um francês que casou e tal”, declarou o catarinense.
A chef e fundadora da Casa do Dendê Aracaju, Bianca Oliveira, criticou a fala do cozinheiro amador. “A declaração do participante reforça estereótipos raciais que, há muito tempo, são usados para diminuir e desumanizar mulheres negras na gastronomia e fora dela”, destacou em entrevista ao Mundo Negro e ao Guia Black Chefs.
“Ao afirmar que cortou as folhas ‘igual às crioulas que casam com franceses’, ele não faz apenas uma comparação. A fala reproduz uma visão ligada a heranças coloniais, associando mulheres negras à subordinação e sugerindo, ainda que de forma indireta, que seu reconhecimento ou ascensão social dependeria da relação com homens brancos”, completa a chef, que também é pesquisadora da cultura alimentar afro-brasileira.
Bianca também critica a naturalidade com que a produção do programa exibiu a fala racista. “Causa preocupação que uma declaração como essa seja exibida sem uma reflexão mais ampla sobre seu significado. Mulheres negras não precisam ser associadas a ninguém para que sua competência, talento e trajetória sejam reconhecidos. Somos protagonistas de nossas próprias histórias”, pontua.
A chef destaca, ainda, que as mulheres negras carregam conhecimentos que construíram e sustentam até hoje uma parte importante da culinária no Brasil e no mundo. “Não podemos aceitar que nossas trajetórias sejam reduzidas a piadas, estereótipos ou comentários preconceituosos apresentados como humor. O que pedimos é algo simples: respeito às mulheres negras. Respeito às nossas ancestrais. Respeito às cozinheiras que ajudaram a construir e continuam construindo a história da alimentação”, conclui.
Com a repercussão negativa nas redes sociais, o catarinense se pronunciou nesta quarta-feira (17) para se defender. “Eu estava me referindo à comida de origem Cajun, que é uma comida que nasceu no Sul dos Estados Unidos, que é uma comida de origem crioula. Assim como a gente tem aqui no Brasil a comida nordestina, a comida paraense, a comida sulista, é uma comida de regiões, né? Eu estava contando naquele momento a história da comida como ela começou”.
O participante concluiu com um pedido de desculpas: “Se a fala ofendeu alguém, eu quero pedir humildemente perdão porque realmente não foi a minha intenção. Não entrei na cozinha do MasterChef para ofender ninguém, não entrei na cozinha do MasterChef para prejudicar ninguém, eu entrei porque eu gosto de cozinhar”.
Até o momento, a assessoria do programa e a emissora não se pronunciaram sobre o episódio.
Do Distrito Federal ao futebol mundial, a história do atacante da Seleção Brasileira é marcada por disciplina, apoio familiar e a coragem de seguir acreditando nos próprios sonhos
Aos 19 anos, Endrick já alcançou feitos que muitos atletas levam uma carreira inteira para conquistar. Titular da Seleção Brasileira, jogador do Real Madrid e convocado para sua primeira Copa do Mundo, o atacante representa uma geração de jovens negros que segue transformando talento, planejamento, disciplina e apoio coletivo em caminhos possíveis para realizar sonhos.
Sua história, compartilhada por familiares, treinadores e pessoas que acompanharam sua formação, mostra que o sucesso não nasceu da sorte. Foi construído diariamente por uma família que acreditou no potencial do filho, mesmo diante das dificuldades financeiras e dos obstáculos que surgiram pelo caminho.
Os primeiros passos: um menino de quatro anos que já chamava atenção
Nascido em Taguatinga, no Distrito Federal, e criado em Valparaíso de Goiás, Endrick começou a jogar futebol ainda criança.
O atleta entrou pela primeira vez em campo aos quatro anos, em uma escolinha de futebol local. Mesmo competindo com crianças mais velhas, a dedicação chamou a atenção de treinadores e observadores muito cedo, devido à sua personalidade, coragem e competitividade incomuns para a idade.
O sonho que exigia sacrifícios
Enquanto o talento de Endrick crescia, a realidade da família exigia esforço constante.
O pai, Douglas, conciliava trabalho e viagens para acompanhar o desenvolvimento do filho. Já a mãe, Cíntia Ramos, assumia grande parte da rotina de deslocamentos para treinos e competições.
Em entrevista à ESPN Brasil, ela relembrou os desafios enfrentados naquele período e destacou a importância da rede de apoio formada por familiares e amigos. Sem recursos abundantes, a família precisou criar alternativas para manter vivo o sonho do jovem atleta. Entre elas, a venda de cafés da manhã próximos à estação Barra Funda, em São Paulo, enquanto buscavam estabilidade na nova cidade.
