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Artista visual Íldima Lima assina sacola da Tok&Stok e resgata o azul como herança africana

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Foto: divulgação

Artista visual baiana apresenta sacola reutilizável inspirada em Mami Wata e na azulejaria afro-atlântica, desfazendo no objeto de decoração um equívoco histórico sobre a origem da cor e da cerâmica

A artista visual @ildima_lima assina a nova sacola reutilizável da Tok&Stok dentro de uma iniciativa anual da marca que convida artistas selecionados por curadoria a desenvolver peças exclusivas para a linha. A peça parte de uma pesquisa que ela vem conduzindo sobre dois eixos: a origem africana da cor azul como pigmento sagrado e a ancestralidade da cerâmica como tecnologia visual que antecede, em milênios, o que o imaginário popular associa à azulejaria portuguesa. O projeto ancora sua estética na mitologia de Mami Wata, entidade das águas presente em diversas tradições africanas e da diáspora, e incorpora símbolos Adinkra para estruturar um vocabulário visual decolonial dentro de um produto de grande circulação comercial.

A curadoria que levou Íldima à parceria foi conduzida por Edson Coutinho, que a conheceu justamente desenvolvendo esse trabalho. A proposta que ela apresentou à Tok&Stok foi recebida e aprovada sem alterações conceituais, o que permitiu que o projeto mantivesse intacta sua camada de pesquisa e posicionamento. A sacola integra a coleção atual da marca e já está disponível nas lojas.

O trabalho de Íldima Lima transita entre pintura, cerâmica e estamparia, e a parceria com a Tok&Stok não é um projeto isolado: a artista segue desenvolvendo uma nova série dentro do mesmo universo temático, ainda em andamento. Conversamos com ela sobre o conceito por trás da sacola, sobre o equívoco histórico que seu trabalho questiona e sobre o que Mami Wata representa dentro dessa pesquisa.

O azul que não nasceu em Portugal

A pesquisa que sustenta a criação parte de um dado histórico que o processo de colonização tratou de obscurecer: o primeiro pigmento sintético azul da história foi produzido no Egito Antigo, e o uso do azul como representação do sagrado, da realeza e da força vital das águas já estava presente em territórios africanos muito antes de se tornar símbolo da azulejaria portuguesa. Íldima trabalha diretamente sobre esse equívoco, e a reação do público diante de suas peças ilustra com precisão o que ela quer questionar. “As pessoas se aproximam e falam: ‘Ah, os azulejos portugueses’. E eu falo: ‘Não, amor, a cerâmica africana’, que é milenar”, contou durante a entrevista.

O formato modular do azulejo aparece no trabalho não como referência à tradição ibérica, mas como campo simbólico de memória afro-atlântica, uma linguagem reapropriada que devolve ao continente africano a autoria de uma tecnologia visual que lhe pertence. Povos africanos produziram painéis cerâmicos, utensílios e arte com pigmento azul e simbologia própria muito antes da colonização, e é sobre essa linha do tempo que Íldima constrói sua estética. “O trabalho vem muito nesse lugar de reposicionar, de conversar e dialogar com essas informações que foram deturpadas durante muito tempo”, afirmou.

Mami Wata e o universo das águas

O segundo eixo da pesquisa é a mitologia de Mami Wata, entidade que Íldima descreve como síntese de tudo que se relaciona às águas: elementos religiosos, folclóricos e naturais de diversas tradições africanas e da diáspora. Representada como uma mulher que carrega uma serpente e habita a fronteira entre o mar e a terra, Mami Wata condensa em sua figura a dualidade entre mundos e a força do que não se deixa fixar em uma única forma. “Ela sintetiza essa energia, e ela é representada por uma sereia, uma mulher que carrega uma serpente, e ela tem essa dualidade de ser peixe, serpente, mar e terra”, explicou a artista.

Esse universo se traduz no vocabulário visual da sacola por meio de imagens que carregam sentidos de proteção, travessia e poder ancestral: sereia, peixe, concha, búzio, sol, lua, estrela, serpente, vela e espelho compõem o repertório simbólico que organiza a estética da sacola. Nas bordas, símbolos Adinkra ancoram os valores que estruturam o trabalho: Aya, que representa força; Sankofa, que trata da memória; Duafe, do autocuidado; Eban, da proteção; e Nkyinkyim, da transformação.

Um produto de massa com pesquisa dentro

A iniciativa da Tok&Stok que originou a parceria funciona como uma vitrine anual para novos artistas, com a sacola reutilizável como suporte. Para Íldima, o formato representa uma oportunidade de colocar uma pesquisa densa e politicamente posicionada dentro de um objeto de grande circulação, acessível a um público que talvez nunca tivesse contato com as questões que o trabalho levanta. A estética decolonial que ela propõe não se fecha em si mesma: ela está disponível nas prateleiras de uma das maiores redes de decoração do Brasil, carregando dentro de cada sacola a pergunta sobre quem, afinal, inventou o azul.

A nova série que Íldima Lima desenvolve dentro do mesmo universo temático ainda não tem data de lançamento confirmada. Atualizações sobre o trabalho e a sacola em parceria com a Tok&Stok podem ser acompanhadas pelo perfil @ildima_lima no Instagram.

