Atriz retoma a rainha do vodu de Coven na 13ª temporada da série do FX, que estreia em 24 de setembro, às 22h, no Disney+, junto com os Estados Unidos
A atriz Angela Bassett retorna como Marie Laveau, a rainha do vodu de American Horror Story: Coven, na 13ª temporada da série, que estreia na quinta-feira, 24 de setembro, às 22h, no horário de Brasília, com lançamento simultâneo ao dos Estados Unidos, onde vai ao ar na FX e no Hulu. No Brasil, a temporada será exibida com exclusividade no Disney+, e o retorno da personagem foi confirmado no teaser e no trailer divulgados pelo FX para uma edição que reúne personagens de temporadas anteriores.
Bassett divulgou a estreia em publicação no Instagram com a frase “Bow down, witches”, algo como “ajoelhem-se, bruxas”, e a data de lançamento nos Estados Unidos, 24 de setembro, na FX e no Hulu. Além dela, o elenco de retornos inclui Jessica Lange, Sarah Paulson, Evan Peters, Emma Roberts, Kathy Bates, Billie Lourd, Gabourey Sidibe e Leslie Grossman, e a cantora Ariana Grande estreia na franquia.
Bassett entrou em American Horror Story em 2013, em Coven, como Marie Laveau, personagem inspirada na sacerdotisa do vodu que viveu em Nova Orleans no século 19, e voltou nas temporadas seguintes como Desiree Dupree, em Freak Show, Ramona Royale, em Hotel, e Monet Tumusiime, em Roanoke. Em 2018, ela reapareceu como Marie Laveau no episódio final de Apocalypse, e recebeu duas indicações ao Emmy, por Coven e por Freak Show, na categoria de melhor atriz coadjuvante em minissérie ou filme. A atriz também dirigiu episódios de Roanoke e de Cult, a sétima temporada, sem aparecer neste último.
Em Coven, exibida em 2013 e 2014, Marie Laveau vive em Nova Orleans e tem uma agenda própria contra o grupo de bruxas da temporada, entre elas Cordelia Goode, personagem de Sarah Paulson que também reaparece no teaser da 13ª temporada, ao lado de Madison Montgomery, de Emma Roberts.
American Horror Story: 13 tem 13 episódios de 30 minutos e as gravações foram realizadas entre 6 de abril e 28 de julho de 2026. A estreia estava prevista para o Halloween, 31 de outubro, e foi antecipada para 24 de setembro. A trama, segundo a descrição do FX, parte de uma crise atual que reúne personagens de edições anteriores, enquanto o número 13 reaparece com consequências cada vez mais sinistras. A série é criada por Ryan Murphy e Brad Falchuk, e Murphy dirige o episódio de estreia.
Como assistir
No Brasil, os três primeiros episódios chegam ao Disney+ na quinta-feira, 24 de setembro, às 22h. Os demais são liberados sempre à 1h da madrugada de sexta-feira, com os episódios 4 a 6 em 2 de outubro, os episódios 7 e 8 em 9 de outubro, os episódios 9 e 10 em 16 de outubro e os episódios 11 e 12 em 23 de outubro, até o final, em 30 de outubro. As 12 temporadas anteriores também estão disponíveis na plataforma.
Pois bem, antes de eu te explicar qualquer coisa, eu quero que você faça uma coisa comigo, e vai levar três minutos, é de graça e você faz no mesmo celular em que está lendo. Abra qualquer gerador de imagem gratuito, desses que já vêm dentro do aplicativo que você usa, e peça, sem colocar nenhum adjetivo, sem dizer cor, sem dizer cabelo, sem dizer nada: “gere a foto de uma pessoa de rosto bonito”. Depois peça “gere a foto de um médico brasileiro”. Depois peça “gere a foto de um paciente de cirurgia plástica facial”. Guarde as três e olhe com calma para a cor da pele, para o formato do nariz e para a textura do cabelo que apareceram ali sem que ninguém tivesse pedido.
Agora faça a quarta, que é a que interessa. Descreva você, a sua cor, o seu cabelo, o seu nariz, e peça a mesma foto. Repare se a máquina obedece de primeira, se ela suaviza no meio do caminho aquilo que você pediu, ou se ela simplesmente devolve outra pessoa.
Já se imaginou, você mesmo daí do outro lado que está lendo agora, você já se imaginou sendo medido a vida inteira por uma vara que não foi cortada no seu tamanho? Porque foi isso que acabou de acontecer na sua mão, e eu preciso que você entenda que a máquina funcionou exatamente como foi ensinada nesse momento, acertando em cheio aquilo que alguém, muito antes dela, decidiu chamar de rosto normal.
Essa decisão é bem mais velha que o computador. A palavra cânone vem do grego kanón, que quer dizer vara reta, o caniço que os antigos usavam justamente para medir, e repare na coincidência: a mesma vara que aparece enrolada pela serpente no bastão de Asclépio, símbolo da medicina até hoje na porta da unidade de saúde do seu bairro, é também a vara que serviu para dizer quem tinha o corpo certo e quem não tinha.
Aliás, muito antes de a Grécia formular qualquer cânone de proporção do corpo humano, os egípcios já desenhavam gente dentro de uma grade de quadrados, um sistema de proporção que eles usaram e ensinaram durante milênios, e que é a razão pela qual as figuras nos túmulos guardam a mesma medida atravessando dinastias inteiras. Já imaginam a cor de quem estava desenhando e de quem estava sendo desenhado ali, correto?
Porém a régua que a minha especialidade herdou não veio do Egito. Eu sou cirurgião plástico facial, e isso quer dizer, na prática, que eu analiso faces como forma de trabalho. Os cânones de proporção facial que a cirurgia usa até hoje, aquelas medidas que dizem em quantas partes um rosto se divide e qual ângulo o nariz deveria fazer com o lábio, foram formulados a partir da escultura europeia e depois refinados pela antropometria do século XIX, que era uma ciência de medir crânio e nariz com o propósito declarado de hierarquizar povos. Quando eu abro um artigo e encontro um valor de referência para a projeção da ponta nasal, eu sei de onde aquele número saiu, e sei que ele não saiu de um rosto parecido com o meu.
