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Rio celebra os 187 anos de Machado de Assis com festival gratuito de 12 horas na Pequena África

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Foto: Fundação Biblioteca Nacional

Pela primeira vez, o Rio celebra os 187 anos de Machado de Assis com 12 horas de programação gratuita no MAR, na Pequena África. Saiba tudo sobre o festival.

A Prefeitura do Rio de Janeiro realiza no dia 21 de junho de 2026 o Festival Machado de Assis, evento gratuito e inédito que ocupa o pilotis e o térreo do Museu de Arte do Rio (MAR), na região da Pequena África, durante 12 horas de programação cultural contínua. A data marca os 187 anos de nascimento do escritor, considerado o maior nome da literatura brasileira, e a celebração reunirá caminhada literária, rodas de conversa, debates acadêmicos, apresentações musicais, microfone aberto, experiências imersivas e um baile charme como encerramento. A entrada é gratuita e as atividades começam às 9h.

O evento é apresentado pela Secretaria Municipal de Cultura e realizado pela Academia Brasileira de Letras e pela Terreiro Produções, com apoio do Itaú Cultural. A curadoria ficou a cargo da escritora e imortal Ana Maria Gonçalves, que também idealizou o festival, e dos artistas Felipe Oladélè, Hugo Germano e Muato. A escolha do MAR não é casual: o museu está situado na Pequena África, território que concentra parte significativa da memória cultural afro-brasileira do Rio de Janeiro e guarda relação direta com o universo que Machado de Assis habitou e descreveu ao longo de sua obra.

Foto: Editora Record / Divulgação

O dia começa com uma caminhada guiada a partir do conto “Noite de Almirante”, que conduzirá o público por locais históricos do centro do Rio ligados à trajetória do escritor e à memória cultural da cidade. A atividade funciona como porta de entrada para uma programação que percorre diferentes linguagens e públicos ao longo das horas seguintes, desde intervenções artísticas e um quiz literário até experiências fotográficas com tecnologia de filtros.

Uma das atrações do espaço será a Ocupação Captu, instalação cenográfica inspirada no século XIX que recria o ambiente presente nos romances machadianos, com móveis e objetos de época. Os visitantes poderão participar de uma ativação fotográfica com o filtro “Olhos de Ressaca”, referência direta à descrição de Capitu em “Dom Casmurro”, e receberão ao final uma fotografia impressa personalizada. A proposta conecta o texto literário a uma experiência sensorial contemporânea, aproximando o público de uma das personagens mais debatidas da literatura nacional.

Debates com acadêmicos da ABL

Entre 14h e 16h, o térreo do MAR recebe um ciclo de mesas que reúne pesquisadores e membros da Academia Brasileira de Letras. A primeira delas, intitulada “Machado de Assis: obra, contexto e permanência”, contará com o professor e pesquisador Eduardo de Assis Duarte e terá mediação de Ana Maria Gonçalves. O encontro examinará a sofisticação literária de Machado e sua relevância para a compreensão da sociedade brasileira, abordando aspectos que vão da técnica narrativa à crítica social presente nos textos.

A segunda mesa, “Leituras contemporâneas de Machado”, reunirá as acadêmicas Rosiska Darcy de Oliveira, Ana Maria Machado e Lilia Schwarcz para um diálogo sobre as diferentes interpretações da obra do autor ao longo do tempo. Raça, poder, subjetividade, desejo e política estão entre os temas previstos para a conversa, que busca demonstrar como textos escritos no século XIX continuam a produzir sentido quando lidos à luz do presente.

Para Ana Maria Gonçalves, a escolha do MAR como sede do festival reforça uma relação que o próprio Machado cultivou ao longo da vida. “Em seus livros, Machado de Assis sempre falou muito bem da cidade. Então é extremamente importante a gente fazer esse festival no MAR, com uma programação que engloba espaços instagramáveis, quiz literário, shows, mesas com os acadêmicos e terminando com baile charme, numa tentativa de trazer suas obras mais para perto do público, apresentando-o para novas gerações, para que eles possam entender o quão atual ainda é esse grande escritor”, afirmou a escritora.

Microfone aberto e espetáculo de encerramento

A partir das 16h30, o festival abre espaço para a participação direta do público com o Microfone Aberto, atividade que convida artistas e visitantes a compartilharem leituras, performances e interpretações a partir dos textos de Machado de Assis. A proposta dura duas horas e funciona como transição entre o ciclo de debates e o espetáculo que encerra o dia.

O fechamento da programação ficará por conta do “Machado Vivo”, espetáculo cênico-musical com direção de Felipe Oládélè, Muato e Hugo Germano e direção musical de Muato. O show reúne música, teatro, performance, poesia e dança para percorrer temas centrais da obra machadiana, como amor, liberdade, raça, ironia e crítica social. Os intérpretes Janamô, Marcos Sacramento, Natasha Félix e João Vitor Nascimento serão acompanhados pela banda formada por Gabriel Marinho, Rodrigo Ferreira, Márcio Sorriso e Pedro Carneiro.

Ao final do espetáculo, o festival se transforma em baile charme, conduzido pelo dançarino Marcus Azevedo e pelo DJ Bob Reis, encerrando as 12 horas de programação com música, dança e convivência coletiva.

Fundador da ABL e voz da cidade

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839, filho de um pintor negro e de uma lavadeira açoriana, e cresceu no morro do Livramento, na zona portuária da cidade, região que corresponde hoje à Pequena África. Autodidata, tornou-se tipógrafo, jornalista e, ao longo de décadas de produção literária, construiu uma obra que abrange romances, contos, crônicas, peças de teatro e poesia. Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, que ajudou a fundar em 1897, e exerceu o cargo até sua morte, em 1908.

Romances como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba” e “Dom Casmurro” consolidaram sua posição como o mais influente escritor da literatura brasileira, e seus textos são traduzidos e estudados em universidades de diversos países. Apesar disso, celebrações públicas de grande porte dedicadas exclusivamente a ele são raras no Rio, cidade onde nasceu, viveu e morreu. O festival de 21 de junho representa a primeira iniciativa do município com esse escopo e essa estrutura.

O evento é gratuito e aberto ao público, com programação das 9h às 21h no Museu de Arte do Rio, localizado na Praça Mauá, 5, no Centro do Rio de Janeiro.

Thelminha ganha processo de racismo contra Rodrigo Branco; empresário terá que pagar R$ 40 mil

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Thelma Assis após vitória judicial em processo por racismo
Fotos: denis.cord/Instagram e Reprodução/Instagram

A Justiça de São Paulo condenou o empresário Rodrigo Branco, ex-diretor da Band, ao pagamento de R$ 40 mil em indenização por danos morais à médica e campeã do Big Brother Brasil 2020, Thelma Assis. A decisão é resultado de um processo movido após declarações feitas por ele durante uma live realizada em 2020, quando afirmou que o público votava em Thelma por ela ser uma “negra coitada”.

Nesta tarde, Thelma se manifestou nas redes sociais sobre a condenação e destacou a importância do reconhecimento judicial do caso.

“Eu precisava que a justiça reconhecesse o fato, e ela foi feita. Foram seis anos lutando praticamente sozinha, somente com o apoio da minha família e dos meus advogados, contra uma injúria racial covarde, já que eu estava confinada na época do ocorrido e não pude me defender”, escreveu.