Elisa Lucinda celebra 40 anos de carreira: “Somos os mais jovens velhos que a humanidade já teve”

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Foto: Jonathan Estrella / Divulgação

Aos 40 anos de carreira, Elisa Lucinda retoma nos palcos o formato que a revelou nos anos 1980 e leva pelo Brasil o espetáculo “Ensaio para uma Ideia”

Elisa Lucinda estreou no Manouche, casa de shows da Zona Sul carioca, o espetáculo “Ensaio para uma Ideia”, construído sobre os mesmos pilares que definiram seu trabalho quando chegou de Vitória, no Espírito Santo, ao Rio de Janeiro, há exatamente quatro décadas: poesia declamada ao vivo, música instrumental, conversa direta com o público e improviso sem roteiro fechado. Após a primeira temporada na casa carioca, o espetáculo segue em turnê pelo Brasil, com passagens previstas por Vitória, Goiânia, Brasília, Salvador, São Paulo e Porto Alegre. A produção marca também os 40 anos de uma carreira que acumula 24 livros publicados, 27 produções teatrais, 26 trabalhos em televisão, 27 participações no cinema e cinco prêmios, entre eles o Kikito pelo conjunto da obra artística, concedido pelo Festival de Cinema de Gramado.

No palco do Manouche, Elisa dividiu o espaço com o Duo Cafuzo, formado pelo saxofonista Glaucus Linx e pelo percussionista Sandro Lustosa, ambos com carreiras consolidadas nos cenários nacional e internacional. O espetáculo inclui uma caixinha de onde o público sorteia poemas, garantindo que cada apresentação tenha repertório parcialmente definido pela plateia, o que torna cada sessão única. A mesma dinâmica segue na turnê nacional, cujas datas serão anunciadas nos próximos meses.

Foto:  Dalton Valério/ Divulgação

A produção retoma um formato que Elisa praticou ao longo dos anos 1980 e 1990 nos bares do Rio ao lado de músicos como o percussionista Foguete Grande, Nestor Capoeira e Mestre Caboquinho, entre outros, num circuito de shows-poema que custava couvert baixo e reunia público escasso no começo, mas funcionou como base de tudo que construiu depois. Conversamos com Elisa Lucinda sobre os 40 anos que separam aquela jovem que chegou da capital capixaba da artista que hoje leva para o Brasil inteiro a mesma mistura de verso, voz e presença, sobre o papel das vozes negras na cultura brasileira e sobre o que a inteligência artificial jamais conseguirá fazer com um poema.

“A bola está nas mãos e nos pés sexagenários”

Elisa Lucinda chegou ao Rio de Janeiro no final dos anos 1980 carregando um repertório que havia desenvolvido em Vitória e que, segundo ela, ainda não sabia o efeito que causaria. “Eu exibia a arte da declamação que havia trazido da minha cidade e ainda não sabia, até chegar nos bares, que meu jeito de dizer poesia iria encantar os pensadores da cidade maravilhosa”, contou durante a entrevista. Essa abertura de caminho no circuito alternativo carioca produziu vínculos que marcariam toda a trajetória seguinte. Manoel Carlos, Beth Carvalho, Kizuca Iamasaqui, Antonio Pitanga, Martinho da Vila, Zezé Polessa e Zezé Mota são alguns dos nomes que ela associa àquele período de shows nos bares, numa rede de encontros que se formou antes de qualquer visibilidade maior.

Quatro décadas depois, a artista descreve a relação com o palco de forma distinta da que tinha nos anos 1980. Quando jovem, havia a necessidade de provar algo, de mostrar que aquele jeito de dizer poesia tinha sustentação. Agora, ela avalia que o risco continua presente, mas apoiado sobre outro chão: “Hoje, 40 anos depois, eu não tenho mais que provar nada e, como sou respeitada, é como se meu risco fosse mais seguro. Meus improvisos acontecem em cima de uma dama chamada experiência.” O ator e comediante Gregório Duvivier, que em seu espetáculo “O Céu da Língua” declara abertamente o amor pela palavra falada, disse a Elisa que ela foi para ele uma referência desse caminho, chamando-a de “princesa da palavra falada”.

Foto: Jonathan Estrella/ Divulgação

Elisa também faz questão de situar essa geração de artistas em que ela e os músicos do Duo Cafuzo se inserem. Glaucus Linx e Sandro Lustosa, assim como ela, pertencem à faixa dos 60 anos, e é sobre essa condição que ela fala com precisão: “Nós somos da turma dos 60 mais e também somos os mais jovens velhos que a humanidade já teve. Namoram, se divertem, viajam, malham, se medicam com canabidiol, dançam, e estão extremamente produtivos, alinhados na expertise que o tempo de trabalho trouxe.” O espetáculo também responde ao que ela identifica como carência da cidade. O Rio de Janeiro perdeu ao longo dos últimos anos boa parte das casas que comportavam aquele formato de palco pequeno, sem telão, com artista caminhando entre a plateia. “O Rio de Janeiro está carente de lugares charmosos como o Manouche e o Rival, e aquela apresentação nos bares não existe mais”, observou.

A temporada carioca produziu um episódio que ela citou como síntese do que espera da turnê: um pai que veio de Três Rios, interior do Rio, assistiu ao show com o filho de 16 anos e, ao final, o adolescente pediu ao pai que comprasse um saxofone para ele. O pai informou à artista que o filho nunca havia visto um saxofonista negro tocar antes.

