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Pesquisa aponta que mulheres negras são maioria entre empreendedoras, mas informalidade limita negócios

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52,3% das mulheres empreendedoras no Brasil se declaram negras/Foto: Unsplash
Estudo do Instituto RME mostra que 52,3% das empreendedoras brasileiras são pretas ou pardas; entre elas, taxa de informalidade chega a 42,8%

As mulheres negras representam a maioria das empreendedoras no Brasil, mas ainda enfrentam obstáculos que podem limitar o crescimento de seus negócios. É o que aponta a Pesquisa Nacional do Instituto RME 2026, que reúne dados sobre o empreendedorismo feminino no país.

Segundo o levantamento, 52,3% das mulheres empreendedoras brasileiras se declaram negras, pretas ou pardas. O grupo mantém a liderança em toda a série histórica da pesquisa. As mulheres brancas representam 45% das empreendedoras, enquanto amarelas e indígenas correspondem a 0,9% e 1,1%, respectivamente. A pesquisa utilizou uma metodologia integrada, com fontes secundárias (estudos, documentos e indicadores oficiais) e fontes primárias (questionário, grupos focais e entrevistas). Foram 95 mulheres ouvidas nas cinco regiões do país.

Apesar de serem maioria, as empreendedoras negras apresentam uma taxa de informalidade significativamente maior do que a registrada entre as não negras. De acordo com a pesquisa, 42,8% das mulheres negras empreendedoras estão na informalidade, contra 24,5% das não negras, uma diferença de 75%.

A informalidade pode criar barreiras para a expansão dos negócios. Entre os impactos apontados pelo estudo estão o menor acesso a crédito bancário, auxílio-doença e aposentadoria, fatores que podem aumentar a vulnerabilidade financeira das empreendedoras e dificultar a sustentabilidade das empresas.

O levantamento também chama atenção para a localização das empreendedoras. 16,5% vivem em bairros urbanos afastados dos centros e fazem parte de comunidades tradicionais, como ribeirinhas e quilombolas.

Nesses territórios, empreender envolve desafios que vão além da gestão do negócio. A aquisição de insumos, as dificuldades de transporte e o acesso aos mercados estão entre os obstáculos enfrentados por essas mulheres para produzir e comercializar seus produtos.

A pesquisa também aponta que a sobrecarga relacionada às tarefas de cuidado é um dos fatores que ainda dificultam o crescimento dos negócios comandados por mulheres. O cenário evidencia como questões sociais e econômicas se cruzam na trajetória das empreendedoras, especialmente entre aquelas que enfrentam maior vulnerabilidade.

Oscar 2027: filmes negros habilitados a representar o Brasil

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Foto: Acervo/Globo Filmes / Divulgação

Academia Brasileira de Cinema divulga 15 longas habilitados a representar o país; Malês, Feito Pipa e mais seis trazem protagonismo negro na disputa.

A Academia Brasileira de Cinema divulgou nesta segunda-feira, 24 de agosto, a lista com os 15 longas-metragens habilitados a concorrer a uma indicação na categoria Melhor Filme Internacional do Oscar 2027. Entre os títulos, oito trazem protagonismo negro em diferentes frentes, seja pela direção, pelo elenco ou pela temática: “Malês”, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, “Ato Noturno”, “Cinco Tipos de Medo”, “Dolores”, “Feito Pipa”, “Quando Vira a Esquina” e “Vicentina Pede Desculpas”.

“Malês”, de Antonio Pitanga, é ambientado na Salvador de 1835 e acompanha dois jovens muçulmanos arrancados de sua terra natal na África e escravizados no Brasil, que se veem envolvidos na Revolta dos Malês, maior insurreição de escravizados da história do país. O filme é uma coprodução da Tambellini Filmes com a Globo Filmes e já está disponível no catálogo do Canal Brasil e do Telecine.

“Feito Pipa”, de Allan Deberton, tem Lázaro Ramos no papel de Batista, pai do protagonista Gugu, vivido pelo ator mirim Yuri Gomes. Os dois são baianos, e Lázaro Ramos é um dos atores negros mais premiados do cinema brasileiro. O longa venceu o Urso de Cristal no Festival de Berlim e o Kikito de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Gramado 2026, e chega aos cinemas em 24 de setembro.

“Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini, tem Bella Campos como Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo com Sapinho, traficante interpretado pelo rapper Xamã em sua estreia em uma produção audiovisual. O elenco conta ainda com Rejane Faria no papel de Antonia. O filme, rodado na periferia de Cuiabá, venceu o Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado 2025.

“Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, diretor de “Marte Um”, tem a mineira Rejane Faria no papel-título, uma professora aposentada de 75 anos que busca as famílias das vítimas de um acidente de ônibus causado pelo próprio filho. A produção, parceria entre a Netflix e a Filmes de Plástico, estreia internacionalmente no Festival de Toronto em setembro e disputa a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián.

“Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, acompanha três gerações de mulheres de uma mesma família na periferia de São Paulo. Deborah, filha da protagonista, é vivida por Naruna Costa, e a neta Duda por Ariane Aparecida, que descreveu o elenco como uma celebração da trajetória de atrizes negras no cinema brasileiro, ao lado de Zezé Motta e Teca Pereira.

