Após ser acusado de fazer piada com a morte de Preta Gil, Leo Lins se pronunciou pela primeira vez sobre o caso. Em vídeo publicado no domingo (27), no YouTube, ele afirmou que teve suas falas distorcidas e tiradas de contexto pela imprensa.
“Essa semana, nós tivemos a perda da Preta Gil. Uma figura conhecida da música, dos blocos de carnaval, programas de televisão e, no meu caso, dos tribunais. Nós tivemos alguns processos. Pessoalmente, nunca tive problema nenhum com ela. Profissionalmente, eu fiz algumas piadas, e creio que ela teve os seus motivos para não gostar de mim”, iniciou.
Segundo Lins, as últimas piadas sobre a cantora datam de dois anos atrás, quando Preta anunciou o diagnóstico de câncer de intestino. Ele afirmou que chegou a enviar uma mensagem à artista na época em sinal de apoio. “Minha figura pública é comediante. Eu faço piadas no local de fazer piadas. Sei que nem todas as brincadeiras são para todas as pessoas e, conforme eu disse no meu próprio julgamento, eu procuro tomar os cuidados para que elas não cheguem em quem pode se machucar com elas”, justificou.
O humorista também comentou que pensou em publicar uma homenagem à Preta, mas desistiu com receio de ser acusado de oportunismo. “Mas chegou num ponto em que falei: ‘Não posso ignorar’. Porque pegaram uma notícia de um mês atrás, feita de forma muito desleal e desonesta, sobre piadas escritas dois anos atrás, para agora publicar notas dizendo que eu estou fazendo piadas sobre a morte da Preta Gil, chegando a atribuir a mim uma fala com aspas, dizendo que eu falei ‘quem me processar vai pegar câncer e morrer’. Eu nunca disse isso. E nem fiz piadas sobre a morte da Preta Gil.”
Para finalizar o vídeo, Leo Lins enviou condolências à família da cantora, e decidiu encerra com uma nova piada. “Me despeço então com uma piada — para vocês que são meus fãs, e feita para vocês que não gostam de mim: fiquem tranquilos. A Preta Gil não vai mais me encontrar nem ouvir minhas piadas, porque ela está no céu e eu vou pro inferno.”
Em junho, Lins foi condenado a 8 anos e 3 meses de prisão, em regime inicial fechado, além do pagamento de multa. A Justiça o considerou culpado por praticar discriminação contra diversos grupos sociais, incluindo pessoas negras, com deficiência, nordestinos e outros.
Documentos inéditos revelam novos detalhes sobre a infância deLuiz Gama, símbolo da luta contra a escravidão no Brasil, e a existência de sua mãe, Luiza Mahin. O intelectual negro nasceu livre em Salvador, em 21 de junho de 1831 — e não em 1830, como se acreditava. Ele foi vendido como escravizado pelo próprio pai aos 9 anos de idade, enviado ao Rio de Janeiro e, depois, a São Paulo, onde se alfabetizou, conquistou sua liberdade e se tornou um dos maiores defensores de pessoas negras escravizadas.
Pela primeira vez, registros históricos confirmam trechos da biografia do abolicionista. Segundo informações reveladas pela Folha de São Paulo, a comprovação vem de documentos guardados no Arquivo Público do Estado da Bahia: escrituras, testamento e um registro de batismo encontrados pelas pesquisadoras Lisa Earl Castillo, doutora em letras, e Wlamyra Albuquerque, historiadora e professora da UFBA (Universidade Federal da Bahia). As descobertas estão reunidas em artigo que será publicado na revista Afro-Ásia, do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) da UFBA.
Entre os achados está o testamento de Maria Rosa de Jesus, tia do pai de Luiz Gama, que confirma a origem do patrimônio familiar e aponta Luiza, descrita como nagô – grupo étnico da África Ocidental, como mãe de um menino chamado Luiz Gonzaga Pinto da Gama, “livre de toda a escravidão como se assim nascesse”.
O testamento também foi fundamental para que as pesquisadoras localizassem o registro de batismo de Luiz Gama, encontrado na freguesia de Santana, em Salvador. No documento, o pai, Antônio Agostinho Carlos Pinto da Gama, não aparece como genitor, mas como padrinho do menino — uma prática comum no período escravista.
No arquivo, o advogado também foi descrito como “pardo forro com três meses e meio de idade, filho de Luiza, escrava de Maria Rosa de Jesus”, contrariando a versão do abolicionista de que a sua mãe era uma africana livre, que havia sido presa por envolvimento em “planos de insurreições de escravos”, conforme ele relatou em carta ao também abolicionista Lúcio de Mendonça.
“Não existe nenhum indício de que ela tenha lutado na Revolta dos Malês ou na Sabinada. Tudo leva a crer que tenha sido vendida ou incluída em alguma transação feita pelo pai de Luiz Gama. E isso não diminui a importância histórica dela. Pelo contrário, isso a humaniza”, pontua Wlamyra Albuquerque”, disse Wlamyra Albuquerque à Folha de São Paulo.