E aqui a história da arte e a história da medicina são a mesma história, porque essa medição não começou no hospital, começou no ateliê. Em 1865 e 1866, a expedição Thayer, chefiada pelo naturalista Louis Agassiz, fotografou homens e mulheres escravizados no Brasil, de frente e de perfil, com o objetivo declarado de produzir prova visual da inferioridade dos povos africanos, e essas fotografias estão hoje guardadas no Peabody Museum, em Harvard. Mais de um século depois, a artista Rosana Paulino pegou uma dessas imagens, recortou, costurou e suturou aquele corpo de volta em trabalhos como a série Assentamento, devolvendo história a uma mulher que tinha sido reduzida a medida. Eu insisto nessa ponte porque aquela fotografia antropométrica é a avó direta do banco de imagens que treina reconhecimento facial hoje, e porque a artista já fez com aquele arquivo o trabalho de reparação que a engenharia ainda não fez.
Inclusive, se isso parece coisa de museu, lembre de algo mais recente e mais banal: durante décadas a indústria fotográfica calibrou a cor dos filmes a partir de cartões com uma modelo branca, os chamados cartões Shirley, e o resultado é que pele negra saía subexposta em foto de formatura, de casamento e de família no mundo inteiro, por decisão de fábrica. A câmera nunca foi neutra, e o modelo que aprendeu olhando as fotos dela também não nasceu neutro.
Há também o risco de a gente achar que isso melhora sozinho, com o tempo e com computador mais potente. Em 2018, as pesquisadoras JoyBuolamwini e TimnitGebru avaliaram os sistemas de análise facial de três grandes empresas de tecnologia, medindo quanto eles erravam ao classificar o gênero de uma pessoa a partir da foto do rosto, e encontraram 0,8% de erro para homens de pele clara e quase 35% para mulheres de pele escura, chegando a 46,8% entre as mulheres de pele mais escura da escala. A máquina enxergava com nitidez quem tinha servido de molde e errava em todo o resto, e guarde essa data, porque o estudo saiu em 2018, foi publicado em conferência e as empresas foram avisadas em público.
E é justamente aí que entra o trabalho da cientista da computação Nina da Hora (@ninadhora), publicado este ano, 2026, na revista da FAccT (Fairness, Accountability, andTransparency), a conferência da ACM (Association for Computing Machinery) sobre justiça e transparência algorítmica. Ela cunhou o termo epistemicídio computacional para descrever sistemas de reconhecimento facial que fabricam um rosto canônico, alinham todo mundo a ele e negam existência computacional a quem não encaixa, e testou três arquiteturas diferentes e recentes, encontrando o mesmo padrão de disparidade racial nas três. Ou seja, oito anos e uma geração inteira de modelos depois, trocar de arquitetura não resolve, porque a régua que todas elas herdaram é a mesma.
A proposta que ela apresenta é recusar com precisão determinados usos e construir reparação computacional junto com as populações afetadas, e não sobre elas. O termo dela tem linhagem brasileira, vale dizer, porque epistemicídio é conceito que Sueli Carneiro elaborou para nomear o apagamento sistemático do saber negro, e a Nina levou esse conceito para dentro do código.
Isso desce direto para quem decide compra, e é a parte que eu queria que chegasse na mesa do diretor de hospital, do gestor público de saúde e de quem investe em saúde digital. Existe uma pergunta só que separa fornecedor sério de vendedor de slide, e ela é: me mostre o desempenho do seu algoritmo separado por subgrupo. Desempenho médio esconde desempenho ruim em minoria, e essa é hoje a discussão central em periódicos como o NEJM AI, que vem publicando sobre avaliação confiável de inteligência artificial clínica em populações diversas. Num país com a composição racial que o nosso tem, comprar algoritmo sem exigir esse recorte é comprar risco assistencial e risco jurídico dentro do mesmo pacote.
Por isso eu bato tanto na tecla do estudo. Eu vim de escola pública e passei a vida fazendo prova para entrar em lugar que não tinha sido desenhado para mim, e a prova de agora, a do letramento em inteligência artificial, tem uma particularidade que eu nunca tinha visto antes: que é, até o advento do GPT, não tinha cursinho, não tinha apostila e não tinha ninguém que já tinha feito a prova três vezes antes de você.
Esse momentoé raro o suficiente para a gente não desperdiçar. Se quiser começar hoje e sem gastar nada, faça o teste lá de cima. Se quiser ir mais fundo, fica o livro do século e um dos meus preferidos: Um Defeito de Cor, da Ana Maria Gonçalves, que fala justamente sobre aquilo que nenhum manual de tecnologia ensina, que é quem ganha o direito de ter a própria história registrada. Quer tecnologia maior que essa?
Duas ressalvas de médico antes de encerrar. Não suba foto do seu rosto nem do rosto de outra pessoa em ferramenta gratuita, porque imagem facial é dado pessoal sensível e você não sabe onde ela vai parar, e repare que o teste que eu pedi é de geração de imagem e não exige nenhuma foto sua. E nada do que você conversar com uma inteligência artificial substitui consulta, exame e olho no olho, então se apareceu dúvida sobre o seu corpo, procure a unidade básica mais perto de você, o SUS ou uma clínica popular.
Primeiro o diagnóstico, depois o tratamento e se possível, sempre a prevenção. O diagnóstico está feito, a régua não foi cortada no nosso tamanho. O tratamento é aprender a mexer na ferramenta antes que ela termine de aprender sem a gente. E a prevenção é garantir que nenhum rosto volte a ser treinado dentro de uma medida só.
Faça o teste, salve as quatro imagens e mande para alguém que precisa ver isso. Diferentemente do que pregam, uma vela não perde nada ao compartilhar sua chama com outra vela.
Escrevo do negro para o negro.