Griô, necropolítica e o que a inteligência artificial não sabe fazer

A entrevista com Elisa Lucinda percorreu territórios que vão além do espetáculo no Manouche. A escritora, que ocupa na cultura brasileira um lugar específico como voz que atravessa décadas articulando raça, corpo e linguagem, falou sobre a função do griô na diáspora negra brasileira e sobre os limites da inteligência artificial generativa diante da poesia humana.

Sobre o papel de griô, Elisa o define a partir de um eixo político e estético ao mesmo tempo. Para ela, a griô é uma pensadora que usa a arte para traduzir um olhar sobre a realidade, capaz de nomear o que a sociedade prefere não ver. “Uma griô é uma pensadora e usa da arte para traduzir o seu olhar privilegiado. Seu papel principal é retratar a realidade, adversa e não adversa, e exibi-la à sociedade como contribuição reflexiva do que vivemos”, disse. Ela contextualiza esse papel dentro de uma história de apagamento sistemático: o Brasil, avalia, foi pouco narrado pelas vozes negras porque o povo negro gastou energia demais tentando sobreviver numa sociedade construída para não reconhecê-lo. “O Brasil foi pouco contado pelas vozes negras. Em geral, o povo negro gasta muita energia tentando sobreviver numa sociedade que foi educada a apagá-lo.”

Foto: Guga Melgar/ Divulgação

Quando a conversa chegou à inteligência artificial generativa, Elisa foi precisa na distinção que faz entre aquilo que a tecnologia replica e aquilo que a poesia humana pressupõe. Para ela, a poesia da IA é, no máximo, um arremedo distante de almas que um dia pensaram os dados que a máquina retém. O ponto central de sua argumentação está no erro: muitos poemas nascem do ilógico, do incompreensível, do que não segue caminho previsto. “O que ela não sabe é que muitos poemas nascem do erro, do ilógico e até da não compreensão. A máquina não conhece a glória do erro”, afirmou. A inexatidão do ser humano, para Elisa, não é defeito a ser corrigido pela tecnologia, mas condição da qual a poesia real se alimenta.

Televisão e os próximos destinos

Enquanto a turnê nacional do “Ensaio para uma Ideia” toma forma, Elisa Lucinda segue com presença constante na televisão. Atualmente integra o elenco de “Coração Acelerado” e, nos últimos anos, participou também de “Dona Beja” e “Vai na Fé”. A carreira na TV, que soma 26 produções, corre em paralelo com a produção literária e teatral que a sustenta desde os anos 1980, quando os shows nos bares cariocas ainda eram a única plataforma disponível.

A turnê nacional do espetáculo, com passagens previstas por Vitória, Goiânia, Brasília, Salvador, São Paulo e Porto Alegre, tem datas a serem confirmadas. Informações sobre agenda e novidades do espetáculo são publicadas nos perfis do Duo Cafuzo: Glaucus Linx (@glaucuslinx) e Sandro Lustosa (@sandrolustosa).

Amores negros e o não lugar do amor

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Casal negro abraçado com ternura sentados no sofá de uma sala.
Foto: IA

Por: Suzana Coelho

Para diversas pessoas negras, a luta pelo reconhecimento da própria humanidade antecedeu a possibilidade de ocupar plenamente o lugar do afeto. 

Quando falamos sobre racismo, normalmente pensamos em violência, exclusão, desigualdade, discriminação e acesso a direitos. Mas, raramente falamos sobre amor. Pouco se discute como o racismo também moldou nossos afetos, nossos desejos, nossas escolhas amorosas e até mesmo a capacidade de nos reconhecermos como dignos(as) de amar e ser amados(as). 

Porque o racismo não organizou apenas a economia, a política e as oportunidades sociais. Ele também organizou a afetividade. Organizou a forma como aprendemos a enxergar a nós mesmos, os outros e o nosso lugar no mundo. Organizou quem seria associado à beleza, ao desejo, à delicadeza, ao cuidado e ao amor. 

O racismo produziu hierarquias de humanidade, mas também de afeto. A branquitude foi frequentemente associada à beleza, à pureza, à delicadeza e à idealização romântica. Já a negritude foi associada à força, à resistência, ao trabalho e, muitas vezes, à hipersexualização de seus corpos. 

Nesse contexto, pessoas negras foram historicamente afastadas dos lugares simbólicos de cuidado, proteção e idealização afetiva que ajudaram a construir os modelos socialmente reconhecidos de amor. 

Então, o que aprendemos sobre o amor e sobre as relações amorosas? Crescemos cercados(as) por histórias de amor. Nos livros, nas novelas, nos filmes e nos contos de fadas. Mas quem eram as pessoas escolhidas para viver essas histórias? 

O amor também é uma narrativa social. E as narrativas importam. Não foi apenas a humanidade das pessoas negras que foi negada ao longo da história. Foi também sua possibilidade de ocupar plenamente o lugar do afeto. 

O racismo não ensinou apenas quem deveria ser amado. Também ensinou quem deveria aprender a viver sem amor. 

Suzana Coelho (Foto: RobertoAbreu_@betofoto)

É nesse ponto que o letramento racial se torna fundamental. Ele nos permite perceber que muitas das nossas escolhas afetivas não nasceram apenas das preferências individuais. Elas também foram construídas dentro de uma sociedade racializada, marcada por hierarquias, padrões estéticos, relações de poder e modelos específicos de pertencimento. 

