Os números mais recentes revelam um cenário alarmante de violência de gênero e raça neste Dia Internacional de Não Violência contra as Mulheres, 25 de novembro. Enquanto a taxa de homicídios de mulheres não negras caiu 2,8% entre 2020 e 2021, a de mulheres negras cresceu 0,5% no mesmo período, segundo o Atlas da Violência 2023, do Ipea.
As mulheres negras também são as principais vítimas de violência letal e sexual no Brasil. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 2023, elas foram 63,6% das vítimas de feminicídio, 68,6% das mortes violentas intencionais e 52,5% dos casos de estupro e estupro de vulnerável. Além disso, 45% declararam já ter sofrido violência de um parceiro íntimo ao longo da vida.
O acesso desigual à segurança também fica evidente quando o recorte é feito pelo uso de armas de fogo. O estudo “O papel da arma de fogo na violência contra a mulher”, do Instituto Sou da Paz, aponta que 69% das mulheres assassinadas por arma de fogo em 2023 eram pretas ou pardas.
Em entrevista à Focus Brasil, para a demógrafa Jackeline Aparecida Ferreira Romio, doutora pela Unicamp e especialista na redução de feminicídios, essa desigualdade aparece também na distribuição de serviços essenciais de proteção. Delegacias especializadas de atendimento à mulher e patrulhas da Lei Maria da Penha seguem concentradas em capitais e em estados do Sudeste — especialmente São Paulo — deixando regiões periféricas, Norte e Nordeste com cobertura insuficiente.
“A própria oferta de serviços de atenção às mulheres vítimas da violência baseada no gênero leva à sobrevitimização das mulheres negras, do Norte e Nordeste, das periferias, devido às desigualdades estruturais de acesso a serviços. Devemos investir na redistribuição dos serviços e priorizar abrir novos equipamentos em locais que ainda não contam com atenção”, afirma Romio.
Romio destaca que o racismo e o sexismo estruturais ainda atravessam as instituições brasileiras, impactando diretamente o acolhimento de mulheres negras. “Há um padrão histórico de naturalização da violência nas comunidades afrodescendentes e periféricas, além de um olhar enviesado que dificulta o acolhimento de vítimas negras e a atenção às suas queixas. Pesquisas apontam que vítimas negras têm mais dificuldades de registrar queixas e receber atenção que as brancas”, afirma.
Edvana Carvalho é uma voz ativa na defesa da educação dentro e fora das redes sociais! Após o sucesso no remake ‘Vale Tudo’, interpretando a costureira Eunice, a atriz de 57 anos continua a conciliar sua intensa rotina com o Mestrado em Dramaturgia na Universidade Federal da Bahia (UFBA), além de seguir atuando como arte-educadora em escolas públicas de Salvador, manter o monólogo ‘Aos 50 – Quem Me Aguenta?’ em circulação e filmar o longa ‘Justino’, dirigido por José Eduardo Belmonte.
Em entrevista com o Mundo Negro, Edvana explica como o mestrado tem ampliado sua produção artística e seu compromisso político. “O meu mestrado em Dramaturgia na UFBA tem fortalecido profundamente o meu trabalho porque transforma aquilo que sempre carreguei: a escrita, a cena e a memória da mulher preta em método, consciência e linguagem”, afirma a artista que também é poetisa e apresentadora.
Ao pesquisar a construção de seu monólogo ‘Aos 50 – Quem Me Aguenta?’, ela mergulha em suas próprias vivências e nas de tantas outras mulheres negras para convertê-las em ficção, criando “uma dramaturgia feminina, preta, diaspórica e ancestral, alinhada ao conceito de Escrevivência de Conceição Evaristo, que afirma que nossas histórias são instrumentos de denúncia, ruptura e reexistência”.
A atriz também destaca como esse processo acadêmico a fortalece em múltiplas frentes: “Amplia minha potência como atriz, fortalece minha atuação como ativista, por compreender que narrar nossas experiências é disputar narrativas; enriquece meu papel como arte-educadora, ao me permitir inspirar outras mulheres e juventudes; e nutre minha voz de poetisa, transformando palavra em cura, invenção e afirmação identitária”. E completa: “Transformar vivências negras em dramaturgia é um ato ancestral de existência”.
Com mais de 40 anos de carreira, iniciada ainda na infância em Salvador, Edvana iniciou sua trajetória na escola pública, no Centro Educacional Luiz Pinto de Carvalho passando pelo Grupo de Teatro do SESC/SENAC, até integrar a primeira formação do Bando de Teatro Olodum, em 1990.