A médica também ressaltou o impacto emocional e simbólico da decisão após anos de tramitação do processo. Sua manifestação foi recebida como um marco importante na busca por responsabilização em casos de violência racial.

Entenda o caso

Durante uma transmissão ao vivo realizada enquanto o BBB 20 ainda estava em exibição, Rodrigo Branco afirmou que Thelma era “horrível” e que recebia apoio do público por ser uma “negra coitada”. Na mesma ocasião, também fez comentários sobre a jornalista Maju Coutinho, afirmando que ela estaria em sua posição profissional “por causa da cor”.

As declarações geraram ampla repercussão nas redes sociais e foram criticadas por reforçarem estereótipos raciais que desconsideram trajetórias construídas por mérito, competência e talento.

Justiça reconhece caráter discriminatório das declarações

Na sentença, a juíza Flávia Ribeiro afirmou que o empresário, “na tentativa de diminuir os evidentes atributos pessoais de Thelma, carisma, talento, competência, entre outros”, praticou um “comportamento discriminatório que não se pode admitir”.

A magistrada também entendeu que as declarações ultrapassaram a esfera individual e atingiram a coletividade ao reforçarem padrões históricos de exclusão.

Segundo a decisão, a fala não apenas atingiu a honra da médica, mas também reproduziu mecanismos de discriminação racial presentes na sociedade brasileira. Por esse motivo, a Justiça reconheceu a gravidade do caso e determinou o pagamento da indenização, que ainda será acrescida de juros e correção monetária.

De acordo com informações do processo, Rodrigo Branco não apresentou defesa na ação.

Após a repercussão das declarações, ele divulgou um vídeo afirmando que já havia falado “besteiras” e que mudar de opinião fazia parte do aprendizado. Em entrevista concedida posteriormente à revista Veja, também declarou que não era racista e que suas críticas se referiam ao desempenho de Thelma no programa.

Mesmo com a condenação, o empresário ainda poderá recorrer da decisão.

A decisão judicial ocorre seis anos após o episódio e representa um reconhecimento institucional da violência racial denunciada por Thelma Assis.

Para Thelma, a condenação simboliza o encerramento de uma longa disputa por justiça e o reconhecimento oficial de uma violência que, segundo ela, ocorreu em um momento em que não podia sequer responder publicamente às acusações por estar confinada no reality show.

Goleiro de origem ganesa é destaque da seleção japonesa

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Zion Suzuki, goleiro da seleção japonesa e atleta do Parma
Foto: ADRIAN DENNIS / AFP

O goleiro titular da seleção japonesa e atleta do Parma, da Itália, Zion Suzuki, vem chamando atenção por uma trajetória que conecta Japão, Gana, Estados Unidos e Europa. Nascido em Nova Jersey, nos Estados Unidos, filho de mãe japonesa e pai ganês, Suzuki construiu sua trajetória entre diferentes culturas até se tornar, aos 23 anos, um dos rostos mais promissores do futebol japonês.

O atleta foi criado em Saitama, no Japão. Apesar de ter nascido em território norte-americano, o goleiro escolheu representar o país de sua mãe. A ligação com o futebol começou ainda na infância, quando ingressou nas categorias de base do Urawa Reds, um dos clubes mais tradicionais do país. Com 1,90 metro de altura e destaque precoce na posição, passou a frequentar as seleções japonesas desde as categorias de base.

Da formação no Japão ao futebol europeu

Em 2023, Suzuki deu um passo importante na carreira ao se transferir para a Europa. O primeiro destino foi o St. Truiden, da Bélgica, onde ganhou experiência no futebol europeu e chamou a atenção de clubes de ligas mais competitivas.

O desempenho consistente abriu caminho para sua chegada ao Parma, tradicional equipe italiana que revelou grandes goleiros e teve em Gianluigi Buffon um de seus maiores ídolos. Na Itália, Suzuki encontrou espaço para se desenvolver e rapidamente assumiu a titularidade da equipe.

Atualmente em sua segunda temporada como titular do Parma, o goleiro tem sido reconhecido por atuações seguras, boa capacidade de reação e qualidade na saída de bola.

Titular do Japão rumo ao Mundial

Pela seleção principal, Suzuki estreou em 2022 e soma mais de 20 partidas disputadas. Entre os resultados recentes, participou da histórica vitória japonesa sobre o Brasil em amistoso e esteve presente nos triunfos sobre Inglaterra e Escócia sem sofrer gols.

Agora, o goleiro terá a missão de liderar o sistema defensivo japonês na Copa do Mundo de 2026. No Grupo F, o Japão enfrentará Holanda, Suécia e Tunísia em busca de superar sua melhor campanha em Mundiais, alcançada com as classificações para as oitavas de final em edições anteriores.

Representatividade e novas narrativas no futebol asiático

A presença de Zion Suzuki na seleção, sendo filho de uma família formada por diferentes origens, evidencia importantes transformações sociais no cenário futebolístico asiático. Ele integra uma geração de atletas que desafia visões homogêneas sobre identidade nacional e amplia as referências de pertencimento dentro do esporte.

Nos últimos anos, jogadores negros e mestiços têm ocupado espaço crescente no futebol japonês, contribuindo para a construção de narrativas mais diversas sobre quem representa o país dentro e fora dos gramados. Suzuki se tornou um exemplo de como identidade, talento e formação esportiva podem coexistir em uma carreira marcada por múltiplas influências culturais.

Eliana Alves Cruz vence prêmio da ABL de Melhor Livro de Ficção com ‘Meridiana’

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Escritora Eliana Alves Cruz sorrindo com um cenário de livros atrás.
Foto: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

A Academia Brasileira de Letras (ABL) anunciou o romance ‘Meridiana’, de Eliana Alves Cruz, como o vencedor do Prêmio Guimarães Rosa de Melhor Livro de Ficção, na última sexta-feira (12). Escritora consagrada, em 2022, Eliana já havia conquistado o Prêmio Jabuti com a coletânea de contos ‘A Vestida’.

‘Meridiana’ (Companhia das Letras, 2025) acompanha a trajetória de três gerações de uma família negra no processo de ascensão social. A trama centraliza os desdobramentos socioeconômicos e afetivos decorrentes da mudança do grupo de uma comunidade para um condomínio de classe média, expondo tensões estruturais da sociedade brasileira.

“A comissão considerou o livro uma odisseia, ou anti-odisseia, de uma família negra, um romance de grande intensidade emocional, numa trama muito bem urdida, que divide polos ao pôr em trânsito os conflitos advindos de uma mudança da favela para um condomínio de classe média. Trata-se, portanto, de uma história de busca de inserção que expõe um quadro social complexo com suas adversidades cotidianas que levantam novas questões de um repertório já secular, mas que fecha acenando para as boas novas que o futuro terá para contar. Por todos os méritos literários, Meridiana, de Eliana Alves Cruz, é o livro merecedor do Destaque em Ficção da ABL, neste 2026”, diz o comunicado da ABL.