E então os relacionamentos interraciais aparecem. Não os vejo como um problema. Relações interraciais podem, sim, reproduzir desigualdades. 

Mas também podem se tornar espaços de escuta, aprendizado, transformação e reconhecimento das diferenças que atravessam a experiência de cada pessoa no mundo, uma possibilidade de revisitar referências, questionar padrões e construir novas formas de relação. Isso reforça a importância do letramento racial e do desenvolvimento de uma consciência racial que nos permita reconhecer como o racismo também atravessa nossos afetos, escolhas e formas de nos relacionar.

Isso exige compreender que o amor, sozinho, não elimina os efeitos do racismo. É preciso disposição para reconhecer privilégios e compreender que o racismo continua produzindo impactos concretos na forma como as pessoas vivem, sentem e se relacionam. Porque, no final das contas, não é sobre pessoas. É sobre estrutura. 

Para muitas pessoas negras, o amor-próprio não foi um ponto de partida.  Foi e está sendo um processo de (re)construção. 

Falar de afeto também é falar de humanidade. 

E talvez uma das maiores contribuições do letramento racial seja nos ajudar a compreender que o enfrentamento ao racismo não acontece apenas nas leis, nas instituições ou nas políticas públicas. Ele também acontece quando revemos aquilo que aprendemos sobre o amor. Quando ampliamos nossa capacidade de reconhecer humanidade, dignidade e afeto em nós e nos outros. 

Afinal, ninguém deveria precisar provar que merece amor. Mas, talvez uma das marcas mais profundas do racismo tenha sido justamente essa: ensinar quem deveria ser amado e quem deveria aprender a viver sem amor.

Suzana Coelho é assistente social, consultora em direitos humanos, diversidade, equidade e inclusão, além de fundadora e CEO do Instituto Afetto. Com mais de uma década de atuação, desenvolve estratégias de impacto social, fortalecimento institucional e desenvolvimento humano para empresas, governos e organizações da sociedade civil. Sua trajetória é marcada pela promoção da justiça social, da equidade e da construção de ambientes mais inclusivos e sustentáveis. 

L’Oréal é finalista em Cannes com Código do Consumidor Negro

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Código de Inclusão do Consumidor Negro
Foto: Lázaro Ramos/Linkedin

A L’Oréal Luxo é uma das representantes brasileiras entre os finalistas da categoria Glass do Cannes Lions 2026 com o Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro, iniciativa da butique criativa Beta Collective, comandada por Bernardo Tavares, desenvolvida em parceria com o Movimento pela Equidade Racial (MOVER) e a Black Sisters in Law.

A indicação leva ao principal festival internacional de criatividade uma discussão ainda pouco abordada pelo mercado: as experiências da população negra nas relações de consumo e os impactos do racismo, inclusive em suas manifestações mais sutis, nos ambientes comerciais.

Lançado como parte do Afroluxo, o Código reúne dez propostas voltadas à promoção de práticas mais inclusivas no atendimento ao consumidor. O documento foi elaborado a partir de reflexões sobre os direitos da população negra nos espaços de consumo e propõe mudanças que podem ser adotadas por empresas como forma de enfrentamento ao racismo institucional.

A categoria Glass reconhece trabalhos que contribuem para mudanças sociais e para a redução de barreiras estruturais relacionadas a temas como raça, gênero, deficiência, sexualidade e desigualdade social. A presença do Código entre os finalistas posiciona a equidade racial como destaque em uma das principais premiações globais da indústria criativa.

Djavan, Alcione e Gaby Amarantos estão entre os vencedores do 33º Prêmio da Música Brasileira

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Foto: Leo RT Fotografia

A 33ª edição do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira teve artistas negros como maioria dos vencedores. Veja a lista completa da noite no Theatro Municipal do Rio.

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro recebeu na última quarta-feira (10) a 33ª edição do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira, e a noite foi dos artistas negros. De 30 prêmios distribuídos em 18 categorias, a maioria foi para nomes negros da música brasileira: Luedji Luna, João Gomes, Djavan, Alcione, BK’, Black Pantera, Olodum, Deize Tigrona, Péricles, Hamilton de Holanda, Bia Ferreira e Gaby Amarantos estiveram entre os grandes vencedores, reafirmando o que já se sabe: é a música negra que sustenta e define a produção musical do país.

Luedji Luna foi a maior vencedora individual, levando dois troféus em uma só noite: Melhor Artista de Pop e Melhor Lançamento de Pop com “Antes Que A Terra Acabe”. João Gomes acumulou três prêmios, o maior número entre todos os artistas da edição, vencendo Melhor Artista e Melhor Lançamento de Canção Popular com “Pé de Serrita” e ainda Melhor Lançamento em Projeto Especial com “Dominguinho”, gravado ao lado de Mestrinho e Jota.Pê. Na MPB, Djavan levou os dois troféus da categoria com “Improviso”. No samba, Alcione foi eleita Melhor Artista e Péricles levou Melhor Lançamento com “Pagode do Pericão”. No axé, o Olodum conquistou Melhor Artista. No rap e trap, BK’ foi eleito Melhor Artista e Don L venceu com “CARO Vapor II”. No rock, Black Pantera levou Melhor Artista. No funk, Deize Tigrona foi eleita Melhor Artista. No reggae, Bia Ferreira venceu em Melhor Lançamento com “O Seu Silêncio”. Hamilton de Holanda levou Melhor Artista de Música Instrumental e Gaby Amarantos conquistou Melhor Projeto Audiovisual com “Rock Doido”.