Essa construção narrativa, segundo as pesquisadoras, pode ter sido uma forma de proteger a própria subjetividade diante do trauma. “Ele gera essa mulher, ele está criando essa narrativa. E a gente não quer dizer que a criação dessa narrativa é falsa. Tem a questão de serem lembranças de uma criança e tem a condição humana dele, que pode ter construído essa imagem para sobreviver emocionalmente”, completou Wlamyra.
Histórico do Genitor
As descobertas também ajudam a reconstituir a origem paterna de Luiz Gama. Seu pai, descrito por ele como fidalgo, que pertencia a “uma das principais famílias da Bahia de origem portuguesa”, e um “revolucionário em 1837”, pertencia a uma família com raízes em Santo Amaro, na Bahia.
Documentos mostram que, o pai de Ana Maria era desembargador, apesar de um certo prestígio e poder aquisitivo, Antônio Agostinho era um homem endividado, com histórico de jogos, conforme já havia relatado Luiz Gama, além de negociações de imóveis herdados. Em 1840, após perder quase todo o patrimônio, vendeu o próprio filho — um ato de traição tripla, segundo as autoras: como pai, como padrinho e como tutor legal da criança.
Para as pesquisadoras é urgente a importância de resgatar memórias apagadas pelo racismo. “A documentação apresentada constitui mais um passo na construção de um diálogo ponderado entre memória, mito e a pesquisa documental sobre as experiências do negro e suas lutas insurgentes no Brasil. E a pesquisa histórica tem papel central nessa dinâmica.”
Uma nova pesquisa interna da TV Globo sobre a novela ‘Dona de Mim’ revelou a força do personagem Ryan, interpretado por L7nnon. O levantamento, que ouviu diferentes perfis de telespectadores, identificou uma torcida significativa pela reconstrução de vida do personagem que deixou a prisão, tenta se reaproximar do filho e retomar o convívio com a família.
A popularidade do personagem aumentou à medida que a trama passou a mostrar sua transformação. Após um início marcado pela criminalidade, Ryan agora lida com os erros do passado e tenta se reerguer em liberdade. As cenas de vulnerabilidade e emoção vêm mobilizando o público nas redes sociais, principalmente jovens.
Nos bastidores, o desempenho de L7nnon — fenômeno musical e estreante na dramaturgia — vem sendo amplamente elogiado. A entrega do artista ao papel, marcada por humildade e dedicação, tem reforçado o carisma que já o acompanha fora das telas. A Globo aposta nesse talento multifacetado para manter o bom desempenho de audiência da novela.
Diante dos resultados positivos, a emissora prepara novos desdobramentos para a narrativa de Ryan, que deve enfrentar dilemas familiares, reencontros marcados por tensões e a constante sombra de seu passado.
Se tem uma peça que atravessa o tempo com estilo e significado, essa peça é a calça boca de sino. No corpo preto, ela nunca foi só roupa, sempre foi enunciado. Muito antes de virar tendência em passarela ou figurinha carimbada em produções de moda, ela já fazia parte da afirmação estética do nosso povo. E é por isso que ela volta com tanta força agora: porque nunca deixou de ser nossa.
Nos bailes soul dos anos 1970, principalmente nas periferias do Rio de Janeiro e São Paulo, a boca de sino era item obrigatório. Ela vinha combinada com sapatos bem lustrados, camisas de gola pontuda e black power no auge. Mais do que visual: era sobre ocupar o espaço com dignidade, imponência e desejo de se destacar. Era sobre estar bonito em um país que insiste em negar beleza e elegância à população preta. Cada dobra larga na barra daquela calça era uma resposta à violência do racismo cotidiano. Um protesto em silêncio que ecoava na pista de dança.
A boca de sino também foi companheira de outras cenas pretas brasileiras: no pagode dos anos 90, nos palcos do samba, nos clipes de rap. Ela saiu dos salões dos bailes charme e foi parar nas quebradas, nos grupos de dança, nas fotos de família e nos programas de TV. A peça virou símbolo de quem ousava se vestir bem, com personalidade e sem medo do julgamento.
Hoje, esse retorno da boca de sino não é apenas uma nostalgia fashion, é uma reafirmação. A nova geração preta se apropria dela com novas combinações, misturas de texturas, recortes e referências. É vintage, mas é street. É ancestral, mas é futurista. E tudo isso faz sentido porque o corpo preto carrega essa capacidade de transformar memória em movimento. O que era resistência ontem, hoje é também afirmação de liberdade e estilo.
Ao vestir uma calça boca de sino, a gente não está só seguindo uma moda. A gente está vestindo história, memória, dança, som e luta. Está vestindo nossos mais velhos e também apontando para o que ainda vem aí. Porque quando o assunto é moda preta, o tempo não apaga: só atualiza.
Sucesso de crítica na Bahia, o espetáculo Gota d’Água da Cia Baiana de Teatro Brasileiro desembarca no Rio de Janeiro para uma aguardada temporada na Arena do SESC Copacabana, de 24 de julho a 17 de agosto. A nova montagem traz uma leitura contemporânea da clássica tragédia de Chico Buarque e Paulo Pontes, com raízes fincadas no cotidiano soteropolitano e protagonismo negro no centro da cena.
