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Violência contra população em situação de rua soma 150 mil casos em 10 anos; 78% são negras

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Foto: gerada por IA

Estudo da UFMG revela 150 mil agressões contra pessoas em situação de rua em uma década. 78% das vítimas são pretas ou pardas. Entenda o que os dados revelam.

O Brasil registrou 150 mil episódios de violência contra pessoas em situação de rua entre 2014 e 2023. Os dados são do estudo “A Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua”, produzido pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/UFMG) e divulgado pela Agência Brasil em junho de 2026. Mesmo com esse volume, os pesquisadores alertam que o número real é muito maior: 70% das vítimas nunca buscam atendimento após uma agressão, em grande parte por desconfiança das instituições e por experiências anteriores de discriminação, conforme explicou à Agência Brasil o professor André Luiz Freitas Dias, coordenador do observatório.

A cada dia, pelo menos 120 casos graves chegam ao sistema de saúde. Em 75% dessas ocorrências, as lesões exigiram intervenção médica aguda, e em 12% o desfecho foi trauma físico grave ou morte, segundo o mesmo levantamento. O ataque físico responde por 65% dos casos notificados, seguido pela violência psicológica, com 42%, pela negligência e abandono, com 18%, pela violência sexual, com 15%, e pela violência autoprovocada, com 10%.

Quem são as vítimas e por que isso não é acidente

Pretos e pardos respondem por 78% das notificações de violência contra a população em situação de rua, e jovens entre 15 e 49 anos concentram 82% do total de ataques, de acordo com os dados do OBPopRua/UFMG cruzados pelo Sinan e pelo Disque 100. O coordenador do estudo declarou à Agência Brasil que esse perfil não é coincidência: “A violência atinge de forma desproporcional jovens negros que vivem em espaços públicos, refletindo a combinação entre racismo estrutural, pobreza e exclusão social.”

Compreender por que a rua tem cor exige olhar para o que a abolição de 1888 não fez, e os números do OBPopRua/UFMG são a resposta mais direta a essa pergunta. A Lei Áurea tinha dois artigos e não previa indenização, acesso à terra, moradia ou qualquer política de inserção social para a população negra recém-liberta. A pesquisadora Shirley Pimentel, em entrevista publicada pelo Instituto Federal da Bahia, foi direta: “Não teve indenização, não teve acesso à terra, não teve acesso à escolarização. Foi uma liberdade falsa e sofremos até hoje as consequências dela, pois a cidadania efetiva da população negra ainda não ocorreu.” O portal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais registrou avaliação semelhante de especialista consultado pela instituição: “O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão e não implementou políticas de integração social após a abolição. Esse vazio institucional consolidou o que chamamos de racismo estrutural.” Os 78% de pretos e pardos entre as vítimas de violência nas ruas, registrados pelo OBPopRua/UFMG, são a medida concreta desse vazio.

A violência do Estado e a higienização urbana

Robson César Correia de Mendonça, presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, relatou à Agência Brasil que em São Paulo três pessoas em situação de rua são agredidas por dia, e que as agressões partem com frequência das próprias ações do poder público: “Eles são agredidos diariamente, seja nas ações da zeladoria ou sendo expulsos dos locais que escolhem para ficar.” O estudo do OBPopRua/UFMG confirma que a violência também ocorre dentro de instituições de acolhimento e abrigos, e que agentes do Estado praticam agressões principalmente durante ações de zeladoria e remoções. Pesquisa publicada pela revista Virtuajus da PUC Minas aponta que essas práticas têm como objetivo afastar corpos negros e empobrecidos das áreas centrais das cidades, reproduzindo o mesmo projeto que orientou as reformas urbanas do início do século XX, quando o chamado embelezamento das cidades significava, na prática, remoção de populações negras dos centros, conforme documentado pelo Jornal da USP.

Maioria homem, maioria negro, maioria invisível

A predominância masculina entre a população agredida nas ruas costuma ser lida como confirmação de um estigma sobre homens negros e pobres. O Projeto MAN, que pesquisa masculinidade e vulnerabilidade social, apresenta outra leitura: a noção de honra associada à masculinidade leva esses homens a resistirem a pedir ajuda, por acreditarem que admitir necessidade os tornaria menos homens, o que os afasta das redes de assistência antes que o colapso se torne irreversível.

Ao mesmo tempo, o estudo do OBPopRua/UFMG aponta que, embora a maioria das vítimas seja masculina, mulheres e pessoas trans em situação de rua enfrentam risco significativamente maior de sofrer agressões com consequências graves ou fatais. Fatores como deficiência, transtornos mentais e identidade de gênero ampliam ainda mais essa vulnerabilidade, especialmente nas formas de violência sexual e institucional, segundo os pesquisadores da UFMG à Agência Brasil.

Um ciclo que só cresce

As denúncias registradas no Disque 100 passaram de 12,5 mil em 2020 para 45,8 mil em 2023, de acordo com o OBPopRua/UFMG. Em estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro, os indicadores registram aceleração entre 127% e 206%. O pesquisador Freitas Dias concluiu à Agência Brasil que esse ciclo não será interrompido por ações de segurança pública isoladas: “Somente por meio de políticas públicas integradas e sustentáveis será possível interromper o ciclo de exclusão e violência que afeta milhares de pessoas em situação de rua em todo o país.” Mendonça, do Movimento de São Paulo, resumiu a raiz do problema em uma frase dita à Agência Brasil: “Ser pobre, negro e favelado no Brasil é ser visto como criminoso.”

