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“Nossa presença pavimenta caminhos para outras”: Head de Diversidade da Natura, Aline Lima acredita na potência do “é possível”

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Viola Davis já nos ensinou que o grande privilégio dessa vida é ser quem a gente é. Como mulher negra, esse conceito parece ainda mais desafiador, mas a trajetória de profissionais como Aline Lima, head de Diversidade, Equidade e Inclusão da Natura, mostra que as mudanças de carreira e a nossa origem nos tornam mais completos para desfrutar da nossa potência profissional quando a oportunidade certa aparece.

Filha de uma sacoleira e de um metalúrgico, a executiva de 40 anos hoje tem orgulho de onde veio, mas nem sempre foi assim. “Demorei muitos anos para aceitar minha identidade como mulher negra de origem periférica, porque a dor do não pertencimento me atravessava profundamente. Mas reencontrar minha ancestralidade foi o que me devolveu a potência.”

Para Aline, a liderança tem desafios peculiares. “Ocupar uma posição de liderança como mulher negra é simbólico e potente. Representa a possibilidade de abrir a porta por dentro e mostrar que é possível. Mas também carrega uma grande responsabilidade, porque ainda somos poucas nesses espaços.”

Sua existência e resistência trouxe para a Natura um olhar especial para o tema diversidade, mas sua vivência traz a vantagem de uma escuta atenta com um tipo de consumidor historicamente ignorado. Nessa entrevista, ela descreve um momento durante um evento relacionado ao projeto Dandara, uma pesquisa inédita da Natura para estudar os hábitos, desejos e necessidades das mulheres negras e pardas que resultou na celebrada linha Tododia Jambo Rosa e Caju. “Uma fala que me marcou profundamente foi de uma mulher que contou que, na infância, a mãe usava óleo de cozinha para hidratar sua pele, porque não havia produtos feitos para nós. Estávamos falando da chamada ‘pele cinza’, causada pela falta de hidratação e de acesso. Aquilo me atravessou. Porque nos foi negado, por muito tempo, o direito ao cuidado e ao prazer.”

Mundo Negro – Quem é a Aline Lima para além da liderança na Natura? Você pode nos contar um pouco sobre sua trajetória pessoal e as experiências que moldaram sua visão de mundo e de trabalho?

Aline Lima – Sou uma mulher negra, bissexual, de 40 anos, filha de um metalúrgico e de uma sacoleira. Cresci em um lar onde a luta por justiça social era parte do cotidiano, meus pais sempre foram militantes pelos direitos dos trabalhadores e da moradia. Foi nesse ambiente que aprendi sobre dignidade, coletividade e coragem.

Demorei muitos anos para aceitar minha identidade como mulher negra de origem periférica, porque a dor do não pertencimento me atravessava profundamente. Mas reencontrar minha ancestralidade foi o que me devolveu a potência. Foi nesse processo que compreendi que não há como negar quem somos sem, junto disso, negar o que podemos ser. Quando criança, eu sonhava em ser diplomata. Hoje, percebo que, de certa forma, realizei esse sonho. Aprendi a construir pontes, traduzir realidades e conectar mundos, e é isso que faço todos os dias.

Mundo Negro – Em sua caminhada profissional, quais foram os momentos ou decisões que mais contribuíram para você ocupar hoje um cargo de liderança em Diversidade, Equidade e Inclusão? E o que essa posição representa para você como mulher negra?

Aline Lima – Minha trajetória é tudo, menos linear, e eu tenho muito orgulho disso. Hoje estou na minha terceira carreira. Comecei como advogada, atuei em grandes empresas do mundo corporativo, passei pelo terceiro setor, empreendi com foco em impacto social… e cada passo dessa caminhada foi construindo a tecnologia social que hoje levo para dentro das organizações.

Essa pluralidade de experiências, junto com a minha história de vida, me permite liderar a agenda de Diversidade, Equidade e Inclusão com uma perspectiva de negócio, mas também com consciência crítica. Aprendi a traduzir e, muitas vezes, hackear o sistema para provocar transformações reais, aquelas que não são só discurso, mas que geram impacto concreto.

Ocupar uma posição de liderança como mulher negra é simbólico e potente. Representa a possibilidade de abrir a porta por dentro e mostrar que é possível. Mas também carrega uma grande responsabilidade, porque ainda somos poucas nesses espaços. E quando somos poucas, sentimos que tem que dar certo. Não por vaidade, mas porque nossa presença pavimenta caminhos para outras. Isso me move e me enche de orgulho.

Mundo Negro – O projeto Dandara nasce a partir da escuta profunda das mulheres pretas e pardas. O que mais te emocionou ou surpreendeu nesse processo de pesquisa? Há alguma fala ou insight que ficou marcado em você?

Aline Lima – O que mais me surpreendeu foi a potência. Em 2022, estive em Salvador para conduzir rodas de conversa com mulheres negras de diferentes idades e vivências. E, apesar de todo o racismo, exclusão e sobrecarga, o que emergia era uma força visceral, um desejo legítimo de se cuidar, de ser feliz, de dar certo. Era como se, ali, entre tantas histórias, eu estivesse ouvindo a mim mesma. É impressionante o quanto nossas experiências se cruzam enquanto mulheres negras.

Uma fala que me marcou profundamente foi de uma mulher que contou que, na infância, a mãe usava óleo de cozinha para hidratar sua pele, porque não havia produtos feitos para nós. Estávamos falando da chamada “pele cinza”, causada pela falta de hidratação e de acesso. Aquilo me atravessou. Porque nos foi negado, por muito tempo, o direito ao cuidado e ao prazer.

O projeto Dandara mostrou que, quando escutamos com verdade, essas histórias se transformam em inteligência coletiva, e é essa inteligência que guia a inovação. Mais de duas mil mulheres compartilharam suas vivências. E foi dessa escuta profunda, feita com afeto e ética, que nasceu uma solução que nos representa de dentro para fora.

Mundo Negro – Como você tem buscado manter o equilíbrio entre a intensidade do trabalho com pautas estruturais e o cuidado com a sua saúde emocional, seu corpo e suas relações? Quais práticas de autocuidado têm sido essenciais na sua rotina?

Aline Lima – Lidar diariamente com pautas estruturais que nos atravessam exige um compromisso constante com o autocuidado. A psicologia analítica junguiana tem sido um pilar para mim. Sou analista junguiana e faço análise há muitos anos. Escolhi um terapeuta negro, com quem compartilho uma visão política e social alinhada, o que torna a jornada ainda mais potente. Muitas vezes, o que levo para a terapia são os atravessamentos coletivos, e ter alguém que compreende isso com profundidade é essencial.