“A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, é um documentário rodado no sertão do Piauí que acompanha meninas de Guaribas entre a infância e a adolescência, revisitando as histórias de suas mães e avós marcadas pela pobreza e pela desigualdade. “Ato Noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, acompanha um ator em início de carreira e um político que vivem um caso em segredo em Porto Alegre. “Quando Vira a Esquina”, documentário de estreia de Chris Alcazar, dá voz às mulheres que trabalham na Vila Mimosa, no Rio de Janeiro, reduto de prostituição mais antigo do país.

A Comissão de Seleção da Academia Brasileira de Cinema se reúne no dia 9 de setembro para definir a pré-lista com seis títulos que avançam à etapa final do processo. O representante do Brasil na categoria será anunciado no dia 16 de setembro, e a cerimônia do Oscar 2027 acontece em 14 de março do próximo ano.

O país venceu pela primeira vez a categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025, com “Ainda Estou Aqui”. Na edição seguinte, o Brasil conquistou sua segunda indicação em Melhor Filme e repetiu a presença em Filme Internacional com “O Agente Secreto”.

Confira a lista completa divulgada pela Academia Brasileira de Cinema:

100 Dias, de Carlos Saldanha
A Conspiração Condor, de André Sturm
A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai
A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo
Ato Noturno, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher
Cinco Tipos de Medo, de Bruno Bini
Dolores, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes
Feito Pipa, de Allan Deberton
Herança de Narcisa, de Clarissa Appelt e Daniel Dias
Malês, de Antonio Pitanga
Nosso Segredo, de Grace Passô
O Rei da Internet, de Fabrício Bittar
Papagaios, de Douglas Soares
Quando Vira a Esquina, de Chris Alcazar
Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins

Issa Rae deve lançar nova série de comédia em parceria com a HBO

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Issa Rae e Prentice Penny
Issa Rae e Prentice Penny colaboram para o primeiro episódio da série

De “Insecure”, a atriz teria ganhado sinal verde para nova produção em parceria com Prentice Penny

A atriz e produtora norte-americana Issa Rae estaria planejando uma nova produção junto à HBO, segundo o The Wrap. A criadora da série “Insecure”, um de seus maiores sucessos, teria recebido sinal verde para um episódio piloto de uma nova série de comédia sobre amizade masculina

Ainda sem título, a série acompanha Menzel, um barbeiro de 30 anos, aspirante a empresário esportivo e melhor amigo de JB, um boxeador promissor, enquanto eles lidam com ambição, insegurança, solidão e o sucesso no mundo arriscado do boxe profissional em Las Vegas. 

Rae escreveu e produziu a série, juntamente a Prentice Penny, que também colaborou com a série “Insecure”. Ele foi escolhido para dirigir o episódio piloto e atuar como showrunner e produtor executivo. 

Esta é a quarta colaboração de Raes com a HBO. Dentre as outras produções estão a vencedora do Emmy de 2021 “Insecure”, a comédia “A Black Lady Sketch Show” e “Rap Sh!t”.

Ricardo Silvestre, fundador da Black Influence, amplia atuação empresarial e cria agência voltada a modernizar o agenciamento publicitário 

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Ricardo Silvestre é criador da Black Influence e CEO da ERA
Ricardo Silvestre é criador da Black Influence e CEO da ERA/Crédito: Jordan Vilas

Após sete anos à frente da Black Influence, publicitário lança a ERA, talent company criada em parceria com os sócios da MField, e amplia atuação para entretenimento, conteúdo, propriedade intelectual e desenvolvimento de talentos

Ricardo Silvestre, publicitário de 30 anos, fundador da agência Black Influence e um dos 30 profissionais mais influentes do mercado de marketing e comunicação, sendo o único negro da lista, estreia uma nova fase da carreira com a criação da ERA, talent company criada em parceria com os sócios da MField. 

Após sete anos no mundo empresarial com a Black Influence, Silvestre ganhou relevância no setor, combinando negócios, influência, cultura e diversidade. A agência já colaborou com grandes marcas, como Meta, Pinterest, L’Oréal, Magazine Luiza e Prime Video. Em uma nova fase, a Black Influence atuará estrategicamente com consultoria cultural, projetos especiais, conteúdos e desenvolvimento de plataformas culturais. 

A ERA, na qual Silvestre atua como CEO e sócio, possui a proposta de desenvolver talentos para além do modelo tradicional de agenciamento publicitário. Segundo Silvestre, a empresa nasce com a tese de que talentos não devem constituir apenas faturamento, mas sim, patrimônio. 

A agência representa um movimento de expansão empresarial na vida de Silvestre e sintetiza uma de suas reflexões: “O próximo passo da creator economy não está apenas em vender mais campanhas, mas em transformar a relevância em negócios, diz o empresário.

“Passei muitos anos ajudando marcas a gerar valor a partir da cultura. Agora quero construir estruturas em que talentos e movimentos culturais também participem da propriedade desse valor”.

Nessa nova fase da carreira, Silvestre quer consolidar cada vez mais sua presença no mercado empresarial, para além da figura de publicitário. Diversidade e influência ainda fazem parte de seu portfólio, mas agora, quer ampliar esse território  para as áreas de entretenimento, experiências culturais, propriedade intelectual, conteúdo, desenvolvimento de talentos e plataformas que possam conectar o Brasil a mercados internacionais. 