Fontes consultadas

Agência Brasil, OBPopRua/UFMG, Instituto Federal da Bahia, Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Revista Virtuajus/PUC Minas, Jornal da USP, Projeto MAN

Mês do Orgulho: o Pajubá nasceu no terreiro. Um território de acolhimento num país que ainda insiste em excluir

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Foto: IA

Por: Rodrigo França

Antes que a crítica apressada tente reduzir essa afirmação a idealização, é preciso situar de onde ela parte. Não se trata de negar que existam terreiros atravessados por exclusões, muitas vezes reproduzindo uma lógica colonial, cristianizada e normativa que não nasce nesses espaços, mas os contamina. Ainda assim, historicamente, o que se observa é outra coisa: para grande parte da população LGBTQIAPN+, sobretudo travestis e pessoas trans, os terreiros foram e seguem sendo território de possibilidade, onde nome, expressão e existência não precisavam de autorização externa para haver respeito. É dessa maioria silenciosa, dessa prática cotidiana de acolhimento, que esse texto fala.

Tem uma história sendo mal contada no Brasil, silenciada, e não é por falta de informação. É por escolha mesmo. O Pajubá virou meme, virou trilha sonora de vídeo curto, virou estética. Só que ele nunca foi só isso. Antes de qualquer coisa, foi um acordo silencioso entre pessoas que precisavam sobreviver.

Quando travestis negras começaram a circular esse vocabulário nas ruas, principalmente entre as décadas de 60 e 80, não era para criar identidade cool. Era para escapar. Para avisar que a polícia estava chegando. Para nomear perigo sem chamar atenção. Para existir em grupo sem se expor completamente. Isso muda tudo. Isso tira o Pajubá do lugar de curiosidade e coloca no lugar de estratégia. E esse ponto é incômodo, porque ele desmonta uma fantasia muito conveniente: a de que a cultura LGBT nasce na mídia ou nos centros urbanos brancos. Não nasce. Ela é forjada na margem, muitas vezes por pessoas negras, pobres, expulsas de casa, e que encontraram nos terreiros algo que o resto da sociedade negava.

Os terreiros nunca foram esse espaço homogêneo e conservador que hoje tentam pintar em alguns debates apressados. Muito antes de existir discussão acadêmica sobre identidade de gênero, já existia prática. Já existia convivência. Já existia respeito. Nome social não era pauta, era uso cotidiano. Roupa não era problema, era expressão. E isso não vinha de uma lógica militante moderna, vinha de outra compreensão de mundo, onde a existência de cada um não precisava ser validada por norma externa para ser legítima. Dizer isso hoje parece quase provocação, porque o debate público resolveu redescobrir as pessoas trans como se fossem uma novidade recente, e pior, como se fossem um problema a ser resolvido dentro de espaços religiosos. Só que, dentro de muitos terreiros, isso simplesmente nunca foi uma questão nesses termos.

Isso não significa romantizar tudo. Terreiro também é atravessado por contradições, por disputas, por influência de uma sociedade que é estruturalmente transfóbica e racista. Ignorar isso seria ingênuo. Mas é desonesto fingir que não existiu, e ainda existe, uma tradição de acolhimento que antecede esse debate raso que vemos hoje.

Quando você olha para a história com um pouco mais de rigor, percebe outra coisa: os terreiros funcionaram e ainda funcionam como espaços de reorganização social. Não à toa, muita gente os compara a quilombos. Não no sentido romantizado, mas no sentido político mesmo. Lugares onde pessoas expulsas de outros sistemas encontram possibilidade de reconstrução de vida. E aí lembrar de Palmares não é só fazer referência histórica bonita. Quilombo dos Palmares não era um espaço homogêneo, nem puro. Era um território de convergência. Gente diferente, com trajetórias distintas, unida por um princípio básico: sobreviver e construir outra forma de existir. Quem chegava com esse propósito, ficava.

Talvez seja isso que mais incomode quando a gente fala de Pajubá, de terreiro e de população trans na mesma frase. Porque essa história mostra que o Brasil já teve, e ainda tem em alguns cantos, formas de convivência mais complexas e mais avançadas do que o discurso dominante gosta de admitir.

O que a gente fez com esse legado? Transformou em conteúdo. Em bordão. Em estética despolitizada. Enquanto isso, as mesmas pessoas que sustentaram essa linguagem seguem sendo as mais expostas à violência, inclusive institucional. Se for para falar de Pajubá no mês da Consciência LGBTQIAPN+, talvez o mínimo de honestidade seja esse: parar de tratar como curiosidade cultural e começar a tratar como arquivo de resistência. E mais do que isso, reconhecer de onde veio. Porque quando você usa a palavra e despreza a origem, você não está celebrando cultura. Você está consumindo sem compromisso.

Mês da Música Negra: produções para revisitar os maiores nomes da história

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Foto: David Lee/Netflix

Selecionamos 13 filmes e documentários essenciais para entender a história e o legado da Black Music no streaming.

Junho é reconhecido nos Estados Unidos como o Black Music Month, o mês dedicado à celebração da música afro-americana e de sua influência sobre a cultura global. A data existe desde 1979, quando o presidente Jimmy Carter declarou junho o mês oficial da música negra após uma articulação liderada pelo produtor Kenny Gamble, pela jornalista Dyana Williams e pelo executivo musical Ed Wright. A primeira celebração aconteceu no gramado da Casa Branca em 7 de junho daquele ano. O reconhecimento só foi formalizado pelo Congresso americano em 2000, depois de uma década de pressão da própria Dyana Williams, e desde então é renovado por proclamação presidencial anualmente.

A escolha do mês não seguiu um critério simbólico específico, mas sim político. Gamble se inspirou no modelo da Country Music Association, que já dedicava outubro à música country, e decidiu reivindicar o mesmo espaço para um gênero que estava na base de praticamente tudo que a indústria fonográfica americana produzia. Blues, gospel, soul, R&B, funk, hip-hop e rock têm origem direta na experiência negra americana, e nenhum deles recebia reconhecimento equivalente à sua influência real.

Para marcar junho, selecionamos 13 filmes e documentários que contam essa história por dentro, pelas trajetórias de quem a construiu.

O que assistir e onde encontrar

Tina — A História de Tina Turner (1993) — Starz Angela Bassett interpreta Tina Turner, do relacionamento abusivo com Ike Turner à reinvenção como Rainha do Rock global nos anos 80.