Eliana Alves comemora a mais recente conquista literária. “Muito bonito e muito surpreendente. É uma honra muito grande. A ABL é uma referência nacional, uma referência na cultura do nosso país. Estão lá e estiveram grandes intelectuais brasileiros e brasileiras. Então, é realmente muito importante ter uma obra como Meridiana nesse lugar de premiação”, afirma. “Embora o livro seja relativamente curto, construir seis vozes em primeira pessoa, seis vozes de uma mesma família, dando a cada uma sua particularidade, sua personalidade e sua identidade, foi realmente uma arquitetura bem difícil”, explica a escritora.

Eliana Alves Cruz consolidou-se como uma das vozes mais influentes da literatura contemporânea voltada à memória e à história afro-brasileira, acumulando prêmios de prestígio como o Oliveira Silveira por seu romance de estreia, ‘Água de Barrela’ — que também recebeu Menção Honrosa na Brown University, além de ter sido semifinalista do Prêmio Oceanos com ‘O Crime do Cais do Valongo’. Autora de obras densas que discutem as heranças coloniais e as dinâmicas sociais do país, como ‘Solitária e Nada Digo de Ti, Que em Ti Não Veja’, ela também transita com sucesso pela literatura infantojuvenil em títulos como ‘Gênios da Nossa Gente’ e ‘Milena e o Enigma do Pássaro Antigo’, este último escrito em parceria com Mauricio de Sousa.

Paralelamente à literatura, Eliana também possui uma sólida carreira no audiovisual, onde atuou como roteirista-chefe da série ‘Capoeiras’ (Disney+), colaborou no projeto ‘Narrativas Negras’ (Paramount) e integrou a equipe de roteiro da cinebiografia ‘Anderson Spider Silva’, produção indicada ao International Emmy Awards, além de comandar o programa literário ‘Trilha de Letras’ na TV Brasil.

Por que africanos torceram contra a África do Sul na copa? Pesquisador angolano explica

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Foto: reprodução / @weloveghana042 / X

Por que africanos de vários países torceram contra a África do Sul na Copa 2026? O pesquisador angolano Geovany Cattuco explica a onda de xenofobia por trás do boicote.

O México venceu a partida por 2 a 0, no Estádio Azteca, na Cidade do México, em 11 de junho. Segundo Cattuco, nigerianos, senegaleses, ganeses, moçambicanos, congoleses, camaroneses, zambianos e angolanos estiveram entre os que declararam apoio ao adversário da seleção sul-africana. A razão, diz ele, não tem nada a ver com futebol.

O pesquisador e criador de conteúdo angolano Geovany Fernandes-Cattuco, que acompanha cultura, história e língua do continente africano e tem 222 mil seguidores no Instagram, publicou um vídeo após a estreia da Copa do Mundo 2026 chamando atenção para um fenômeno que passou despercebido na cobertura esportiva brasileira: vídeos circularam nas redes sociais mostrando africanos de diferentes países vestindo as cores do México e declarando abertamente que torciam contra a África do Sul. Cattuco contextualiza o que estava em jogo: “quando existe uma competição internacional, normalmente nós, africanos, apoiamos outros africanos. Já que somos tão poucos, torcemos sempre uns pelos outros.” E completa: “no jogo de ontem, a maioria dos africanos torceu pelo México.”

Foto: reprodução/instagram

Cattuco explica que, para quem não está acompanhando as notícias do continente, a África do Sul vive uma escalada de ataques xenófobos organizados contra cidadãos de outros países africanos. O pesquisador descreve cenas que se tornaram recorrentes: “cidadãos sul-africanos organizados saem pelas ruas pedindo documentos a pessoas estrangeiras. Acontece com pessoas ilegais, mas também acontece com pessoas que vivem legalmente dentro do país. Quem não tiver documento é espancado com socos e pontapés.” Segundo ele, os grupos “vão até hospitais, ficam à porta dos hospitais para não deixar estrangeiros indocumentados receberem atendimento” e “fazem visitas em lojas de estrangeiros e mandam fechar.”

Os relatos correspondem à atuação documentada de dois movimentos organizados: a Operation Dudula e o March and March. A Operation Dudula surgiu em 2020 com o objetivo declarado de expulsar migrantes de outras partes do continente. A Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos registrou que o grupo bloqueou sistematicamente o acesso de migrantes a unidades de saúde públicas em Gauteng e KwaZulu-Natal em 2025. Em novembro do mesmo ano, o Tribunal Superior de Gauteng interditou o movimento, proibindo seus membros de exigir documentos de pessoas em espaços públicos e de praticar discurso de ódio. A violência, no entanto, continuou.

O prazo mais recente e mais concreto é o que Cattuco menciona diretamente: “esse grupo deu um prazo aos estrangeiros ilegais e irregulares: até o dia 30 de junho de 2026, todos eles devem deixar o país. Caso não saiam, eles não se responsabilizam pelo que vai acontecer depois dessa data.” A Human Rights Watch registrou em maio de 2026 que as demonstrações violentas do March and March se intensificaram nas semanas anteriores à essa data, com pouca resposta das autoridades.

O presidente Cyril Ramaphosa discursou em 7 de junho de 2026, anunciando o que chamou de Abordagem Abrangente para a Gestão da Migração, com criação de tribunais de imigração dedicados, dez mil novos inspetores de trabalho e penalidades maiores para empregadores que contratem trabalhadores indocumentados. Pela primeira vez, segundo a transcrição oficial da Presidência sul-africana, Ramaphosa usou a palavra “afrofobia” em um pronunciamento público. Ainda assim, ele não citou a Operation Dudula ou o March and March pelo nome e não fez referência ao prazo de 30 de junho.

Foto: Mike Hutchings/Reuters

A central sindical moçambicana OTM-CS, em nota divulgada em maio, afirmou que “a xenofobia dos sul-africanos é alimentada por narrativas políticas oportunistas, culpando o trabalhador estrangeiro pelas falhas estruturais de emprego”, e classificou a violência como “o assassinato simbólico do espírito pan-africanista.” Pesquisadores da Universidade de Joanesburgo e da Universidade de Cornell, em artigo publicado recentemente, apontam que grupos como a Operation Dudula canalizam a frustração gerada por desigualdade, má governança e estagnação econômica contra os aproximadamente 3 milhões de migrantes presentes no país, que representam cerca de 5% da população sul-africana.

Cattuco situa o episódio atual em perspectiva histórica ao lembrar a Copa de 2010, sediada na África do Sul: “muitos africanos sentiram um pouquinho de orgulho pela competição ser sediada no nosso continente. Vibraram muito com aquele golo do Tshabalala.” Em 2019, após uma onda anterior de ataques xenófobos no país, Zâmbia e Madagascar cancelaram amistosos confirmados contra a seleção sul-africana em boicote explícito. Dezesseis anos após 2010, no mesmo confronto de estreia contra o México, a posição do continente se inverteu.