Sejam médicos, sejam mágicos, sejam fodas.
Eu sou Dr. Lucas Diniz, cirurgião plástico facial pela USP, CRM-SP 194459, RQE 111712, pesquisador de Inteligência Artificial para Cirurgias Craniofaciais da perspectiva da população negra.
Este texto é informativo e educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico formal.
Conheça Alma no Olho, Abolição, Samba no Trem e outros filmes dirigidos por Zózimo Bulbul, que fundou o Centro Afrocarioca de Cinema, e veja onde assistir
O cineasta e ator Zózimo Bulbul, nascido Jorge da Silva em 21 de setembro de 1937, no Rio de Janeiro, completaria 89 anos neste 21 de setembro de 2026. Pioneiro do cinema negro brasileiro, ele morreu em 24 de janeiro de 2013, aos 75 anos, e deixou como diretor uma obra da qual o Centro Afrocarioca de Cinema, instituição que fundou, reúne seis títulos em seu site: Alma no Olho, Aniceto do Império em Dia de Alforria, Abolição, Samba no Trem, Pequena África e República Tiradentes.
Zózimo começou a carreira no Centro Popular de Cultura da UNE, no início dos anos 1960, e estreou no cinema em 1962, em Pedreira de São Diogo, curta de Leon Hirszman que integra Cinco Vezes Favela. Ele atuou em títulos do Cinema Novo, como Ganga Zumba e Terra em Transe, e em 1969 se tornou o primeiro protagonista negro de uma telenovela brasileira, em Vidas em Conflito, na TV Excelsior, ao lado de Leila Diniz.
Foto: Cinelatino
Zózimo, insatisfeito com os papéis reservados a atores negros, passou a escrever e dirigir os próprios filmes, e em 1973 realizou Alma no Olho, considerado uma referência do cinema negro brasileiro. Depois, criou o Centro Afrocarioca de Cinema, na Lapa, que realiza o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, festival internacional voltado ao cinema negro, com cineastas da África e da diáspora.
Alma no Olho
O curta de cerca de 11 minutos, primeiro filme dirigido por Zózimo, foi feito com sobras de negativo de Compasso de Espera e inspirado no livro Alma no Exílio, do militante dos Panteras Negras Eldridge Cleaver. O próprio Zózimo atua diante de uma câmera fixa, em imagens fragmentadas do rosto, da boca e de um corpo nu, e percorre a trajetória da população negra desde o corpo livre da origem africana até a escravização, ao som de John Coltrane.
Aniceto do Império em… Dia de Alforria…?
Aniceto de Menezes, o Aniceto do Império, fundador da escola de samba Império Serrano e considerado mestre do partido-alto, conta a própria história, com a própria voz, neste documentário de 12 minutos, do nascimento no Estácio à chegada ao Prazer da Serrinha, passando pelo trabalho no Cais do Porto e pela organização do Sindicato da Resistência. Os letreiros iniciais dedicam o filme a Zumbi dos Palmares e a todos os quilombolas, mortos e vivos.
Abolição
Abolição foi realizado em 1988, para o centenário da Lei Áurea, e investiga, em cerca de duas horas e meia, o que aconteceu com a população negra no Brasil nos cem anos seguintes, com fotos de arquivo, pinturas de Jean-Baptiste Debret, canções de candomblé e depoimentos de nomes como Abdias Nascimento, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e Grande Otelo. O longa-metragem recebeu os prêmios de melhor roteiro e fotografia no Festival de Brasília, em 1988, e de melhor documentário no Festival Latino de Cinema de Nova York, em 1990.
Samba no Trem
A comemoração do Dia Nacional do Samba, em 2 de dezembro, ocupa os trens que saem do centro do Rio de Janeiro em direção ao subúrbio de Oswaldo Cruz neste documentário de 22 minutos, com rodas de samba nas estações e sambistas como Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Monarco, Beth Carvalho e Tia Surica em meio aos passageiros.
Pequena África
Um menino fala sobre a Pequena África, nome dado a uma região do Rio de Janeiro onde viveram ex-escravizados, e a partir dele o curta de 14 minutos mapeia a antiga vida do lugar por meio do casario e das lembranças de uma senhora filha de africanos, com passagem pela Pedra do Sal, local de chegada de escravizados e um dos berços do samba.
República Tiradentes
A Praça Tiradentes, no centro do Rio, berço das gafieiras e da malandragem carioca, é o tema deste documentário de 36 minutos, filmado em mini DV, que reúne histórias de dançarinas de gafieira, atores, malandros e da boemia que frequentou a região, em homenagem à origem da gafieira.
Onde assistir
A Itaú Cultural Play, plataforma gratuita de streaming do cinema brasileiro, reuniu os seis filmes em uma mostra dedicada a Zózimo lançada em novembro de 2021. O acesso é feito pelo site itauculturalplay.com.br, com opção de entrar sem cadastro, e por aplicativos para Android e iOS e smart TVs. A mostra também incluiu outros filmes dirigidos por ele, como Referências, Zona Carioca do Porto e Renascimento Africano. O Centro Afrocarioca de Cinema fica na Rua Joaquim Silva, 40, na Lapa, e mantém perfil no Instagram, @centroafrocariocadecinema.
Na abertura da turnê de 10 anos de Castelos & Ruínas, BK’ superou o público de Kendrick Lamar e ficou na faixa de Travis Scott.
O rapper carioca BK’, nome artístico de Abebe Bikila, reuniu 50 mil pessoas no Nubank Parque, na zona oeste de São Paulo, na noite de sábado, 19 de setembro, e se tornou o primeiro rapper brasileiro a fazer um show solo na arena, conforme a divulgação do evento. A apresentação abriu a turnê “Castelos & Ruínas 10 Anos”, que celebra a década do álbum de estreia do artista, lançado em 21 de março de 2016 pela Pirâmide Perdida Records, e teve ingressos esgotados.