Ray (2004) — Netflix Jamie Foxx ganhou o Oscar vivendo Ray Charles, o pianista que perdeu a visão aos 7 anos e revolucionou o soul misturando gospel com blues.

Notorious — Nenhum Sonho é Grande Demais (2009) — Netflix Christopher Wallace foi do tráfico no Brooklyn ao topo do rap americano como Notorious B.I.G., até ser assassinado aos 24 anos.

Bessie (2015) — Max Queen Latifah vive Bessie Smith, que saiu da pobreza no Tennessee para se tornar a artista negra mais bem paga dos anos 1920.

Straight Outta Compton — A História do N.W.A. (2015) — Starz Cinco jovens de Compton criaram o N.W.A., revolucionaram o hip-hop com o gangsta rap e entraram em rota de colisão com o FBI.

A Voz Suprema do Blues (2020) — Netflix Viola Davis vive Ma Rainey numa tensa sessão de gravação em Chicago que expõe o controle da indústria branca sobre o talento negro. Último filme de Chadwick Boseman.

Estados Unidos vs. Billie Holiday (2021) — Prime Video O governo americano perseguiu Billie Holiday por se recusar a parar de cantar Strange Fruit, usando seu vício como pretexto para silenciá-la.

Respect — A História de Aretha Franklin (2021) — Netflix e Prime Video Jennifer Hudson, escolhida pela própria Aretha, conta a história da rainha do soul desde a infância na igreja até virar voz dos Direitos Civis.

Elvis (2022) — Aluguel digital, Prime Video e Apple TV Baz Luhrmann mostra como Elvis construiu a carreira sobre a Black Music, com Little Richard e Sister Rosetta Tharpe no centro da narrativa.

Whitney Houston — I Wanna Dance with Somebody (2022) — Max e Hulu Naomi Ackie interpreta Whitney Houston dos corais de New Jersey ao colapso de uma das maiores vozes da história do pop.

Little Richard — Eu Sou Tudo (2023) — Max O documentário mostra como Richard Penniman inventou o rock and roll e foi sistematicamente apagado pela indústria para dar espaço a artistas brancos.

Bob Marley — One Love (2024) — Netflix e Paramount+ Kingsley Ben-Adir vive Bob Marley entre o álbum Exodus, um atentado e o Concerto pela Paz na Jamaica em 1978.

Luther — Never Too Much (2024) — Max Com arquivos raros e depoimentos de Mariah Carey e Dionne Warwick, o documentário reconstrói quatro décadas da carreira de Luther Vandross.

O verso de Djonga que se tornou um dos maiores gritos do movimento negro no Brasil

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Divulgação: Daniel Assis

Conheça a história do verso que saiu de BH e tomou os movimentos negros do Brasil.

Gustavo Pereira Marques, o Djonga, nasceu em 4 de junho de 1994 na Favela do Índio, em Belo Horizonte, e cresceu no bairro São Lucas, na região leste da capital mineira. Da periferia de uma cidade que nunca esteve no centro do rap nacional, ele construiu uma das obras mais politicamente densas da música brasileira contemporânea, com letras que cruzam identidade negra, crítica social e consciência histórica. É dele o verso que se tornou o grito antirracista mais repetido das últimas décadas no Brasil: “fogo nos racistas”.

Por influência da família, tomou gosto por música desde cedo, tendo crescido ouvindo estilos variados, de Milton Nascimento aos Racionais MCs. Por volta de 2012, quando ainda se formava no Ensino Médio, Djonga começou a frequentar o Sarau Vira-Lata, evento de poesia de rua em Belo Horizonte, primeiro como ouvinte e depois como participante. O rapper Hot Apocalypse o convidou para montar um grupo, e a partir daí o caminho para o rap se abriu de vez. Antes de lançar qualquer álbum solo, ele integrou o coletivo DV Tribo e lançou o EP “Fechando o Corpo”, com sete faixas, em parceria com Coyote Beats. Foi também nesse período que Djonga cursou História na Universidade Federal de Ouro Preto, mas trancou a faculdade no último semestre para seguir a carreira musical, decisão que moldou tanto sua visão de mundo quanto a densidade das letras que viria a escrever.

Heresia e o começo de uma tradição

No dia 13 de março de 2017, Djonga lançou seu álbum de estreia, “Heresia”, com críticas sociais afiadas e mensagens de empoderamento negro. O disco foi aclamado pela crítica e rendeu uma indicação ao prêmio da APCA, a Associação Paulista de Críticos de Arte. Mais do que o reconhecimento imediato, o lançamento estabeleceu uma data que se tornaria marca registrada de sua carreira: o mês de março passou a ser o momento fixo de cada novo álbum, criando uma espécie de ritual anual entre o artista e seus fãs. 

Em 2018, exatamente um ano depois, Djonga voltou com “O Menino que Queria ser Deus”, aprofundando a reflexão sobre questões raciais, carreira e vida pessoal, com participações de Karol Conká e Sant. O disco foi eleito o 6º melhor álbum brasileiro de 2018 pela Rolling Stone Brasil. Em 2019, mantendo a tradição, 15 de março, lançou “Ladrão”, conceito inspirado em Robin Hood, seguido de “Histórias da Minha Área” em 2020, que retratava vivências de periferias de todo o Brasil.

Fogo nos Racistas

O verso “fogo nos racistas”, refrão do single “Olho de Tigre”, lançado em 2017, tornou-se um dos hinos da luta antirracista no Brasil, com versos afiados contra o racismo e o fascismo, e um chamado direto à juventude negra brasileira. A frase extrapolou o universo do rap e passou a ser repetida em manifestações, protestos nas ruas, redes sociais e debates públicos, funcionando como síntese de uma geração que recusou o silêncio diante do racismo estrutural. 