Além da Black Influence e da ERA, Silvestre também é sócio da Peji, empresa dedicada à inteligência cultural, comportamento e consumo da população negra brasileira.

Único profissional negro entre os 30 mais influentes da comunicação e do marketing no Brasil

Ricardo Silvestre foi reconhecido como um dos 30 profissionais mais influentes da comunicação e do marketing no Brasil, sendo o único negro da lista. 

A relação faz parte do estudo inédito “Pulso 2026/2027 – Influência Digital e Liderança”, desenvolvido pela consultoria de influência reputacional Deck em parceria com a empresa de inteligência analítica Nexus. 

“Ser reconhecido como um dos profissionais mais influentes do país é importante. Ser o único profissional negro dessa lista também diz muito sobre o mercado que ainda precisamos construir”, diz Silvestre sobre o reconhecimento.

Ao longo de sua trajetória, Silvestre foi reconhecido por algumas das principais instituições e premiações do mercado criativo e empresarial, como Forbes Under 30, LinkedIn Top Voices Next Gen, MIPAD, entre as Pessoas Negras Mais Influentes do Mundo, uma iniciativa apoiada pela ONU, entre outros. 

“Eu não quero apenas ser reconhecido como alguém influente. Quero construir empresas, ativos e negócios que tenham valor para além da minha própria imagem”, conclui o empresário. 

“Crianças nunca deveriam ser espancadas”: escritor Touré aponta punição física como herança colonial em famílias afro-americanas

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Touré, jornalista e escritor norte-americano.
Foto: Reprodução/ @casanova.cabrera/ Brownstone Cowboys

No episódio 744 do “Subway Takes”, o jornalista e escritor Touré relaciona a violência física contra crianças negras nos EUA à história da escravidão e propõe outra ideia de parentalidade: educar pela comunicação.

Bater em uma criança pode ser chamado de disciplina, mas o que essa prática ensina sobre a forma como uma sociedade entende autoridade, cuidado e infância?

Essa é a provocação levantada pelo jornalista, escritor e crítico cultural norte-americano Touré em uma participação no “Subway Takes”, série apresentada pelo comediante Kareem Rahma em que convidados compartilham opiniões sobre diferentes assuntos. Touré é autor de livros como Who’s Afraid of Post-Blackness? e I Would Die 4 U: Why Prince Became an Icon, além de ter construído uma trajetória no jornalismo cultural e na televisão.

No episódio, Touré defende que crianças nunca deveriam ser espancadas nem submetidas a punições corporais. Para ele, educar não precisa envolver dor física e uma boa parentalidade exige comunicação.

A discussão ganha uma dimensão histórica quando o jornalista relaciona a prática da punição física à experiência dos afro-americanos durante e depois da escravidão nos Estados Unidos.

E o que isso tem a ver com as tradições africanas?

É nesse ponto que a fala de Touré estabelece uma conexão com a história africana.

O argumento apresentado por ele parte da ideia de que, em determinadas sociedades africanas anteriores à colonização europeia, crianças ocupavam uma posição de grande importância espiritual e comunitária. Em algumas tradições, crianças eram compreendidas como manifestações ou retornos de ancestrais.

Essa concepção aparece, por exemplo, em registros sobre os Kalenjin, no Quênia, entre os quais existia a crença de que crianças poderiam ser o retorno de ancestrais da linhagem. Estudos sobre tradições de ancestralidade em diferentes regiões africanas também registram concepções nas quais os ancestrais retornam ao mundo por meio das crianças.

O ponto central da discussão está menos em afirmar que “na África ninguém batia em crianças” e mais em questionar como a violência colonial e escravista modificou relações de autoridade e deixou heranças geracionais.

Uma outra ideia de parentalidade

É justamente nesse espaço que a fala de Touré ganha força: compreender a origem histórica de uma prática não significa aceitá-la como destino.

Se a violência foi utilizada durante séculos para produzir obediência, a construção de outras formas de autoridade também pode fazer parte da ruptura com essa herança.

“Good parenting requires communication” resume a proposta: crianças podem ser educadas por meio de conversa, limites, presença, responsabilidade e escuta, sem que a dor física seja utilizada como ferramenta de aprendizagem.

A discussão também desloca a pergunta. Em vez de “como fazer uma criança obedecer?”, a questão passa a ser como ensinar uma criança sem reproduzir sobre ela a violência que tantas gerações tiveram de suportar?

E, para famílias negras, essa reflexão pode ser também uma forma de olhar para a própria história sem naturalizar as violências que chegaram até o presente.

Nosso Segredo: premiado drama sobre o luto de uma família negra chega aos cinemas esta semana

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Cena do filme " Nosso Segredo", que estreia nesta quinta-feira (27)
Foto: Vitrine Filmes

Vencedor do Festival de Gramado, longa dirigido e roteirizado por Grace Passô acompanha uma família negra atravessada pelo luto e por um segredo guardado pelo filho caçula.

O cinema nacional ganha uma nova história sobre família, luto e os mistérios que atravessam aquilo que nem sempre pode ser dito. “Nosso Segredo”, primeiro longa-metragem dirigido e roteirizado por Grace Passô, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (27), após ser consagrado na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado.

O longa acompanha uma família negra que tenta se reorganizar depois de uma perda. Enquanto cada integrante encontra sua própria maneira de lidar com o luto, o filho caçula guarda um segredo que pode transformar a trajetória da família.