Cattuco menciona que Marrocos também não conta com a torcida de boa parte dos africanos subsaarianos, mas que essa tensão é mais antiga. A partir de 2023, grupos e páginas com conteúdo racista contra migrantes subsaarianos se multiplicaram nas redes sociais marroquinas, com denominações como “Marroquinos contra o estabelecimento de subsaarianos no Marrocos”, reunindo milhares de membros. O governo marroquino, questionado por jornalistas sobre a proliferação desse conteúdo, declarou que o país é signatário de todas as convenções internacionais de direitos humanos e convocou os marroquinos a se distanciar dessas “vozes minoritárias.”

oto: Divulgação/África do Sul

O contexto regional mais amplo inclui a Tunísia, onde em fevereiro de 2023 o presidente Kaïs Saïed descreveu migrantes subsaarianos como parte de um “plano criminoso” para transformar o país em “uma nação puramente africana.” Segundo o Wilson Center, a repressão que se seguiu às declarações incluiu migrantes barrados do transporte público, demitidos, despejados de suas casas e agredidos. Um relatório da Carnegie Endowment for International Peace publicado em janeiro de 2026 aponta que, no Marrocos, o racismo faz parte da experiência cotidiana de migrantes subsaarianos, com discriminação frequentemente associada à cor da pele, e que mulheres migrantes estão especialmente expostas a violência e exploração sexual.

O vídeo de Cattuco parte de uma observação simples sobre o comportamento de africanos durante um jogo de futebol e chega a uma questão estrutural sobre os limites da solidariedade pan-africana. “Obviamente que não são todos os sul-africanos que se reveem nesse comportamento e também não acontece em todas as cidades do país”, pondera o pesquisador. “Mas tudo isso foi o suficiente para que outros países africanos se revoltassem e passassem a boicotar a África do Sul durante este Mundial.”

Chimamanda Ngozi Adichie fala pela primeira vez sobre a morte do filho e cobra investigação: “Apenas a verdade serve”

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Foto: Pari Dukovic/ The New Yorker

A escritora nigeriana publicou carta ao conselho do hospital Euracare exigindo que o inquérito sobre a morte do filho de 1 ano não seja interrompido.

Chimamanda Ngozi Adichie publicou neste sábado, 14 de junho, nas redes sociais, uma carta que havia enviado ao conselho de administração do Hospital Euracare Multi-Especialidades, em Lagos, Nigéria, acusando o estabelecimento de negligência médica na morte do filho Nkanu Nnamdi, de 1 ano e 9 meses, e de trabalhar para impedir que um inquérito judicial apure as circunstâncias do óbito. A publicação, dividida em quatro partes no Instagram e no Facebook, representa o primeiro pronunciamento público da escritora sobre o caso desde a morte da criança, em 7 de janeiro de 2026. A escritora justificou a decisão de tornar o documento público com uma frase direta: “silenciar sobre a maldade da Euracare é habilitá-la.”

O Euracare, em comunicados divulgados desde janeiro, nega irregularidades. O hospital afirmou que o atendimento seguiu padrões internacionais, que a criança chegou à unidade em estado crítico e que mantém “compromisso com a transparência perante todas as autoridades competentes.” O caso está sob apreciação judicial e nenhum inquérito foi concluído até o momento.

O que aconteceu com Nkanu

Nkanu era o gêmeo mais velho dos dois filhos que Adichie e o marido, o médico Ivara Esege, tiveram por gestação por substituição em 2024. Segundo a escritora, a criança ficou doente durante as férias de Natal da família em Lagos e foi internada no Hospital Pediátrico Atlantis. Diante da gravidade do quadro, a equipe médica decidiu transferi-la para os Estados Unidos, onde, de acordo com Adichie, uma equipe do Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, aguardava para recebê-la.

Antes da viagem, no dia 6 de janeiro, Nkanu foi encaminhado ao Euracare para a realização de uma ressonância magnética, uma punção lombar e a inserção de um cateter venoso central, procedimentos que, segundo a família, eram preparatórios para o transporte. Para que a criança ficasse imóvel durante a ressonância, foi necessário submetê-la à sedação. O anestesista responsável foi o Dr. Titus Ogundare.

Ainda no dia 6, Adichie afirma ter visto o diretor médico do hospital, Dr. Tosin Majekodunmi, correr em direção ao laboratório de cateterismo onde Nkanu se encontrava. Na carta, ela escreve que Majekodunmi lhe disse, naquele momento, que o anestesista havia dado ao filho “propofol demais” — e acrescenta que “essas foram suas palavras exatas.” O propofol é um sedativo utilizado em procedimentos cirúrgicos e diagnósticos; em dosagem inadequada, pode causar parada respiratória.

Segundo o relato de Adichie, Nkanu entrou em parada cardiorrespiratória e, por não estar sendo monitorado continuamente, a complicação não foi identificada a tempo, resultando no que ela descreve como “lesão cerebral hipóxica”, que se manifestou como convulsões após a reativação dos batimentos cardíacos. A criança nunca recuperou a consciência, segundo a família, e foi declarada morta às 8h18 da manhã do dia 7 de janeiro de 2026.

A cadeia de irregularidades relatada por Adichie

Na carta, Adichie descreve uma série de condutas do hospital que, segundo ela, agravaram a situação após a morte do filho. No dia 8 de janeiro, afirma ela, o diretor médico visitou a família na residência deles, no bairro de Ikoyi, Lagos, e “assumiu total responsabilidade pelos erros”, prometendo enviar os prontuários médicos de Nkanu e relatórios de todos os profissionais presentes no laboratório até as 14h do dia seguinte. Segundo Adichie, “nada nos foi enviado no dia seguinte.”

No dia 9, a cunhada da escritora, Dra. Anthea Esege Nwandu, médica, reuniu-se com o anestesista e o diretor médico no hospital. De acordo com o relato de Adichie, o Dr. Ogundare “parecia amplamente indiferente; ele continuava sorrindo e ajustando o ar-condicionado, como se nada de importante tivesse acontecido.” A escritora afirma que outro funcionário presente no laboratório na hora da intercorrência descreveu como “incompreensível” o fato de Ogundare ter removido o oxigênio de Nkanu durante o procedimento.

Quando os advogados da família solicitaram formalmente os prontuários médicos, o Euracare recusou a entrega, alegando, segundo Adichie, que o pedido não estava “em conformidade com as leis relevantes”, mas sem indicar quais. Os documentos, enviados após novos atrasos, chegaram incompletos. A escritora aponta como especialmente grave a ausência do relatório do anestesista: “o radiologista intervencionista, em seu relatório, referia-se ao relatório do anestesista. Mas NÃO havia relatório do anestesista.” A causa da morte registrada na certidão de óbito também é contestada pela família: o hospital indicou meningite bacteriana e fúngica, diagnóstico que Adichie afirma “não ter respaldo em evidência médica”, já que Nkanu “estava consciente, conversando e interativo” quando chegou ao Euracare naquela manhã. Em nota, os advogados do hospital se referiram à morte de Nkanu como uma “disputa”, linguagem que Adichie descreve na carta como “estarrecedora em sua falta de coração.”

A escritora relata ainda ter descoberto, após os fatos, que o Dr. Ogundare teria sido negligente no atendimento de outra criança, que precisou ser transportada de emergência ao Reino Unido, e que teria sido demitido de um hospital anterior antes de ser contratado pelo Euracare. Essas alegações não foram confirmadas de forma independente.

O inquérito e a disputa judicial

O próprio Euracare foi quem solicitou a instauração do inquérito do legista em janeiro, citando, segundo Adichie, “rumores de negligência.” Um inquérito dessa natureza, no sistema jurídico nigeriano, é uma investigação judicial pública voltada a determinar as causas e circunstâncias de uma morte. Não é um processo penal e não estabelece culpa, mas produz um registro oficial dos fatos.