Foto: Ian Cheibub/Reuters

O Instituto Humanitas Unisinos analisou a dimensão do verso e concluiu que manifestações culturais como essa informam a legitimidade dos pleitos de uma nação e têm poder revolucionário. O próprio Djonga reconheceu, em declaração ao site Her Campus, que a frase superou qualquer intenção artística original: “Quando eu trouxe essa frase em ‘Olho de Tigre’, eu não sabia que ela se tornaria um dos gritos mais importantes da nossa geração. Nunca me apropriei dela como minha, inclusive por sentir que o caráter dela é maior que artístico.” 

Recordes e reconhecimento internacional

Em 2020, Djonga se tornou o primeiro brasileiro a receber uma indicação no BET Hip Hop Awards, na categoria de Melhor Artista Internacional, além de ter sido o primeiro rapper a entrar na lista Forbes Under 30. No mesmo ano, seu álbum “O Dono do Lugar” foi a 4ª maior estreia de rap da história do Spotify no Brasil e o 7º álbum mais ouvido no Spotify global. Nesse lançamento, Djonga quebrou pela primeira vez a tradição do 13 de março, escolhendo outubro para apresentar o trabalho ao mundo.

Em 32 anos, Gustavo construiu uma obra que conecta a periferia de Belo Horizonte ao debate racial global, com uma voz que não distingue palco de posicionamento político.

“A vida é maior do que o racismo”: livro do psicólogo Lucas Veiga propõe uma clínica racializada para pessoas negras

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O psicólogo e escritor Lucas Veiga - Foto: Divulgação

“O paradoxo da clínica com pessoas negras é lidar com o impossível do fim imediato do racismo e com o impossível de sermos totalmente capturados por ele, criando modos de vida próprios apesar da violência racial.” Essa é uma das diversas constatações colhidas em 13 anos de clínica atendendo pessoas negras com que o psicólogo e escritor Lucas Veiga aborda em seu livro “Clínica do impossível”, agora em uma nova edição revisada e ampliada.

Publicado pelo selo Paidós, da Editora Planeta, o livro constrói uma reflexão profunda sobre os efeitos do racismo na subjetividade de pessoas negras que, para Lucas, por mais diversas que sejam suas histórias, têm em comum experiências com o racismo que atravessaram sua existência e geram impacto na sua saúde mental.

Nem a jovem geração, que tem mais acesso à informação, ama mais os seus cabelos e tem mais representatividade na mídia que gerações anteriores, conseguiu se proteger do impacto da violência racial na sua mente. “Se a pessoa sofre violência pelo corpo que tem, no limite ela só se livraria disso livrando-se do próprio corpo através da morte. Por isso, há um índice considerável de suicídio entre a população negra jovem”, explica o escritor, que é mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

“Por isso é muito importante sustentar a afirmação de que a vida é maior do que o racismo. Dizer isso é um convite para manter a conexão com a vida e com a ancestralidade, no sentido de que os princípios e tecnologias ancestrais que nos possibilitaram chegar até aqui são os que nos possibilitarão seguir adiante”, comenta Veiga, que também atua em atendimentos clínicos, cursos, palestras e consultorias, e é criador dos cursos “Introdução à Psicologia Preta”, “Frantz Fanon e a esquizoanálise” e “Clínica do impossível”, que dá nome ao livro.

Capa de “Clínica do impossível”, de Lucas Veiga (selo Paidós/Editora Planeta). Foto: Divulgação

Em conversa com Silvia Nascimento, head de conteúdo do Mundo Negro, Lucas Veiga falou sobre a origem do título, as feridas que o racismo deixa na subjetividade negra, o quilombo como tecnologia ancestral e os fundamentos da Psicologia Preta. Confira.

Queria entender melhor como você chegou a esse título, “Clínica do impossível”.

O título veio a partir da minha experiência clínica de 13 anos atendendo pessoas negras. Quando um paciente vive o luto do fim de um casamento, esse processo vai ser elaborado e, em algum momento, essa pessoa poderá ter uma nova relação. Quando alguém desenvolve transtorno de estresse pós-traumático por um acidente de carro, elabora-se o trauma para que os sintomas diminuam e a pessoa consiga voltar a dirigir sem crise de ansiedade. Estabelece-se um prognóstico em relação ao sintoma no início do trabalho terapêutico.

No entanto, o que há de comum em todas as pessoas negras que atendo, por mais diversas que sejam, é a repetição dos episódios de violência racial e de racismo. Mesmo quando os pacientes conquistam uma identidade afirmada e não submetida à discursividade racista, os episódios de racismo não param de acontecer. Eles fazem parte do cotidiano nas capitais, no mercado, na farmácia, no shopping, no mercado de trabalho, onde pessoas olham atravessado ou seguram a bolsa achando que você pode cometer um delito por ser negro. Escutar semanalmente pacientes fortalecidos relatando o impacto dessa repetição foi o que me levou a nomear o livro de “clínica do impossível”.

É “impossível” porque os episódios de racismo não param de acontecer e a resolução definitiva do problema não está posta; nossa geração ainda continuará lidando com isso. Mas há um duplo sentido nesse impossível: ao mesmo tempo em que é impossível o fim imediato do racismo, nós seguimos produzindo realidades e modos de vida impossíveis para o cenário em que vivemos. O paradoxo da clínica com pessoas negras é lidar com o impossível do fim imediato do racismo e com o impossível de sermos totalmente capturados por ele, criando modos de vida próprios apesar da violência racial.

O psicólogo e escritor Lucas Veiga – Foto: Divulgação

Mesmo diante dessa persistência do racismo, surgem forças criativas. Como elas se manifestam?

Penso a partir dos quilombos como uma tecnologia ancestral. Eles foram erguidos e construídos no seio da colonização: enquanto a colonização e a escravização aconteciam, africanos em condição escrava puderam criar um território existencial livre das engrenagens de opressão colonial através da fuga. Essa capacidade de criar um território livre da opressão racial é uma ferramenta ancestral da qual precisamos lançar mão no contemporâneo, fortalecendo nossos espaços de aquilombamento como uma força criativa, inventiva e de afirmação da vida em nós.