Edvana atua de forma marcante em diferentes linguagens — teatro, televisão, cinema e educação. Além de ‘Vale Tudo’, já brilhou em produções como ‘Renascer’, ‘Ó Paí Ó 1 e 2’, ‘Malês’, ‘As Verdades’ e ‘Irmãos Freitas’. Como arte-educadora, idealizou projetos como a Aula Palestra, que discute lutas e trajetórias de professores, e a Roda de Conversa, que leva cultura e educação extra-curricular para escolas públicas.
Apesar do prestígio e dos múltiplos projetos, Edvana pontua com sinceridade a realidade de tantas mulheres negras no Brasil. “Minha rotina é fazer tudo que posso para sobreviver”, afirma. Ainda assim, ela transforma a arte e a educação em ferramenta de transformação.
Por: Dr. Sahna Wilbonh de Barros, Médico urologista e titular da Sociedade Brasileira de Urologia (CRM-SP 144.578 / RQE 65.633)
A próstata é uma glândula que faz parte do sistema urogenital masculino, cuja secreção compõe parte do esperma, auxiliando na fecundação. Este órgão se localiza na pelve, anteriormente ao reto e abaixo da bexiga, envolvendo a parte inicial da uretra. Estas relações permitem que a próstata seja examinada através do reto (por meio do toque ou por equipamentos) e explicam porquê afecções da próstata têm variadas repercussões nas funções reprodutiva e urinária.
O tumor maligno (câncer) da próstata é uma doença de grande relevância médica e socioeconômica. Trata-se da neoplasia mais prevalente no sexo masculino, quando excluímos os tumores de pele não-melanoma (que baixa repercussão clínica). Dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer) estimam que ocorreram cerca de 72.000 novos casos ao ano (cerca de 30% de todos os cânceres em homens no Brasil) e quase 70 novos casos para cada 100.000 homens no período de 2023 a 2025.
Pelo menos 1 em cada 9 homens será afetado em algum momento da vida, mas, além de sua frequência, também preocupa sua mortalidade, pois é o 2º câncer mais letal, com cerca de 16.000 óbitos anuais no país (aproximadamente 1 a cada 40 minutos).
Esses dados trazem a importância da conscientização sobre o tema, visto que não há estratégias bem definidas de prevenção deste tumor, embora estilo de vida saudável possa reduzir o seu aparecimento (ter alimentação saudável, praticar atividade física e evitar obesidade). Focamos então no diagnóstico precoce, com objetivo de detecção da doença nas fases iniciais (quando os índices de cura são muito elevados), porém, nesta fase, a doença não apresenta sintomas, havendo necessidade de rastreamento.
Este é feito por meio da combinação do exame digital da próstata e da dosagem do PSA (antígeno prostático específico). O primeiro é feito através do toque retal, que pode indicar alterações sugestivas de câncer (como a presença de nódulos), sendo um exame rápido, acessível e indolor. O segundo é a quantificação da proteína produzida pela próstata, que pode estar elevada em casos de câncer. Deve ser ressaltado que ambos são importantes e complementares, então um não substitui o outro, visto que o PSA pode estar com dosagens normais em até 20% das vezes em que há câncer.
Caso haja alteração em um desses, é fundamental seguir com a investigação complementar, que normalmente é feita com biópsia de próstata, mas que pode ser precedida de ressonância magnética do órgão (exame não invasivo e que possibilita melhor seleção dos casos suspeitos, com redução do número de biópsias desnecessárias e melhor identificação focos suspeitos da doença). Somente a biópsia pode estabelecer o diagnóstico do câncer de próstata, além de informar características que determinam o potencial de agressividade da doença. Esta estratégia é extremamente eficaz e possibilitou a queda de mortalidade pela doença nas últimas décadas.
A doença avançada pode se manifestar com perda de peso, fraturas ósseas, retenção urinária, disfunção erétil e presença de sangue na urina ou no esperma, por exemplo, e, muitas vezes, a cura não é possível nesses estágios.
A Sociedade Brasileira de Urologia indica a realização de rastreamento a partir de 50 anos de idade na população masculina geral e a partir de 45 anos nos homens com fatores de risco (histórico familiar de câncer de próstata e/ou etnia negra).