A diretora utiliza elementos de mistério e fantasia durante a obra, para construir uma narrativa sobre silêncios, sentimentos e dimensões da experiência que escapam ao que é racionalmente explicado.

Em entrevista concedida ao AdoroCinema, Grace Passô explicou que o mistério funciona como uma maneira de revelar aquilo que permanece não dito dentro daquela família.

“Esse mistério de alguma forma me ajudou a dar uma dimensão do que não é dito. Mais do que está ali”, afirmou Grace.

Mistério, espiritualidade e culturas negras

Para a diretora, a dimensão enigmática de “Nosso Segredo” também se relaciona à presença das artes e culturas negras na construção de uma percepção ampliada da vida.

Grace explica que buscou trabalhar com uma dimensão espiritual que não está necessariamente ligada à religiosidade, mas à própria consciência e à percepção de que existem aspectos da vida que permanecem misteriosos.

No filme, essa perspectiva aparece na sensação de que a família está sendo observada e, de alguma maneira, protegida por uma dimensão que ultrapassa aquilo que os personagens conseguem compreender.

A escolha também contribui para que o luto seja apresentado como uma experiência subjetiva, marcada por silêncios, estranhamentos e diferentes formas de sentir.

Quando o assunto vira sentimento

A diretora também destaca uma escolha importante em sua trajetória artística: evitar que temas sociais sejam tratados apenas pela racionalização ou pelo didatismo.

“Nosso trabalho é tornar o assunto um sentimento”, explicou Grace Passô durante a conversa com o AdoroCinema.

Essa perspectiva ajuda a entender a construção do longa. Em vez de apresentar o luto apenas como tema, o filme procura criar uma experiência sensorial e subjetiva para quem acompanha aquela família.

A presença de uma família negra no centro da narrativa também desloca o olhar para suas relações, afetos e formas de elaborar uma experiência íntima, sem reduzir seus personagens às questões sociais que consequentemente atravessam suas vidas.

Efraim Santos se destaca no elenco

Um dos personagens centrais da trama é interpretado por Efraim Santos, que tinha apenas seis anos durante as filmagens.

Para Grace, trabalhar com a criança trouxe uma contribuição particular para o processo de criação. A diretora conta que a espontaneidade de Efraim fazia com que a equipe percebesse rapidamente quando alguma situação no set não funcionava.

“Quando algo é chato, ele diz, quando cansa, ele diz”, contou.

A presença do ator mirim, segundo ela, também ajudou a estabelecer uma relação mais sincera com a realização do filme.

“Nosso Segredo” chega aos cinemas depois de sua vitória no Festival de Gramado, garantindos os Kikitos de Melhor Fotografia e Direção de Arte. A produção também integra a lista de filmes brasileiros habilitados a concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar 2027.

Ainda precisamos falar sobre a necessidade das cotas raciais?

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Foto: Canva Imagens

Cotas não contaminam a sociedade: elas enfrentam uma sociedade racialmente desigual

O artigo “Obrigação do cumprimento de cotas contamina a sociedade”, de Miguel de Almeida, publicado pelo O Globo, apresenta as ações afirmativas como uma espécie de desvio do princípio da igualdade. Essa leitura, porém, parte de uma falsa oposição: como se igualdade significasse tratar todos exatamente da mesma maneira, independentemente das condições históricas que produziram as desigualdades.

No Brasil, cotas não criam nenhum privilégio. Elas procuram reduzir os efeitos de um sistema que, durante séculos, distribuiu privilégios de maneira racialmente desigual. 

Se pessoas negras foram impedidas de acumular patrimônio, acessar educação de qualidade e ocupar espaços de poder, reservar vagas é uma forma de corrigir (ainda que parcialmente), as condições de uma competição que nunca foi justa.

 Igualdade formal não basta

A Constituição afirma que todos são iguais perante a lei. Mas essa igualdade formal não significa que todas as pessoas partam do mesmo lugar. O artigo 3º da Constituição também estabelece como objetivos da República a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação. E é justamente essa diferença entre igualdade formal e igualdade material que sustenta juridicamente as ações afirmativas. A primeira diz: “a lei deve ser igual para todos”. A segunda pergunta: “o que é necessário para que pessoas submetidas a desigualdades concretas possam, de fato, acessar os mesmos direitos?”.

Em 2012, ao julgar a ADPF 186, o Supremo Tribunal Federal reconheceu por unanimidade a constitucionalidade das cotas raciais da Universidade de Brasília. O entendimento foi que as cotas não violam a isonomia; ao contrário, podem concretizá-la ao enfrentar desigualdades históricas e estruturais. Ou seja, as cotas são uma das ferramentas possíveis para transformar uma igualdade apenas declarada em uma igualdade efetiva.

O ponto de partida nunca foi o mesmo

A população negra não é simplesmente “menos bem-sucedida” devido ao acaso ou uma competição neutra. Ela foi escravizada, desumanizada e, depois da abolição, abandonada sem política ampla de integração econômica, educacional ou habitacional. A abolição não distribuiu terra, renda, moradia, escolarização ou indenização às pessoas libertas. Enquanto isso, diferentes políticas estatais e projetos eugenistas favoreceram a imigração europeia e a incorporação de trabalhadores brancos ao projeto de “modernização” nacional. O racismo brasileiro não terminou quando a escravidão foi formalmente abolida; ele continuou organizando o acesso ao trabalho, à educação, à propriedade e à representação.