Por isso é muito importante sustentar a afirmação de que a vida é maior do que o racismo. Dizer isso é um convite para manter a conexão com a vida e com a ancestralidade, no sentido de que os princípios e tecnologias ancestrais que nos possibilitaram chegar até aqui são os que nos possibilitarão seguir adiante. Viver seguindo uma ética do bem viver, o melhor que pudermos, é a nossa principal resposta e a nossa maior vingança ao contexto de opressão racial em que estamos inseridos.

Quais as dores da alma e da mente mais comuns na nossa comunidade por conta do racismo? Na perspectiva de gênero, homens e mulheres são afetados de forma diferente?

O racismo produz efeitos nocivos, como a possibilidade de a pessoa negra introjetar os discursos racistas e passar a acreditar que vale menos, que é inferior ou feia. Isso desenvolve o que Fanon chama de complexo de inferioridade ou de auto-ódio, em que o ódio racial é introjetado na subjetividade negra, levando a pessoa a odiar seus traços e a ter baixíssima autoestima.

Mas vai além da baixa autoestima. O nosso corpo, que é a nossa primeira casa e o nosso primeiro território, pode ser experimentado como uma ameaça a nós mesmos, porque é exatamente por termos a cor da pele e os traços que temos que sofremos violência. Se a pessoa sofre violência pelo corpo que tem, no limite ela só se livraria disso livrando-se do próprio corpo através da morte. Por isso, há um índice considerável de suicídio entre a população negra jovem. Ao ler esse índice, não se pode desconsiderar o impacto do racismo na experiência corporal da população negra como um todo e da juventude negra em particular.

Sobre o gênero: existem, sem dúvida, diferenças entre homens e mulheres, e também marcadores de orientação sexual, identidade de gênero e classe que atravessam a população negra. Incluir e olhar para a especificidade desses marcadores é um exercício importante. Ainda que o livro caminhe por algumas dessas diferenças, o foco principal é pensar o que há de comum a toda e qualquer pessoa negra. Essa atenção ao comum visa fortalecer a nossa coesão, articulação e vínculo enquanto comunidade negra, reconhecendo as diferenças, mas sem perder de vista aquilo que nos conecta.

Poderia explicar o conceito de Psicologia Preta? Ela se aplica só a profissionais e pacientes negros?

A psicologia preta surge nos Estados Unidos no final dos anos 1960, com larga produção de artigos e livros ao longo dos anos 1970, que vai até os dias de hoje. Exatamente nesse período acontecia a luta pelos direitos civis. No momento em que o movimento negro estadunidense reivindicava os direitos civis, intelectuais negros e negras do campo da saúde mental se debruçaram para construir uma psicologia preta, a black psychology, posteriormente chamada de African Psychology.

Eles entenderam primeiro que as construções teóricas em psicologia até então não tinham considerado a especificidade e a singularidade da experiência negra e que, portanto, era necessário pensar uma psicologia com ferramentas teórico-conceituais para oferecer o cuidado adequado em saúde mental para essa população. A importação direta de saberes da psicologia ocidental, produzidos por pessoas brancas para pessoas brancas, seria insuficiente para uma escuta e um trabalho clínico qualificado com pessoas negras, por mais que trouxessem alguns insights importantes.

A psicologia preta nasce, então, com o objetivo de entender os impactos do racismo na saúde mental da população negra para pensar a escuta e o cuidado. O objetivo também era entender o que seria a subjetividade negra saudável e os índices de saúde para a população negra, tendo como referência os pressupostos da psicologia preta e os princípios de vida baseados nas filosofias e cosmogonias africanas.

Serviço

O livro “Clínica do impossível” (selo Paidós/Editora Planeta, 176 páginas, R$ 54,90) tem lançamentos no Rio de Janeiro e em São Paulo:

Rio de Janeiro: 15/06, às 19h, na Livraria Janela, em Laranjeiras.

São Paulo: 18/06, às 19h, na Livraria Megafauna, no Copan.

Link para compras online ( clique aqui)

Parada LGBT+ SP 2026: confira as atrações negras que são destaque nos trios elétricos

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Foto: Divulgação / @alexsantanaphotographer / Fabiano Battaglin / Reprodução Redes Sociais

Urias, Majur, Gloria Groove, Pepita e Pabllo Vittar estão entre os destaques negros da Parada LGBT+ de SP 2026. Veja em qual trio cada uma se apresenta.

A 30ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo acontece neste domingo, 7 de junho, na Avenida Paulista, a partir das 10h. Organizado pela APOLGBT-SP, o evento reúne mais de 130 artistas distribuídos em 14 trios elétricos e chega a essa marca histórica em um cenário de pressão financeira: o presidente da associação, Nelson Matias, confirmou que o patrocínio caiu 60% entre 2025 e 2026, com a saída de empresas multinacionais que eram parceiras do evento. O tema da edição é “A rua convoca, a urna confirma”, com foco na participação política da comunidade LGBTQIA+ no ano eleitoral.

Segundo estimativa da Associação Comercial de São Paulo, a Parada deve movimentar R$ 466,2 milhões na economia da capital em setores como hotelaria, transporte, alimentação e entretenimento. Mesmo assim, a queda de patrocínio gerou reação pública de artistas confirmados no evento. Pabllo Vittar usou as redes sociais para criticar a redução, associando o recuo das empresas ao avanço do conservadorismo e afirmando que o silenciamento financeiro “diz muito sobre quem está do nosso lado e quem realmente só quer fazer dinheiro”. A cantora integra o Trio 13, ao lado de Urias, e é uma das principais atrações da programação.

Além de Pabllo e Urias, a programação reúne Gloria Groove, Pepita, Diego Martins, Jup do Bairro, MC Soffia, Katy da Voz e as Abusadas, entre outros nomes da música e da cena drag nacional. Por conta de obras na Avenida Paulista, os trios elétricos percorrerão o lado ímpar da via, e a organização orienta o público a acompanhar o evento pelas ruas Haddock Lobo e Bela Cintra.