O inquérito estava previsto para ter início em 14 de abril. Adichie afirma que o hospital passou a adotar “táticas de atraso”, com advogados “fingindo não ter documentos e discutindo sobre protocolos já estabelecidos.” O desdobramento seguinte foi o Euracare ingressar com ação no Tribunal Superior do Estado de Lagos pedindo a suspensão do processo. Em 26 de maio, o Tribunal Superior concedeu ao hospital autorização para contestar a jurisdição do Tribunal do Legista e determinou a suspensão das investigações enquanto o pedido de revisão judicial não for julgado. O inquérito foi remarcado para 8 de outubro de 2026.

Reagindo ao movimento, o Procurador-Geral do Estado de Lagos, Lawal Pedro, e o Legista-Chefe do estado apresentaram objeção preliminar ao Tribunal Superior, descrevendo a ação do hospital como “incompetente, prematura e abuso de processo.” Adichie questiona na carta a contradição entre o pedido original do hospital e sua postura atual: “Foi a Euracare que primeiro solicitou um inquérito. Se a Euracare se importa com a verdade, por que criar atrasos e distrações e agora, finalmente, tentar parar um inquérito?”

A escritora relata ainda que um membro de alta hierarquia do grupo proprietário do hospital enviou um recado à sua família desaconselhando que ela fosse a público ou buscasse a via judicial, sob o argumento de que processos judiciais são competitivos e que seu nome poderia “ser arrastado pela lama.” Na carta, Adichie descreve a mensagem como “manipuladora e implicitamente ameaçadora” e responde: “este ameaçador não sabe com que ferocidade amamos nosso filho.”

“A falta de coragem moral exibida pela Euracare é vergonhosa”

Na carta, Adichie dedica vários parágrafos a descrever quem Nkanu era antes de detalhar qualquer alegação contra o hospital. Ela escreve que o filho “corria até mim e começava a massagear meu joelho com carinho, dizendo: mamãe, desculpa”, que “subia aleatoriamente no sofá, ficava de pé e me dava um abraço apertado”, que, ao ganhar um brinquedo, “imediatamente queria outro para dar ao irmão.” Um parente, segundo ela, o descreveu como “simplesmente um camarada alegre.”

O impacto da perda sobre os outros filhos do casal também é descrito na carta. A filha mais velha, de dez anos, “fechou-se.” O gêmeo sobrevivente, segundo Adichie, “pergunta frequentemente pelo irmão” e, certo dia, apontou para um conjunto de pijamas iguais e disse: “Este é do KanKan.” A escritora resume a extensão da perda em uma frase: “Perdemos o presente e perdemos o futuro.”

O encerramento da carta é dirigido ao presidente do conselho do Euracare e não deixa margem para interpretação: “A falta de coragem moral exibida pela Euracare é vergonhosa.”

Desdobramentos

Com o inquérito suspenso até outubro, a próxima etapa depende do julgamento do Tribunal Superior de Lagos sobre a competência do Tribunal do Legista para conduzir o processo. A objeção apresentada pelo Procurador-Geral do estado, que pede a rejeição da ação do hospital, ainda não tem data para ser apreciada.

Adichie, que mora nos Estados Unidos mas estava em Lagos durante as festas de fim de ano quando o filho adoeceu, não indicou planos de pronunciamentos adicionais. Na publicação deste sábado, pediu orações e agradeceu as manifestações de apoio recebidas de todo o mundo com uma frase: “Este peso é pesado demais.”

Organização antirracista pede afastamento de árbitro após gesto associado a símbolo supremacista

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Foto: Reprodução/Dazn

Fare Network, parceira da Fifa no combate à discriminação, exigiu que o australiano Shaun Evans seja retirado do torneio; Fifa abriu investigação, mas não anunciou punição

A Fare Network, organização internacional que atua em parceria com a Fifa no monitoramento de discriminação em competições de futebol, pediu nesta segunda-feira, 15, o afastamento imediato do árbitro de vídeo australiano Shaun Evans da Copa do Mundo de 2026, depois que imagens captadas durante a transmissão oficial do jogo entre Alemanha e Curaçao mostraram o profissional fazendo um gesto com a mão direita associado por especialistas a grupos supremacistas brancos. O episódio ocorreu no domingo, 14, antes do início da partida disputada em Houston, quando as câmeras do torneio exibiram por alguns segundos a equipe do VAR trabalhando no centro de operações instalado em Dallas.

Nas imagens que viralizaram nas redes sociais, Evans aparece com as pontas do polegar e do indicador unidas, formando um círculo, enquanto os outros três dedos permanecem estendidos. O gesto, historicamente associado ao sinal de “ok”, foi ressignificado em 2017, quando usuários do fórum americano 4chan lançaram uma campanha falsa afirmando que a configuração de mão formava as letras “w” e “p”, iniciais de “white power” em inglês. Com o tempo, grupos de extrema direita passaram a adotar o símbolo como código de reconhecimento mútuo, justamente porque ele pode passar despercebido por quem desconhece o contexto, confundido com um simples gesto de aprovação.

A Fare Network se pronunciou após submeter as imagens à análise de seus especialistas. “O sentimento dos nossos especialistas é que o gesto usado é claramente um ‘ok’ invertido, usado como o símbolo de poder branco nos círculos de extrema-direita internacional”, declarou a organização, segundo O Globo. A entidade foi além da denúncia e cobrou providências diretas da Fifa: “Este árbitro não deve ter mais nenhum papel neste Mundial”, acrescentou, conforme o Jornal Record.

A Fifa abriu uma investigação sobre o episódio, de acordo com informações publicadas nesta segunda-feira pelo jornal espanhol Democrata. Até o momento, porém, a entidade não anunciou a abertura de processo disciplinar formal nem comunicou qualquer decisão sobre a permanência de Evans no torneio. Procurada pela Folha de S.Paulo e por outros veículos, a Fifa não havia respondido até a publicação das primeiras matérias sobre o caso.

A Liga Antidifamação, organismo americano especializado no monitoramento de crimes de ódio, ponderou que nem toda pessoa que faz esse gesto está necessariamente fazendo referência à supremacia branca, uma vez que o sinal de “ok” segue em uso corrente em contextos alheios a qualquer conotação política. A ressalva é relevante para a avaliação do episódio, já que Evans não se manifestou publicamente sobre o caso até o fechamento desta reportagem, e tampouco a federação australiana emitiu qualquer nota a respeito.

Shaun Evans tem 38 anos e mais de duas décadas de carreira na arbitragem. Começou como assistente na A-League, a liga nacional australiana, foi promovido a árbitro principal em 2012 e passou a integrar o quadro internacional da Fifa em 2017. Foi eleito árbitro revelação do ano pela Federação Australiana de Futebol em 2007 e árbitro do ano pela mesma entidade em 2010. Sua primeira participação em Copas do Mundo como árbitro de vídeo ocorreu no Qatar, em 2022.

A Fare Network existe desde fevereiro de 1999, quando grupos de torcedores, sindicatos de jogadores e associações de futebol se reuniram em Viena para fundar uma rede dedicada ao combate à discriminação no esporte. Ao longo dos anos, a organização estabeleceu parcerias formais com a Fifa e a Uefa, e mantém equipes de monitoramento ativas durante grandes torneios internacionais. O fato de a Fare ter parceria oficial com a Fifa confere peso institucional ao pedido de afastamento, diferente de uma cobrança vinda apenas de torcedores nas redes sociais.