É nesse sentido que se pode afirmar que no Brasil, ser branco funciona como patrimônio social. Não significa que toda pessoa branca seja rica ou que toda pessoa negra seja pobre. Significa que a branquitude foi historicamente associada à humanidade plena, à respeitabilidade, à competência e ao direito de ocupar determinados lugares. Todo branco brasileiro tem o privilégio da cor. Esse patrimônio não é apenas financeiro, ele também envolve redes de contato, sobrenomes, segurança em espaços institucionais, acesso a escolas, heranças materiais e simbólicas e menor exposição à discriminação racial. Da mesma maneira, a população negra herdou não somente menos dinheiro, mas também as consequências de uma exclusão transmitida entre gerações.

Educação é reparação

A educação é uma das principais formas de interromper a reprodução da desigualdade. Mas não se pode tratar o acesso à universidade como a maior solução dos problemas, porque até chegar à universidade exige diferentes obstáculos para a pessoa negra enfrentar. Antes de disputar uma vaga no ensino superior, estudantes enfrentam escolas com estruturas diferentes, desigualdade territorial, necessidade de trabalhar e sustentar toda uma família, insegurança alimentar, menor acesso a cursos de idiomas, preparação para vestibular e capital cultural. Além disso, famílias negras foram sistematicamente impedidas de acumular recursos que pudessem financiar a trajetória educacional de seus descendentes.

A Lei nº 14.723/2023, que reformulou a Lei de Cotas, reconhece parte dessa realidade ao articular critérios de escola pública, renda, raça, deficiência, pertencimento indígena e quilombola. A legislação também passou a considerar a proporção desses grupos em cada unidade da federação. Assim, a cota racial não afirma que toda pessoa negra é pobre ou que nenhuma pessoa branca enfrenta dificuldades. Ela reconhece que raça continua sendo um fator estruturante das oportunidades no Brasil, inclusive quando se controla o nível de escolaridade. Existiu uma norma do período colonial brasileiro em que a ascendência negra era tratada oficialmente como um impedimento social, um “defeito de cor” que impedia que negros ocupassem posições de destaque

Os dados do IBGE são reveladores: em 2022, trabalhadores brancos recebiam, em média, R$ 20,00 por hora, enquanto pretos e pardos recebiam R$ 12,40. A desigualdade permanecia entre pessoas com ensino superior completo: R$ 35,30 por hora para brancos e R$ 25,70 para pretos e pardos. Ou seja, a educação é fundamental, mas não elimina sozinha o racismo. Mesmo depois de alcançar a universidade, pessoas negras continuam enfrentando barreiras no mercado de trabalho e diferenças de remuneração. Isso demonstra que o problema não está apenas na ““falta de qualificação”” da população negra.

O dispositivo de racialidade, um conceito criado pela filósofa e ativista Sueli Carneiro não atua somente sobre a renda ou sobre o acesso ao trabalho. Ele também produz interdições intelectuais, morais e políticas, dificultando que pessoas negras sejam reconhecidas como sujeitos legítimos de conhecimento, autoridade e direitos.

Representatividade também transforma instituições

O artigo questiona por que as cotas deveriam alcançar a pós-graduação, a docência, o serviço público e outros espaços profissionais. A resposta é simples: porque a desigualdade racial também está presente nesses espaços. Não basta viabilizar o acesso de pessoas aos estudos e qualificação de ensino superior, é preciso que elas estejam nas salas de aula como professoras, nos hospitais como médicas, nos tribunais como magistradas, nas universidades como pesquisadoras, nas redações como editoras e nos cargos de decisão como gestoras.

A presença negra nesses lugares produz efeitos concretos:

– amplia os repertórios e os olhares das instituições;

– reduz a naturalização de perspectivas exclusivamente brancas;

– cria referências para crianças e jovens negros;

– ajuda a contribuir com um ambiente com viéses antirracista

– abre caminhos para as próximas gerações.

Isso não significa afirmar que toda pessoa negra terá automaticamente uma atuação antirracista nesses espaços, Uma vez que pessoas negras não são um grupo homogêneo, e representatividade não substitui formação política, fiscalização ou compromisso institucional. Mas, influencia na diversidade de vivências, repertórios e histórias em ambientes embranquecidos e elitizados.

Vale pensar também que a ausência sistemática de pessoas negras em posições de autoridade também nunca foi neutra. Seguindo o questionamento do artigo que afirma que hospitais, universidades ou empresas encontram dificuldades  em encontrar profissionais negros, a pergunta precisa ser: onde estão procurando? Quais redes de recrutamento utilizam? Quem teve acesso às oportunidades de formação? Quais critérios são considerados “excelência” e quem historicamente teve condições de se adequar a tais excelências?

Se há uma residência médica que pretende contratar profissionais negros e a instituição afirma que eles não existem, a resposta não deve ser desistir da política. Deve ser construir mecanismos de busca, divulgação e ampliação do acesso. Profissionais negros existem, e uma lista pública de médicas, médicos, pesquisadoras e especialistas negros pode justamente enfrentar a invisibilidade produzida pelas redes profissionais historicamente brancas. E qual rede está disposta a mudar o formato de busca e políticas de contratação?