Os nomes abaixo representam alguns dos destaques confirmados na programação, que reúne mais de 130 artistas no total.

Trio 1 — A Rua Convoca Silvetty Montilla assume a apresentação do trio de abertura, ao lado de Pepita, uma das vozes mais reconhecidas do pagode brasileiro.

Trio 5 — Visibilidade Bi+ Nega Jackie e MC Soffia integram a programação do trio dedicado à visibilidade bissexual, reforçando a presença negra também nas frentes temáticas do evento.

Trio 9 — L’Oréal Groupe Gloria Groove, Thiago Pantaleão e Lud Anjos estão entre as atrações do trio patrocinado pela L’Oréal, um dos mais aguardados da edição.

Trio 13 — Amstel Pabllo Vittar, Urias, Silvetty e Márcia Pantera compõem o trio de maior apelo popular da programação, patrocinado pela Amstel.

Trio 14 — A Urna Confirma (Encerramento) Majur fecha a Parada no trio de encerramento, ao lado de Melody e MC Trans, entre outros artistas.

A programação completa dos 14 trios está disponível em paradasp.org.br.

Carlinhos Brown e Orquestra Ouro Preto lançam álbum “Afrossinfonicidade”, gravado ao vivo em Salvador

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📸: Lucas Leawry / Divulgação

Depois de reunir multidões em apresentações que transformaram praças e teatros em grandes celebrações populares, Carlinhos Brown e a Orquestra Ouro Preto eternizam um dos encontros mais singulares da música brasileira no álbum “Afrossinfonicidade”. Gravado ao vivo na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, o projeto será lançado em dois volumes, com estreia nas plataformas nos dias 5 e 26 de junho.

O trabalho nasce do encontro entre a tradição percussiva afro-brasileira e a linguagem sinfônica. No palco, tambores, cordas e vozes deixam de ocupar universos distintos para construir uma experiência musical que atravessa gêneros, territórios e gerações.

O repertório percorre diferentes momentos da obra de Brown, com nova roupagem sinfônica assinada por Paulo Malheiros e regência do maestro Rodrigo Toffolo. Entre os destaques do Volume 1 está “Frases Ventias”, faixa originalmente lançada no clássico “Alfagamabetizado”, álbum que completa 30 anos em 2026. A canção reaparece em uma releitura que aproxima a força do barroco à poesia afro-brasileira. O volume também revela a delicadeza e a intensidade de faixas como “Dois Grudados”, “Argila”, “Ocaso”, “Segue o Seco” e “Muito Obrigado Axé”.

No Volume 2, composições criadas por Brown ao lado dos Tribalistas, Marisa Monte e Arnaldo Antunes, como “Vilarejo”, “Velha Infância” e “Já Sei Namorar”, ganham novas e profundas interpretações. O mesmo acontece com sucessos que atravessaram gerações, como “A Namorada” e “Amor I Love You”. Junto ao Volume 2, será lançado ainda o audiovisual do show completo gravado na Concha Acústica.

Nascido no Candeal Pequeno, em Salvador, Carlinhos Brown construiu uma obra que resiste a rótulos. Compositor de canções que viraram patrimônio coletivo, criador da Timbalada e parceiro de artistas como Marisa Monte, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Arnaldo Antunes, Brown sempre tratou a música como experiência coletiva e manifestação cultural profundamente ligada à ancestralidade e à percussão.

Reconhecida como uma das formações mais inventivas do país, a Orquestra Ouro Preto construiu sua trajetória aproximando o universo sinfônico de diferentes linguagens populares. Sob direção artística e regência do maestro Rodrigo Toffolo, o grupo mineiro encontrou em “Afrossinfonicidade” um espaço de experimentação, rigor técnico e liberdade criativa.

“Afrossinfonicidade é um encontro de linguagens que sempre estiveram destinadas a caminhar juntas. O tambor já nasce sinfônico porque organiza pessoas, emoções e memórias. Quando a Orquestra Ouro Preto abraça essa pulsação, nasce uma música que celebra o Brasil em toda a sua grandeza. Gravar esse trabalho ao vivo era fundamental, porque existe uma energia acontecendo ali que não cabe apenas na partitura ou no estúdio. O público canta, responde, vibra. O projeto nasceu para ser vivido de forma coletiva”, afirma Brown.

Para o maestro Rodrigo Toffolo, o disco retrata um encontro profundamente ligado às relações culturais entre Ouro Preto e Salvador, duas cidades fundamentais na formação do Brasil. “Quando as cordas da Orquestra Ouro Preto se encontram com a percussão e a força criativa de Brown, criamos uma experiência sonora singular, potente e surpreendente”, comenta.

Gravado ao vivo, o álbum preserva o que o estúdio dificilmente capturaria: a forma orgânica como os músicos se escutam, os contracantos que nascem do instante, a sensação de que aquilo está acontecendo pela primeira e última vez ao mesmo tempo. O disco não propõe reconciliar mundos opostos. Pelo contrário: revela que essas linguagens sempre estiveram mais próximas do que aparentavam. Entre o tambor e o violino, entre o terreiro e o teatro, entre Minas e Bahia, entre Castro Lobo e Castro Alves, há uma continuidade que a música brasileira conhece bem, mas que raramente encontra forma tão bem acabada para se expressar.

O primeiro encontro entre Brown e a Orquestra Ouro Preto aconteceu em 2024, em um concerto aberto na Avenida Paulista, em São Paulo. A sintonia entre os músicos foi imediata e rapidamente conquistou o público. Desde então, o projeto passou por cidades como Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Ouro Preto, sempre transformando cada apresentação em uma celebração coletiva marcada por coro, emoção e festa.