A cerimônia foi apresentada por Débora Bloch e Alice Wegmann, com direção musical de Pretinho da Serrinha e direção geral de José Maurício Machline e Giovanna Machline. Cazuza foi o grande homenageado da noite, com tributo que reuniu no palco Seu Jorge, Ludmilla, Ney Matogrosso, Marina Sena, Luísa Sonza e Maneva, cada um interpretando clássicos do cantor em performances criadas especialmente para o evento.

Confira abaixo os vencedores de cada categoria:

  • Axé — Melhor Artista: Olodum
  • Projeto Especial — Melhor Lançamento: João Gomes, Mestrinho, Jota.Pê — Dominguinho
  • Eletrônico — Melhor Lançamento: Africanoise — CABAÇA
  • Erudito — Melhor Lançamento: Gabriele Leite — Gunûncho
  • Funk — Melhor Artista: Deize Tigrona
  • Funk — Melhor Lançamento: Totonho e os Cabra — Aí Dentu: Funk de Embolada e Hip Hop do Mato
  • Instrumental — Melhor Artista: Hamilton de Holanda
  • MPB — Melhor Artista: Djavan
  • MPB — Melhor Lançamento: Djavan — Improviso
  • Pop — Melhor Artista: Luedji Luna
  • Pop — Melhor Lançamento: Luedji Luna — Antes Que A Terra Acabe
  • Raízes — Melhor Artista: Mestrinho
  • Rap/Trap — Melhor Artista: BK’
  • Reggae — Melhor Lançamento: Bia Ferreira, Little Lion Sound — O Seu Silêncio
  • Rock — Melhor Artista: Black Pantera
  • Samba — Melhor Artista: Alcione
  • Samba — Melhor Lançamento: Péricles — Pagode do Pericão (Ao Vivo Em São Paulo)
  • Melhor Projeto Audiovisual: Gaby Amarantos — Rock Doido

De volta após 16 anos, África do Sul estreia na abertura da Copa do Mundo hoje

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Foto: Divulgação/África do Sul

A África do Sul retorna à Copa do Mundo 2026 após 16 anos e estreia contra o México na cerimônia de abertura do torneio, nesta quinta (11).


A Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira (11) com a cerimônia de abertura no Estádio Azteca, na Cidade do México, às 14h30 (horário de Brasília), cerca de uma hora e meia antes da primeira partida do torneio. O jogo inaugural coloca frente a frente México e África do Sul, às 16h, no mesmo estádio, e marca o retorno dos sul-africanos ao futebol mundial depois de 16 anos fora do Mundial.

A festividade terá apresentações de Shakira e do cantor nigeriano Burna Boy, responsáveis pelo hit oficial do torneio, “Dai Dai”. Conforme o ge, da Globo, o espetáculo reunirá ainda J Balvin, Maná, Tyla e outros artistas. A TV Globo inicia a transmissão às 14h20, enquanto SporTV, Globoplay, ge tv, SBT, N Sports e CazéTV também cobrem o evento ao vivo.

Esta é a quarta participação da África do Sul em Copas do Mundo, depois das edições de 1998, 2002 e 2010, e a equipe nunca passou da fase de grupos em nenhuma delas. O retrospecto soma 9 jogos, 2 vitórias, 4 empates, 3 derrotas, 11 gols marcados e 16 sofridos, segundo o NSC Total.

Em 2010, como anfitriã, a seleção empatou com o México, perdeu para o Uruguai e venceu a França por 2 a 1 na última rodada, mas foi eliminada assim mesmo, tornando-se, conforme a Rádio Itatiaia, a primeira anfitriã da história a cair ainda na fase de grupos. Agora, sob o comando do técnico belga Hugo Broos, os sul-africanos integram o Grupo A ao lado de México, Coreia do Sul e Tchéquia com uma meta inédita: chegar às oitavas de final pela primeira vez.

Saúde dos homens negros será tema do evento Entre Vinhos & Afetos

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Luís Eduardo Batista participa do encontro Entre Vinhos & Afetos
Foto: Reprodução/ Redes Sociais

Sociólogo e pesquisador referência em equidade racial em saúde, Luís Eduardo Batista participa do Entre Vinhos & Afetos para discutir os desafios e as barreiras que impactam o acesso dos homens negros aos serviços de saúde.

Quais barreiras dificultam o acesso dos homens negros aos serviços de saúde?

Essa será a pergunta que guiará a próxima edição do encontro Entre Vinhos & Afetos, marcada para o dia 20 de junho, com a participação do sociólogo e pesquisador Luís Eduardo Batista, uma das principais referências brasileiras nos estudos sobre saúde da população negra e equidade racial em saúde.

Com trajetória dedicada à formulação, implementação e monitoramento de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades raciais em saúde, Batista tem contribuído para o debate sobre os impactos do racismo estrutural no acesso a direitos e serviços de saúde no Brasil.