O problema não é a cota, mas a fraude

O artigo também pontua a fraude de cotas como um dos motivos da “contaminação da sociedade”. Casos de fraude, erros em bancas de heteroidentificação e disputas sobre pertencimento racial precisam ser discutidos com a devida seriedade. Porém, o fato de existir problemas de implementação não prova que a política seja ineficaz. Toda política pública pode ser fraudada, mal administrada ou aperfeiçoada. Isso ocorre com benefícios previdenciários, concursos, licitações e programas sociais. Ninguém conclui, por causa disso, que o Estado deve abandonar esses direitos. O caminho é aperfeiçoar os procedimentos que qualificam a boa implementação das políticas.

A heteroidentificação deve seguir critérios transparentes, direito de recurso, formação das bancas, diversidade entre seus integrantes e respeito às especificidades regionais e históricas da classificação racial brasileira. Também é necessário compreender que raça, no Brasil, é principalmente uma experiência social. A maneira como uma pessoa é percebida e tratada racialmente interfere em suas oportunidades. O caso de Fabiana Cozza, citado no artigo, mostra uma disputa importante sobre colorismo, negritude e representação. Mas um episódio de conflito dentro do movimento negro não autoriza concluir que a luta por ações afirmativas seja racista “entre iguais”. O debate deve reconhecer as diferenças entre pessoas pretas, pardas e negras, sem transformar essas tensões em argumento para preservar e retirar responsabilidades deinstituições brancas.

Cotas são temporárias, mas o racismo é estrutural

A crítica de que as cotas poderiam durar indefinidamente ignora que as próprias políticas afirmativas costumam prever revisão, avaliação e aperfeiçoamento. A Lei nº 15.142/2025, por exemplo, ampliou para 30% a reserva de vagas em concursos públicos federais para pessoas negras, indígenas e quilombolas. A proposta não é criar uma sociedade organizada permanentemente por reservas de vagas para negros e pardos, e sim gradualmente modificar as condições que tornaram essas reservas necessárias. Quem sabe um dia, em um Brasil realmente igualitário, talvez as cotas deixem de ser necessárias. Mas esse dia não chegará pela simples suspensão das políticas porque pessoas que não se aplicam à elas estão se sentindo “injustiçadas”. A não necessidade da política de cotas dependerá de mudanças profundas: distribuição de renda, educação pública de qualidade, combate à discriminação, acesso à saúde e à moradia, democratização das instituições e transformação da cultura organizacional do país.

As cotas não são o ponto final da reparação histórica e sim uma medida dentro de um processo muito mais amplo.

Reparação não é privilégio 

A ideia de que as cotas criam “novos núcleos de privilégio” tenta inverter a história a partir de justificativas incabíveis à realidade brasileira. Privilégio mesmo seria ter pertencido, por gerações, ao grupo racial mais protegido pelas instituições e ainda poder interpretar essa vantagem como resultado exclusivamente individual. O famoso “mérito” o que seria uma grande coincidência somente corpos brancos serem esforçados e merecedores de tantos impactos positivos em suas vidas. As leis de cotas não entregam diploma, não elimina as avaliações, não facilitam a formação profissional e não transformam uma pessoa em médica, professora ou pesquisadora sem que ela cumpra as exigências e se qualifique em sua área. As cotas somente reduzem as barreiras de acesso em um país no qual a excelência foi estruturalmente e institucionalmente definida a partir de trajetórias brancas, redes brancas e instituições brancas.

Para Abdias do Nascimento, intelectual negro responsável por grande parte do protagonismo negro nas esferas culturais e de debates políticos na década de 40, i discurso de democracia racial funciona como uma narrativa que encobre a continuidade do racismo e dificulta que a sociedade reconheça a marginalização da população negra.

A pergunta, portanto, não deveria ser por que pessoas negras estão ocupando esses espaços e sim questionar por que essas pessoas demoraram tanto para chegar e por que ainda são tão poucas? A sociedade brasileira não está “contaminada” pelas cotas, ela está ofendida por ser obrigada a enxergar uma contaminação muito mais antiga: a desigualdade racial que durante décadas foi tratada como natural, meritocrática e invisível. Reconhecer que pessoas negras foram marginalizadas não é dividir o país. É admitir que o país já foi dividido, pela escravidão, pelo racismo e pela distribuição desigual de oportunidades. As ações afirmativas não inventam essa realidade da sociedade partida, elas tentam repará-la.

Referenciais teóricos para aprofundar

– **Abdias do Nascimento** — *O genocídio do negro brasileiro*: denúncia da marginalização negra após a abolição e crítica ao mito da democracia racial.

– **Lélia Gonzalez** — textos sobre racismo, sexismo, amefricanidade e formação social brasileira.

– **Sueli Carneiro** — *Dispositivo de racialidade*: análise de como instituições produzem hierarquias raciais e definem quem é reconhecido como sujeito de direitos.

– **Florestan Fernandes** — *A integração do negro na sociedade de classes*: estudo sobre a inserção desigual da população negra no pós-abolição.

– **Silvio Almeida** — *Racismo estrutural*: compreensão do racismo como componente das instituições e das relações econômicas, políticas e jurídicas.

– **Nancy Fraser** — debates sobre redistribuição, reconhecimento e representação como dimensões da justiça.