Luciano Quirino vive grande fase na carreira: vilão em “A Nobreza do Amor”, filme sobre caso Elize Matsunaga e novo espetáculo no teatro

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Foto: TV Globo

Entre a televisão, o cinema e os palcos, Luciano Quirino vive um dos momentos mais produtivos da carreira. Na novela das 18h, “A Nobreza do Amor”, o ator dá vida a Pascoal, um perigoso mercenário que chega à trama aplicando um golpe no rei de Batanga e logo se torna o braço direito de Jendal (Lázaro Ramos) nas maldades. Mas a novela é só uma das frentes de um artista que também está no elenco de um filme sobre o caso Elize Matsunaga e prepara o retorno aos palcos no segundo semestre.

Quem acompanha a trama vê em Jendal uma figura ambiciosa, calculista e com sede de poder, vilania compartilhada com a filha, Kênia (Nykolly Fernandes), e agora reforçada por Pascoal. Estratégico, observador e quase silencioso, o personagem chega ao núcleo principal carregando relações tensas, marcadas por manipulações e jogos de interesse.

“Pascoal é um homem que chega de fora, mas rapidamente entende o jogo de poder daquele reino”, conta o ator. “Ele é extremamente perigoso, não é um vilão impulsivo. Pensa, calcula, articula, e isso o torna ainda mais assustador.” Para compor o personagem, Quirino buscou referências na ficção misturadas a um traço contemporâneo. “Busquei como referência personagens clássicos que operam na sombra, como Iago, de Otelo, e até figuras mais populares como o Jafar, de ‘Aladdin’, já que Pascoal traz esse ar de mistério e seu figurino remete a alguns do clássico vilão de ‘Aladdin’, mas sempre trazendo para uma construção própria, mais humana e brasileira”, explica.

Segundo o ator, dar vida ao mercenário tem sido um exercício de mergulhar em territórios novos. “Tem sido um desafio muito instigante. O Pascoal me provoca a explorar novas camadas como ator, acessar lugares mais sombrios e compreender uma lógica completamente diferente daquilo que eu vinha fazendo até aqui. Fazer um vilão exige que você defenda ideias que, muitas vezes, são moralmente questionáveis, mas o segredo é nunca o julgar. Ele acredita no que faz e a diferença está justamente aí: encontrar a lógica interna daquele comportamento”, afirma.

Por estar no núcleo central da novela, Quirino divide muitas cenas com Lázaro Ramos, parceria que ele define como “muito potente”. “O Lázaro é um ator extremamente generoso, inteligente em cena, e isso eleva o jogo. A gente cria uma dinâmica de tensão e cumplicidade que movimenta a trama”, destaca.

A trama também rendeu um reencontro: o ator volta a contracenar com André Luiz Miranda, com quem trabalhou em “Dona Beja”, da HBO Max. Os dois integram o núcleo da cidade fictícia de Batanga, agora em posições opostas. “Tivemos a oportunidade de contracenar, mas agora em lados opostos, ele como mocinho e eu como vilão. Isso cria uma tensão muito interessante em cena, porque existe uma conexão anterior entre nós, mas dentro da história somos adversários”, detalha.

Em “Dona Beja”, reedição da novela que se popularizou em 1986, Quirino interpreta Mendonça, pai do personagem de André Luiz Miranda. Ele descreve o papel como “um homem de época, porém atravessado por sentimentos muito profundos”, que vive conflitos intensos entre amor, honra e desejo. Para o ator, a nova versão se distingue principalmente na abordagem: “A nova versão traz um olhar mais contemporâneo, mais aprofundado nas relações e nas camadas dos personagens. Há uma escuta mais sensível para temas que hoje são inevitáveis.”

Elenco de Dona Beja – Foto: Reprodução Instagram

Embora admire o trabalho de Jonas Mello, que viveu Mendonça na primeira versão, Luciano optou por não se prender à trama de 86. “Tenho muito respeito pelo trabalho do Jonas Mello, mas optei por não me prender à versão anterior. Preferi construir o meu Mendonça a partir do texto e da direção. Naturalmente, as versões dialogam, mas cada uma tem sua identidade”, comenta. O elenco ainda proporcionou o reencontro com Thalma de Freitas, com quem dividiu cena em “Laços de Família” no início dos anos 2000. “Foi especial. A Thalma é uma atriz de uma sensibilidade enorme. A gente se reencontra com mais maturidade, mais repertório, e isso aparece em cena. Nessa história vivemos um casal, o Mendonça e a Josefa. Tem história ali, tem verdade.”

A boa fase também alcança o cinema. Quirino integra o elenco do filme que reconstitui o caso Elize Matsunaga. “Foi um trabalho delicado. Quando lidamos com histórias reais, existe uma responsabilidade muito grande. Procurei tratar tudo com respeito, sem sensacionalismo, entendendo a complexidade humana envolvida”, diz. Sobre seu personagem, adianta: “É alguém que observa muito mais do que fala, e quando fala, muda o rumo das coisas. Ele chega de forma sutil, mas deixa marcas profundas.”

Nos palcos, presença constante, o ator esteve recentemente no espetáculo sobre os irmãos Timotheo da Costa, experiência que define como “um encontro com a história, com a arte e com a ancestralidade”. Para o segundo semestre, prepara o retorno como o maestro Carlos Gomes em “Maestro Selvagem”, projeto que descreve com “expectativa enorme”.

“Esse é um projeto muito especial pra mim. A ideia é retomar com uma circulação mais ampla, passando por capitais e cidades do interior, ampliando o alcance dessa história”, conclui.

“As negras letras de Oswaldo de Camargo”: uma homenagem em vida a um mestre da literatura negra

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O espetáculo “As negras letras de Oswaldo de Camargo” precisa ser visto pela população negra. É uma das homenagens mais singelas e belas que se pode prestar em vida a um escritor negro.

O elenco é constituído por atores belíssimos: Elina de Souza, Adolfo Moura, Dimmy Anderson, todos negros +60, e o ator mirim Miguel Lucca Britto. A direção é de Eduardo Silva.