Djonga, que participou do show em “O Mundo É Nosso”, afirmou ao público que os 50 mil presentes igualavam a marca de Travis Scott e superavam a de Kendrick Lamar no mesmo estádio, e brincou mais de uma vez com o fato de o show do norte-americano ter tido plateia menor, de acordo com a Rolling Stone Brasil. Ao falar do impacto que o álbum teve em sua própria trajetória, o rapper mineiro disse: “Se esse cara que parece comigo conseguiu, eu consigo também”.
Os números publicados confirmam a vantagem sobre Kendrick Lamar, cujo show na turnê Grand National, em 30 de setembro de 2025, teve 32.314 pagantes, o equivalente a 71% dos ingressos disponíveis em uma configuração com o anel superior fechado, segundo dados da organização. Travis Scott reuniu cerca de 46 mil pessoas na arena em 11 de setembro de 2024, na turnê Circus Maximus, o que coloca os 50 mil de BK’ na mesma faixa de público, com diferença de aproximadamente 4 mil pessoas quando se comparam os números arredondados divulgados pela imprensa.
O repertório reuniu 39 músicas divididas em três partes, chamadas A Luz, A Sombra e Coroação, e começou com “Sigo na Sombra”, faixa de abertura do disco de 2016. BK’ se apresentou com banda completa, em um palco com escadaria central e passarela em direção ao público, e recebeu como convidados Luccas Carlos, L7NNON, Akira Presidente, Sain, Marcelo D2, Evinha, Febem, FYE, 2ZDinizz, Ashira, Djonga e Marina Sena. As 13 faixas de “Castelos & Ruínas” foram tocadas ao lado de músicas de “Icarus”, de 2022, e de “Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer”, de 2025, com a primeira cena do curta-metragem “Monumental”, dirigido por Willy Hajili e Poeta Visual, exibida nos telões.
Segundo o Nubank Parque, que se chamava Allianz Parque até meados deste ano, BK’ é o décimo rapper a se apresentar no local e o show foi o sétimo de rap realizado ali, o que leva a arena a mais de 240 mil pessoas em apresentações do gênero, entre as quais as de nomes internacionais como Kendrick Lamar, Travis Scott e Chris Brown.
A ampliação do público acompanha a trajetória recente do rapper, que em 2024 levou o show “ICARUS: A Apoteose” a mais de 20 mil pessoas no Rio de Janeiro e, em 2025, criou o Festival Gigantes. O álbum “Castelos & Ruínas”, por sua vez, tem 13 faixas e soma mais de 225 milhões de streams no Spotify e mais de 75 milhões de visualizações no YouTube, segundo a Exame.
Em entrevista à Billboard Brasil na véspera do show, BK’ afirmou que ainda não havia assimilado o fato de ser o primeiro a realizar a apresentação e que não tem “vaidade de ser o primeiro a fazer isso”, dizendo que sua motivação está em entregar um trabalho e um show marcantes.
Aliko Dangote é considerado o homem mais rico da África/Foto: Reprodução
Aliko Dangote colocou ações de sua megarefinaria à venda por cerca de US$ 0,40 e pretende atrair até 10 milhões de investidores individuais; iniciativa enfrenta baixa renda e falta de conhecimento sobre o mercado financeiro
O empresário nigeriano Aliko Dangote, considerado o homem mais rico da África, quer transformar a abertura de capital de sua refinaria de petróleo em uma porta de entrada para milhões de pessoas no mercado de ações, de acordo com o Financial Times. Com investimento mínimo equivalente a cerca de US$ 4, a oferta pública inicial (IPO) da Dangote Petroleum Refinery pretende levantar US$ 1,6 bilhão.
O próprio empresário batizou a operação de “IPO do povo”. A estratégia é disponibilizar as ações a um preço considerado acessível e utilizar corretoras digitais para alcançar investidores que nunca participaram do mercado financeiro.
Cada ação da refinaria custa 525 nairas, aproximadamente US$ 0,40, e o lote mínimo é de dez ações. A oferta foi aberta em 14 de setembro e ficará disponível até 13 de outubro. A previsão é que os papéis comecem a ser negociados na Bolsa da Nigéria, a NGX, em meados de novembro.
A meta de Dangote é ambiciosa: atrair cerca de 10 milhões de investidores individuais durante o período da oferta.
De consumidor a acionista
A possibilidade de investir em uma das maiores empresas do país já desperta interesse entre alguns nigerianos. Segundo o Financial Times, Chukwuka Kosisochukwu, dono de uma loja de ferragens nos arredores de Lagos, vinha estudando o mercado de ações havia meses quando descobriu que a refinaria localizada próxima de seu comércio também entraria na Bolsa.
Ele se cadastrou em uma corretora digital para participar da oferta. Para Kosisochukwu, investir em uma ação da Dangote é mais interessante do que gastar o mesmo valor em uma bebida.
A aposta também chamou a atenção de pessoas que vivem longe dos grandes centros financeiros. Abdulkadir Abdulkadir, planejador agrícola no norte da Nigéria, considera comprar entre 100 e 200 ações. Segundo ele, o preço de entrada cria uma possibilidade que antes parecia restrita a pessoas de maior renda.
Outro exemplo é o professor de matemática Muzakallah Muzammil, que baixou o aplicativo da Bamboo, uma corretora digital, com a intenção de adquirir cerca de 100 ações. Ele afirmou que o IPO despertou seu interesse pelo mercado e que outras empresas nas quais confie poderiam levá-lo a construir uma carteira de investimentos.
A Bamboo estima receber pelo menos 1 milhão de novos cadastros de pessoas interessadas na oferta. O número, porém, representa registros na plataforma e não necessariamente compradores efetivos de ações.
Refinaria pode chegar a US$ 49 bilhões
A oferta prevê a captação de US$ 1,6 bilhão, valor que pode levar a avaliação da refinaria para aproximadamente US$ 49 bilhões. O montante é mais que o dobro dos cerca de US$ 20 bilhões gastos para construir o complexo.