Sabe-se que a evolução clínica do câncer de próstata pode ser bastante variável, com casos que variam de indolência (tumores de baixa agressividade e baixo risco progressão, logo com mínima interferência na morbimortalidade) até doenças de agressividade elevada (com altos riscos disseminação e de mortalidade).
Por essa razão, as condutas devem ser sempre avaliadas para cada caso e o paciente deve ser informado das possibilidades dentro do cenário da sua doença. O conjunto de avaliações clínicas, laboratoriais, de imagem e os achados da biópsia são essenciais na definição de conduta. Assim, tentamos direcionar tratamentos mais agressivos para casos de maior risco, que ainda que tenham maior risco de complicações como incontinência urinária e disfunção erétil, favorecem a cura. Em casos de baixo impacto clínico, procuramos evitar o super tratamento, visto que tem maiores índices de complicação, sem necessariamente impactar na redução de mortalidade, que já seria baixa.
Entre as diversas opções de manejo da doença destacamos: vigilância ativa, tratamento cirúrgico (denominado prostatectomia radical e que pode ser por vias aberta, videolaparoscópica ou robótica), radioterapia, hormonioterapia e quimioterapia. Essas modalidades podem ser empregadas de maneira isolada ou combinada na busca do melhor tratamento para cada paciente, sempre visando maiores índices de cura e menores de complicações, com mais sobrevida e melhor qualidade de vida.
O fluxo histórico e cultural entre África e Brasil tem sido uma fonte rica de trocas, saberes, práticas culturais, tecnologias e redes comerciais. Num momento em que cadeias de valor se reconfiguram, as mulheres negras surgem como protagonistas imprescindíveis da integração econômica entre os dois territórios.
Mais um mês de novembro chega ao fim, e pensar no quanto os nossos negócios impactam positivamente o mercado é motivo para um fortalecimento estratégico e de investimentos condizentes com o valor agregador entre países que crescem mutuamente, por sua cultura, resistência e, principalmente, soluções.
Russa de nascimento, angolana de origem e naturalizada brasileira, Marília Simão é founder e CEO da MAD IN. Ela, que tem uma extensa formação nas áreas da comunicação, marketing e finanças, divide aqui suas percepções e colaboração nessa conexão crescente entre o Brasil e o continente africano.
“Tenho observado, a partir da minha trajetória à frente da MAD IN, uma necessidade sem precedentes de diálogo econômico entre África e Brasil. Esse movimento vai além do comércio; é uma reconstrução de identidade e de propósito entre povos que compartilham raízes e visão de futuro. Nos últimos anos, o comércio entre Brasil e países africanos ultrapassou US$13 bilhões em 2024, segundo o Itamaraty, marcando uma nova fase da cooperação Sul–Sul e abrindo espaço para lideranças femininas e negras”, enfatiza a CEO.
Laços históricos e contemporâneos com territórios africanos mantêm vivas trocas comerciais, e a luta das mulheres negras que desde o período colonial, transformam conhecimentos tradicionais em formas de subsistência, resistência e empreendedorismo. Setores como moda e design afrocentrado, cosméticos e cuidados capilares com base em insumos naturais, agroindústria de produtos típicos, artesanato, gastronomia e economia criativa (música, audiovisual) são exemplos de negócios que convertem autenticidade em diferencial competitivo.
“A juventude africana vive um momento de autodomínio econômico notável. Startups e projetos de impacto social florescem em todo o continente, impulsionando setores como agro, mineração e energias renováveis. Essa força produtiva mostra uma geração disposta a transformar potencial em protagonismo, e o Brasil tem muito a contribuir com tecnologia, experiência e afinidade cultural”, afirma Marília.
Mesmo com potencial evidente, mulheres negras empreendedoras enfrentam obstáculos estruturais que atravessam ambos os lados do Atlântico: acesso restrito a capital, informalidade e falta de capacitação para exportação são alguns exemplos dos desafios. Apesar disso, há oportunidades concretas para ampliar e consolidar a integração econômica de negócios afrocentrados.
“Como mulher negra e líder, acredito que nossa presença em espaços de decisão não é simbólica, é estratégica. Minha virada empreendedora aconteceu em 2020, após encerrar uma sólida trajetória no mercado financeiro em Angola. Da experiência que acumulei nasceu o desejo de criar soluções que unissem estratégia e propósito — foi assim que fundei a H.up Assessoria, empresa que rapidamente se destacou pela excelência em gestão e estruturação financeira”, comenta a empresária.