O caso ganhou dimensão adicional pelo contexto esportivo em que ocorreu: a seleção de Curaçao, adversária da Alemanha na partida em questão, é composta majoritariamente por jogadores negros, originários de uma ilha caribenha com população predominantemente afrodescendente. A Alemanha venceu o jogo por 7 a 1, mas o placar ficou em segundo plano nas redes sociais, superado pela repercussão das imagens do árbitro. Os desdobramentos do caso dependem agora do resultado da investigação aberta pela Fifa, que precisará se posicionar publicamente antes da próxima rodada do torneio.

Receitas juninas que contam histórias e preservam memórias

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Curau de Milho
Foto: Magnific

As festas juninas ocupam um lugar especial na memória afetiva de muitas famílias brasileiras. Esse período também é um encontro com sabores que atravessam gerações e ajudam a preservar histórias, territórios e identidades.

Preparações à base de milho, mandioca e coco presentes em diferentes regiões do país,  guardam lembranças de infância,  ensinamentos transmitidos por pais e avós e resistem como formas de celebrar a cultura popular ao longo do tempo.

Para marcar o período junino, o Mundo Negro convidou os chefs Gerson Fernandes, Bianca Oliveira e Ronaldo Assis para compartilhar receitas juninas que ocupam um lugar especial em suas vidas e os fazem relembrar de momentos especiais celebrando a tradição e o afeto em família. Entre curau, lelê e pamonha, os relatos revelam como cozinhar também é uma forma de preservar memórias e fortalecer vínculos.

Curau de milho: uma colherada de tradição

Para o chef Gerson Fernandes, o curau de milho representa a essência da cozinha brasileira.

“O curau de milho vai muito além de uma simples sobremesa. Ele representa a essência da cozinha brasileira, aquela que nasce da terra, das colheitas, das festas populares e das receitas passadas de geração em geração.”

Segundo ele, o milho ocupa um papel central na cultura alimentar do país e, especialmente durante as celebrações juninas, se transforma em símbolo de encontro e partilha.

“O milho sempre teve um papel fundamental na nossa cultura alimentar. Seu aroma, sua textura cremosa e seu sabor marcante têm o poder de nos transportar para momentos de união, simplicidade e alegria.”

Para o chef, manter receitas como essa vivas é também uma forma de preservar a identidade da gastronomia brasileira.

“Cada colherada carrega história, tradição e o respeito pelos ingredientes que fazem parte da formação da gastronomia brasileira.”

Receita

Ingredientes

  • 4 espigas de milho
  • 500 ml de leite
  • 250 g de açúcar
  • 60 g de manteiga
  • 1 pitada de sal
  • 200 ml de leite de coco
  • Leite condensado a gosto
  • Canela em pó a gosto

Modo de preparo

1. Retire os grãos das espigas de milho e coloque-os no liquidificador com o leite.

2. Bata por 3 a 5 minutos até obter uma mistura homogênea.

3. Passe por uma peneira fina ou voal, pressionando bem para extrair o líquido.

4. Leve o líquido ao fogo médio com açúcar, manteiga, sal e leite de coco.

5. Mexa constantemente por cerca de 20 a 30 minutos, até engrossar.

6. Desligue o fogo e acrescente o leite condensado a gosto.

7. Distribua em travessas ou porções individuais.

8. Deixe esfriar e leve à geladeira por pelo menos duas horas.

9. Finalize com canela em pó.

 Pamonha de carimã: o sabor marcante do lar 

Quando pensa em São João, o chef Ronaldo Assis pensa imediatamente em Conceição do Jacuípe, conhecida popularmente como Berimbau, cidade que guarda parte importante de suas lembranças afetivas.

“Quando penso em São João, penso em Conceição do Jacuípe, minha amada Berimbau. Minha terra do coração.”

Para ele, a pamonha de carimã é capaz de reunir em um único sabor as sensações que acompanham o período junino, e o conecta com as memórias da avó e aos momentos compartilhados na cozinha.

“Quando como pamonha de carimã, penso no engarrafamento na BR, no reencontro com os familiares, no cheiro da folha de bananeira e naquela sensação boa de que chegou a melhor época do ano.”

Para Ronaldo, algumas receitas permanecem especiais justamente porque carregam a presença de quem veio antes.

“Toda vez que abro uma folha ainda morna e sinto aquele perfume escapar, volto para a cozinha da minha avó, para Berimbau e para a certeza de que o São João chegou.”

Receita

Ingredientes

  • 500 g de carimã (puba) peneirada
  • 250 ml de leite de coco fresco
  • 100 g de açúcar
  • 70 g de manteiga derretida
  • 5 ml de água de flor de laranjeira
  • 80 g de coco seco em cubos
  • 1 pitada de sal
  • Folhas de bananeira

Modo de preparo

1. Misture metade do leite de coco com a água de flor de laranjeira, açúcar e sal.

2. Acrescente o carimã aos poucos.

3. Adicione o restante do leite de coco gradualmente.

4. Incorpore o coco em cubos.

5. Acrescente a manteiga derretida e misture bem.

6. Deixe descansar por cerca de 20 minutos.

7. Passe as folhas de bananeira pelo fogo.

8. Modele os cilindros com as folhas e recheie com a massa.

9. Feche bem as extremidades.

10. Cozinhe em água fervente por aproximadamente 30 minutos.

Lelê: a receita ancestral que atravessa gerações

Para a chef Bianca Oliveira, o lelê de milho quebradinho representa uma herança familiar. A receita foi transmitida por seu pai, Sr. Natalício Borges, e segue ocupando um lugar especial nas celebrações da família.

Preparado com milho branco quebradinho, coco e canela, o doce é uma das receitas tradicionais presentes em diferentes comunidades afro-brasileiras, especialmente durante os festejos juninos.

Receita: Lelê de Milho Quebradinho

Ingredientes

  •  500 g de milho branco quebradinho
  •  1 litro de leite de coco
  •  100 g de coco em lascas
  •  100 g de coco ralado
  •  150 a 200 g de açúcar
  •  1 pau de canela
  •  1 colher de sopa de manteiga

Modo de preparo

1. Lave o milho e deixe de molho de um dia para o outro.

2. Escorra a água e coloque o milho em uma panela.

3. Adicione gradualmente o leite de coco, o coco em lascas, o coco ralado, o açúcar e a canela.

4. Cozinhe em fogo médio, mexendo regularmente.

5. Acrescente mais leite de coco conforme necessário.

6. Cozinhe até o milho ficar completamente macio.

7. Quando atingir uma consistência firme, acrescente a manteiga.

8. Misture bem e desligue o fogo.

9. Transfira para uma travessa e deixe esfriar.

10. Corte em quadrados antes de servir.

As histórias compartilhadas pelos chefs mostram que a culinária junina também é uma forma de preservar e fortalecer laços afetivos e familiares. Afinal, algumas comidas não alimentam apenas o corpo: elas mantêm vivas as memórias de quem somos e de onde viemos.