Minha família é minha base. É onde encontro ombro, riso, amor e sustentação. Tenho também uma rede de aliados e uma equipe incrível. Costumo dizer que minha equipe na Natura são mais de 15 mil pessoas, porque vivo um momento de trabalho em que a colaboração atravessa cargos, áreas e funções.

Respeitar meus próprios ritmos também é fundamental, ter meu momento de ficar em silêncio, de ver uma série, de dançar no samba. Tudo isso me reconecta comigo mesma. O equilíbrio nasce dessa escuta, do corpo, da mente e da alma. E do entendimento de que seguir inteira é também parte da missão.

Mundo Negro – O que você gostaria que outras mulheres negras sentissem ao usar um produto pensado para elas, como a linha Tododia Jambo Rosa e Caju? Mais do que consumo, o que essa experiência de cuidado representa?

Aline Lima – Eu gostaria que elas se sentissem amadas. Amadas por elas mesmas. Que, ao tocarem a própria pele, pudessem lembrar da nossa beleza, da nossa importância, e de como vale a pena se cuidar com afeto, com prazer, com dignidade. Que elas recuperem esse direito, o direito de se olhar com ternura, de sentir orgulho da própria pele, do próprio corpo, da própria história.

Foto: Divulgação

Quero que saibam que, ao passar esse creme, ao sentir essa fragrância, elas não estão apenas se cuidando, estão se conectando a uma rede de mais de duas mil mulheres que partilharam suas vivências para tornar esse produto possível. Isso é potência coletiva. É representatividade cosmética com propósito.

Cada vez que eu uso, eu me lembro, nenhuma mulher negra deveria sentir vergonha da sua pele. O autocuidado, para nós, é também um ato de resistência. É um jeito de dizer ao mundo que ninguém mais vai definir o nosso valor. Que a gente sabe quem é. Que a gente merece. E que, sim, o amor-próprio também pode nascer de um gesto simples, mas cheio de significado.

Os saberes das mulheres negras são valiosos

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Makota Valdina (Foto: Evandro Veiga/Arquivo CORREIO)

Você tem lido as histórias de nossas ancestrais negras? Ou pelo menos tem conversado com mulheres negras que vieram ao mundo antes de você ? 

Neste 25 de julho, data que celebra-se o Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, é importante reforçarmos o protagonismo desempenhado por elas em nossas vidas. 

Esses dias li uma frase da educadora Makota Valdina: “Ação social, aprendi a fazer com a minha mãe: ela era parteira, se metia em clubes de mães, organizava as mulheres, fazia grupos para solicitar água, solicitar luz. Ela era semianalfabeta”. Lembrei da minha mãe, que no passado atuou tanto coletivamente no bairro. Ela chegou a São Paulo nos anos 70, fugindo da exploração dos patrões da cidade onde morava, em Minas Gerais. Na realidade, a cidade tinha pouco a oferecer no campo profissional para as pessoas pobres. Ou você é explorado no campo, ou em “casa de família”. Às vezes, os pais entregavam os filhos para trabalharem em troca de um prato de comida. Pode parecer absurdo, mas era assim que as coisas funcionavam. Suspeito que essa prática ainda persista.

Em São Paulo, considerada terra dos sonhos, poucas coisas mudaram para a minha mãe. O sofrimento continuou sendo a indesejável companhia. Dona Helena mal conseguia escrever o próprio nome, mas sabia manipular o pouco dinheiro que ganhava como ninguém. A escassez não atenuava a sua sede de sobrevivência. E da mesma forma que a mãe de Makota Valdina, e como tantas outras mulheres negras periféricas, utilizou a coletividade como resistência para não dobrar os joelhos diante do racismo estrutural. Quando penso nisso, observo que a comunhão das novas gerações está em decadência entre os desafortunados. Suponho que os instrumentos de dominação estejam mais sofisticados. Outra mulher negra, também mineira, como a Dona Helena, que vivenciou muitas agruras em São Paulo, foi a escritora Carolina de Jesus. A sua obra “Quarto de despejo: Diário de uma favelada” explicita de maneira sensível e honesta a dinâmica da vida na favela, nos anos 50.

Ao revisitarmos a história da população negra no Brasil, constatamos muitos pontos em comum. Com a abolição da escravidão, ela perdeu a condição de mercadoria, ingressou no mercado de consumo e conquistou a autonomia para comercializar a sua força de trabalho. Tristemente, nada disso garantiu que obtivesse menos sofrimento. E, mesmo soando inalcançável a eliminação do racismo, não podemos prescindir da organização. A lição de coletividade é a nossa bússola, precisamos colocar em prática. Sozinhos, as dores são insuportáveis.

25 de julho: a potência do feminino negro

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Foto: Divulgação

Por Rachel Maia

No dia 25 de julho, celebramos o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Essa data, mais do que uma homenagem, é um chamado à reflexão e à ação. Instituída em 1992, durante o 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, em Santo Domingo (República Dominicana), a data marca a luta por igualdade de direitos, visibilidade e justiça social para mulheres que enfrentam múltiplas opressões: de gênero, raça e classe.

E, diante da importância dessa data, compartilho esse momento de luta, reflexão e muitas vitórias com duas profissionais distintas, mas que se complementam não apenas no momento histórico de suas existências — já que têm a mesma idade —, mas, principalmente, por seus feitos como potências sociais, culturais e afro-brasileiras.

Liana Santos, idealizadora e estilista da marca Liana d’Afrika — que está no mercado desde 2016 — já vestiu mulheres que representam, com muita importância, o dia de hoje. Suas criações carregam a missão de celebrar a autenticidade da moda africana e da cultura afro-brasileira, com um toque carioca. Com formação em Design de Moda pela Universidade Cândido Mendes e pós-graduação em Figurino de Artes Cênicas pela Universidade Veiga de Almeida, ela, que é nascida em Niterói, atua como consultora de moda, estilista, figurinista e militante afro, apresentando o que há de mais belo e potente na moda.

“A moda afro-diaspórica surge como ferramenta poderosa de revolução, que vai muito além da estética. Ela se estabelece como forma de expressão cultural, resistência e empoderamento, ressignificando narrativas e reafirmando identidades. Eu costumo dizer que foi na moda e na cultura de matriz afro-brasileira que me conectei com minhas raízes africanas — ‘renasci’. Minhas criações não são só vestuário: cada peça carrega consigo histórias, memórias, símbolos e uma rica herança cultural”, informa Liana.