Carregar um legado de resistência e criatividade empreendedora faz parte dos nossos modos operandi de sobrevivência. Mulheres que enfrentam obstáculos contínuos e triplas jornadas, criam soluções para si e para suas comunidades, muitas vezes sem entenderem, tão somente, a extensão comercial em que se aplica seu modelo de negócio.
“No mês de novembro, celebramos tanto o Dia da Consciência Negra quanto o Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino, datas que simbolizam a resistência e o poder transformador da mulher negra. Na MAD IN, vejo diariamente esse poder se materializar em ação com mulheres como Fatima Martinazzo, Ruth Silva, Barbara Lins e prof. dra Regla Massahud que me auxiliam com suas expertises e, nas mulheres em geral que lideram, criam soluções e constroem pontes entre continentes. Elas representam não apenas o futuro do empreendedorismo, mas o presente da inovação inclusiva”, enfatiza Simão.
Estamos diante de dados que refletem não apenas a dimensão comercial, mas o amadurecimento do mercado global e de finanças entre o Brasil e continente africano — um terreno fértil para parcerias estratégicas e de impacto, que possibilitaram crescimento exponencial tanto para os países quanto para aqueles que vislumbram negócios sustentáveis e lucrativos.
O Guia +Afro, nova plataforma digital da iniciativa Mais Afro, está no ar desde 15 de novembro e inaugura uma fase de expansão no mapeamento e na conexão entre consumidores e profissionais negros no Brasil. O lançamento ocorre em um período simbólico, entre o Dia Internacional do Empreendedorismo Feminino (19/11) e o Dia da Consciência Negra (20/11), evidenciando a força das mulheres e da população negra no desenvolvimento econômico do país.
Criada pela especialista em diversidade e profissional de marketing Aldren Flores, a Mais Afro iniciou seu trabalho em 2019 ao mapear perfis de profissionais negros no Instagram. Desde então, a iniciativa identificou e divulgou quase 3 mil perfis e distribuiu mais de 1.800 bolsas de estudo integrais, contribuindo para formação, qualificação e fortalecimento de carreiras negras. Esse acúmulo de dados e redes sustenta a base que agora compõe a nova plataforma.
O Guia +Afro reúne profissionais de 11 macrotemas, entre eles educação, gastronomia, moda, saúde, tecnologia, cultura, arquitetura e serviços especializados. O sistema permite busca por estado, área de atuação e formato de trabalho, online, híbrido ou presencial, e disponibiliza perfis completos, além de conteúdos editoriais sobre qualificação profissional, carreira, cultura e empreendedorismo.
Aldren destaca que o objetivo é facilitar o acesso a serviços liderados por pessoas negras. “Nosso objetivo é disponibilizar um mecanismo prático para que qualquer pessoa que queira consumir, contratar ou investir em negócios liderados por pessoas negras encontre o que procura de forma fácil, acessível e a um clique”, afirma. Para ela, a plataforma atua tanto na ampliação de visibilidade quanto no fortalecimento da economia. “É sobre visibilidade, sim, mas principalmente sobre movimento econômico e, consequentemente, transformação social.”
O lançamento chega em um cenário no qual a população negra representa 16 milhões de empreendedores no Brasil, segundo o Sebrae. O Relatório Técnico de Empreendedorismo Feminino (2024) aponta crescimento constante de mulheres no empreendedorismo, especialmente em tecnologia e serviços digitais. Nessa expansão, mulheres negras se destacam, ainda que enfrentem maiores barreiras de crédito, visibilidade e remuneração.
A criação do Guia +Afro contou com apoio do programa de aceleração VAI TEC, da ADESAMPA, conduzido pelo Instituto Coria, que ofereceu recurso semente, mentorias e suporte tecnológico. O programa prioriza negócios liderados por grupos historicamente excluídos, mulheres, pessoas negras, LGBTQIAPN+, povos originários, quilombolas e pessoas com deficiência, e dialoga com dados recentes do LinkedIn Economic Graph, que indicam que equipes com maior diversidade têm crescimento até 30% superior em áreas de tecnologia, inovação e criatividade.
No ar desde 15 de novembro, o Guia +Afro funciona por assinatura anual com custo inferior a R$ 15 por mês. Profissionais e empreendedoras negras podem se cadastrar diretamente no site, enquanto pessoas não negras também podem participar ao presentear um perfil para negócios de pessoas negras do seu círculo social ou não.