– **Kabengele Munanga** — estudos sobre mestiçagem, identidade negra, racismo e políticas de ação afirmativa no Brasil.

– **Conceição Evaristo** — especialmente o conceito de escrevivência, útil para pensar memória, experiência e produção de conhecimento a partir de vidas negras.

– **STF, ADPF 186** — referência jurídica central para a defesa da constitucionalidade das cotas raciais e da igualdade material.

– **IBGE e Ipea** — fontes estatísticas para demonstrar as desigualdades raciais em educação, renda, trabalho e acesso a posições de poder.

Jamie Foxx espera 3º filho com a modelo e atriz Alyce Huckstepp 

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Jamie Foxx e Alyce Huckstepp
Foto: Reprodução

Jamie Foxx será pai pela terceira vez. O ator e músico, de 58 anos, espera um filho com Alyce Huckstepp, com quem mantém um relacionamento desde 2022. A informação foi confirmada pelo portal Extra.

O bebê será o terceiro filho de Jamie Foxx e o primeiro de Alyce. Foxx já é pai de Corinne Foxx, 32 anos, e Anelise Foxx, 17.

A novidade foi comentada pelo artista durante uma entrevista exclusiva ao portal Extra ao lado de Corinne para divulgar a oitava temporada de Beat Shazam, programa que os dois apresentam. A atração também celebra seu 100º episódio.

Jamie Foxx e Alyce Huckstepp

Foxx e Alyce foram vistos juntos pela primeira vez em 2022. O casal teria se separado em janeiro de 2025 e retomado o relacionamento posteriormente.

A gravidez foi confirmada meses depois de surgirem informações sobre a gestação de Alyce. Segundo o Extra, a gravidez já estava em andamento há alguns meses quando a notícia foi divulgada.

Durante a entrevista sobre Beat Shazam, Jamie também conversou sobre a nova fase da família. A possível revelação do sexo do bebê chegou a chamar atenção, mas a informação não foi apresentada de forma suficientemente clara para ser tratada como uma confirmação oficial.

O casal ainda não divulgou publicamente detalhes sobre o nome ou a data prevista para o nascimento.

Ebola ultrapassa 5 mil casos em menos de 100 dias na RDC

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surto de Ebola na RDC
Foto: Freepik

Surto causado pela cepa Bundibugyo já matou mais de 2,6 mil pessoas; país recebe 70 mil doses da Ervebo para testes e proteção de profissionais, mas imunizante não é aprovado contra a variante responsável pela epidemia.

A epidemia de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) já soma 5.515 casos confirmados e 2.642 mortes, segundo dados divulgados pelas autoridades de saúde nesta segunda-feira (24). Declarado em 15 de maio, o surto é causado pela cepa Bundibugyo e já se tornou o maior e mais letal registrado no país.

A transmissão, inicialmente concentrada na zona de saúde de Mongbwalu, na província de Ituri, avançou para seis províncias: Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé, Tshopo e Bas-Uélé. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o cenário como uma fase de transmissão intensa e informou que a epidemia está se expandindo mais rapidamente do que os surtos anteriores registrados no país.

O número de casos já supera o registrado no surto de 2018 a 2020, que teve 3.317 casos confirmados. A rápida expansão também elevou a epidemia atual ao segundo maior surto de Ebola em número de casos e mortes, atrás da epidemia que atingiu a África Ocidental entre 2014 e 2016.

Vacina disponível não é específica para a cepa do surto

A resposta internacional ganhou um novo componente com a liberação de 70 mil doses da Ervebo, vacina licenciada contra a cepa Zaire do vírus Ebola. O imunizante, porém, não é aprovado para a cepa Bundibugyo, responsável pelo surto atual.

A distribuição das doses tem dois objetivos: 20 mil serão utilizadas em um ensaio clínico de fase 3, que pretende avaliar se a Ervebo pode oferecer proteção contra a Bundibugyo, enquanto 50 mil serão destinadas a profissionais de saúde e trabalhadores da linha de frente, conforme recomendações do grupo consultivo de especialistas em imunização da OMS (SAGE).

Até o momento, não se sabe se a Ervebo oferece proteção contra a Bundibugyo em seres humanos. Estudos preliminares, incluindo pesquisas em animais, levantaram a possibilidade de alguma proteção cruzada, mas a eficácia ainda precisa ser investigada clinicamente.

A RDC já recebeu mais de 16 mil doses desse lote inicial, enquanto as demais doses previstas seguem no processo de envio. A estratégia representa uma alternativa dentro da resposta ao surto, mas não deve ser confundida com a existência de uma vacina específica e aprovada contra a cepa que circula atualmente.

Resposta enfrenta desafios no território

A expansão da epidemia ocorre em regiões afetadas por conflitos e deslocamentos populacionais, e que apresentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde. A OMS também relata ataques a instalações de saúde e obstáculos ao trabalho das equipes responsáveis pela vigilância, identificação de casos e acompanhamento de contatos.

Nesse cenário, autoridades de saúde e organizações internacionais têm reforçado a importância da vigilância, do diagnóstico rápido, do atendimento adequado e de estratégias de resposta construídas com autoridades locais e lideranças comunitárias. Segundo a OMS, o reconhecimento rápido dos casos, a testagem e o cuidado de suporte podem contribuir para reduzir a mortalidade e ampliar a confiança nos serviços de saúde.