Rosimeire Cruz é jornalista, graduada pela FMU – FIAM FAAM, atua como redatora e escritora, uma comunicadora que tem colaborado com o fomento da cultura, inserindo jovens periféricos no cenário cultural de São Paulo. Com especializações em Comunicação Digital pela ECA – USP, ela traz, em sua trajetória, expertises de suas vivências profissionais como técnica em eventos — formada pelo Centro Paula Souza —, produzindo e participando de eventos de médio e grande porte, como, por exemplo, a Virada Cultural.

“Escolhi ser jornalista pela convicção no impacto transformador que o trabalho pode gerar. Como comunicadora, vejo a oportunidade de trazer pautas como sustentabilidade, diversidade, equidade, inclusão e cultura para o centro das conversas — conectando essas temáticas a pessoas que desejam fazer a diferença”, afirma a redatora.

O protagonismo das mulheres negras na construção social, econômica e cultural da América Latina e do Caribe é inegável. No entanto, ainda hoje, essas mulheres seguem enfrentando racismo estrutural, desigualdade de oportunidades, invisibilidade na política, na mídia e no mercado de trabalho, além de violência doméstica e institucional.

“Através das estampas autorais africanas, cores vibrantes, adornos e modelagens sofisticadas, a marca promove a valorização da beleza e da identidade negra, desconstruindo padrões eurocêntricos e celebrando a ancestralidade. A moda é intrinsecamente política. Enfatizo: vestir mulheres intelectuais negras significa que as roupas se tornam um manifesto, um grito de resistência contra o racismo, a discriminação e a invisibilidade”, ressalta a estilista.

“O nosso poder está na construção de alicerces para criar nossas narrativas sem sermos interrompidas. Meus feitos são bem maiores que minhas dores — e são esses feitos, construídos com o protagonismo das mulheres da minha família, como a minha avó Maria, que me dizia insistentemente em nossos encontros: ‘minha filha, quem dá valor a nós, somos nós mesmas’, que me movem cheia de esperança”, ressalta a jornalista.

Toda vez que ouço histórias como essas, faço uma reflexão sobre tudo que construímos juntas até aqui. Liana, Rosimeire, Maria: por nossas mães, tias, avós, vizinhas, mestras. Somos muitas, e não vamos parar. Percebam a importância de darmos as mãos e seguirmos. A cultura que nos envolve é transformadora, e o nosso poder de criação nos oportunizou não apenas ocupar espaços, mas também reinventá-los — com afeto, coragem e propósito.

“Criar moda atemporal é um dos conceitos da marca, mas impactar mulheres periféricas, através da valorização da mão de obra local e prover inclusão oferecendo novas perspectivas, por meio de projetos sociais ofertados — como o Costurando Memórias Ancestrais —, demonstrando que costura e moda podem ser uma força transformadora, capaz de gerar valor cultural, social e econômico, é o meu grande feito”, enfatiza Liana.

“Há muitos talentos nas periferias, e eu acredito que há também uma oportunidade de conexão ampla entre realidades econômicas distintas. Acredito no acesso à pluralidade cultural, e isso só acontecerá de fato quando pararmos de isolar as pessoas e separá-las por estereótipos ou classe social. É preciso circular e conhecer a diversidade artística, musical e de vivência de cada indivíduo, e isso nos fortalecerá como nação. Nossa cultura é riquíssima, mas o acesso, limitado”, ressalta Rosimeire.

Esse não é apenas um desabafo ou uma homenagem. É um chamado. Um convite para reconhecermos, juntas, o que já conquistamos — e o quanto ainda podemos transformar. Cada nome citado carrega consigo uma história de luta, afeto, coragem e reconstrução. E por trás de cada nome, há centenas de outras mulheres que se levantam, todos os dias, com a força de quem cria o novo mesmo quando o mundo insiste em negar espaço.

Celebrar o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é reconhecer uma história de resistência, ancestralidade e potência. É também uma oportunidade de rever nossos papéis sociais, ouvir novas vozes e fortalecer a luta por uma sociedade mais justa, diversa e inclusiva.

Seguimos, por aquelas que resistiram e abriram caminhos para que hoje possamos sonhar com mais liberdade — e porque o futuro que sonhamos é coletivo e já começou a ser tecido por nós.

Viva Tereza de Benguela!

“Raízes do Amanhã” reúne lideranças negras femininas para debater justiça climática e sustentabilidade em São Paulo

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Evento gratuito acontece no Centro Cultural São Paulo com presença de mulheres negras do Brasil e do exterior que atuam nas áreas de inovação, impacto social e equidade racial

No próximo sábado, 26 de julho, o Centro Cultural São Paulo recebe o evento “Raízes do Amanhã: Liderança, Justiça e Inovação para um Futuro Sustentável”, iniciativa que integra a agenda do Julho das Pretas com foco na valorização da liderança negra feminina frente aos desafios climáticos, sociais e estruturais.

Idealizado pelo Instituto Social Espaço Negro, por meio do coletivo Mulheres de Raça, em parceria com o Coletivo Nzinga, o encontro tem entrada gratuita e pretende reunir o público em um espaço de escuta, trocas e articulações sobre justiça climática, equidade racial e sustentabilidade, a partir de uma perspectiva interseccional, antirracista e protagonizada por mulheres negras.

A programação contará com painéis e rodas de conversa conduzidos por nomes que se destacam nos ecossistemas de inovação, tecnologia e transformação social. Entre as convidadas confirmadas estão:

  • Margaret Spence (EUA) – CEO da C. Douglas & Associates e fundadora do The Employee to CEO Project, que prepara mulheres negras para cargos de liderança;
  • Ana Minuto, da Minuto Consultoria;
  • Amanda Graciano, da Trama Consultoria;
  • Alessandra Benedito, da Fundação Lemann;
  • Bárbara Barboza, da Oxfam Brasil.

A mediação dos painéis será feita por mulheres negras com trajetória nos campos da sustentabilidade e equidade, como Giovana Santos, Ariene Salgueiro, Débora Souza, Jamile Barreto e Débora Montibeler. A condução geral do evento ficará por conta de Regina Costa, com acolhimento das anfitriãs Nalva Moura e Cris Filipe.

Além de destacar experiências e estratégias de atuação, o evento busca fortalecer redes de apoio, inspirar novas lideranças e ampliar o debate sobre a presença negra em espaços de decisão, com atenção especial à urgência da justiça climática como pauta transversal.