A mudança para São Paulo e a oportunidade que mudou tudo
Monitorado por grandes clubes desde os oito anos, Endrick passou por avaliações difíceis ainda muito jovem.
A virada aconteceu quando o Palmeiras ofereceu as condições necessárias para que a família pudesse se estabelecer em São Paulo. A mudança representou um novo capítulo na trajetória do garoto que já era visto como uma promessa do futebol brasileiro.
Nas categorias de base, os resultados vieram rapidamente. Gols, títulos e atuações decisivas transformaram Endrick em um dos principais nomes da formação alviverde e em uma referência para jovens atletas.
Da base ao profissional
Em 2022, aos 16 anos, Endrick estreou pelo time principal do Palmeiras.
A ascensão foi meteórica, mas sustentada por anos de preparação. Em pouco tempo, conquistou títulos importantes, ganhou projeção internacional e confirmou as expectativas criadas desde a infância.
Seu desempenho chamou a atenção do Real Madrid, que fechou uma das maiores negociações envolvendo um jovem jogador brasileiro.
O sonho europeu
Chegar ao Real Madrid representou a realização de um objetivo construído desde a infância. Porém, essa experiência também trouxe novos desafios.
A concorrência, a adaptação ao futebol europeu e uma lesão importante exigiram maturidade de um atleta que ainda estava iniciando sua trajetória profissional. Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de atuar pelo clube francês Lyon, experiência que permitiu ao atacante ganhar sequência, confiança e protagonismo em território europeu.
O retorno ao protagonismo e a convocação para a Copa
Na França, Endrick voltou a mostrar o talento e a dedicação que o levaram ao topo. As boas atuações recolocaram seu nome entre os destaques brasileiros no exterior e abriram caminho para a tão aguardada convocação para a Copa do Mundo de 2026.
A vaga de titular da Seleção Brasileira tornou-se símbolo de anos de dedicação compartilhados entre o atleta, sua família e todos aqueles que acreditaram em seu potencial desde o início.
O exemplo de uma juventude negra que não abre mão de sonhar
A história de Endrick dialoga com a realidade de milhares de jovens negros brasileiros que diariamente trabalham em favor dos seus sonhos, desenvolvem talentos, enfrentam desafios, mas constroem trajetórias de excelência em diferentes áreas.
Ao olhar para trás, é possível enxergar uma história repleta de suor e disciplina, resultante da convicção de que o futuro poderia ser transformado com propósito e preparação.
Como afirmou sua mãe, Cíntia Ramos, em entrevista à ESPN Brasil:
“É muito gratificante. Na vida, o negócio é não desistir. Perseveramos juntos, muitos sorrisos, choros, vitórias, alguns obstáculos, mas continuamos de pé e vencendo a cada dia. Essa caminhada não terminou, mas é um momento épico na vida dele e de quem torce por nós.”
Após se consagrar como a segunda maior bilheteria nacional de 2025 e conquistar o coração de mais de 1 milhão de espectadores nos cinemas, o ator Isaac Amendoim anunciou hoje (18) a sequência do filme ‘Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa’. As filmagens de ‘Chico Bento 2’ acontecerão em 2026, reunindo novamente o elenco e a equipe responsáveis pelo primeiro longa.
O filme infantil coleciona reconhecimentos importantes, incluindo o Grande Otelo de Melhor Filme Infantil 2025 e o Prêmio ABRA de Melhor Roteiro Infantil 2026. Sob a direção de Fernando Fraiha, a produção dominou as salas comerciais por onze semanas e desenhou uma trajetória de forte impacto social ao promover mais de quarenta sessões gratuitas em diversas regiões do país, democratizando o acesso à cultura e formando novos públicos para o cinema nacional.
“Tô feliz dimais em estar de vorta pra telona do cinema! A gente já tá nos ensaios com nosso diretor Fernando e a diversão só aumenta. Eu tava com muita sardade da Vila Abobrinha e da minha turma. Tenho certeza de que essa história vai ser boa dimais da conta e arrancar mais risadas de todo mundo”, afirma Isaac, caracterizado como Chico Bento no vídeo.
Desta vez, a trama levará Chico Bento e seus amigos a embarcar em uma aventura emocionante, movida por um desejo muito especial ligado à Vó Dita. Mais detalhes sobre o elenco, bastidores e data de estreia serão revelados em breve.