A refinaria tem capacidade para processar 700 mil barris de petróleo por dia e começou a operar em 2024. O empreendimento alterou a posição da Nigéria no mercado de combustíveis: embora o país seja um grande produtor de petróleo, durante anos precisou importar.
Com a expansão da refinaria, a Nigéria passou a ampliar sua participação nas exportações de produtos como diesel e combustível de aviação.
Agora, a companhia pretende utilizar os recursos do IPO para financiar uma nova etapa de expansão. O plano é dobrar a capacidade de processamento para 1,4 milhão de barris por dia até 2028.
Antes da oferta pública, a empresa já havia realizado uma colocação privada que levantou US$ 2,5 bilhões por uma participação de aproximadamente 6%, em uma operação que teve demanda superior à oferta.
A distância entre o IPO e a população
Apesar do potencial de levar novos investidores à Bolsa, a oferta enfrenta um problema estrutural: parte da população nigeriana sequer sabe que ela existe, e outra parcela não possui renda disponível para investir.
O Financial Times conversou com cerca de 20 pessoas em áreas de menor renda de Lagos e nas proximidades da refinaria. Poucas tinham conhecimento sobre o IPO.
Entre caminhoneiros que aguardavam para retirar diesel no complexo, nenhum dos entrevistados sabia da venda de ações. Um deles, Joshua Alabi, chegou a perguntar ao jornal se era o próprio repórter quem estava vendendo os papéis. Ele precisou pedir ao irmão uma explicação sobre o significado de uma ação.
A falta de divulgação também é um fator. Em junho, a Comissão de Valores Mobiliários da Nigéria impôs restrições rigorosas à publicidade do IPO, limitando a exposição da oferta. Com isso, parte da divulgação ficou concentrada entre jovens que acompanham discussões sobre investimentos nas redes sociais.
Para o vendedor de granito Abdullahi Umari, não basta colocar as ações à venda: é necessário explicar à população como a operação funciona. Ele defendeu que a empresa vá até comunidades e apresente a proposta de maneira acessível.
“Não tenho dinheiro”
Mesmo para quem conhece a oferta e gostaria de participar, o baixo preço das ações não elimina a principal barreira: a falta de recursos.
O soldador Alimi Oluwafemi afirmou que compraria ações da refinaria caso tivesse dinheiro. A prioridade, naquele momento, porém, era outra: ele disse estar sem recursos até para comprar comida.
O cenário ajuda a dimensionar o desafio da proposta de Dangote. O preço mínimo de aproximadamente US$ 4 torna a entrada na Bolsa tecnicamente possível para um número maior de pessoas, mas não significa que milhões de nigerianos tenham dinheiro disponível para investir.
A situação é particularmente relevante em um país onde, segundo o Banco Mundial, quase 40% dos adultos não possuem conta bancária.
Ainda assim, o IPO representa uma tentativa de ampliar a participação da população no mercado de capitais e de aproximar pequenos investidores de uma das maiores companhias do continente.
Ator que interpreta John Stewart na série da HBO fala sobre como encontrou uma forma de conviver com o transtorno sem permitir que ele limite sua rotina.
Aaron Pierre encontrou uma forma particular de lidar com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): transformar algumas características que antes poderiam limitá-lo em ferramentas para sua rotina. O ator, que interpreta John Stewart, o Lanterna Verde da nova série da HBO, contou que aprendeu a conviver com o transtorno até chegar a um ponto em que ele passou a trabalhar a seu favor.
A declaração surgiu durante uma entrevista à Virgin Radio UK, em que Pierre também falou sobre a preparação física para viver o herói da DC. Ao comentar sua rotina de treinamento, o ator relacionou sua tendência à obsessão e à repetição com a disciplina necessária para manter o processo.
A ideia, porém, não é apresentada por Pierre como uma característica que define o transtorno, mas como algo que ele aprendeu a administrar ao longo do tempo. Em vez de permitir que o TOC determinasse seus limites, ele encontrou maneiras de direcionar essa característica para objetivos que considera importantes.
“Com o apoio adequado que tenho a felicidade e a bênção de receber, aprendi, de certa forma, a conviver com isso de uma maneira que me permite tirar proveito da situação, em vez de deixar que ela me impeça ou me limite.”, declarou Aaron em entrevista ao Entertainment Weekly.
A relação construída pelo ator com o transtorno também dialoga com uma característica que aparece em outras entrevistas recentes: Pierre fala frequentemente sobre disciplina, atenção e o desejo de compreender profundamente seus personagens. Em conversa com a GQ, por exemplo, ele descreveu sua relação com o trabalho como uma busca constante por explorar diferentes aspectos da humanidade e das personalidades que interpreta.
Na preparação para Lanterns, essa dedicação também apareceu no aspecto físico. Pierre passou por um processo de treinamento voltado para força, mobilidade e condicionamento, além de ter precisado se recuperar de uma cirurgia no tendão distal do bíceps antes das filmagens. Em entrevista à Men’s Health, ele contou que trabalhou com uma equipe para se reabilitar e chegar preparado para a produção.
A fala de Pierre sobre o TOC revela um processo pessoal de adaptação em que o ator não fala em eliminar o transtorno, e sim procura construir uma relação diferente aprendendo a reconhecer a própria mente, estabelecer limites e encontrar maneiras de seguir em frente sem deixar que o transtorno determine até onde pode chegar.
Colunista do Mundo Negro analisa a maquiagem de Zendaya, Ayo Edebiri e outras estrelas no Emmy e indica produtos para replicar o efeito.
O tapete vermelho do Emmy Awards sempre entrega momentos marcantes, mas nesta temporada o destaque ficou por conta dos detalhes de maquiagem. As estrelas negras dominaram a noite com produções sofisticadas e coerentes entre si, formando uma espécie de assinatura coletiva para a premiação.