“O Raízes do Amanhã é mais do que um evento — é um espaço de afirmação, estratégia e conexão entre mulheres negras que estão pensando e construindo o futuro agora”, afirma a organização.

A iniciativa conta com o apoio de empresas como Endemol e Farmax, que se somam ao compromisso de fomentar ações voltadas à diversidade, justiça social e ambiental.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo Sympla. As vagas são limitadas.


Serviço

Raízes do Amanhã: Liderança, Justiça e Inovação para um Futuro Sustentável

📅 Data: Sábado, 26 de julho de 2025

🕑 Horário: Das 14h às 20h

📍 Local: Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, SP

🎟 Entrada gratuita – Vagas limitadas

🔗 Inscrições: [Sympla – Raízes do Amanhã]

“Eu não estou ali apenas para vender, estou para acolher”: Consultoras negras da Sephora transformam a jornada de beleza de outras mulheres negras

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Fotos: Divulgação

A experiência de compra de mulheres negras em espaços de prestígio ganha mais leveza em lugares onde há representatividade. As micro-agressões que muitas delas sofrem — ao serem subestimadas, ignoradas ou receberem um mau atendimento, geram frustração. É especialmente doloroso quando essa mulher conquista poder aquisitivo para consumir o que deseja, mas ainda precisa lidar com o racismo, comprometendo um momento que deveria ser agradável para todas.

A pesquisa “Racismo no Varejo de Beleza de Luxo” revelou que, para 59% dos entrevistados, os atendentes são os principais responsáveis pelas experiências de discriminação. Como resultado, 52% dos consumidores negros desistem da compra, 54% não retornam à loja e 29% optam por comprar online.

Ter vendedoras negras faz a diferença. “Eu não estou ali apenas para vender, estou para acolher, escutar e garantir que cada cliente negra se sinta pertencente”, explica Elisabete Souza da Silva, consultora de vendas da Sephora em Salvador. Ela relata como é gratificante perceber que clientes negras voltam à loja e a procuram, justamente por sentirem que há ali alguém que compreende não só os produtos, mas também suas necessidades e vivências. Nessas trocas, tanto a consultora quanto a cliente se sentem valorizadas.

Elisabete Souza da Silva, consultora de vendas da Sephora em Salvador – Foto: Reprodução

“Trabalhar em uma marca que valoriza a diversidade e a representatividade é, para mim, mais do que um emprego, é um espaço de afirmação. Como mulher negra, sei o quanto é importante nos vermos refletidas em todos os lugares, especialmente no universo da beleza. Isso influencia diretamente meu dia a dia, porque me sinto à vontade para ser quem sou, e isso se reflete no meu atendimento: natural, empático e verdadeiro”, detalha Elisabete. Segundo ela, é comum ver clientes retornando para serem atendidas por ela por se sentirem mais confortáveis e seguras. “Não é sobre aparência apenas, é sobre vivência compartilhada.”

A Gerente de Recursos Humanos da Sephora Brasil, Luciana Marcondes, comenta as estratégias da marca para garantir uma experiência que ainda é rara quando falamos da vivência de consumidores negros em espaços de prestígio. “Este é um tipo de experiência que vai além do produto: é sobre pertencimento, reconhecimento e negócio. Pessoas negras movimentam milhões no mercado de beleza. Quando o espelho reflete não só a beleza, mas também a identidade, a jornada de compra se transforma em um momento de cura e celebração”, detalha.

A Gerente de Recursos Humanos da Sephora Brasil, Luciana Marcondes – Foto: Divulgação

Luciana também destaca o poder da representatividade: “Ela gera conexão imediata. E muda tudo. Não só como colaboradora, mas também como consumidora de algumas marcas do grupo, é muito bom encontrar um consultor que entenda a textura do meu cabelo ou o produto certo para o meu tom de pele.”

Essa escuta qualificada também é praticada por Renata Helena de Azevedo, consultora de vendas da Sephora no Rio de Janeiro. “Vai muito além da estética. Saber que eu consigo ajudar alguém a revelar o cabelo natural, que antes era motivo de insegurança, ou mostrar que todas podemos usar um batom vermelho e nos sentir sensuais, é devolver a liberdade de se sentir bem na própria pele. Posso mostrar que podemos ousar, usar de tudo e estar em todos os lugares. Isso me dá muito orgulho do que faço.”

Renata Helena de Azevedo, consultora de vendas da Sephora no Rio de Janeiro.

Renata lembra da história de uma cliente que usava produtos que não gostava, com medo de mudar. A empatia da consultora, aliada ao conhecimento técnico, foi essencial. “Ela estava resistente a conhecer produtos novos. Eu sabia exatamente o motivo. Com muita conversa, ela foi se abrindo e percebendo que não precisava usar só blush laranja, que ela nem gostava. Saber que melhorei a relação dela com a beleza é desmistificar imposições e devolver a ela a segurança. É muito satisfatório.”

Principais dúvidas das clientes negras da Sephora

Ir a uma loja da Sephora em qualquer lugar do mundo é encontrar um espaço que investe na diversidade de produtos, seja por cor da pele, textura do cabelo ou idade. No Brasil, o país mais negro fora da África, atender à demanda de consumidores negros significa lidar com um público que só muito recentemente passou a ter produtos pensados para suas características.

Nesse sentido, a representatividade no ponto de venda ultrapassa o discurso cultural e se torna um diferencial de negócio. Consultoras que entendem a dor do cliente vendem mais, e antes de comprar, essas clientes se sentem mais seguras para tirar dúvidas quando veem diversidade no atendimento.

Mas afinal, quais são as dúvidas mais comuns? Elisabete, de Salvador, conta: “A maior dúvida está na tonalidade da base. Muitas ainda não sabem identificar o subtom da pele. Também perguntam muito sobre contorno e blush,  o que realça nossa pele sem apagar ou acinzentar.”

Em relação aos cabelos, ela aponta que a busca por definição para fios crespos e cacheados lidera os questionamentos. Renata, no Rio, complementa: “Muitas não sabem que a pele negra também tem subtom, e por isso não acham a cor ideal. E sempre perguntam qual o melhor pente, já que nosso cabelo tem diferentes texturas e, no geral, é mais fino.”

Para ela, o destaque de vendas entre clientes negras é a Fenty Beauty. “Não dá para falar de maquiagem para pele negra sem falar da Fenty. Ela revolucionou não só pela variedade de tons, mas por considerar subtons e texturas. Para pessoas negras, é a primeira marca de escolha.”