Ao longo de sua trajetória acadêmica e institucional, como mestre e doutor em Sociologia pela UNESP e pós-doutor pela Escola de Enfermagem da USP, seus estudos têm abordado temas como racismo e saúde, gênero, classe, envelhecimento, saúde mental e os efeitos das desigualdades estruturais sobre a qualidade de vida da população negra.

Durante o encontro, o convidado compartilhará reflexões sobre os desafios enfrentados por homens negros no acesso aos serviços de saúde, discutindo caminhos para fortalecer práticas de autocuidado, prevenção, promoção da saúde e garantia de direitos.

A iniciativa busca ampliar o diálogo sobre saúde da população negra entre a comunidade masculina. Para mais informações sobre o evento, acesse o canal oficial do projeto no Instagram: @entre_vinhoseafetos.

15 ações práticas para ficar mais próximo do emprego dos seus sonhos

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Foto: gerada por IA

Por Denis Tassitano, executivo e cofundador do Best in Black

O ano já está se aproximando da metade e eu tenho uma pergunta: você está mais próximo ou mais distante do emprego que gostaria de ter no início do ano?

Se você ainda não está no emprego dos sonhos, está buscando uma recolocação (mesmo que seja dentro da própria empresa) ou procura sua primeira oportunidade profissional, talvez esteja na hora de trocar a esperança por um plano de ação.

Lembre-se de que a oportunidade raramente aparece para quem está parado. Ela aparece para quem se organiza, se expõe e constrói pontes todos os dias.

Caderno e caneta na mão. Planilha aberta. LinkedIn logado. Uma inteligência artificial qualquer conectada. E vamos pra cima!

1. Liste os segmentos em que você já tem experiência.

2. Liste os segmentos em que gostaria de atuar.

3. Liste os segmentos mais promissores para os próximos anos.

4. Para cada segmento, mapeie as 50 maiores empresas.

5. Antes de procurar qualquer vaga, revise completamente seu LinkedIn: foto, cabeçalho, resumo, experiências, competências, recomendações, publicações e rede de conexões. Lembre-se: não faz sentido atrair pessoas para um perfil desatualizado. Seu LinkedIn é sua vitrine profissional.

6. Busque pelos sites e pelas páginas de LinkedIn das empresas que você listou.

7. Faça uma lista de eventos relevantes dos segmentos que você mapeou. Não importa se acontecem na sua cidade ou não. Muitas vezes, uma viagem de férias pode se transformar em uma oportunidade de networking, aprendizado ou até mesmo de carreira.

8. Faça uma lista de pessoas que você conhece dentro dessas empresas.

9. Faça outra lista com pessoas que você conhece e que podem conhecer alguém nessas empresas.

10. Liste também pessoas com quem você ainda não tem conexão direta, mas que fariam sentido para a sua rede.

11. Liste três pontos que poderiam aumentar a sua empregabilidade e a sua confiança profissional. Se for um idioma, comece hoje um curso gratuito. Se for uma certificação, pesquise por opções acessíveis. Se for comunicação, pratique apresentações. O importante é começar imediatamente. Existe muito conteúdo de qualidade disponível gratuitamente.

12. Entre nos sites das empresas, busque vagas para as quais você realmente se qualifica e faça a aplicação.

13. Depois, fale com quem você conhece nessas empresas (as pessoas que você listou no item 8). Não peça indicação logo de cara. Diga que se aplicou para determinada posição e que gostaria de entender melhor o perfil da vaga, da área ou do gestor. Se a pessoa for próxima e houver confiança suficiente, aí sim você pode pedir uma indicação.

14. Para contatos indiretos (listados no item 9), pergunte se eles conhecem alguém que possa te dar mais contexto sobre a empresa ou sobre a oportunidade.

15. Para pessoas que você ainda não conhece (item 10), conecte-se pelo LinkedIn com uma abordagem respeitosa. Algo como: 

“Vi uma oportunidade na empresa e gostaria de entender melhor se você seria a pessoa ideal para me orientar ou indicar quem poderia compartilhar um pouco mais de contexto sobre a posição.”

E, antes de dizer que não tem tempo para fazer este exercício, vale uma reflexão: você dedica mais tempo planejando suas próximas férias ou planejando sua próxima oportunidade profissional?

A maioria das pessoas passa anos reclamando da carreira que tem, mas não investe sequer algumas horas por mês construindo a carreira que gostaria de ter.

Daqui a seis meses, você pode estar exatamente no mesmo lugar, reclamando das mesmas coisas, ou pode estar conversando com novas empresas, participando de novos eventos, desenvolvendo novas habilidades e acessando oportunidades que hoje nem imagina.

A diferença entre esses dois cenários não está no mercado. Está no que você decidir fazer depois de terminar a leitura deste texto.

Mês da Música Negra: as 10 capas mais icônicas da história

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Foto: divulgação

De Marvin Gaye a Rihanna, essas capas foram além da música e viraram obras de arte que definiram décadas da cultura negra.

A iconografia fonográfica preta não se submete à mera função ilustrativa; ela opera como uma extensão semiótica da própria obra. Uma capa de álbum bem-sucedida abdica da obviedade descritiva para inaugurar uma segunda camada de significação, uma declaração visual autônoma, passível de exegese acadêmica e imune ao anacronismo do tempo. Historicamente, a música negra norte-americana arquitetou algumas das imagens mais radicais, heréticas e politicamente densas da cultura contemporânea. Diante de uma indústria radiofônica pautada pelo cerceamento e pela pasteurização, o espaço quadrangular do vinil converteu-se em um território soberano de dissidência estética e editorial.