Barrada por banca de heteroidentificação que contestou sua negritude, Flávia Medeiros assina acordo com a AGU e garante posse no Itamaraty após meses de disputa
A Advocacia-Geral da União assinou na segunda-feira, 15 de junho de 2026, um acordo para garantir a posse de Flávia Henriques Goes de Medeiros no cargo de oficial da chancelaria do Ministério das Relações Exteriores. Flávia foi aprovada nas provas escritas do concurso promovido pelo Cebraspe em 2024, mas foi impedida de concorrer às vagas reservadas ao sistema de cotas raciais pela comissão de heteroidentificação, que concluiu que a candidata possuía “pele clara, traços finos e cabelos lisos”, características consideradas pela banca incompatíveis com sua autodeclaração como mulher negra.
A candidata recorreu à Justiça Federal, obteve liminar favorável em primeira instância e chegou a tomar posse em março de 2026, após se mudar de Vitória, no Espírito Santo, para Brasília. Em maio, o Tribunal Regional Federal derrubou a liminar por questões processuais, e a exoneração foi publicada no Diário Oficial da União em 22 de maio, menos de dois meses após a posse. Flávia permaneceu afastada do cargo por 24 dias até a assinatura do acordo.
Ao assinar o documento, o advogado-geral da União, Jorge Messias, defendeu uma revisão dos critérios aplicados pelas bancas de heteroidentificação. “Ficará este legado para que injustiças não ocorram mais. O Estado não pode ter compromisso com o erro”, afirmou Messias, em declaração reproduzida pela Agência Brasil. Pelo acordo, Flávia será nomeada para o cargo, mas aceitou renunciar a eventuais indenizações e benefícios referentes ao período anterior à nova nomeação. O documento ainda precisa ser homologado pela Justiça.
As bancas de heteroidentificação foram criadas para complementar a autodeclaração racial em concursos públicos e coibir fraudes no sistema de cotas, instituído pela Lei nº 12.990, de 2014, e ampliado pela Lei nº 15.142, de junho de 2025, que elevou de 20% para 30% a reserva de vagas para negros, indígenas e quilombolas nos concursos públicos federais. Na prática, porém, as bancas baseiam suas avaliações na percepção fenotípica dos candidatos, o que especialistas e juristas têm apontado como fonte de insegurança jurídica num país de miscigenação intensa, onde a população negra apresenta fenótipos variados como resultado direto de séculos de escravidão e violência colonial.
Em declaração ao portal Metrópoles após a assinatura do acordo, Flávia afirmou que o desfecho ultrapassa sua trajetória individual. “Tentar separar pretos e pardos, desmantelar esse grupo de pessoas negras, é muito nocivo porque pardo também é negro. O racismo só se manifesta de formas diferentes, mas há muitas similaridades”, declarou ao Metrópoles. A servidora reforçou que se reconhece como mulher negra de pele parda desde sempre. “Vejo essa decisão como uma vitória não apenas para mim, mas para todos os pardos”, afirmou, também ao Metrópoles.
O caso aguarda homologação judicial para encerrar definitivamente o litígio na Justiça Federal do Distrito Federal.
No Dia do Químico, conheça 11 pesquisadores negros cujas descobertas salvaram vidas, derrubaram fraudes e reescreveram a ciência, e que os livros ignoraram
Todo ano, em 18 de junho, o Brasil celebra o Dia do Químico, data que marca a criação do Conselho Federal de Química pela Lei nº 2.800, de 18 de junho de 1956 e reconhece a atuação de profissionais que trabalham na intersecção entre a matéria e a vida. São eles que desenvolvem os medicamentos que chegam às farmácias, os processos industriais que produzem combustíveis, os métodos de análise que identificam fraudes em alimentos e os materiais que sustentam a eletrônica contemporânea. A química está presente em cada comprimido engolido, em cada fibra sintética usada, em cada litro de água tratada distribuído nas cidades.
A profissão, regulamentada nessa mesma lei, consolidou um campo que já produzia pesquisadores de alto nível muito antes de ser formalmente reconhecida pelo Estado. O país conta hoje com mais de 100 mil profissionais registrados nos conselhos regionais, atuando em laboratórios de análise, indústrias petroquímicas, hospitais, universidades e órgãos de vigilância sanitária. A data serve, portanto, não apenas como celebração corporativa, mas como oportunidade de olhar para quem construiu esse campo e para quem, dentro dele, enfrentou barreiras adicionais para exercê-lo.