Confira as cidades que recebem a Marcha das Mulheres Negras neste mês de julho

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Foto: Marcha das Mulheres Negras

Em todo o país, coletivos, comitês e organizações de mulheres negras estão ocupando praças e ruas em atos que celebram e reivindicam o 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela. As manifestações fazem parte da preparação para a Marcha das Mulheres Negras de 2025 e reforçam o protagonismo das mulheres negras nas lutas antirracistas, anticapitalistas e contra as múltiplas opressões de gênero.

Essas ações, conhecidas como pré-marchas, estão sendo organizadas em diversas cidades e territórios para reafirmar a força política das mulheres negras, e mostrar que elas seguem se organizando coletivamente em defesa de seus corpos, territórios, saberes e direitos.

Confira o cronograma das mobilizações já confirmadas:

São Paulo
25/07 – 17h
Local: Praça da República – São Paulo/SP
Instagram: @marchamulheresnegras

Rio de Janeiro
27/07 – 10h
Local: Praça Lido / Copacabana – RJ
Instagram: @femnegrasrj

Bahia
25/07 – 14h
Local: Praça da Piedade – Salvador/BA
Instagram: @comitebadamarcha2025

Alagoas
25/07 – 14h
Local: Antiga Av. Amélia Rosa / Monumento Guerreiro – AL
Instagram: @marchadasmulheresnegrasAL

Amazonas
25/07 – 17h
Local: Largo do Sebastião – Manaus
Instagram: @comiteammarchamnegras

Ceará
25/07 – 17h
Local: Praça 23 de Junho – Eusébio/CE
Instagram: @marchamulheresnegrasce

Maranhão
25/07 – 15h
Local: Praça Deodoro, Centro Histórico – São Luís/MA
Instagram: @grupomaeandresa

Pará
25/07 – 17h
Local: Escadinha da Estação das Docas – Belém/PA
Instagram: @mulheres.negras.amazonidas

Paraíba
25/07 – 16h
Local: IFPB (Campus Cabedelo) – PB
Instagram: @comitepbdamarcha2025

Pernambuco
25/07 – 15h
Local: Praça 13 de Maio – Recife/PE
Instagram: @marchadasmulheresnegrasPE

Rio Grande do Sul
25/07 – 17h
Local: Av. Borges de Medeiros nº 1501 – Porto Alegre/RS
Instagram: @mulheresnegrasrs

Pelotas (RS)
26/07 – 16h
Local: Pelotas/RS
Instagram: @mulheresnegrasrs

Essas mobilizações são convites abertos para quem acredita na urgência de uma sociedade antirracista e igualitária. A presença das mulheres negras nas ruas segue sendo um grito coletivo por justiça, memória e futuro.

Para saber mais sobre a Marcha das Mulheres Negras 2025 e outras ações em andamento, acompanhe os perfis regionais nas redes sociais ou procure os comitês locais em sua cidade.

A importância da legalização dos negócios por empreendedores que iniciam na Gastronomia

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Breno Cruz (Foto: Divulgação)

A convite do Instituto Feira Preta e do Instituto Assaí participei do Feira Preta Cria – Gastronomia para construirmos junto com uma turma de 20 empreendedoras na cidade de Cachoeira o significado da importância de legalização dos negócios por pessoas que estão comercializando alimentos e bebidas. Trouxe minha trajetória à frente da curadoria do Festival Gastronomia Preta, que acontece no Rio de Janeiro, para ampliarmos a visão em relação aos benefícios de ser MEI – Micro Empreendedor Individual. Não é meu objetivo neste artigo de opinião problematizar as disfunções sociais desta categoria.

A frente da feira gastronômica que ocorre no Festival Gastronomia Preta desde 2023, tive a possibilidade de aprender na prática especificidades do setor de eventos que adiante tratarei neste texto. O mais importante agora é compreender que o MEI possui benefícios que muitas vezes são desconhecidos, como, por exemplo, aqueles relativos à previdência. Você sabia, por exemplo, que ao ser MEI e cumprir com suas obrigações mensais (pagar os impostos) é possível ter auxílio doença ou salário maternidade? Além destes e outros benefícios, aquele mais importante que tem relação com as vendas é a possibilidade de emissão de nota fiscal.

Por vezes ouvi queixas de empreendedores que deixaram de fechar uma boa venda em função de não terem a possibilidade de emitir uma nota fiscal; ou, que a nota fiscal que poderiam emitir não tinha relação com a atividade de alimentos e bebidas. Logo, a primeira coisa a saber é que não basta ter CNPJ e poder emitir nota fiscal – é necessário que a atividade registrada contemple a produção e comercialização de alimentos e bebidas. O CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) do MEI ou de uma empresa que queira comercializar alimentos deve ser para fornecimento de alimentos e bebidas. Por exemplo, uma empresa de tecnologia com CNAE desta área não pode emitir nota fiscal para comercialização de alimentos.

Breno Cruz (Foto: Divulgação)

Legalizar sua atuação como empreendedor(a) no ramo da gastronomia pode ter impactos positivos na aceleração da sua trajetória profissional. Só é possível vender para empresas quando se tem o CNPJ. Isso acontece porque cada empresa deve prestar contas à Receita Federal sobre as transações que ela faz (compra e venda) no decorrer de cada ano. Ou seja, não há jeitinho brasileiro para essa questão: ou se tem ou não tem CNPJ para emitir nota fiscal para aquele serviço prestado. De acordo com o Governo Federal, no mês de Maio de 2025, o valor mensal a se pagar de impostos é de R$ 75,90 relativo ao MEI mais R$ 5,00 de ISS e mais R$ 1,00 de ICMS.

Em um primeiro momento, este valor pode parecer alto para quem está começando; todavia, os benefícios atrelados a este valor (principalmente os previdenciários – aposentadoria por idade ou invalidez, pensão por morte e auxílio doença) parecem trazer segurança ao micro empreendedor individual em algum caso de impossibilidade de realizar seu trabalho.

A partir do momento que você possui o CNPJ e pode emitir nota fiscal, você também pode participar de eventos – como a Feira Preta e o Festival Gastronomia Preta. Os eventos são fonte de renda que ajudam no aumento de vendas dos empreendedores. Mas eles são específicos para cada cidade ou estado no que diz respeito à documentação. Especificamente no Rio de Janeiro, qualquer empreendedor de alimentos e bebidas terá que ter a Licença Sanitária de Atividades Transitórias e Autorização de Funcionamento Provisório.