Da tessitura pictórica que envelopou a obra de Marvin Gaye à anatomia mutável de Grace Jones transmutada em escultura viva; do maximalismo psicodélico do Funkadelic ao minimalismo disruptivo que pauta o design contemporâneo de vanguarda, o elemento de convergência reside na recusa do ornamento. Cada projeto gráfico inventaria uma tomada de posição intelectual e, invariavelmente, geopolítica. Trata-se de um acervo visual que tencionou as convenções das artes gráficas e cujo legado reverbera nas composições cinematográficas contemporâneas, a exemplo do rigor fotográfico e do claro-escuro barroco que o diretor Ryan Coogler e sua direção de arte resgataram para a identidade visual do longa-metragem Sinners (2025).

Abaixo, dez obras-primas do design fonográfico que demonstram como a soberania visual da música preta norte-americana redefiniu a história da arte contemporânea.

1. Bitches Brew — Miles Davis (1970) A pintura do artista austríaco Mati Klarwein entregou para Miles Davis um universo visual surrealista e afrofuturista, com figuras negras flutuando num espaço que mistura corpo, natureza e cosmos. A capa não tinha nada de convencional para um álbum de jazz de 1970, o que era exatamente o ponto: Bitches Brew também não tinha nada de convencional para um álbum de jazz de 1970.

Foto: capa do álbum/ reprodução

2. Maggot Brain — Funkadelic (1971) O rosto de uma mulher negra emergindo da terra com expressão de terror absoluto. A modelo foi Barbara Cheeseborough e a foto foi tirada pela artista Leni Sinclair. A ideia de George Clinton era retratar o crânio da América, um país que havia enterrado vivo seu próprio povo negro. A uDiscover Music a considera uma das imagens mais provocativas e originais já colocadas na capa de um disco de funk.

Foto: capa do álbum/ Reprodução

3. I Want You — Marvin Gaye (1976) A capa usa The Sugar Shack, pintura do artista negro Ernie Barnes que retrata corpos negros em movimento numa pista de dança da Carolina do Norte segregada. Barnes pintou duas versões da obra, e a primeira foi adquirida pelo próprio Marvin Gaye, que a adaptou para o álbum. Quase 50 anos depois, o diretor Ryan Coogler usou a mesma pintura como referência visual para o pôster de Sinners, de 2025, num tributo direto ao poder de permanência dessa imagem dentro da cultura negra.

Foto: capa do álbum/ Reprodução

4. Dirty Mind — Prince (1980) Prince de cueca, jaqueta de couro e um olhar que não pede licença a ninguém. A foto foi tirada pelo fotógrafo Allen Beaulieu num porão, com pouquíssimo equipamento, e o resultado foi uma das declarações de intenção mais diretas da história do pop. A capa foi censurada em várias redes de varejo americanas, o que só aumentou o interesse pelo álbum.

Foto: capa do álbum/ Reprodução

5. Island Life — Grace Jones (1985) A fotografia de Jean-Paul Goude transformou o corpo de Grace Jones numa escultura impossível, com a pose dobrada para trás desafiando qualquer noção de limite físico. A imagem é tão construída e tão precisa que parece ao mesmo tempo natural e completamente irreal, e publicações de design a consideram uma das composições mais tecnicamente ousadas já usadas numa capa de álbum.

Foto: capa do álbum/ Reprodução

6. First Take — Roberta Flack (1969) Num close em preto e branco de rara intimidade, Roberta Flack olha diretamente para a câmera com uma intensidade que não precisa de contexto. Numa era em que capas de álbuns de artistas negras tendiam ao glamour distante, First Take foi o oposto: perto, direto e humano.

Foto: capa do álbum/ Reprodução

7. Things Fall Apart — The Roots (1999) A fotografia de um homem negro sendo detido por policiais brancos durante os protestos de 1960 em Birmingham, Alabama, foi usada como capa sem qualquer texto na frente, apenas a imagem. A escolha foi deliberada: The Roots queria que a primeira coisa que o ouvinte visse fosse um registro histórico de violência racial, antes de ouvir qualquer música. A foto é do fotógrafo Charles Moore.

Foto: capa do álbum/ Reprodução

8. To Pimp a Butterfly — Kendrick Lamar (2015) Um grupo de homens negros celebrando no gramado da Casa Branca com dinheiro e champanhe, enquanto um juiz branco jaz caído ao fundo. A foto foi tirada pelo fotógrafo Denis Rouvre e direcionada pelo próprio Kendrick. O Rolling Stone e a Billboard a listam consistentemente como a capa mais importante do hip-hop moderno.

Foto: capa do álbum/ Reprodução

9. Anti — Rihanna (2016) Uma criança negra de olhos vendados com uma coroa inclinada, carregando um balão e diante de um quadro. A imagem foi criada pelo artista Roy Nachum e inclui texto em braille na capa, invisível à maioria dos ouvintes. É uma das capas mais deliberadamente enigmáticas do pop moderno, recusando qualquer leitura fácil desde o primeiro contato.