Viola Ford Fletcher, a sobrevivente mais velha do Massacre Racial de Tulsa de 1921, morreu aos 111 anos, informou o prefeito Monroe Nichols. Fletcher tinha 7 anos quando a comunidade negra de Greenwood foi destruída por uma ofensiva de violência supremacista que permanece como um dos ataques raciais mais graves da história dos Estados Unidos. O acervo do Tulsa Historical Society & Museum reúne documentos oficiais, registros civis, fotografias, depoimentos e mapas que ajudam a reconstruir o cotidiano de Greenwood antes do ataque, as dinâmicas que levaram ao massacre e o processo de apagamento que se seguiu.
Antes de 1921, Greenwood era conhecida como a “Wall Street Negra”, resultado direto do movimento de autossuficiência econômica de famílias negras que, após a Reconstrução, migraram para Oklahoma em busca de trabalho, segurança relativa e acesso à terra. Arquivos preservados pelo museu apontam para um distrito com dezenas de comércios, consultórios, escolas, hotéis, teatros e jornais locais, um polo econômico que contrastava com o ambiente de segregação e com o avanço organizado de grupos supremacistas na região.
O massacre teve início após a acusação contra um jovem negro, amplificada por jornais locais e usada como justificativa para convocar um linchamento. Quando moradores de Greenwood se mobilizaram para impedir o ataque, a situação foi transformada em pretexto para uma ação coordenada de multidões armadas. Entre a noite de 31 de maio e a manhã de 1º de junho, testemunhos reunidos pelo museu descrevem fogo cruzado, invasões domiciliares e prédios incendiados em sequência. Registros municipais e relatórios posteriores indicam que aeronaves foram usadas para lançar artefatos incendiários, ampliando a destruição e impossibilitando a fuga de moradores.
A devastação alcançou cerca de 35 quarteirões. O número de mortos, que à época foi subnotificado, é hoje estimado em até 300, enquanto milhares ficaram sem abrigo. Apesar da magnitude do ataque, nenhum responsável foi julgado. Documentos oficiais analisados por pesquisadores mostram que autoridades municipais e estaduais atuaram para suprimir evidências, impedir indenizações, restringir investigações e normalizar a narrativa de “distúrbio civil”, perpetuando décadas de silêncio e perda documental.
Ao longo da vida, Viola Ford Fletcher combateu esse apagamento. Seus depoimentos, presentes em audiências públicas, entrevistas e registros do próprio acervo de Tulsa, detalham o que viu: corpos nas ruas, casas em combustão, a fuga de vizinhos e a destruição completa da estrutura comunitária que sustentava Greenwood. Sua atuação contribuiu para a reabertura de debates sobre responsabilidade histórica, reparação e preservação de memórias de violência racial no país.
A morte de Fletcher encerra a presença de uma das últimas testemunhas diretas do massacre e marca a continuidade do trabalho de preservação desse capítulo histórico. Para obter acesso completo aos registros, consulte o acervo do Tulsa Historical Society & Museum.
O Sesc Vila Mariana recebe, no dia 29 de novembro, a palestra “Letramento Afetivo e Masculinidade”, conduzida pelo filósofo Renato Noguera, um dos principais nomes da filosofia afro-diaspórica contemporânea no Brasil. A atividade propõe uma reflexão sobre afetividade como prática cotidiana, ética do cuidado e construção coletiva, em contraste com modelos de masculinidade que valorizam distanciamento emocional, negação da vulnerabilidade e rigidez afetiva.
Com vivência familiar como griot (griô), Noguera incorpora à sua atuação intelectual elementos da tradição oral africana. Essa perspectiva aproxima filosofia, ancestralidade e educação, oferecendo ferramentas para pensar afetos a partir de experiências comuns às diásporas africanas. Seu trabalho dialoga com autoras como bell hooks, para quem o amor pode assumir função curativa e política, tornando-se força de resistência e instrumento de reconstrução social.
Em debates públicos, Noguera sustenta que o amor não deve ser reduzido ao campo romântico. Para ele, trata-se de um afeto, um ato e um exercício cotidiano, capaz de sustentar relações, formar comunidades e reorganizar práticas sociais. Suas reflexões também convidam a observar outras expressões de amor, como o platônico, o comunitário, o afro-diaspórico e o poliamoroso — evitando visões universalizantes que desconsideram contextos culturais e históricos.