  • LSAT – Licença Sanitária de Atividades Transitórias: concedida com prazo máximo de 180 dias, à pessoa física ou jurídica, para cada atividade sujeita à vigilância sanitária exercida em eventos realizados em área pública ou privada; ao organizador do evento; a ambulantes
  • Autorização de Funcionamento Provisório (SEFAZ): para fazer o requerimento do alvará é preciso entrar em contato com a prefeitura da cidade (geralmente a Secretaria de Fazenda) e realizar o preenchimento de todas as informações obrigatórias. 

Eu sempre sugiro aos expositores do Festival Gastronomia Preta que busquem uma consultoria de um despachante – que é um profissional que tem o conhecimento da documentação necessária para regularizar a sua atividade em um evento. Adicionalmente, eu sugiro realizar gratuitamente o Treinamento Noções básicas de higiene na manipulação de alimentos da Prefeitura do Rio de Janeiro. Não é obrigatório, mas qualifica ainda mais sua experiência como empreendedor(a) no ramo da Gastronomia. Neste treinamento você aprende noções básicas de manipulação que pode ajudar a evitar ter problemas com a Vigilância Sanitária.

Zelando pela imagem do Festival Gastronomia Preta, exigimos que todo expositor apresente o certificado deste treinamento. Afinal, primeiro eles se protegem quanto ao atendimento das normas e regras de higiene; e, consequentemente, nos protege de alguma intervenção que pode prejudicar a imagem do evento.

Por fim, legalizar sua atuação no ramo da Gastronomia é o primeiro passo para acelerar suas vendas – e esse não é um olhar romantizado (não sou consultor do Sistema S). Fazer sua formalização pode te abrir portas para você acessar espaços de comercialização para seus produtos ou serviços.


Texto: Breno Cruz [@pretogourmet]. Professor efetivo do Departamento de Gastronomia da UFRJ; Doutor em Administração e Pós-doutor em Comunicação; especialista em Responsabilidade Social Corporativa; autor de 12 livros e mais de 180 resumos e artigos completos em congressos e revistas acadêmicas nacionais e internacionais; jurado da Forbes Under 30 na área de Gastronomia e do reality show Vida de Merendeira; criador do Prêmio Gastronomia Preta, do Pretonomia – um curso de extensão da UFRJ que qualifica pessoas pretas e pardas em vulnerabilidades na região metropolitana do Rio de Janeiro e também criou o Festival Gastronomia Preta. Nas redes sociais é conhecido como Preto Gourmet e é colunista do Notícia Preta e da Revista Bares e Restaurantes da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes.

Esse conteúdo é fruto de uma parceria entre Mundo Negro e Feira Preta.

Museu Afro Brasil contesta manifesto sobre demissão de diretor artístico e conselho majoritariamente branco: “equipe qualificada e diversa”

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Foto: Divulgação/Museu Afro Brasil

Cerca de um mês após a demissão do diretor artístico Hélio Menezes e a renúncia dos conselheiros Wellington Souza e Rosana Paulino no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, em São Paulo, cerca de 800 artistas e intelectuais assinaram um manifesto em defesa do curador, famoso no cenário artístico global, e que também esteve à frente da última Bienal de São Paulo.

“É de se causar estranheza, portanto, como uma pessoa de tamanha qualidade profissional e que em pouco tempo tem conseguido trazer o museu novamente para o cenário nacional como um espaço de importância para a cultura brasileira tenha sido dispensado sem um amplo diálogo com a comunidade artística”, diz o documento assinado por Grada Kilomba, Camila Pitanga, Conceição Evaristo, Ailton Krenak, entre outras grandes personalidades. 

“Ainda, é preocupante saber que o conselho administrativo e a assembleia constituinte deste museu são formados, majoritariamente, por pessoas brancas e de pouca relevância na área cultural e artística”, denuncia o manifesto.

Diante da repercussão do manifesto, o Museu Afro Brasil divulgou uma nota pública para a imprensa, nesta quinta-feira (24), para explicar a demissão do diretor artístico e as críticas ligadas à poucas pessoas negras que representam a instituição. 

Diferente do que afirma o ex-diretor artístico Hélio Menezes, os ex-conselheiros e o texto do manifesto, a instituição afirma que “a maioria dos membros dos Conselhos de Administração e Fiscal é composta por pessoas negras, incluindo a Presidência e a Vice-Presidência. Toda a diretoria da Associação é formada por pessoas negras, assim como a maioria do corpo gerencial, evidenciando o compromisso da AMAB com uma liderança representativa, coerente com a missão do Museu.”

Para a associação, o gesto de renúncia dos conselheiros em solidariedade à Hélio Menezes foi registrado com respeito, mas nega que a decisão foi tomada “com base em critérios técnicos, jurídicos e administrativos, orientada pela estabilidade institucional e pelo interesse público”.

Em nota, o ex-diretor artístico havia acusado o Museu Afro Brasil de práticas de pessoalismo e pouca transparência. No entanto, a Associação Museu Afro Brasil Emanoel Araujo (AMAB) “refuta veementemente qualquer insinuação de que a decisão adotada decorra de motivações pessoais ou de práticas não transparentes. O processo seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, da transparência e da responsabilidade institucional, que norteiam todas as ações desta Associação.”

O Museu Afro Brasil afirma que entre os motivos para o desligamento de Hélio Menezes está ligada a exigências como “reajustes salariais automáticos e garantias financeiras pré-fixadas, incompatíveis com os princípios da legalidade, economicidade e interesse público que regem as Organizações Sociais.”

“Mesmo sem contrato definitivo assinado”, a instituição afirma que a AMAB cumpriu integralmente todas as obrigações acordadas com o então diretor, porém “ao final do processo, foi também proposta a possibilidade de readequação da função, na forma de contrato de prestação de serviços como curador autônomo — proposta que não foi aceita”.

“A AMAB lamenta profundamente que uma divergência contratual, de natureza institucional e administrativa, tenha sido exposta de forma parcial e descontextualizada, sem a observância dos canais formais de interlocução”, afirma em nota. 

Leia a nota completa do Museu Afro Brasil:

O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, prestes a completar 21 anos de existência, reafirma seu compromisso inabalável com a valorização da história, da arte e da cultura afro-brasileira. Sustentado por um projeto coletivo e de caráter público, o Museu foi construído ao longo de décadas por centenas de profissionais, artistas, curadores, educadores e gestores profundamente comprometidos com sua missão institucional.