Com direção de Vinícius Lírio, a peça desloca a ação da favela carioca para um conjunto habitacional de Salvador e insere elementos da cultura popular do subúrbio, como lama, areia, redes de pesca e baldes, compondo um cenário simbólico e profundamente poético. A atriz Evana Jeyssan, mulher negra e premiada nacionalmente, vive Joana, personagem movida por dor, abandono e desejo de justiça. Em cena, ela contracena com Augusto Nascimento, também idealizador do projeto.
Joana é negra. Jasão, seu ex-companheiro, é branco. Essa diferença racial, destacada de forma explícita pela encenação, adiciona novas camadas de crítica à obra, escancarando questões de desigualdade, racismo estrutural e relações abusivas. Mais do que uma releitura, Gota d’Água se transforma em um manifesto sobre os corpos e as dores que seguem à margem, mas resistem com potência.
Com apenas dois atores em cena e músicas como “Basta um Dia” e a própria “Gota d’Água”, o espetáculo sustenta uma força emocional concentrada na atuação e na palavra, evocando uma tragédia popular que pulsa com temas urgentes: o papel da mulher negra na sociedade, a ausência do Estado, a estrutura racista das relações e o abandono como ferida histórica.
Reconhecimento nacional
A montagem estreou na Bahia e já passou por palcos como os Teatros Gregório de Mattos e Martim Gonçalves, além de festivais como o FIAC 14 e o Trama Festival de Teatro (MG). Aclamada pelo público e pela crítica, foi indicada a mais de 15 prêmios nacionais e rendeu a Evana Jeyssan os troféus de Melhor Atriz no 28º Prêmio Braskem de Teatro e no 21º Prêmio Cenym de Teatro Nacional. Também teve uma versão audiovisual exibida em festivais como FILTE 2021 e Teatro de Cabo a Rabo.
Pela primeira vez no Rio, a temporada representa um intercâmbio cultural entre as cenas baiana e carioca, com todas as sessões acessíveis em Libras.
GOTA D’ÁGUA – Cia Baiana de Teatro Brasileiro De 24 de julho a 17 de agosto, no SESC Copacabana – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana, Rio de Janeiro Quinta a sábado, às 20h | Domingo, às 18h Entrada gratuita na estreia, com inscrição antecipada obrigatória:https://forms.gle/AH3kAfBWFmRCHryi7 Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia), R$ 10 (associados SESC) Todas as sessões contam com tradução em Libras
Ficha técnica Direção: Vinícius Lírio Codireção e elenco: Augusto Nascimento Atriz protagonista: Evana Jeyssan Direção musical: Luciano Salvador Bahia Preparação vocal: Suzana Belo Cenografia: Renata Mota Figurino: Rino Carvalho Luz: Larissa Lacerda e Victor Alves Movimentos: Mônica Nascimento Produção: Capricórnio Produções
O Julho das Pretas tem movimentando as redes sociais. Mas você conhece a origem dessa história? Ou você estava achando que foram as redes sociais (quase deuses) que escolheram esse mês, aleatoriamente? Não. Não foi assim. O nascimento e batizado do mês de julho para marcar os movimentos de luta das mulheres negras no Brasil foi feito pelas protagonistas do movimento, por meio de articulação e organização social e política. E, falando nas protagonistas, estavam entre o elenco Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e tantas outras. Pois, como nos lembra Jurema Werneck: nossos passos vêm de longe! Se você, cara leitora / caro leitor, não conhece um ou dois desses nomes, não tem problema. Fica aqui, que você vai entender e conhecer essas estrelas (além do tempo).
Para entender o Julho das Pretas, é preciso olhar para além das hashtags. Esse mês nasce da força histórica de articulação política das mulheres negras no Brasil, que transformaram suas vivências e teorias em organizações, comitês, núcleos, redes — enfim, num movimento social fundamental para nossa sociedade. Aqui, vamos revisitar alguns dos marcos dessa história, como o 1º Encontro Nacional de Mulheres Negras, em 1988, e a criação da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB). Cada um desses momentos foi decisivo para que hoje pudéssemos nomear, celebrar e reivindicar essa história.
Mas vamos voltar um pouco no tempo, mais precisamente para as décadas de 1970. Em plena ditadura civil-militar, os movimentos negros e de mulheres, assim como outros movimentos sociais, estavam em pleno vapor. O ato de fundação do MNU (Movimento Negro Unificado) foi em 1978 — e as mulheres negras estavam lá. No movimento negro, lado a lado na luta. Mas, muitas vezes, ficavam atrás. Não porque queriam — mas porque o machismo fazia isso. Eram elas que organizavam, cuidavam, puxavam a base. Mas, nas decisões, quem falava eram os homens. No movimento feminista, encontravam outras barreiras. As mulheres negras estavam presentes, mas suas vivências não apareciam. A luta contra o machismo era urgente, sim — mas e o racismo? E a pobreza? E os corpos que nunca couberam no ideal branco de mulher? Ser mulher negra era viver numa interseção que ninguém queria ver. E foi desse apagamento duplo que nasceu a necessidade de construir outro caminho. Por nós. Com a nossa cara.