A história da química, como a da maioria das ciências exatas, foi registrada ao longo do século XX de maneira seletiva. Os manuais escolares e os livros de história da ciência repetiram por décadas um cânone predominantemente europeu e branco, apagando ou minimizando as contribuições de pesquisadores africanos, afro-americanos e afro-brasileiros. Esse apagamento não foi neutro. Ele produziu efeitos concretos sobre quem se via representado na ciência, quem tinha acesso às universidades e quem recebia financiamento para pesquisa.
Em homenagem ao Dia do Químico e ao legado que precisa ser contado com mais rigor e frequência, o Mundo Negro selecionou 11 profissionais negros cujas descobertas, inovações e realizações mudaram concretamente a vida de pessoas em todo o planeta. A escolha não pretende esgotar esse universo, que é vasto e ainda subexplorado pela historiografia, mas trazer ao centro nomes que merecem figurar em qualquer discussão séria sobre ciência.
George Washington Carver (EUA, 1864–1943) foi o cientista que transformou a agricultura do sul dos Estados Unidos num período de colapso econômico e ambiental. Filho de pessoas escravizadas, Carver assumiu em 1896 a direção do departamento de agricultura do Instituto Tuskegee, no Alabama, e encontrou solos destruídos por décadas de monocultura do algodão. Seu diagnóstico foi preciso e sua solução foi radical para a época. Identificou que o amendoim e a batata-doce fixavam nitrogênio no solo e propôs a rotação de culturas como método sistemático de regeneração da terra. Para criar mercado para as toneladas de amendoim que os agricultores passaram a produzir, Carver desenvolveu mais de 300 produtos derivados da leguminosa, entre tintas, plásticos, borracha sintética, sabonetes e cosméticos. O mesmo processo foi aplicado à soja e à batata-doce. Sua contribuição é considerada pela USDA a base conceitual do que hoje se chama de bioquímica industrial, e a American Chemical Society declarou seu trabalho um Marco Histórico Nacional da Química em 2005. Em sua época, era chamado de “o Thomas Edison negro”.
Foto: Getty Images
Percy Lavon Julian (EUA, 1899–1975) acumulou ao longo da vida três descobertas que teriam sido suficientes, individualmente, para garantir um lugar na história da ciência. Em 1935, sintetizou em laboratório a fisostigmina, composto presente no feijão Calabar que até então só podia ser extraído da planta, tornando o tratamento do glaucoma mais acessível. A American Chemical Society classificou essa síntese em 1999 como um dos 25 maiores feitos da história da química americana. Em 1942, desenvolveu a partir de proteína de soja um fluido extintor de incêndios, o AeroFoam, usado pela Marinha americana em porta-aviões durante a Segunda Guerra Mundial para apagar chamas de gasolina e óleo. Em 1949, desenvolveu um processo para sintetizar cortisona a partir do esterol de soja, eliminando a dependência de glândulas suprarrenais de bois e reduzindo o custo do medicamento de centenas de dólares por grama para centavos, colocando o tratamento da artrite reumatoide ao alcance de milhões de pessoas. Julian acumulou mais de 130 patentes ao longo da vida. Neto e filho de pessoas escravizadas, teve sua casa em Chicago atacada com bomba incendiária duas vezes, em 1950 e 1951.
Foto: Francis Miller/Acervo de fotos The LIFE/Getty Images
Alice Augusta Ball (EUA, 1892–1916) morreu aos 24 anos sem publicar os resultados da pesquisa que revolucionou o tratamento da hanseníase. Em 1915, sendo a primeira mulher e a primeira pessoa negra a obter mestrado em química pela Universidade do Havaí, Ball foi procurada por um médico do Hospital Kalihi que buscava uma forma eficaz de administrar o óleo de chaulmoogra, único tratamento disponível para a doença mas inutilizável em injeções por sua viscosidade extrema. Em menos de um ano, Ball desenvolveu um processo de esterificação que transformou os ácidos graxos do óleo em ésteres solúveis em água, possibilitando a injeção sem os efeitos colaterais que tornavam o tratamento anterior insuportável. O Método Ball, como foi chamado pelo médico Harry Hollmann em publicação de 1922, permaneceu como principal terapia global contra a hanseníase por mais de duas décadas, até o surgimento dos sulfonamidas. Após a morte de Ball, outro pesquisador publicou os resultados como se fossem seus. O reconhecimento formal só veio em 2000, quando a Universidade do Havaí instalou uma placa em sua homenagem.