Fundado por Emanoel Araujo, artista, curador e intelectual de importância ímpar para o país, o Museu preserva e projeta seu legado desde seu falecimento em 2022. A continuidade da programação cultural, a preservação de seu valioso acervo e a regularidade de suas atividades demonstram a solidez da governança e o comprometimento de sua equipe técnica, curatorial, administrativa e educativa.

Importa lembrar que o Museu não é apenas um espaço expositivo: sua atuação envolve educação, pesquisa, preservação da memória, publicação de livros e catálogos e formação de público, em diálogo constante com escolas, universidades, territórios periféricos e instituições culturais de todo o país.

Diante das manifestações públicas relacionadas à saída de um ex-diretor artístico, a Associação Museu Afro Brasil Emanoel Araujo (AMAB), entidade gestora da instituição, vem a público esclarecer:

A destituição do referido diretor foi deliberada pelo Conselho de Administração da AMAB em 2 de junho de 2025 e ratificada pela Assembleia Geral em 16 de junho, em conformidade com os ritos estatutários vigentes. A decisão foi precedida de mais de 13 meses de negociações, acompanhadas por assessorias jurídicas independentes, voltadas à formalização de um contrato de trabalho que se mostrasse juridicamente viável e compatível com os parâmetros legais e orçamentários definidos pelo Contrato de Gestão firmado com o Governo do Estado de São Paulo.

Entre os principais impasses, estiveram exigências como reajustes salariais automáticos e garantias financeiras pré-fixadas, incompatíveis com os princípios da legalidade, economicidade e interesse público que regem as Organizações Sociais. Os recursos geridos pelo Museu são públicos e vinculados a metas pactuadas, estando sob fiscalização permanente da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, do Tribunal de Contas do Estado e do Ministério Público, o que impõe rigor e transparência em todas as instâncias de gestão.

Contratações, demissões e destituições são prerrogativas legais das instituições, desde que amparadas por seus estatutos e pela legislação vigente — como ocorreu neste caso, com base em deliberação colegiada e devidamente registrada.

Durante o período de vínculo, mesmo sem contrato definitivo assinado, a AMAB cumpriu integralmente todas as obrigações acordadas com o então diretor: remuneração, encargos legais, férias e benefícios foram assegurados com regularidade e boa-fé. Ao final do processo, foi também proposta a possibilidade de readequação da função, na forma de contrato de prestação de serviços como curador autônomo — proposta que não foi aceita. Todas as tratativas com o ex-diretor artístico foram devidamente documentadas e contaram com o acompanhamento de dois escritórios de advocacia independentes, especializados na gestão de organizações sociais.

A AMAB lamenta profundamente que uma divergência contratual, de natureza institucional e administrativa, tenha sido exposta de forma parcial e descontextualizada, sem a observância dos canais formais de interlocução. Divergências são naturais em ambientes colegiados e democráticos; entretanto, a forma como esta foi trazida à esfera pública contraria os princípios das boas práticas de governança e o respeito à ética institucional.

Quanto à renúncia de dois conselheiros, em solidariedade ao ex-diretor, o gesto foi registrado com respeito. A AMAB reafirma que a pluralidade de visões é bem-vinda nos processos institucionais, mas reitera que a decisão de destituição foi tomada com base em critérios técnicos, jurídicos e administrativos, orientada pela estabilidade institucional e pelo interesse público.

O processo de transição está em curso, com a criação de um conselho curatorial e a continuidade de uma agenda institucional comprometida com a excelência artística, a representatividade e o compromisso com o público.

O Museu é conduzido por uma equipe qualificada e diversa. A maioria dos membros dos Conselhos de Administração e Fiscal é composta por pessoas negras, incluindo a Presidência e a Vice-Presidência. Toda a diretoria da Associação é formada por pessoas negras, assim como a maioria do corpo gerencial, evidenciando o compromisso da AMAB com uma liderança representativa, coerente com a missão do Museu.

A AMAB refuta veementemente qualquer insinuação de que a decisão adotada decorra de motivações pessoais ou de práticas não transparentes. O processo seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, da transparência e da responsabilidade institucional, que norteiam todas as ações desta Associação.

É fundamental reconhecer que uma instituição pública, com mais de duas décadas de trajetória, não pode ser reduzida à história individual de nenhum de seus integrantes. Seria injusto com os artistas, técnicos, curadores, educadores, conselheiros, gestores e com o público que, diariamente, constroem e sustentam um projeto de relevância nacional e internacional.

A Associação Museu Afro Brasil Emanoel Araujo segue firme em seu compromisso com a ética pública, com o legado de Emanoel Araujo e com a valorização da cultura negra brasileira.

Seguiremos adiante com serenidade, responsabilidade e compromisso público, cientes de que preservar e projetar o legado de Emanoel Araujo é uma tarefa coletiva, inadiável e profundamente necessária.

Cremação do corpo de Preta Gil levanta debate entre os adeptos do candomblé; entenda o caso

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Foto: Reprodução/Instagram

A família de Preta Gil anunciou, na quarta-feira (23), que o corpo da cantora será cremado, atendendo a um de seus desejos. Por não ser uma prática comum entre os adeptos do candomblé, a decisão surpreendeu muitas pessoas.

Existe uma simbologia de que o corpo é o início de tudo. Em entrevista ao Mundo Negro, o babalorixá Rodney William contou que existe uma história em que a orixá “Nanã deu a Oxalá o barro para moldar nossos corpos. Eles teriam feito um acordo de que no momento da morte esse corpo seria devolvido à sua origem, ou seja, à Terra. Por isso, muitos defendem que nós do candomblé não podemos ser cremados.”

No entanto, apenas no candomblé, há diferentes nações e tradições, e de acordo com o próprio babalorixá, “não existe nenhuma proibição formal”, sobre a cremação dos corpos, e “cabe à família decidir o que fazer”. 

A morte não existe para as religiões de matriz africana. Em uma entrevista recente à revista Quem, o babalorixá de Preta Gil, conhecido como Pai Celinho, falou sobre a espiritualidade da cantora e os preparativos para a volta ao Orum – um lugar sagrado, onde o espírito se junta aos seus ancestrais e aos Orixás para uma vida eterna. 

“Preta foi cuidada espiritualmente. A primeira casa que ela fez alguma obrigação foi no Gantois, em Salvador, mais ou menos com 15 anos. Também faço parte do Gantois [terreiro em Salvador] e nos foi acordado, por Mãe Carmem, que ela seria cuidada por mim, pelo Ilé Ase Obalúwáiyé Jagun”, explicou.