Um exemplo dessas tensões entre os movimentos aconteceu em março de 1979, no Encontro Nacional de Mulheres, no Rio de Janeiro. Na ocasião, a intelectual e ativista negra Lélia Gonzalez chamou a atenção para a importância da questão racial nas relações entre mulheres negras e brancas, lamentando que, na época, não houvesse o mesmo consenso sobre o racismo que existia em relação a outras pautas femininas. Lélia denunciou que o movimento feminista, ao negar o racismo, buscava esconder a dominação e a exploração que mulheres brancas exerciam sobre mulheres negras. Ela observou que, durante aquele encontro de 1979, as feministas brancas, mesmo alinhadas a ideias progressistas e de esquerda, não reconheceram a urgência de incluir a pauta racial. A unanimidade em torno da luta contra a exploração da mulher e do trabalhador desaparecia quando o tema era o racismo e a influência da raça na vida das mulheres negras.
Foi outra intelectual e ativista negra que tão bem sintetizou essas tensões. Foi Sueli Carneiro quem traduziu, com precisão política, essas tensões. Para ela, a luta antirracista precisava caminhar junto da luta feminista — não como complemento, mas como parte indissociável. E vice-versa. Era urgente enegrecer o feminismo e feminilizar o movimento negro. Sueli nos ensinou que enfrentar só uma parte da opressão era insuficiente.
Um marco fundamental para o movimento de mulheres negras foi a realização do I Encontro Nacional de Mulheres Negras, que aconteceu em dezembro de 1988, em Valença (Rio de Janeiro). Mas, para a concretização em nível nacional, foram meses de articulações municipais, estaduais e regionais. Em julho de 1988, Salvador sediou um dos marcos mais importantes da mobilização de mulheres negras no Brasil: o seminário “Mulher Negra Cem Anos Depois”, que reuniu cerca de 750 participantes. Organizado pela União de Mulheres do Nordeste de Amaralina, o evento abordou temas como mercado de trabalho, sexualidade, educação e trajetória histórica da mulher negra — desde a escravidão até o fim dos cem anos da abolição. Sueli Carneiro e Sonia Ribeiro contribuíram com análises fundamentais nesse processo. O seminário foi um dos principais impulsos para o I Encontro Nacional de Mulheres Negras, e suas participantes — vindas de entidades do movimento negro, feminista, sindicatos e associações — foram escolhidas em eventos preparatórios regionais.
Há quase 40 anos, o I Encontro Nacional de Mulheres Negras foi um passo fundamental para a luta pelos direitos diante das diversas formas de opressão. Passos coletivos — porque, para nós, o individual é coletivo e o coletivo é individual. Nas redes, nas ruas, nos sindicatos, no parlamento, nas novelas — juntas, de diferentes formas, construímos o movimento de mulheres negras com nossas vidas, militâncias e existências resistentes.
Com patrocínio da Vichy e apoio do Grupo Heineken, evento reuniu 30 mulheres negras em uma tarde de troca, inovação e cuidado
As mulheres negras são a potência do Brasil e o mês de julho, quando se celebra o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, merece mais reconhecimento. Em um cenário de retrocessos nas pautas de diversidade e impacto social, são elas que sentem com mais intensidade os efeitos da desigualdade.
Foi nesse contexto que o Mundo Negro promoveu a primeira edição do Mundo Negro Talks | Julho das Pretas, um encontro intimista realizado no dia 23 de julho, na sede do Grupo Heineken, em São Paulo. Com uma curadoria voltada para mulheres negras do meio corporativo e empreendedoras, o evento reuniu um grupo de 30 convidadas em conversas que atravessaram temas como trabalho, autocuidado, tecnologia e representatividade.
A tarde começou com a fala da jornalista e head de conteúdo Silvia Nascimento, que trouxe reflexões sobre como a inteligência artificial pode ser uma aliada de mulheres sobrecarregadas. Em sua fala, Silvia apresentou exemplos práticos de uso de IA para gestão de tempo, saúde mental e produtividade. “Somos sobrecarregas e lidamos com uma carga mental absurda, então não tenha vergonha e nem culpa em recorrer a IA para te ajudar até no cardápio da semana da sua casa”.
Na sequência, a executiva de RH Ana K. Melo conduziu um bate-papo com Vetusa Pereira, gerente de Diversidade, Equidade e Inclusão do Grupo Heineken. “Aqui na empresa hoje a gente chega em um estágio desenvolvimento muito maior. Se eu não estou vendo ninguém parecido como acima de mim, o que eu posso fazer para transformar essa realidade. Então vamos pegar uma galera boa e tentar fazer esse caminho juntos”.
A segunda conversa teve como foco o empreendedorismo. A colunista do Mundo Negro Sauanne Bispo entrevistou Elaine Moura, CEO da PopCorn Gourmet, sobre os bastidores do crescimento da sua marca e os desafios enfrentados por mulheres negras no mundo dos negócios. “Apesar do que todo mundo diz, empreender não é para todo mundo. Essa ideia complica a vida de quem não tem características empreendedoras. Agora escalar, isso é para todo mundo na área que você está, você pode ser a melhor manicure, cozinheira, jornalista. Isso sim está ao nosso alcance.”.