Foto: reprodução
Alma Levant Hayden (EUA, 1927–1967) foi a primeira cientista negra da Food and Drug Administration dos Estados Unidos e a responsável por uma das operações de análise química mais importantes da história da saúde pública americana. Em 1963, médicos chamados Stevan Durovic e Andrew C. Ivy comercializavam o Krebiozen, um composto vendido por centenas de dólares por ampola e apresentado como cura para o câncer. A substância tinha seguidores fervorosos e havia gerado enorme polêmica política nos Estados Unidos. Quando a FDA conseguiu amostras do composto, Hayden coordenou a análise usando espectrofotometria infravermelha, comparando as imagens espectrais do Krebiozen com um arquivo de 20 mil substâncias catalogadas. O resultado foi encontrado na letra C. O suposto milagre oncológico era creatina, um aminoácido comum presente naturalmente no corpo humano, sem qualquer atividade anticancerígena. Três equipes independentes, incluindo cientistas do MIT, confirmaram a análise. Os promotores do esquema foram a julgamento criminal. O relatório de Hayden foi incluído no Congressional Record dos Estados Unidos. Ela morreu de câncer em 1967, aos 40 anos.
Foto:Flickr
James Andrew Harris (EUA, 1932–2000) entrou para a história da química ao co-descobrir dois elementos que hoje estão na tabela periódica. Depois de enfrentar discriminação racial ao tentar ingressar no mercado científico após a graduação, Harris conseguiu uma posição no Laboratório Lawrence Berkeley, na Califórnia, onde chefiou o Grupo de Produção de Isótopos Pesados. Seu trabalho era desenvolver técnicas de purificação para preparar os alvos atômicos que seriam bombardeados no acelerador de partículas. O renomado químico nuclear Albert Ghiorso descreveu o trabalho de Harris como “o melhor alvo já feito para pesquisa de elementos pesados”. O resultado foi a co-descoberta do rutherfórdio, elemento 104, em 1969, e do dúbnio, elemento 105, em 1970, tornando Harris o primeiro americano negro a participar da descoberta de elementos químicos. Recebeu doutorado honorário em 1973.
Foto: Wikipedia
Cheikh Anta Diop (Senegal, 1923–1986) foi físico, químico e historiador senegalês que construiu no continente africano uma infraestrutura científica inédita para datação arqueológica. Formado em física e química em Paris, Diop retornou ao Senegal e fundou em 1966, na Universidade de Dakar, o primeiro laboratório de datação por carbono-14 da África Negra. O laboratório, instalado no Instituto Fundamental da África Negra, era o segundo de todo o continente, atrás apenas do da Rodésia do Sul. Com ele, Diop passou a datar de forma independente amostras arqueológicas africanas, determinando a antiguidade de sítios do Neolítico senegalês com base em análises de carvão e ossos, e publicando os resultados na revista científica internacional Radiocarbon. Em 1974, publicou “Physique Nucléaire et Chronologie Absolue”, obra que descreveu os métodos de datação arqueológica e geológica desenvolvidos no laboratório de Dakar. Seu trabalho abriu a possibilidade de que a África produzisse cronologias arqueológicas próprias, sem depender de laboratórios europeus.
Foto: reprodução
Marian Ewurama Addy (Gana, 1942–2014) foi a primeira mulher a alcançar o grau de professora titular de ciências naturais em Gana e realizou pesquisa que conectou dois mundos que a ciência ocidental costumava tratar como opostos. Sua área de trabalho era a bioquímica de plantas medicinais usadas por curandeiros tradicionais, e seu objetivo era verificar, com rigor laboratorial, se as alegações desses praticantes tinham base. Ao estudar o Desmodium adscendens, uma erva usada há gerações no tratamento da asma, Addy identificou que o composto ativo pertencia a uma classe de moléculas que a ciência ainda não havia catalogado, as soyasaponinas. A descoberta validou o uso popular da planta e abriu uma linha de pesquisa sobre suas aplicações no tratamento da asma e do diabetes tipo 2. Addy publicou 22 artigos científicos ao longo da carreira, recebeu o Prêmio Kalinga da UNESCO em 1999 pela popularização da ciência e foi eleita membro da Academia de Ciências e Artes de Gana.