Preta Gil era filha de Oxum, e embora não tenha sido iniciada – seguindo uma tradição do candomblé para os filhos de santo, Pai Celinho explica que isso não significa que ela foi menos abençoada.

“Uma pessoa que teve todo esse processo, essa pessoa está evoluindo. O espírito dessa pessoa está evoluindo. Ela entra num processo de evolução muito rápido, principalmente por ter sido uma doença terminal. Então, ela está muito bem neste momento”, afirmou.

O Mundo Negro tentou entrar em contato com o Pai Celinho, mas não teve retorno até o fechamento da matéria. 

Hoje ninguém mais quer ser branco. A pergunta é: quando vão deixar de ser racista?

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Foto: Divulgação

Por Etiene Martins

Hoje, ninguém mais quer ser branco. Pelo menos, não publicamente. Em eventos que celebram a produção intelectual e artística negra, como o festival LEAD no Museu do Amanhã e o curso ministrado por Conceição Evaristo na Fundação Casa Rui Barbosa, o que eu tenho visto são mulheres brancas, ocupando cargos de poder, tentando reconfigurar sua identidade racial.  

No dia 14 de junho, fui ouvir Chimamanda Ngozi Adichie. Cheguei cedo, me achando linda vestindo Naya Violeta, uma estilista negra de Goiânia, e me sentei na primeira fileira pra ficar bem pertinho da minha romancista africana preferida. Vai que eu consigo tirar uma fotinho com ela? A expectativa era ouvir tudo que a grandiosa escritora nigeriana tinha a dizer. O painel foi mediado por duas mulheres negras incríveis: Ana Paula Xongani na apresentação e Aline Medlej fazendo as perguntas.

Mas antes do início do painel, a fala institucional de Bia Lima, supervisora de inclusão da Fundação Roberto Marinho, que se auto descreveu como “negra”, gerou espanto. Trata-se de uma mulher visivelmente branca de traços finos, pele clara, cabelos lisos, sendo tratada socialmente como branca. Ouvi aquilo e quase duvidei da minha sanidade. Confirmei com quem estava por perto: todos ouviram o mesmo. Fiz um story indignada e segui. Afinal, não seria a branquitude que me tiraria a alegria de ouvir Chimamanda.

O episódio ficou sem resposta. O perfil da Fundação Roberto Marinho visualizou, mas não se posicionou. Como já era o esperado.

Uma mês depois, outra escritora negra de renome: Conceição Evaristo. A primeira aula de seu curso, transmitida online, reuniu milhares de pessoas. A anfitriã, Andreia Terra, chefe de gabinete da Fundação Casa Rui Barbosa, iniciou a transmissão se descrevendo como:  “eu sou uma mulher de pele marrom e de cabelo meio marrom também”. Pausei o vídeo, voltei, ouvi de novo. Era uma mulher branca tentando se apresentar como não-branca.

A reação foi imediata no chat: questionamentos, indignações, chamadas de atenção. No intervalo, Silvany Euclênio pediu generosidade ao público. Disse que Andreia havia feito uma autocrítica. De fato, ao retornar, ela afirmou: “No inicio da noite de hoje na minha auto descrição eu disse: eu sou uma mulher marrom, para me descrever. Eu falei essas palavras. Eu recebi críticas por isso  e críticas que eu compreendo e acolho. Falando agora sobre a minha autodeclaração eu sou uma mulher parda, filha da minha mãe preta e do meu pai branco.  A minha pele clara sempre gerou dúvidas e confusões em mim e em toda a minha família sobre como me identificar racialmente. As críticas que recebi  me provocaram a reflexão com mais profundidade sobre minhas origens, o meu lugar e minhas responsabilidades ao me nomear. Espero que a minha confusão não seja incômodo. Agradeço as criticas, levarei as reflexão para a vida inteira. Por isso eu só posso sinceramente agradecer.” 

Foi possível ouvir os aplausos da plateia ao não pedido de desculpas da Andreia Terra. Mas fiquei me perguntando cadê a criticidade desse povo? Bater palmas para uma mulher  sem nenhum letramento racial que se sentiu à vontade de compartilhar o palco com uma escritora que ela nitidamente não está qualificada para tal. Quantas jovens negras que estão capacitadas para ali estarem e terem em seus currículos essa experiência com essa grandiosa intelectual teve a oportunidade negada para que a Andreia Terra ali estivesse? Muitas, eu garanto.  

Mas há  uma camada mais funda nessa história. Mulheres negras são sistematicamente excluídas dos espaços de decisão e protagonismo, mesmo com qualificação e formação impecáveis. O chamado “pacto narcísico da branquitude”, como bem definiu Cida Bento, mantém o racismo institucional como regra. E é isso que faz com quê não haja mulheres negras no alto escalão dessa instituições. 

Todo mundo sabe, ou deveria saber, que raça é um marcador social, não genético. Ser negro no Brasil não tem a ver com linhagem, mas com aparência, com o modo como o corpo é lido socialmente.  Como bem disse a Conceição Evaristo na aula  que a nossa carteira de identidade é o nosso corpo. No nosso caso um corpo que é lido por sua negrura. Ninguém apanha ou é assassinado pela polícia por ter um avô preto. Apanha e é morto por ser visto como preto pelo racista. É essa leitura social que define a experiência racial, e é exatamente essa experiência que essas mulheres brancas definitivamente não têm.

O que está acontecendo é um fenômeno preocupante: mulheres brancas que usufruem dos privilégios da branquitude tentam negar sua posição de poder e se redesenhar racialmente quando se encontram em espaços em que o protagonismo são de mulheres negras. É como se ser branco tivesse se tornado desconfortável mas sem, claro, abrir mão dos privilégios que essa corporeidade lhes confere em todos os outros contextos.

Ser negro não é uma fantasia que você veste e tira quando lhe convém, nem um ato voluntário. É um lugar social marcado pela exclusão, pela violência, pela resistência. Mas sejamos honestas: será que essas mulheres que hoje se dizem “negras” ou “marrons”, vivendo no Rio de Janeiro, assumiriam com a mesma firmeza uma identidade negra se isso significasse que seus filhos seriam lido como e poderiam ser alvejados com 111 tiros, como aconteceu com tantos outros jovens negros? Será que o desejo de se “tornar” negra resistiria ao medo real de ser tratado como tal? Hoje mais cedo uma seguidora me fez uma pergunta que continua pulsando, mais viva do que nunca e compartilho com você: Quando, afinal, deixarão de ser racistas?

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