O encerramento das falas ficou por conta de Livia Ferreira, coordenadora de Valorização Científica da L’Oréal, que apresentou os bastidores da criação da nova Espuma de Limpeza Anticaspa Dercos para cabelos crespos e cacheados. O produto, inédito no Brasil, foi pensado para respeitar a saúde do couro cabeludo de pessoas que usam tranças e texturas naturais. “ Não existe nenhum estudo, pelo menos eu fiz uma população de literatura, que diga que pessoas negras vão ter mais ou menos caspa. Nós precisamos de um produto específico porque o nosso cabelo é diferente, e por conta do formato espiral dos nossos fios é muito comum a gente ver pessoas com o couro cabeludo mais oleoso, e as pontas bem seca”, explica Lívia.
Além dos talks, as convidadas participaram de um café da tarde exclusivo, com brindes das marcas parceiras e momentos de troca e conexão entre profissionais negras de diferentes áreas de atuação
O que mulheres negras desejam para o futuro? Quando se está apenas tentando sobreviver ao dia, o futuro parece algo distante e enxergar novas perspectivas cercada por tantos desafios emocionais, físicos ou financeiros é quase impossível. A chegada do 25 de julho, data que celebra o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, inspirou entrar em contato com mulheres negras de diferentes idades e que vivem em diferentes contextos para saber o que elas esperam e desejam para seu futuro. O que para algumas delas pareceu um desafio, se traduziu em respostas sinceras que mostram como somos múltiplas e, acima de tudo, que devemos manter a esperança em nós e nas nossas.
Para Marciele Moreira, mãe solo do Emanoel, uma criança de 5 anos diagnosticada com autismo nível 2 de suporte, moradora da cidade de Mauá, região metropolitana de São Paulo, as perspectivas de futuro estavam todas relacionadas ao desenvolvimento do filho, mas ao responder minhas perguntas, ela mostrou que também tem esperanças para si: “Eu tenho sonhos de poder voltar esse meu olhar, futuramente, após trabalhar o que for necessário no Emanuel, de voltar esse olhar para mim, para o meu autocuidado, para o meu lazer, para minha vida profissional e pessoal, quero estudar algo, voltar a trabalhar, conquistar minha independência financeira e parar de depender de benefícios governamentais”, pontuou.
Além das demandas individuais, as movimentações coletivas revelam que mulheres negras lutam para viver de maneira plena e feliz. “Hoje falamos de saúde integral, mental, soberania alimentar, economia do cuidado, justiça racial e comunicação como espaço de poder. As mulheres negras também exigem estar no centro das decisões, das tecnologias, da política institucional”, destaca Juliana Gonçalves, jornalista e uma das articuladoras da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que terá sua segunda edição realizada no dia 25 de novembro de 2025, em Brasília.
Em diferentes frentes de atuação, como a espiritualidade e o acolhimento, outras mulheres também expressam seus desejos para o futuro:
“Onde tem a energia feminina eu estou cuidando”
Foto: Reprodução BdF/Arquivo pessoal
Líder espiritual do Axé Abassá de Ogum, a Ialorixá Jaciara Ribeiro é ativista no enfrentamento à intolerância religiosa e atua diretamente com o acolhimento de mulheres negras em situação de vulnerabilidade. Ela também é filha de Mãe Gilda, que inspirou a criação do Dia de Combate à Intolerância Religiosa no Brasil.
Movida pela energia feminina, a religiosa destaca seus trabalhos: “Tenho vários projetos que culminam no autocuidado, no acolhimento das mulheres em vulnerabilidade, mulheres em território que são ameaçadas, como terreiro, como quilombo, como áreas indígenas. Enfim, onde tem a energia feminina eu estou cuidando”.
“Para mim, mulher de terreiro, espero para os próximos anos que a gente possa realmente ser incluída em todos os projetos que existem no governo, tanto no âmbito municipal, estadual e federal, com uma forma mais específica de cor, gênero, raça e a cuidado de tudo. A gente precisa pensar mais na nossa vida. Nossas vidas”, disse. “O que eu espero mesmo é que nesse mundo de tanta diversidade, as pessoas tentem entender que a gente precisa de uma secretaria, não só de reparação, de direitos humanos, de saúde e educação, a gente precisa de uma secretaria do amor, um ministério do amor. A gente não precisa ter o que está tendo no mundo agora, uma guerra entre povos, entre países, mas a gente vai conseguir, com ancestralidade, seguir”, afirmou a Ialorixá, que também é filha de Oxum.