Conheci o Sr. Oswaldo de Camargo na década de 1970, no lançamento do livro de contos “Carro do Êxito”, livro de cabeceira que sempre releio. É daquelas obras pelas quais você se apaixona: lê, relê, compra exemplares antigos e edições novas, presenteia amigos e, quando encontra o autor, agradece e fala dos contos, das paisagens citadas, dos momentos vividos na cidade de São Paulo.

Assistir a Oswaldo de Camargo no teatro é uma grande emoção. O jovem ator Miguel Lucca Britto, que representa o período da infância, nos traz uma imensa alegria em saber que as crianças e jovens estão tornando a figura de Oswaldo eterna.

Oswaldo Faustino, autor da peça, é daqueles intelectuais que nos orgulhamos de conhecer. Brilhante, mágico, deslumbrante e um apaixonado pelo xará. A cada palavra pronunciada pelo ator Adolfo Moura, ouço o genial Oswaldo Faustino.

Que ator esse Adolfo Moura! Arrasa pela sobriedade em interpretar Oswaldo de Camargo.

A figura feminina na peça, Elina de Souza, é um toque de alegria, sabedoria e respeito à nossa ancestralidade, com um olhar de esperança e despertar para a vida. Quando Elina entra em cena, só consigo pensar em um solo de trompete de Miles Davis, pela liberdade e leveza do seu desempenho. Que beleza, que olhar cativante, que nos leva à admiração.

Dimmy Anderson, o ator que representa o pai de Oswaldo, nos leva a refletir sobre a paternidade e o impacto, a ferida aberta, jamais cicatrizada, da partida ainda jovem. História de muitas famílias negras que, após a escravidão, tiveram seus pais mortos pela exaustão do trabalho, pela doença do alcoolismo, pelo descaso do Estado. Dimmy dá um show com a dramatização de ser um pai trabalhador e carregado de esperança no futuro dos filhos.

A direção de Eduardo Silva, que tenho acompanhado nos palcos paulistas, é uma chama de esperança no surgimento de diretores negros. Um trabalho primoroso, mais uma vez.

Se você ainda não viu o espetáculo “As negras letras de Oswaldo de Camargo”, saiba que é um momento especial na dramaturgia negra paulista. Atores, escritor e diretor negros, todos empenhados em prestar uma homenagem ao grande Oswaldo de Camargo, que completará 90 anos. Que privilégio dos paulistas poderem assistir a este belo trabalho, que nossos filhos, netos, sobrinhos e amigos precisam conhecer.

Gostaria de citar uma poesia do escritor Oswaldo de Camargo:

Grito de angústia

À memória de meu pai

Dê-me a mão. Meu coração pode mover o mundo com uma pulsação… Eu tenho dentro em mim anseio e glória que roubaram a meus pais. Meu coração pode mover o mundo, porque é o mesmo coração dos congos, bantos e outros desgraçados, é o mesmo.

É o mesmo coração dos que são cinzas e dormem debaixo da Capela dos Enforcados… é o coração da mucama e do moleque; e eu sei muitas canções de ninar gente branca, sei histórias, todas feitas à sombra das palmeiras, ou nas margens do Nilo… Eu conheço um grito de angústia, trovejante, que deve estarrecer todas as minhas amantes que tenho decerto…

Eu conheço um grito de angústia, e eu posso escrever este grito de angústia, e eu posso berrar este grito de angústia, quer ouvir? “Sou um negro, Senhor, sou um… negro!”

(15 poemas negros, p. 51-52)

SERVIÇO:

Espetáculo: “As Negras Letras de Oswaldo de Camargo
Temporada: 22 de maio a 21 de junho de 2026.
Horários: Quinta a domingo às 20h.
Local: Complexo Funarte (Teatro Funarte) – Alameda Nothman, 1058, Campos Elíseos, São Paulo – SP.
Ingressos: R$ 40
Vendas: https://ciaumbrasil.com.br/bilheteria-oswaldo-de-camargo
Mais informações: @cia.um.brasil

Josiane Climaco lança livro sobre Educação Física antirracista 

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Josiane Climaco apresenta livro sobre Educação Física antirracista
Foto: Hamilton Barssou/ Divulgação

A pesquisadora e professora Josiane Cristina Climaco lança o livro “Educação Física e Matrizes Africanas: Por uma proposição crítico-superadora e antirracista” em Salvador, no dia 11 de julho, durante o evento Redes Alvorada. A obra propõe uma releitura da Educação Física brasileira a partir das contribuições de diferentes matrizes africanas para a cultura corporal.

Publicada pela Editora Revista África e Africanidades, a obra aborda a formação de professores e professoras, os desafios enfrentados pela educação pública e a presença ainda limitada de referências africanas e afro-brasileiras nos currículos acadêmicos. A autora defende uma prática pedagógica comprometida com a equidade racial e com a valorização das identidades negras na educação.

Organizado em quatro eixos centrais, o livro amplia o debate sobre educação antirracista ao abordar a formação docente e os desafios da implementação da Lei 10.639/03, propondo novas possibilidades pedagógicas para o ensino da dança.

Segundo Josiane Climaco, a publicação é resultado de décadas de atuação como professora de Educação Física e pesquisadora das relações étnico-raciais.

“Minha área de formação foi construída sob uma lógica biologicista e eurocêntrica, que se consolidou como norma na educação brasileira. Pesquisar e sistematizar as contribuições do continente africano para o desenvolvimento das práticas corporais, de forma curricular e aplicável às escolas, foi um passo fundamental para qualificar o processo de formação integral”, afirma.

Josiane é mestra e doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e atua na rede estadual de ensino, na Faculdade Lusófona e na UFBA. Sua trajetória é marcada pela pesquisa e militância em defesa da educação antirracista e da valorização da cultura negra.

O livro possui recursos interativos acessados por QR Code, incluindo vídeos da autora, uma conversa sobre a pesquisa e o recurso educacional Elimu, ampliando suas possibilidades de utilização pedagógica.

A obra também será apresentada em São Paulo, na Colômbia e durante o Congresso Nacional de Pesquisadores e Pesquisadoras Negras (COPENE 2026), em Brasília.

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