Morre Dana David, cantora do Filosofia Reggae

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Foto: Bruno Churuska

Faleceu nesta quinta-feira (11) a cantora Danusa de Paula David, mais conhecida como Dana David. Uma das vozes mais potentes do reggae nacional, Dana era integrante do grupo Filosofia Reggae, onde começou sua trajetória artística com 18 anos.

A notícia da sua partida foi confirmada pelo perfil oficial do grupo nas redes sociais na manhã de hoje (12), que expressou o profundo sentimento de perda da comunidade musical: “É com muito pesar e dor em nossos corações que comunicamos o falecimento da nossa amada irmã e parceira de estrada, Danusa de Paula David, a Dana David. Pedimos que compreendam e respeitem esse momento de dor até que tenhamos todos os detalhes para a sua despedida.” A causa da morte não foi revelada.

Em outro comunicado emitido nesta tarde, as integrantes do grupo informaram que, devido aos trâmites de tempo e horário do falecimento, a cerimônia de despedida será curta e realizada em sua cidade natal, São Caetano do Sul (SP).

“Ficaremos gratas por todos aqueles que puderem dispor do seu tempo para prestar essa última homenagem para Dana!”, concluiu a banda na publicação.

Confira os detalhes para quem puder prestar as últimas homenagens:

  • Velório: Sexta-feira, 12/06, às 15h
    • Endereço: Hospital São Caetano – Rua Rio Grande do Sul, 790, São Caetano do Sul – SP
  • Sepultamento: Sexta-feira, 12/06, às 16h30
    • Endereço: Cemitério Municipal da Saudade – Av. Eng. Armando de Arruda Pereira, s/n, São Caetano do Sul – SP

Com músicas de sucesso como “Sentimento bom” e “Se o dia não terminar”, o grupo Filosofia Reggae surgiu nos anos 2000, formado pelas irmãs Dana David, Domênica de Paula David (Dodo) e Daiane de Paula David (Nina Roots).

Por que as mulheres negras estão voltando a alisar os cabelos? Liberdade de escolha ou retrocesso estético?

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Mulheres negras com diferentes texturas de cabelo e itens de alisamento
Créditos: Divulgação

Por: Nossa Pele Negra (Gleidistone Silva e Alessandra Silva) e Site Mundo Negro (Silvia Nascimento e Halitane Rocha)

Você está rolando a tela e, aos poucos, começa a notar um movimento. Nos vídeos do TikTok e nos Reels do Instagram, o mesmo tipo de conteúdo se repete: mulheres crespas e cacheadas voltando a alisar o cabelo. Algumas interromperam a transição, outras já tinham passado por ela há anos, mas agora parecem compartilhar algo em comum: a preferência pelos fios lisos. O que parecia ter ficado no passado, após o movimento de transição capilar que ganhou força na última década, ressurge agora.

Os dados ajudam a ampliar essa percepção. No Google Trends, o interesse por termos como “alisamento de cabelo crespo” e “alisamento de cabelo cacheado” nunca desaparece, ele oscila. Esse cenário também dialoga com o retorno de estéticas dos anos 2000, com referências de cabelo liso voltando à cena.

Mas afinal, estamos diante de uma nova mudança estética ou de um ciclo que já conhecemos?

Influenciadora Preta Araujo (Foto: Divulgação)

Do “black is beautiful” à estética livre: uma breve linha do tempo

A relação entre a mulher negra e seu cabelo é atravessada por séculos de resistência e imposições. Para entender onde estamos, é preciso olhar para trás:

  • 1858 | O despertar do “black is beautiful”: Em Boston, o abolicionista americano John Swett Rock proferiu um dos primeiros discursos registrados exaltando as características físicas negras. Este marco é considerado a base intelectual para a expressão que, décadas depois, se tornaria um hino de orgulho racial.
  • 1870 – 1920 | A era do pente quente: O uso de técnicas de alisamento por calor, como o hot comb (pente quente), consolida-se como prática comum, sendo amplamente adotado por mulheres negras nos EUA durante o início do século XX como forma de conformação aos padrões vigentes.
  • 1930 – 1950 | O alisamento como padrão: O alisamento ganha força sistêmica nos Estados Unidos. Tanto por métodos térmicos quanto pela introdução de relaxantes químicos, a manipulação do cabelo crespo torna-se o padrão estético praticamente obrigatório em diversos contextos sociais.
  • 1930 | A resistência rastafári: Paralelamente às pressões de alisamento, surge o movimento Rastafári. Mais que um dogma religioso, o movimento utiliza a estética — especialmente as roupas coloridas e os dreadlocks — como símbolo de resistência ao colonialismo e rejeição direta aos padrões eurocêntricos, popularizados globalmente pela figura de Bob Marley.
  • 1960 – 1970 | Black Power e orgulho negro: Em 1966, durante a luta pelos direitos civis nos EUA, o movimento Black Power transforma o cabelo afro em símbolo central de identidade e resistência, com figuras icônicas como Angela Davis e Elaine Brown à frente. No Brasil, esse reflexo fortalece o surgimento dos “salões étnicos”, espaços dedicados a valorizar o crespo.
  • 1980 – 1990 | O reinado da química: O alisamento reafirma-se como a norma estética dominante, consolidando produtos químicos nas prateleiras e nos salões como o caminho para o “cabelo aceitável”.
  • Anos 2000 | A conexão digital: O surgimento dos primeiros fóruns de internet permite que mulheres negras comecem a trocar informações sobre cuidados, quebrando o isolamento e iniciando discussões sobre a valorização do natural.
  • 2010 – 2015 | O boom da transição capilar: O movimento ganha escala global. A transição capilar deixa de ser uma escolha isolada para se tornar um fenômeno cultural de retorno à textura natural.
  • 2016 – 2019 | Identidade política e representatividade: O cabelo natural consolida-se como símbolo de identidade racial e autoestima. Práticas como o Big Chop, uso de tranças, twists e dreads ganham força, enquanto a cultura pop, com o filme Pantera Negra, projeta a estética afro globalmente, validando-a em espaços de prestígio.
  • 2023 – 2026 | A era da estética livre: Vivemos um momento onde as fronteiras entre o natural e o alisado se tornam fluidas. Embora a diversidade de estilos seja maior, o cenário é marcado por uma tensão constante entre a liberdade individual de escolha e a persistência de pressões sociais que ainda tentam ditar a estética da mulher negra.
Influenciadora Mannu Viana (Foto: Divulgação)

A complexidade em torno do cabelo crespo e cacheado não é apenas uma percepção individual, mas um fenômeno mapeado por estudos recentes que expõem as tensões sociais vivenciadas pela mulher negra brasileira. Os dados confirmam essa percepção. 

A marca Seda, em parceria com o Instituto Sumaúma e a agência Pretas, conduziu o estudo “Cabelos Sem Limites, Como Nós” para explorar o papel fundamental dos fios naturais na vida dessas mulheres. Os dados, coletados com 1.001 mulheres pretas e pardas de 18 a 50 anos nas capitais Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, revelam um cenário de dualidade:

  • Oito em cada dez mulheres entrevistadas consideram seus cabelos crespos e cacheados como uma ferramenta essencial de expressão pessoal.
  • Para 55% das participantes, os fios possuem uma importância extrema em relação à sua própria identidade.
  • Apesar desse protagonismo, o estudo destaca que quase 70% dessas mulheres ainda sentem uma forte pressão social para alisar os cabelos.