“Prazer nos mantém vivas e merecemos mais do que sobreviver”
Foto: Reprodução/Instagram
Jornalista e escritora, Monique dos Anjos, que lançará no dia 2 agosto de 2025, durante a 23ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), seu livro de contos “Nós entre três”, uma literatura erótica decolonial que coloca o gozo no centro da narrativa, mostrando que o prazer também é um direito para as mulheres negras destaca como as mulheres negras querem ser tratadas:
“Queremos ser tratadas como únicas, mas não como diferentes. Existe esse mito marcado pelo racismo e machismo de que a experiência com uma mulher negra requer algum tipo de instrução, de preparo, de conhecimento. Não é pedir muito que, ao se relacionar com uma pessoa racializada, você tenha consciência racial. Da dela e da sua raça. E isso vai além do sexo. Tem a ver com vigiar dinâmicas que reforçam o preconceito, tem a ver com se posicionar, com não usar tantos termos e seguir condutas que, apesar de normalizadas, são problemáticas. Queremos ainda gozar sem a culpa de que deveríamos estar trabalhando, estudando, cuidando da casa… enfim, fazendo de tudo, menos algo tão egoísta, pessoal e supérfluo. Acontece que prazer nos mantém vivas e merecemos mais do que sobreviver”, reforça Monique.
“O que nos faz seguir adiante é a resistência”
Foto: Arquivo pessoal
Empreendedora, Maria Luisa Souza olha para o futuro com a maturidade de quem chegou aos 60 anos: “Hoje com 60 anos olho para o futuro, um futuro próximo e eu já vejo isso onde passamos nós mulheres negras sermos vistas como pessoa digna para desenvolver e desempenhar na sociedade o nosso trabalho com autoridade e respeito, sem que nos subestimem por ser mulher negra”, pontuou.
Maria Luisa lembra que a sociedade está constantemente querendo definir como as mulheres negras devem ser, mas com a maturidade ela percebeu que pode ser quem quiser: “A maturidade nos reforça, claro que entre alguns receios e excitações, ela me deixa segura do que posso, devo e quero fazer por mim e sigo adiante no meu propósito. E nesse mundo e desde sempre a mulher negra é inferiorizada e o que nos faz seguir adiante é a resistência”.
De olho na sua saúde e bem-estar, a empreendedora diz: “com o passar do tempo, com a idade, eu quero estar bem com a minha saúde, onde eu possa comer com qualidade sem exageros, poder me exercitar, ter momentos de lazer, passeios, viagens, encontros familiares e ler livros.
Marciele Moreira, mãe solo de Emanoel Moreira
Desenvolvendo um dos trabalhos mais desafiadores do mercado, a maternidade, Marciele Moreira é a única responsável pela criação do filho Emanoel, de 5 anos, e contou seus anseios diante de uma sociedade que exclui as mães e crianças atípicas: “É difícil pensar em perspectiva de futuro, porque mal damos conta do hoje o que dirá o amanhã. Mas eu tenho sonhos de poder voltar esse meu olhar, futuramente, após trabalhar o que for necessário no Emanuel, de voltar esse olhar para mim, para o meu autocuidado, para o meu lazer, para minha vida profissional e pessoal, quero estudar algo, voltar a trabalhar, conquistar minha independência financeira e parar de depender de benefícios governamentais. Meu intuito para o Emanoel é desenvolver ele o suficiente para que ele consiga ter uma vida mais independente possível, sem necessidade de muito suporte.”
“Hoje, por exemplo, ele tem muita dificuldade em lidar com frustrações, com negativas, apresenta algumas dificuldades nas relações interpessoais. E o que a gente trabalha hoje é justamente para que lá na frente ele consiga criar estratégias para lidar com os sentimentos, as emoções que surgem dessas dificuldades, para que ele consiga se desenvolver muito melhor nas relações a partir de novas estratégias.”
“Gostaria, é claro, que num futuro distante eu não precisasse me preocupar se ele conseguiu acompanhar o conteúdo da escola. Que ele não seja excluído socialmente, não sofra bulliyng. Mas acima de tudo, gostaria que o Emanoel não precisasse de suporte, porque nessa sociedade em que vivemos já é difícil viver sem suporte algum, quem dirá quem precisa de um”.
Ela conclui ainda com um pedido importante: “Uma das coisas que eu tenho muita dificuldade hoje, e que eu espero que melhore a longo prazo, é que o mercado de trabalho se prepare mais e se torne mais flexível e inclusivo para as mulheres, mães solo que não possuem rede de apoio, mas que ainda assim desejam retomar sua independência financeira”.
Seja como mãe solo, caso de Marciele Moreira, como empreendedoras e mulheres negras que chegaram aos 60 anos, exemplo de Maria Luisa Souza, como mulheres que escolheram escrever contos sobre o desejo sexual feminino negro, como Monique dos Anjos, como Juliana Gonçalves, que enveredou pelos caminhos do ativismo social ou como aquelas que tiveram como missão liderar seu terreiro e lutar contra a intolerância religiosa, como a Ialorixá Jaciara Ribeiro, na Bahia, as mulheres negras sabem bem quais são suas demandas. Nós queremos ser ouvidas, atendidas e respeitadas e isso não é apenas um desejo, é sobre nosso direito de existir.