Foto: wikipedia
Oswaldo Luiz Alves (Brasil, 1947–2021) foi o primeiro aluno negro do Instituto de Química da Unicamp, onde se formou em 1973 sem encontrar nenhum outro estudante negro nos corredores da instituição. Em 1979, durante um período de pesquisa na França, entrou em contato com a química do estado sólido e decidiu introduzir a disciplina no Brasil. Voltou a Campinas, criou a primeira disciplina brasileira na área e fundou em 1985 o Laboratório de Química do Estado Sólido na Unicamp, o único do país. Tornou-se também um dos pioneiros da nanotecnologia no Brasil, coordenando o Laboratório de Síntese de Nanoestruturas e Interação com Biossistemas. Publicou mais de 250 artigos científicos e depositou 31 patentes, entre elas uma tecnologia de remediação de efluentes de indústrias papeleiras e têxteis que foi licenciada para o setor produtivo. Presidiu a Academia Brasileira de Ciências entre 1998 e 2000 e recebeu a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2002. Nos últimos anos de vida, passou a defender publicamente a necessidade de identificar e dar visibilidade aos pesquisadores negros espalhados pelo país nas áreas de ciências exatas.
Foto: Eduardo Cesar
Viviane dos Santos Barbosa (Brasil) cresceu no bairro da Liberdade, em Salvador, estudou em escolas públicas e chegou à Universidade Tecnológica de Delft, na Holanda, onde desenvolveu a pesquisa que a colocou no mapa internacional da química. Trabalhando com catalisadores, substâncias que aceleram e melhoram o rendimento de reações químicas, Barbosa desenvolveu uma combinação de paládio e platina em escala nanométrica capaz de operar em temperatura ambiente, diferindo de forma significativa dos catalisadores então existentes, que exigiam altas temperaturas para funcionar. O material tem aplicação direta na redução da emissão de gases tóxicos e no desenvolvimento de fontes de energia alternativa. Em 2010, o trabalho foi submetido à International Aerosol Conference, em Helsinque, Finlândia, onde competiu com cerca de 800 trabalhos de pesquisadores do mundo inteiro e conquistou o primeiro lugar.
Foto: reprodução / Mundo D’elas
José Custódio da Silva (Brasil, 1897–1933) farmacêutico e químico mineiro que especializou-se em físico-química na Alemanha e construiu no Brasil, num momento em que o país ainda não tinha tradição científica consolidada, uma das primeiras estruturas institucionais da química nacional. Foi o principal responsável pela criação, em 1929, da Revista Brasileira de Chimica, primeiro periódico brasileiro dedicado exclusivamente à publicação de pesquisas em química. A revista funcionou como plataforma de legitimação da ciência química no país em um momento de construção institucional e foi, por anos, o único espaço formal de difusão científica da área. Custódio da Silva permaneceu quase completamente invisível na historiografia da química brasileira até ser resgatado por pesquisadores da Revista Brasileira de História da Ciência em 2023.
Foto: reprodução
Charles Okechukwu Esimone (Nigéria, 1970) tornou-se professor aos 37 anos e é o primeiro professor de microbiologia farmacêutica do sudeste da Nigéria. Entre 2003 e 2005, com uma bolsa da Fundação Alexander von Humboldt, desenvolveu na Alemanha uma técnica de triagem antiviral baseada em vetores de DNA recombinante que revolucionou o rastreamento de compostos anti-HIV em larga escala, permitindo que laboratórios de pesquisa testassem centenas de moléculas candidatas com muito mais velocidade e precisão do que os métodos disponíveis até então. Paralelamente, sua pesquisa resultou na identificação de novos compostos antimicrobianos com atividade antibacteriana, antifúngica e antiviral, derivados de endófitos, líquens, samambaias e plantas medicinais africanas. Com mais de 100 publicações, Esimone foi reconhecido em 2009 com o Prêmio ANDI para o Melhor Pesquisador Inovador da África e integrou como jovem cientista o Fórum Econômico Mundial de Nova Geração de Líderes, em Tianjin, China.
Foto: divulgação
O que essas histórias têm em comum é que foram produzidas sob condições de acesso desigual. Carver não podia dormir nos hotéis das cidades onde ia dar conferências. Julian teve a casa incendiada duas vezes. Ball morreu sem ver seu nome num artigo científico. Harris foi rejeitado em entrevistas de emprego por empregadores que não acreditavam que um homem negro fosse qualificado para trabalhar com química. Alves era o único negro nos espaços por onde passou. Cada um desses pesquisadores construiu sua contribuição científica carregando, ao mesmo tempo, o peso de uma estrutura que os excluía.
O Dia do Químico é uma data adequada para lembrar que a ciência não é uma atividade neutra produzida em condições iguais para todos. Reconhecer quem foram os pesquisadores negros que a fizeram avançar é parte do trabalho de torná-la mais honesta com sua própria história.