Para analisar as produções de Zendaya, Ayo Edebiri, Chase Infiniti, Quinta Brunson e Ryan Michelle Bathe no tapete vermelho, trazemos a curadoria de Jaqueline Vieira, colunista de beleza do Mundo Negro, beauty artist e especialista em colorimetria há 12 anos, responsável pela maquiagem de AjuliaCosta e também assinou a beleza de Sterling K. Brown na CCXP.
O Fenômeno “Anti-Blush” e o Efeito Blonzer
Analisando a maquiagem das celebridades negras no red carpet, Jaqueline identificou um movimento claro, elegante e que valoriza os subtons da pele negra de forma magistral, a substituição do rubor tradicional por um glow solar e aquecido. “A maioria das belezas trouxeram um pouco da tendência ‘anti-blush’ com peles com efeito blonzer, que consiste basicamente em substituir os blushes coloridos como os rosas, vermelhos, beterraba, por bronzer ou blushes em tons de marrom à sua escolha, trazendo um efeito mais dourado ‘de dentro pra fora'”, explica a especialista, e esse padrão se repete nas cinco produções, uma a uma, sempre com contorno bem esfumado, sem marcar.
Na boca, a repetição também aparece, com o mesmo tom terroso presente em todas elas. “Também entregaram bocas em tons de nude mais rosados, puxando até pra uma corzinha de pêssego no centro, em alguns casos… será essa uma tendência para os próximos tempos?”, questiona Jaque.
Get the Look: Monte o Seu Necessaire de Tapete Vermelho
Quer reproduzir o visual chique, iluminado e aclamado do Emmy na sua própria pele? Nossa colunista abriu sua maleta profissional e listou os melhores produtos do mercado para você aderir à tendência do blonzer e dos lábios ombré esfumados:
Para o Efeito “Blonzer” (Bochechas iluminadas e aquecidas):
Mascavo: Bronzer em pó (Aposte nas cores Terracota e Sahara).
Fenty Beauty: Bronzer Sun Stalk’r Instant Warmth (Nas cores Coco Naughty, Mocha Mami e Thice Mint).
Ruby Kisses: Blush Melon Pop Bouncy (Na cor Blonzy Pop).
Para o Contorno Labial Impecável:
Boca Rosa Beauty: Lápis labial (Nas cores Chocolate Intenso e Marrom Intenso).
Mascavo: Lápis labial (Nas cores Hot Chocolate – marrom intenso, e Fig – vinho).
Para completar o ‘Lip Combo’ (O centro nude e pêssego):
O Boticário: Batom cremoso (Na cor Soft Nude).
M·A·C Cosmetics: Batom Matte M·A·CXIMAL (Invista nas cores Warm Teddy, Sweet Deal, Velvet Teddy, Café Mocha, Mull It To The Max, Taupe, Go Retrô e Twig Twist).
Contém1g: Batom Matte Velvet (Nas cores Clássico, Brulée e Honey).
Fenty Beauty: Bomb Stix (Nas cores Fu$$y e Spice Cold) e Gloss Bomb tradicional (Nas cores Riri e Mango Margz).
Ocupar e permanecer por uma vida possível para lideranças negras
Durante o Setembro Amarelo, somos convocadas a falar sobre valorização da vida, prevenção do suicídio e cuidado com a saúde mental. Nesse contexto, valorizar a vida precisa significar mais do que impedir que ela termine. Significa também reconhecer as condições em que uma pessoa continua vivendo e perguntar se, nessa continuidade, ainda há espaço para dignidade, pertencimento, liberdade, descanso e sentido.
Para as lideranças negras, essa pergunta é especialmente necessária. Muitas chegam aos espaços de decisão carregando histórias que não começaram nelas: o esforço de gerações, o compromisso com seus territórios, as expectativas da comunidade e a consciência de que sua presença assume
uma dimensão coletiva. Ocupar um lugar historicamente negado é uma conquista profissional, mas também pode significar enfrentar estruturas que questionam sua legitimidade, ampliam a vigilância sobre seus movimentos e exigem uma disponibilidade que ultrapassa os limites do corpo e da vida.
Ocupar importa. Estar nos espaços em que decisões são tomadas, recursos são distribuídos e narrativas são definidas continua sendo necessário. Mas chegar não pode ser o único objetivo. É preciso construir condições para permanecer, sem que isso signifique suportar tudo, funcionar apesar de tudo ou sobreviver às custas de si.
Permanecer não é somente continuar no lugar. É poder continuar existindo dentro dele.
Quando a força deixa de ser escolha
Muitas lideranças negras aprenderam a seguir mesmo quando estavam cansadas. Aprenderam a resolver, proteger, organizar, orientar e responder às necessidades de outras pessoas. São reconhecidas pela força, pela capacidade de trabalho e pela habilidade de sustentar situações difíceis.
Essa força é real, mas não deve ser romantizada. Quando deixa de ser uma possibilidade e se transforma em obrigação, a potência também pode aprisionar. A pessoa passa a ser percebida pelo que entrega, pelo que suporta e pelo que representa. Seus medos, dúvidas, limites e necessidades ficam escondidos atrás da função que desempenha.
A neurociência ajuda a compreender parte desse processo. Sob pressões e ameaças contínuas, o organismo pode permanecer em estado de alerta. Respostas que inicialmente protegem passam a produzir sobrecarga quando não encontram pausa, segurança ou possibilidade de elaboração. O corpo permanece presente, a mente continua produzindo e a liderança segue entregando resultados, enquanto a experiência de viver se reduz, pouco a pouco, ao funcionamento.
Por isso, a saúde emocional não é um complemento da liderança. É uma das condições para que a pessoa permaneça inteira no lugar que ocupa. O cuidado não deve começar somente quando o sofrimento se torna insuportável; precisa integrar a forma como essa vida é sustentada.
Ocupar sem desaparecer de si
A psicologia humanista-existencial contribui para essa reflexão porque não reduz a pessoa ao papel social, ao diagnóstico ou ao desempenho. Carl Rogers compreendeu a saúde psíquica como um processo de tornar-se pessoa, marcado por maior abertura à experiência, autenticidade e congruência. Em termos simples, trata-se de diminuir a distância entre o que sentimos, o que reconhecemos em nós e a maneira como conseguimos estar no mundo.