Já nos rotularam como resistência. Já nos rotularam como meninas-mulheres da pele preta. Já nos rotularam como as desejadas. Raríssimas vezes nos rotularam como as capazes. Raríssimas vezes nos rotularam como as inteligentes. Raríssimas vezes nos rotularam como as “promovidas”. Raríssimas vezes nos rotularam como as premiadas. Raríssimas vezes nos rotularam como padrões de beleza. Quem somos hoje, de forma coletiva, como mulheres pretas? O 25 de julho de 2025, o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha não é somente um marco para reforçar a exaustão de sempre ter que lutar. É também um lembrete carinhoso (e teimoso) de que também podemos ressignificar a liberdade de ser quem nós somos.
Ressignificar a liberdade de ser quem somos como mulheres pretas de forma coletiva em um momento de nossa história em que retomamos a necessidade de voltar a falar sobre o que é obvio para desatar os nós da culpa e da obrigação de performar força o tempo todo. Sim, ainda há boletos, racismo e reuniões que poderiam ser e-mails, mas também há redes de afeto, trocas sinceras e autoestima sendo construída em pequenos gestos. A liberdade de ser quem nós somos agora tem playlist própria e, às vezes, até tem terapia em dia. É um exercício cotidiano de dizer sim ao que expande e não ao que corrói. Me permito dizer que a resposta para a minha pergunta segue mais ou menos esta linha: ser mulher preta em 2025 é mais do que sobreviver ao caos com humor e afeto, é também desenhar possibilidades e rotas para que mais mulheres pretas tenham mais possibilidade de sorrir do que ter gatilhos em uma segunda-feira qualquer.
Claro que ainda nos olham com desconfiança em muitos espaços. Conheço muitas mulheres pretas que ressignificaram quem elas são em 2025, observando se as escolhas profissionais ou pessoais que fizeram ao longo da sua vida eram realmente sobre elas ou sobre exigências e expectativas que outros ou o sistema tinham sobre elas. Em 2025 a liberdade também mora na escolha de ser quem se é, mesmo que isso signifique mudar de ideia no meio do caminho. Porque uma coisa é fato: ser mulher preta não é ter um roteiro fixo, é viver em uma série com várias temporadas, com plot twist, em busca de um final com descanso e feliz (ou pelo menos com menos drama e dores na temporada de 2026).
Se você ainda se pergunta o que celebrar, comece se perguntando o que precisa deixar para trás. Se dê um abraço, daqueles que a gente recebe de mãe ou de um afeto naquele dia chuvoso com direito a bolo e conselhos. Olhe ao redor, fortaleça outras mulheres pretas, crie novos espaços e uma playlist para a ressignificação, porque 2026 já está logo ali e com um pouco mais de cuidado e coragem, talvez seja o ano em que a liberdade de ser vire finalmente o nosso ponto de partida ou de recomeço, sem esquecer que a tecnologia viabiliza acessos, mas nem tudo que brilha na tela é conexão real. Hoje a gente sabe que tem filtro que engana, algoritmo que apaga e I.A. que ainda não entendeu o valor da existência preta. Só não esquece de dar mais like em você mesma do que no que os outros esperam que você seja. Desconectar também é liberdade. Só cuidado pra não dar match com quem ainda não aprendeu a respeitar mulheres pretas fora da bolha.
Nem sempre é fácil e, possivelmente nunca será, mas seguimos criando brechas em nossas barreiras diárias. Em 2026, que o mundo nos reconheça e que acima de tudo a gente nunca mais se esqueça de quem é. Que em 2026 a nossa ressignificação venha com leveza, playlist boa e um cabelo hidratado se não a gente nem sai de casa! Que a nossa liberdade floresça mesmo nas rotinas mais duras e que viver para mulheres negras não seja somente a exceção, mas se torne a regra.
25 Executivas Negras que Você Precisa Conhecer
Liderança, estratégia e impacto sob uma perspectiva que transforma empresas.
Executiva reconhecida pela formação de mais de 100 mil profissionais em 20 países, Íris Barbosa construiu sua trajetória da operação ao topo em empresas como McDonald’s e Apple. Agora, como presidente do Instituto Pactuá, ela transforma sua história em estratégia de impacto social, apostando na educação, na conexão e na ancestralidade como caminhos para formar uma nova geração de lideranças negras.
Do balcão à alta Direção
A trajetória de Íris começa no chão da operação. Ainda jovem, foi contratada como atendente de balcão no McDonald’s. Foi nesse ambiente, muitas vezes subestimado, que desenvolveu sua visão sobre excelência e propósito no trabalho.
“Ali, aprendi que todo trabalho tem valor e importância — não importa se é limpar o chão ou fritar batatas. O que realmente faz a diferença é como você se entrega àquilo que faz. Se você se propõe a fazer algo, faça bem feito.”
Ela conta que esse princípio a acompanhou durante toda a carreira. “Entendi que a excelência no que fazemos não apenas gera orgulho pessoal, mas também é reconhecida pela organização. E mais do que isso: nos conecta a um propósito.”
Ao reconhecer o investimento em qualificação feito pela empresa, Íris revela gratidão: “Sou grata ao McDonald’s por me dar a primeira oportunidade de trabalho mesmo sem experiência e por sempre investir em qualificação e desenvolvimento. Isso me permitiu não só desempenhar bem minhas funções naquele momento, como também me preparou para crescer dentro da empresa e trilhar uma trajetória sólida.”