Esse contraponto entre o orgulho de se expressar e a imposição de padrões estéticos reforça que, para a mulher negra, o cabelo nunca é “apenas cabelo”. A busca por uma mudança na sociedade passa, justamente, por compreender que a escolha capilar é um terreno de resistência, onde a autoexpressão enfrenta, diariamente, desafios sociais persistentes.

Influenciadora Preta Araujo (Foto: Divulgação)

Para a influenciadora Preta Araujo, o movimento não é necessariamente uma “tendência” inovadora, mas um possível retrocesso. “Muitas mulheres negras voltarem a alisar permanentemente os cabelos esteja ligado a um conjunto de pressões estéticas que vêm ganhando força novamente, como o padrão de magreza e a estética ‘clean girl'”. 

“Claro que, se uma mulher negra decide alisar o cabelo simplesmente por gosto estético, acho totalmente válido. Nosso cabelo é extremamente versátil, e mulheres negras devem ter liberdade para fazer o que quiserem com a própria aparência. Mas também entendo que, em muitos casos, essa escolha acaba atravessada por questões mais profundas do que apenas estética ou praticidade”, completa a criadora de conteúdo. 

Para a também influenciadora Mannu Viana, a discussão sobre o alisamento transcende o aspecto meramente capilar, envolvendo uma jornada profunda de autoconhecimento e construção de identidade. Até os 16 anos, sua relação com o cabelo era pautada por uma tentativa de adequação ao que era socialmente aceito, marcada pelo esforço em reduzir o volume, que ela percebia como uma forma de evitar o racismo e buscar aceitação.

A mudança de perspectiva de Mannu veio após explorar seu cabelo natural em diversas formas: tranças, penteados, cores e texturas variadas, e se sentir linda em cada uma delas. 

“Explorar essas possibilidades capilares foi o meu primeiro contato com a sensação de liberdade, de sustentar minhas escolhas e sem dúvidas, foi muito importante pra construção da minha autoestima, e hoje, minha decisão sobre alisar o cabelo é justamente sobre liberdade.”

Influenciadora Mannu Viana (Foto: Divulgação)

Para ela, a escolha de alisar o cabelo hoje é um ato de autonomia, pois ela ressignificou o processo e enxerga o alisamento apenas como uma das muitas possibilidades de estilo que pode adotar, sem que isso apague sua identidade: “A Mannu de 16 anos só via o liso como possibilidade, a de 25 entende que é o crespo quem sustenta isso tudo e vai voltar pra ele sempre que ela quiser e vai se enxergar linda, sabe? Eu decidi fazer como eu quero porque é isso que me importa. Voltar a alisar o cabelo é uma forma de dizer pra mim mesma que hoje eu tomo minhas decisões com base nas minhas próprias vontades e só, entendendo principalmente que elas podem ser momentâneas.”

Mannu critica a existência de uma “ditadura” que impõe o que é certo ou errado na estética negra, argumentando que isso enfraquece o debate e impede que o foco seja o fortalecimento da autoimagem da mulher negra. Ela enfatiza que a identidade não deve ser resumida apenas ao cabelo ou à aparência, questionando: “nossa identidade está somente no nosso cabelo? Continuamos sendo resumidas somente pela nossa aparência?”. 

Preta Araujo ainda reforça o impacto do processo de alisamento na autoestima das mulheres: “Acredito que isso pode impactar negativamente a autoestima de mulheres negras que ainda sentem que só são bonitas com os cabelos alisados. Sinceramente, eu imaginava que já tivéssemos avançado mais nesse debate, mas diante de tantos retrocessos sociais recentes, as mulheres negras também acabam sendo afetadas por esse e outros cenários”, conclui.

Por fim, Mannu reforça a importância da honestidade consigo mesma ao considerar qualquer mudança, aconselhando que a motivação venha de um desejo genuíno de explorar novas versões de si, em vez de pressões externas: “Toda vez que um debate se torna uma ditadura, ele perde força e a oportunidade de aprofundar coisas importantes. Nesse caso, estamos perdendo a oportunidade de debater sobre quais sãos os fatores que interferem que uma mulher negra reconheça a sua beleza e a de seus iguais, e a partir disso, trazer perspectivas positivas e maximizar possibilidades, era  pra ser um fortalecimento, não um detrimento ou retrocesso”, conclui.

O alerta das especialistas: a saúde do fio em primeiro lugar

Lívia Rodrigues, coordenadora de Valorização Científica em Pesquisa e Inovação da L’Oréal Brasil (Foto: Divulgação)

Independentemente da motivação, a saúde do cabelo não pode ser negligenciada. O cabelo crespo, por possuir uma estrutura elíptica e mais pontos de torção, é naturalmente mais propenso à quebra e ao ressecamento. Além disso, o uso de químicas exige cautela extrema. Especialistas reforçam o perigo das incompatibilidades, como a mistura de guanidina com tioglicolato, que pode resultar em corte químico.

Lívia Rodrigues, coordenadora de Valorização Científica em Pesquisa e Inovação da L’Oréal Brasil, alerta para o cuidado com a estrutura dos fios: “O cabelo crespo tem uma estrutura com formato elíptico e mais pontos de torção, o que o torna mais frágil e mais propenso à quebra. Por ser um cabelo que também têm maior tendência ao ressecamento, é essencial o uso de formulações que já tragam agentes condicionantes e hidratantes desde a primeira etapa, afirma Lívia Rodrigues. Segundo a especialista, o cuidado no pós também é essencial, para isso é importante utilizar produtos que ajudem a reparar a estrutura interna dos fios, garantindo mais força e vitalidade. 

Já Francielen Rodrigues, Gerente de Estratégia da Salon Line, reforça como é fundamental intensificar os cuidados após o processos químicos: “Os cabelos crespos e cacheados possuem uma tendência natural maior ao ressecamento devido à sua estrutura em curvas, que dificulta a distribuição da oleosidade ao longo dos fios. Após processos químicos, como alisamentos e relaxamentos, essa necessidade de cuidado se intensifica, já que há uma alteração da fibra capilar, tornando-a mais suscetível à perda de hidratação e ao enfraquecimento”, explica. Especialistas da marca ainda orienta que o pós-química deve priorizar a reposição de água, nutrientes e proteínas por meio de produtos hidratantes. Já na etapa de reconstrução deve-se intensificar os tratamentos que atuam no processo de restauração extrema, devolvendo vida para os fios.

Francielen Rodrigues, Gerente de Estratégia da Salon Line (Foto: Divulgação)

O debate sobre o alisamento entre mulheres negras revela que, embora 8 em cada 10 entrevistadas considerem seus cabelos uma ferramenta essencial de expressão pessoal , a decisão de alisar, ou não, ainda é um campo de batalha entre o desejo genuíno e o que a sociedade espera de nós.

A provocação que fica é: ao decidir mudar o visual, você está ouvindo sua própria voz ou atendendo a um eco externo que insiste em limitar sua beleza? A liberdade de escolha é um direito fundamental, mas ela só é plena quando exercida com a consciência de que a sua identidade é muito maior do que a forma que o seu cabelo toma. Antes de buscar a química, pergunte a si mesma: por que estou fazendo isso, e para quem estou me tornando essa versão?.

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