Para muitas lideranças negras, viver essa congruência pode ser difícil. Há ambientes nos quais precisam parecer disponíveis quando estão exaustas, seguras quando sentem medo e inabaláveis quando necessitam de cuidado. Essa adaptação pode funcionar como estratégia de proteção. Quando se torna permanente, porém, produz fragmentação: a pessoa está presente para todos e ausente de si.
Rollo May, na tradição existencial, relaciona a coragem à afirmação do próprio ser diante da ansiedade e das incertezas da existência. Coragem, nesse sentido, não é ausência de medo nem capacidade de suportar indefinidamente. É reconhecer o que se vive, assumir escolhas possíveis e preservar a relação consigo, mesmo quando o contexto pressiona pela anulação.
Irvin Yalom também mostra que a existência humana é atravessada por questões como liberdade, responsabilidade, isolamento e busca de sentido. Elas não se resolvem com produtividade ou reconhecimento externo. Uma pessoa pode ocupar um lugar de destaque e ainda se sentir distante da própria vida. Pode estar cercada de pessoas e permanecer emocionalmente sozinha. Pode cumprir responsabilidades coletivas e perder o contato com aquilo que deseja para si.
A perspectiva existencial não oferece uma fórmula pronta para viver. Ela devolve perguntas fundamentais: como estou existindo no lugar que ocupo? O que tenho precisado esconder para continuar? Minhas escolhas ainda se aproximam de quem sou? Consigo reconhecer meus limites sem interpretá-los como fracasso? O que, em minha vida, não pode continuar sendo adiado?
Permanecer é mais do que resistir
A resistência faz parte da história das pessoas negras e foi indispensável para que muitas de nós chegássemos até aqui. Entretanto, ela não pode ser o único modo de existir. Quando a vida se organiza em torno da reação à violência, da resposta às urgências e da necessidade de provar capacidade, sobreviver ocupa o espaço que também deveria pertencer ao viver.
Existe uma diferença entre estar viva e sentir-se participante da própria existência. Uma pessoa pode continuar trabalhando, liderando, cuidando e comparecendo enquanto perde o vínculo com o prazer, o descanso, os afetos e os projetos que não precisam servir a nenhuma causa. Pode ser reconhecida publicamente e, ainda assim, não se reconhecer na vida que construiu.
Permanecer, portanto, não é conservar um cargo a qualquer preço. É preservar condições emocionais para pensar, sentir, escolher, criar vínculos, rever caminhos e perceber quando algo já não pode ser sustentado da mesma forma. Em alguns momentos, isso significará seguir. Em outros, estabelecer limites, pedir ajuda, redistribuir responsabilidades ou deixar um ambiente que exige o desaparecimento de si.
Nem toda permanência protege a vida. Permanecer de verdade exige que o eu também permaneça.
O cuidado como encontro consigo
O cuidado possui uma dimensão coletiva. Instituições, equipes, comunidades e movimentos precisam reconhecer desigualdades, distribuir responsabilidades de maneira justa e construir redes de proteção. Representatividade sem pertencimento pode produzir solidão. Visibilidade sem proteção pode ampliar a exposição. Reconhecimento sem sustentação pode se transformar em sobrecarga.
Há também uma dimensão que não pode ser transferida inteiramente ao coletivo: a relação que cada pessoa estabelece consigo. Cuidar de si é perceber o próprio corpo antes que ele precise interromper tudo. É reconhecer emoções sem vergonha, escutar necessidades, permitir-se receber apoio e compreender que o valor da vida não depende do quanto se produz para os outros.
Esse cuidado não é individualismo nem abandono do compromisso coletivo. É a recusa de uma lógica que transforma a pessoa negra em recurso inesgotável. O coletivo pode oferecer sustentação, pertencimento e proteção, mas ninguém deveria desaparecer dentro daquilo que ajuda a construir. Há um eu que precisa respirar, desejar, descansar, criar intimidade, mudar de ideia e viver experiências que não sejam convertidas em trabalho, luta ou legado.
Na abordagem centrada na pessoa, o encontro consigo não é um estado perfeito alcançado de uma vez. É um movimento contínuo de reconhecimento e integração. Quanto mais uma pessoa consegue escutar honestamente a própria experiência, mais liberdade encontra para fazer escolhas coerentes com seus valores e limites. Essa liberdade não elimina a dor nem as estruturas sociais que a atravessam, mas impede que elas definam sozinhas toda a sua existência.
Uma vida possível no Setembro Amarelo
Falar sobre a vida das lideranças negras durante o Setembro Amarelo exige ir além da convocação para que continuem fortes. Precisamos reconhecer o cansaço que não aparece, a solidão escondida pela visibilidade e o custo emocional de ocupar espaços nos quais a competência ainda é questionada.
Também precisamos ampliar a ideia de cuidado. Psicoterapia, supervisão, redes de pares, vínculos afetivos e mudanças institucionais são recursos importantes. Ainda assim, cuidar da vida envolve algo profundamente pessoal: recuperar o direito de habitar a própria existência. Perguntar não só o que ainda precisa ser feito, mas como eu estou; não só quem depende de mim, mas do que eu preciso; não só como continuar, mas em que condições desejo fazê-lo.
Ocupar é necessário. Permanecer também. Mas permanecer viva não pode significar somente resistir até o próximo dia. Precisa incluir o direito de existir sem armadura o tempo inteiro, de cuidar do corpo que sustenta tantas responsabilidades e de reconhecer que a própria vida tem valor mesmo quando não está servindo, produzindo ou representando.
O coletivo importa e pode sustentar essa travessia. No centro do cuidado, porém, existe uma pessoa que não pode ser esquecida. Uma pessoa que merece estar inteira em sua própria vida.
Permanecer viva também é poder dizer: eu existo por inteiro, e a minha vida também precisa de mim.