O Ebola é uma doença viral transmitida principalmente pelo contato com sangue e outros fluidos corporais de pessoas infectadas. A cepa Bundibugyo é menos estudada do que a Zaire, o que torna os estudos sobre vacinas e tratamentos uma frente importante da resposta científica à atual epidemia.

Como o abandono cria ranhuras na lente que enxergamos o mundo

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Foto: Freepik

Por Laíse Brito 

Psicóloga 03/19361 

O abandono promove um dos sentimentos mais ameaçadores da existência humana, a solidão. Princípios básicos na condição de sermos bichos humanos nos insere no arranjo social, enquanto mamíferos precisamos de um bando, outros alguéns que nos cuide e nos ampare no desenvolvimento de uma vida inteira, não haverá fase existencial que seremos inteiramente autônomos, a ponto de dispensarmos o contato com outro Ser da mesma espécie, se assim acontecer, a sentença de aniquilação está posta, nem que seja da consciência de si. 

Na tradição Iorubá narra-se a história de Omolu ou Obaluaê, que ao nascer com o corpo coberto de chagas, foi abandonado junto ao mar por sua mãe Nanã, Orixá mais velha que rege os manguezais, encontrado por Iemanjá, que ao vê-lo desprotegido e bastante machucado pelos caranguejos, o lavou com suas águas salgadas e folhas. O menino foi crescendo e escondia-se por ter o corpo cheio de marcas e cicatrizes, até que uma festividade estava para acontecer e então Ogun teve a brilhante ideia de cobrir o corpo de Omolu com palhas, pois isso o ajudaria com a vergonha que sentia de se expor e garantiria a sua ida a festa, chegando lá, um tão constrangido com tantas pessoas ficou reservado, vendo aquela cena, Iansã soprou seu vento sobre ele, e ao dançar, pipocas foram saindo das palhas e todos celebraram, pois muitos alcançaram curas.

 A cosmo visão africana nos convida a entender diversos aspectos da importância da comunidade a sobrevivência, pois mesmo que o abandono nos atravesse, e nesse caso, podemos pontuar que a mãe Nanã possivelmente não tinha condições emocionais de cuidar do filho com aquela aparência, se atualizarmos para contemporaneidade, seria sugestivo dizer que ela pode ter vivido o que chamamos de depressão pós parto, assim como temos margem para falarmos do desamparo que bebês com má formação costumam viver, assim como se constrói a masculinidade hegemônica, que aos homens não é dado o cuidado e a permissão de viver plenamente suas emoções e desenvolver uma relação saudável com seus corpos.

 Enfim, temos múltiplos caminhos e neles também nos encontramos com a organização coletiva que as tecnologias ancestrais indígenas traz sobre ser necessário uma Aldeia para cuidar de uma criança, Iemanjá que é conhecida por ser mãe de todas as cabeças, Orí, na tradição africana, ela assume o papel que uma outra mãe não pôde desempenhar e aqui podemos simbolizar a função do maternar, que pode ser exercida por qualquer adulto disponível ao cuidado e garantias de sobrevivência de uma criança. 

É sensato dizer que arranjos sociais desarticulados do cumprimento genuíno desse cuidado, deixam marcas profundas na personalidade de uma pessoa, e o Itan é honesto em trazer como é a postura de Obaluaê na vida, mais retraído, fechado, sem interações espalhafatosas, o que me faz lembrar da descrição que aparece em Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon, que descreve assim:

”Ah! Essas lágrimas de criança que não tem ninguém para a consolar… Ele não esquecerá jamais que o colocaram desde cedo no aprendizado da solidão… Existência enclausurada, existência voltada para si mesmo e reclusa, em que aprendi cedo demais a meditar e a refletir. Vida solitária que, ao longo do tempo, se emociona demais por qualquer coisinha…Sensível interiormente por causa de vocês, incapaz de exteriorizar minha alegria ou minha dor, rejeito tudo que amo e me desvio, apesar de mim, de o tudo que me atrai.”

Fanon cunha a Neurose de Abandono como uma condição existência que gera sofrimento psíquico e produz um impacto relacional importante, pois o abandônico, como ele chama, é aquele que precisa de provas reinteradas de afeto e sempre desconfia que será deixado novamente. Apesar disso, o autor nos faz esperançar ao dizer que há outras formas possíveis e nelas implicam uma recriação de mundo e penso que nele precisaremos de coragem para quebrar o cárcere de uma vida solitária, a qual a solidão nos enjaulou na tentativa de roubar a nossa humanidade, se tornou a vivência que a nossa neurofisiologia ficou acostumada a reconhecer como forma de estar na vida.

Pensando nisso, desenvolvi um trabalho para falar sobre Abandono fundamentado no Itan africano e na Neurose de Abandono de Frantz Fanon, com base no cuidado clínico que desenvolvo nesses 7 anos como psicóloga, acredito que o bom cumprir do cuidado, independente de quem tenha sido a figura social a desempenhar, restabelece a pele que faltou no desamparo.

Laíse Brito é psicóloga (CRP 03/19361) e publica em @psilaisebrito. O trabalho descrito neste texto é conduzido por ela em encontro online no dia 29 de agosto, das 9h às 12h. As inscrições são feitas pelo telefone (71) 98866-7887, e a participação custa R$ 113.

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