Autor de livros que cruzam filosofia, mitologia, literatura, ciência e psicanálise, Noguera reúne em sua obra uma compreensão plural dos afetos. Entre seus títulos estão Porque amamos: o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor, Mulheres e deusas: como as divindades e os mitos femininos formaram a mulher atual (2018) e o recente ABC do amor: o que a poesia e a filosofia têm a dizer sobre os afetos.
Renato Noguera nasceu no Rio de Janeiro, em 1972. Graduado em Filosofia pela UFRJ, é mestre pela UFSCar e doutor pela UFRJ. Atualmente integra o Departamento de Educação e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), atuando nos Programas de Pós-Graduação em Filosofia e em Educação (Contemporâneos e Demandas Populares). É pesquisador do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Leafro) e coordena o grupo de pesquisa Afroperspectivas, Saberes e Infâncias (Afrosin), voltado a perspectivas decoloniais e à formação de educadores.
A palestra ocorre no dia 29 de novembro, das 16h às 18h, com entrada gratuita e retirada de ingressos uma hora antes, na Central de Atendimento do Sesc Vila Mariana. São 100 vagas disponíveis (clique aqui). O evento acontece na Rua Pelotas, 141, Vila Mariana, próximo ao Metrô Ana Rosa. O local conta com estacionamento, paraciclo e estrutura completa para o público.
Indicados do Prêmio Potências! 2025 (Foto: Divulgação)
Com o tema “A celebração da voz negra”, o Prêmio Potências! 2025 chega a quinta edição nesta segunda-feira, 24 de novembro, na Sala São Paulo, com uma homenagem especial a Péricles, que celebra 40 anos de uma trajetória marcada por talento, resistência e representatividade.
Idealizado por Julio Beltrão, CEO do prêmio, e produzido pela Mynd, o Prêmio Potências! fez no início do mês de novembro, no Teatro Porto o Potências Day, um verdadeiro esquenta. Um encontro potente que celebrou criatividade, representatividade e o impacto das vozes negras que estão transformando o mercado. Além de dois painéis principais que refletem a pluralidade de vozes que movem o setor, com a presença de Bárbara Brito, Deh Bastos, Isa Silva, M.M. Izidoro, Zé Ricardo e Péricles, o evento apresentou as 13 categorias que valorizam o protagonismo negro na publicidade, na cultura e no entretenimento.
Entre as categorias estão o prêmio Creator do Ano, Profissional do Ano, Artista do Ano, Personalidade do Ano, Música do Ano e Atriz do Ano. Todas estes troféus entregues pelas marcas patrocinadoras.
Grandes nomes que representam a força e a diversidade da criatividade preta contemporânea se destacam nas indicações, como Taís Araújo, Maju Coutinho, Paulo Vieira, Camila Pitanga, Gilberto Gil, Lucas Leto, Mano Brown, Zé Ricardo, Belize Pombal, Liniker, Thiaguinho, Bella Campos, Ludmilla, Gaby Amarantos e Lázaro Ramos, que refletem o impacto da arte e da representatividade na construção de novas narrativas no país.
“O Prêmio Potências nasceu para valorizar o protagonismo preto e reconhecer quem transforma o mercado, a cultura e a sociedade. Hoje, ele se consolida como uma plataforma de influência, negócios e impacto que vai muito além de uma premiação — é um movimento que projeta o futuro”, afirma Julio Beltrão, CEO do Prêmio Potências!
Para ampliar o alcance da celebração e conectar diferentes públicos, a DiaTV — primeiro canal de televisão digital desenvolvido por criadores de conteúdos — e o PodPah, um dos videocasts mais influentes do país, unirão forças para realizar a transmissão simultânea do evento e do black carpet de hoje, 24 de novembro. A parceria promete levar a experiência ao vivo para milhões de espectadores em múltiplas plataformas, consolidando o evento como um dos momentos mais aguardados do entretenimento brasileiro.
O cantor e lenda do reggae Jimmy Cliff faleceu aos 81 anos, conforme comunicado divulgado nesta segunda-feira (24) em seu perfil oficial no Instagram.
A nota, assinada por sua esposa, Latifa, informou que o artista morreu em decorrência de uma convulsão seguida de pneumonia. Considerado uma das vozes mais importantes da música jamaicana, Cliff deixa um legado imenso para a cultura negra mundial.