Referências
MAY, Rollo. A coragem de criar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009. Obra original publicada em 1961. YALOM, Irvin D. Psicoterapia existencial. Porto Alegre: Artmed, 2006. Obra original publicada em 1980.
Sobre a autora
Júnia Mamedir é psicóloga e psicoterapeuta (CRP 05/48655), neurocientista em aprendizagem e criadora do Método CEA® — Consciência, Escuta e Ação. É fundadora da Mamedir Humanize, empresa que atua junto a organizações na gestão de treinamento e desenvolvimento, com foco em performance humanizada, e do Instituto Maternize Brasil, ONG dedicada ao acolhimento e ao cuidado em saúde mental de mães e mulheres negras em dez favelas do Rio de Janeiro. Há 22 anos, trabalha na promoção da saúde mental, no desenvolvimento de lideranças e na construção de políticas de cuidado. Mulher negra e afroindígena, também desenvolve ações de formação de lideranças comunitárias femininas negras. Foi reconhecida pelo site Mundo Negro como uma das 25 mulheres negras do corporativo, em publicação sobre liderança e a necessidade de ressignificar a liberdade de quem somos.
"Jaÿ-Z in 8" estreia no Brasil na Mubi/Foto: Reprodução/Divulgação
Jay-Z vai revisitar três décadas de sua trajetória no hip-hop em uma nova série documental da HBO. Intitulada “JAŸ-Z IN 8”, a produção terá oito episódios e será conduzida a partir de conversas entre o rapper e o produtor musical Rick Rubin, um dos nomes responsáveis por impulsionar o hip-hop desde seus primeiros anos.
A série chega em 2026, ano em que “Reasonable Doubt”, álbum de estreia de Jay-Z, completa 30 anos. Lançado em 1996, o disco marcou o início de uma das carreiras mais longevas e influentes do rap norte-americano. A produção também coincide com os 25 anos de “The Blueprint”, outro trabalho central na discografia do artista.
Em vez de seguir o formato tradicional de documentários biográficos, “JAŸ-Z IN 8” parte de músicas específicas para conduzir as conversas. Ao lado de Rubin, Jay-Z fala sobre diferentes momentos de sua vida e carreira, além de abordar suas letras, experiências pessoais e o processo de criação de algumas de suas faixas.
Entre as músicas utilizadas como ponto de partida estão “99 Problems”, “4:44”, “The Story of O.J.”, “Can’t Knock the Hustle”, “Brooklyn’s Finest” e “Family Feud”.
A parceria com Rick Rubin também coloca em perspectiva diferentes momentos da história do hip-hop. Cofundador da Def Jam Recordings, Rubin trabalhou com artistas como Run-D.M.C., Beastie Boys e LL Cool J e teve papel importante na consolidação do rap na indústria fonográfica.
“JAŸ-Z IN 8” estreia em 18 de setembro, nos Estados Unidos, com os dois primeiros episódios. Os capítulos seguintes serão disponibilizados semanalmente, também em duplas, até 9 de outubro. A produção será exibida pela HBO e estará disponível na plataforma HBO Max. No Brasil, o documentário pode ser visto na plataforma da Mubi.
Assistir aos diálogos entre Sheron Menezzes (Bela) e Alinne Moraes (Vanessa) na novela “Por Você” chega a ser cômico, pelo exagero e pelo desespero. O mundo construído pela personagem Vanessa é limitado e pobre de espírito. Ela vê o mundo sob um único olhar, onde todos os seus problemas passam pela existência e pelo brilhantismo de Bela.
A personagem Bela é uma médica obstetra, dedicada, competente, que estudou muito. Pela idade, foi estudante negra cotista na medicina, com muito orgulho. É inteligente, cuidadosa com os pacientes e tem um olhar de quem sabe o que é ser uma mãe pobre, embora nunca tenha tido filhos biológicos. Um poço de virtudes, que desperta a inveja de Vanessa. Há certas pessoas que procuram tornar a vida de outras um inferno, e muitas conseguem.
Bela é uma mulher negra, mãe adotiva de quatro crianças, que mora em um prédio de classe média alta, com todas as mordomias de viver em um edifício com piscina e área de lazer. É de supor os problemas de intolerância e discriminação que esta família negra passa. O noticiário é comum vermos situações de conflitos em prédios com a presença de famílias negras.
A novela “Por Você” traz para a reflexão o que muitos negros sofrem na pele: a inveja por serem competentes, honestos e trabalhadores. Todos os negros têm uma história para contar de racismo no trabalho, na sua carreira profissional. Alguns conseguem superar, outros não. Em um desabafo de uma mulher negra que me disse o seguinte: “Tá muito difícil encarar esse momento caótico para mulheres negras como nós. A gente tem história. Batalhamos para morrer na praia? É desesperador, né? Enfim… a luta continua, vamos nessa!”
Na luta diária e gigante de mulheres negras que são profissionais como Bela, nós aprendemos a admirar, mas sobreviver no trabalho, no mundo corporativo, exige sacrifícios e entregas muitas vezes que afetam a saúde mental. A história de ficção da novela “Por Você”, com seus exageros, nos leva a pensar se o sucesso vale a pena e se será sempre assim?
Sou otimista e acredito que a geração de mulheres negras que desbrava novos territórios passará por situações dramáticas, mas, se os nossos ancestrais sobreviveram a tanto sofrimento, nós também venceremos. Obviamente, é difícil — talvez injusto e incorreto até — comparar o que nós, negros (homens e mulheres), passamos hoje com o que enfrentaram (e suportaram) nossos ancestrais. Mas, com certeza, a modernidade agregou requintes de sutileza que tornam a crueldade suportada na contemporaneidade algo absurdamente perverso, devastador e, em muitos casos, difícil de suportar — que dirá superar.
Cada cena da novela “Por Você” é uma discussão intensa em casa. Há tantos aspectos a serem explorados, mas temos que reconhecer que as atrizes Sheron e Alinne estão dando um show na dramaturgia das telenovelas.
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