Foto: capa do álbum/ Reprodução

10. Igor — Tyler, the Creator (2019) Tyler com uma peruca branca, maquiagem pesada e uma expressão que dissolve qualquer leitura de gênero ou raça convencional. A foto foi tirada pelo fotógrafo Torso e opera dentro da lógica do personagem que Tyler construiu para o álbum, mas o resultado visual vai além da fantasia: é uma das capas mais estranhas e memoráveis do rap da última década.

Foto: capa do álbum/ Reprodução

Dia dos Namorados: O que Oxum nos ensina quando amar não pode ser se abandonar

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Foto de Oxum nas águas segurando seu espelho de ouro
Foto: IA

Por: Rodrigo França

Ficar só pode ser a escolha mais lúcida da sua vida.

Isso incomoda porque confronta uma engrenagem inteira que nos ensinou a medir valor afetivo pela presença de alguém ao lado. Às vésperas do Dia dos Namorados, essa pressão ganha forma, cor, roteiro. Não basta viver, é preciso mostrar. Não basta sentir, é preciso provar. E, nesse teatro, muita gente sustenta relações que já terminaram por dentro, mas continuam em cartaz para não encarar o vazio.

Existe uma pergunta que precisa ser feita com honestidade: quanto custa não estar só? Não em dinheiro, mas em desgaste, em silenciamento, em pequenas concessões que, somadas, viram apagamento. Tem gente chamando isso de amor. Mas, quando a permanência exige que você diminua quem é, não há afeto, há adaptação.

A ideia de que qualquer companhia é melhor do que nenhuma ainda organiza muitas escolhas. Isso explica por que relações claramente frágeis seguem sendo mantidas. O medo do silêncio pesa mais do que o incômodo da inadequação. E, nesse ponto, é preciso responsabilidade emocional: reconhecer a própria carência não é fraqueza. Fraqueza é transformar essa carência em critério de escolha.

Ficar só, quando é escolha, não é isolamento. É posicionamento. É recusa de negociar dignidade em troca de pertencimento. Só que essa decisão não nasce do nada. Ela exige estrutura. Exige, muitas vezes, terapia, redes de apoio, amizades consistentes, espaços onde você não precise performar para ser aceito. Exige também tempo. Tempo para rever padrões, para entender por que certos vínculos se repetem, para aprender a não confundir intensidade com verdade.

Há um ponto pouco discutido nesse debate: o modelo de relacionamento que ainda se vende como ideal não nasceu do amor. No Ocidente, o casamento foi, por séculos, uma instituição voltada à organização de patrimônio, alianças familiares e controle de herança. O afeto, quando existia, era consequência, não premissa. Essa base histórica não desapareceu, ela se atualizou.

Quando se olha com mais precisão para diferentes regiões do continente africano, o desenho das relações muda e fica mais complexo do que a ideia de casal isolado. Entre os Yorùbá, na atual Nigéria e Benim, a noção de família se organiza em torno de redes extensas, onde cuidado e responsabilidade são compartilhados para além do vínculo romântico. Entre os Akan, em Gana, sistemas matrilineares estruturam pertencimento, herança e alianças, deslocando o centro da autoridade doméstica. No sul do continente, entre os Zulu, na África do Sul, a ideia de família também ultrapassa o casal e se ancora na comunidade ampliada. E, em diversas regiões da África Subsaariana, práticas como a poliginia existiram, não como desvio, mas como forma socialmente reconhecida de organização, ainda que hoje tensionada por mudanças urbanas, religiosas e econômicas. O ponto não é romantizar essas estruturas, mas reconhecer que o afeto, o cuidado e o pertencimento podem ser distribuídos de maneiras menos individualizadas, onde o amor não fica refém de uma única relação para existir.

Dentro das tradições de matriz africana, há uma compreensão que desafia diretamente a lógica do sacrifício afetivo. Oxum, muitas vezes lida de forma superficial, carrega um princípio radical: antes de cuidar dos filhos, é preciso cuidar do próprio ouro. No olhar ocidental, isso foi traduzido como egoísmo. Mas essa tradução revela mais sobre quem interpreta do que sobre o ensinamento em si.

Porque a questão é simples, embora desconfortável: como oferecer algo que você não tem? Como sustentar cuidado se você está esvaziado? O que se chama de entrega, em muitos casos, é só abandono de si legitimado culturalmente.

Para pessoas negras, esse debate ganha outra camada. A história atravessou os vínculos com rupturas, ausências forçadas, desestruturações familiares. Há um desejo legítimo de construir estabilidade, continuidade, segurança afetiva. Mas esse desejo não pode ser capturado por relações que reproduzem, no íntimo, a mesma lógica de desvalorização imposta socialmente.

Escolher ficar só, nesse contexto, pode ser um gesto de ruptura. Uma recusa em perpetuar ciclos. Uma decisão de não aceitar menos do que aquilo que se reconhece como digno.

Isso não significa negar o amor. Significa levar o amor a sério.

O tempo, nesse processo, deixa de ser inimigo e passa a ser critério. Ele revela o que é consistência e o que é improviso emocional. Ele mostra quem fica quando não há espetáculo. E, principalmente, ele ensina que esperar não é passividade. É preparação.

Se for para estar com alguém, que seja sem precisar se reduzir. Se não houver esse encontro, a ausência pode ser mais honesta do que qualquer presença forçada.

No fim, a pergunta não é se vale a pena amar. A pergunta é se vale a pena se abandonar para isso.

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