“É com profunda tristeza que compartilho a notícia de que meu marido, Jimmy Cliff, faleceu devido a uma convulsão seguida de pneumonia. Sou grata à sua família, amigos, colegas artistas e colegas de trabalho que compartilharam sua jornada com ele. A todos os seus fãs ao redor do mundo, saibam que o apoio de vocês foi a força dele durante toda a sua carreira. Ele realmente apreciava o carinho de cada um dos fãs. Gostaria também de agradecer ao Dr. Couceyro e a toda a equipe médica, que foram extremamente atenciosos e prestativos durante este difícil processo. Jimmy, meu querido, que você descanse em paz. Seguirei seus desejos. Espero que todos respeitem nossa privacidade neste momento difícil. Mais informações serão fornecidas posteriormente. Até logo, lenda. Latifa, Lilty e Aken.”
A pesquisa “Raio-X da Vida Real”, conduzida pelo Data Favela, Central Única das Favelas (CUFA) e Favela Holding, oferece uma lente rara e incômoda sobre a dinâmica do tráfico de drogas no Brasil. O Módulo 3 — Vivências, Consumo e Cultura — é particularmente revelador: ao contrário do que prega o senso comum, a vida no crime, para a maioria dos entrevistados, não é um caminho para a opulência, mas sim uma rota de subsistência marcada pelo desejo de estabilidade e uma forte conexão com a cultura negra.
O que o estudo sublinha de forma contundente é que a maioria dos entrevistados não está engajada no crime pela busca desenfreada por bens de luxo, mas sim pela urgência de estabilidade social e familiar. O maior sonho de consumo não é um carro importado, mas sim a conquista da casa própria, desejo que mobiliza mais da metade dos respondentes (53%), sendo que 25% especificamente almejam comprar uma casa para a sua família. Este dado é um poderoso contraponto ao estereótipo do criminoso ostentador, demonstrando que, para este público, o crime serve como uma fonte de sustento e ancoragem, e não de enriquecimento desmedido, reforçando a ideia de que a motivação principal é a necessidade econômica
Apesar da vida na ilegalidade, os padrões de consumo dos entrevistados seguem de perto as tendências de mercado das favelas e periferias. A lealdade a marcas é alta, com poucas empresas dominando a preferência em nichos-chave.
Eletrônicos: Apple (32%) e Samsung (31%) somam quase dois terços da preferência.
Vestuário e Calçados: A Nike é a favorita em roupas (23%) e calçados, liderando o ranking de tênis e chuteiras com uma preferência agregada de 60% (juntamente com Adidas).
Cerveja: A Heineken aparece no topo das cervejas mais citadas (19%), à frente de Brahma e Skol.
No entanto, o uso do sistema bancário tradicional, como Bradesco, Itaú e Caixa Econômica Federal , por parte de quem vive na clandestinidade, sugere a intensa necessidade de terceiros, os chamados “laranjas”, para movimentar o dinheiro, evidenciando as complexas pontes entre o lícito e o ilícito na vida financeira.
Quando o assunto é cultura, o estudo ressalta a importância dos laços de sociabilidade e pertencimento. Os hobbies preferidos são coletivos: jogar futebol (23%), acessar a internet (19%) e socializar com amigos (15%).
O pódio musical é dominado pelos gêneros de matriz negra:
Pagode/Samba (23%)
Funk (21%)
Rap (12%)
As vozes e rostos da cultura negra também são os mais admirados: a cantora Ludmilla (16%) e o cantor Belo (11,6%) lideram as preferências. Entre os atores, Taís Araújo (27%) e Lázaro Ramos (17%) são as figuras mais importantes para os entrevistados.
O que a pesquisa consegue captar de forma pungente, para além dos números, é o dilema existencial. A vida no crime não apenas impõe riscos físicos e mentais (com altos índices de insônia, ansiedade e depressão ), como também restringe a liberdade a ponto de o sonho de uma viagem para “qualquer lugar do mundo” ser inacessível para 66% dos entrevistados.
O Data Favela nos força a ir além da manchete simplista e a compreender que a motivação do crime é, essencialmente, econômica. Não é a busca por iates, mas sim por uma casa segura e pelo sustento da família. A tragédia se completa com a constatação de que, embora não se orgulhem do que fazem (68% disseram não sentir orgulho ) e proíbam seus filhos de seguir o mesmo caminho, a falta de oportunidade lícita, a que se refere a mulher de 27-31 anos: “A falta de oportunidade e também o desejo de coisas melhores” , os mantém aprisionados nesse ciclo.