Uma virada de propósito: a liderança no Instituto Pactuá
Depois de ocupar cargos de direção na América Latina e liderar estratégias de formação global, Íris sentiu que era hora de dar um novo sentido à própria trajetória. A presidência do Instituto Pactuá surgiu como resposta a essa inquietação.
“Construí uma carreira brilhante, mas marcada por muitos sacrifícios, desafios e renúncias. Em algum momento, me perguntei: como posso contribuir para que outras pessoas, especialmente mulheres negras como eu, também alcancem espaços de liderança, mas de uma forma menos árdua e solitária?”
Transformar a própria caminhada em ponte virou missão. “A missão de ampliar esse número, de abrir portas, de mostrar que é possível sim, chegar lá. E mais: que é possível chegar com dignidade, com apoio, com oportunidades mais justas.”
Educação como política de acesso
Desde que assumiu o Instituto, Íris tem reforçado o tripé que guia sua atuação: educação, conexão e ancestralidade. Para ela, a formação não se limita ao aspecto técnico, mas atua como catalisadora de poder coletivo e de memória.
“A educação é, sim, um dos pilares fundamentais do Instituto Pactuá — mas ela caminha lado a lado com a conexão e a inspiração. Nosso objetivo é que pessoas negras ocupem posições de liderança, mostrando, na prática, todo o seu talento, sua potência e sua força.”
Ela reforça que o problema nunca foi competência, mas oportunidade. “Muitas vezes, escutamos julgamentos injustos que dizem que pessoas negras não são tão competentes, mas o que nos falta não é competência e sim oportunidades. E é justamente isso que a educação tem o poder de transformar: ela potencializa aquilo que já existe dentro de cada um.”
Formação de alto impacto e proximidade com a base
Íris liderou a capacitação de mais de 100 mil pessoas em 20 países enquanto ocupava cargos de liderança na McDonald’s. Mas ela não se apoia apenas em grandes números — para ela, o impacto real está na metodologia e na presença.
“Sempre entendi que o treinamento precisa ser rápido, eficiente e, acima de tudo, atrativo. Porque para que alguém aprenda de verdade, essa pessoa precisa querer aprender. E nós criamos um sistema que despertava esse interesse, que fazia as pessoas se engajarem genuinamente no processo.”
Ela também destaca a importância da liderança próxima. “Acredito que performance só acontece com proximidade, com as pessoas, com a liderança, com o chão da operação. Ficar apenas no escritório, distante da realidade, é perder o pulso do negócio.”
Essa filosofia tem nome e história. “Sou fruto do treinamento. Jamais teria chegado onde cheguei se não tivesse sido capacitada, tanto tecnicamente quanto no desenvolvimento de habilidades interpessoais. Essa convicção de que o treinamento transforma me guiou como líder: eu queria que o meu time tivesse as mesmas oportunidades que eu tive.”
E o impacto é concreto. “Ao longo dos anos, reencontrei muitas pessoas com quem trabalhei e que disseram: ‘Ali foi minha grande escola’. E eu me orgulho profundamente de ter feito parte dessa transformação.”
Raça, gênero e merecimento
Aos 21 anos, Íris se tornou gerente de loja. Liderava mais de 100 funcionários e coordenava uma equipe de 10 gerentes. Sua unidade foi reconhecida como a melhor do Brasil, o que lhe garantiu um curso nos Estados Unidos. Lá, dividiu a sala com três homens brancos — um contraste que não a intimidou. “E eu estava ali, com muito orgulho. Mais do que isso: com a certeza de que eu merecia estar ali.”
A experiência não foi exceção. Como mulher negra, ela conheceu as barreiras invisíveis do mercado desde cedo. “Ser uma mulher negra em posição de liderança, em um país como o nosso, é um desafio diário. Mas desde o início da minha trajetória, enfrentei esse desafio com coragem.”
Ela reforça que nada foi dado. “Sempre fui movida por esse desejo de evoluir, de mostrar que, se eu sabia, então eu podia, e devia, ocupar aquele espaço.”
O peso da entrega e o desafio do equilíbrio
Hoje, Íris fala também de saúde, um tema muitas vezes negligenciado no discurso sobre sucesso. “Conciliar os papéis de executiva, esposa, filha, mãe e ainda cuidar de si mesma sempre foi um grande desafio, e confesso que nunca encontrei esse equilíbrio da forma ideal.”
Com uma agenda intensa e uma história de entregas em ambientes de alta pressão, ela reconhece que o autocuidado precisa entrar na agenda com a mesma prioridade. Não como um luxo, mas como um pacto com a longevidade.
Liderança como ato coletivo
À frente do Instituto Pactuá, Íris Barbosa representa um tipo de liderança que mistura método e afeto, técnica e política, história pessoal e responsabilidade coletiva.
“Me perguntei como poderia transformar minha trajetória em ponte. A missão agora é essa: contribuir para que outras mulheres negras cheguem lá, mas com mais apoio, menos sacrifício, menos solidão.”