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‘Chico Bento 2’: Isaac Amendoim anuncia sequência do filme sucesso de bilheteria

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Isaac Amendoim sorrindo vestido como Chico Bento no filme.
Foto: Fabio Braga

Após se consagrar como a segunda maior bilheteria nacional de 2025 e conquistar o coração de mais de 1 milhão de espectadores nos cinemas, o ator Isaac Amendoim anunciou hoje (18) a sequência do filme ‘Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa’. As filmagens de ‘Chico Bento 2’ acontecerão em 2026, reunindo novamente o elenco e a equipe responsáveis pelo primeiro longa.

O filme infantil coleciona reconhecimentos importantes, incluindo o Grande Otelo de Melhor Filme Infantil 2025 e o Prêmio ABRA de Melhor Roteiro Infantil 2026. Sob a direção de Fernando Fraiha, a produção dominou as salas comerciais por onze semanas e desenhou uma trajetória de forte impacto social ao promover mais de quarenta sessões gratuitas em diversas regiões do país, democratizando o acesso à cultura e formando novos públicos para o cinema nacional.

“Tô feliz dimais em estar de vorta pra telona do cinema! A gente já tá nos ensaios com nosso diretor Fernando e a diversão só aumenta. Eu tava com muita sardade da Vila Abobrinha e da minha turma. Tenho certeza de que essa história vai ser boa dimais da conta e arrancar mais risadas de todo mundo”, afirma Isaac, caracterizado como Chico Bento no vídeo.

Desta vez, a trama levará Chico Bento e seus amigos a embarcar em uma aventura emocionante, movida por um desejo muito especial ligado à Vó Dita. Mais detalhes sobre o elenco, bastidores e data de estreia serão revelados em breve.

Após ser barrada por banca racial, Flávia Medeiros conquista posse no Itamaraty

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Foto: @flaviahgmedeiros / reprodução

Barrada por banca de heteroidentificação que contestou sua negritude, Flávia Medeiros assina acordo com a AGU e garante posse no Itamaraty após meses de disputa

A Advocacia-Geral da União assinou na segunda-feira, 15 de junho de 2026, um acordo para garantir a posse de Flávia Henriques Goes de Medeiros no cargo de oficial da chancelaria do Ministério das Relações Exteriores. Flávia foi aprovada nas provas escritas do concurso promovido pelo Cebraspe em 2024, mas foi impedida de concorrer às vagas reservadas ao sistema de cotas raciais pela comissão de heteroidentificação, que concluiu que a candidata possuía “pele clara, traços finos e cabelos lisos”, características consideradas pela banca incompatíveis com sua autodeclaração como mulher negra.

A candidata recorreu à Justiça Federal, obteve liminar favorável em primeira instância e chegou a tomar posse em março de 2026, após se mudar de Vitória, no Espírito Santo, para Brasília. Em maio, o Tribunal Regional Federal derrubou a liminar por questões processuais, e a exoneração foi publicada no Diário Oficial da União em 22 de maio, menos de dois meses após a posse. Flávia permaneceu afastada do cargo por 24 dias até a assinatura do acordo.

Ao assinar o documento, o advogado-geral da União, Jorge Messias, defendeu uma revisão dos critérios aplicados pelas bancas de heteroidentificação. “Ficará este legado para que injustiças não ocorram mais. O Estado não pode ter compromisso com o erro”, afirmou Messias, em declaração reproduzida pela Agência Brasil. Pelo acordo, Flávia será nomeada para o cargo, mas aceitou renunciar a eventuais indenizações e benefícios referentes ao período anterior à nova nomeação. O documento ainda precisa ser homologado pela Justiça.

As bancas de heteroidentificação foram criadas para complementar a autodeclaração racial em concursos públicos e coibir fraudes no sistema de cotas, instituído pela Lei nº 12.990, de 2014, e ampliado pela Lei nº 15.142, de junho de 2025, que elevou de 20% para 30% a reserva de vagas para negros, indígenas e quilombolas nos concursos públicos federais. Na prática, porém, as bancas baseiam suas avaliações na percepção fenotípica dos candidatos, o que especialistas e juristas têm apontado como fonte de insegurança jurídica num país de miscigenação intensa, onde a população negra apresenta fenótipos variados como resultado direto de séculos de escravidão e violência colonial.

Em declaração ao portal Metrópoles após a assinatura do acordo, Flávia afirmou que o desfecho ultrapassa sua trajetória individual. “Tentar separar pretos e pardos, desmantelar esse grupo de pessoas negras, é muito nocivo porque pardo também é negro. O racismo só se manifesta de formas diferentes, mas há muitas similaridades”, declarou ao Metrópoles. A servidora reforçou que se reconhece como mulher negra de pele parda desde sempre. “Vejo essa decisão como uma vitória não apenas para mim, mas para todos os pardos”, afirmou, também ao Metrópoles.

O caso aguarda homologação judicial para encerrar definitivamente o litígio na Justiça Federal do Distrito Federal.

Dia do Químico: as descobertas de cientistas negros que mudaram a história da química

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Foto: divulgação

No Dia do Químico, conheça 11 pesquisadores negros cujas descobertas salvaram vidas, derrubaram fraudes e reescreveram a ciência, e que os livros ignoraram

Todo ano, em 18 de junho, o Brasil celebra o Dia do Químico, data que marca a criação do Conselho Federal de Química pela Lei nº 2.800, de 18 de junho de 1956 e reconhece a atuação de profissionais que trabalham na intersecção entre a matéria e a vida. São eles que desenvolvem os medicamentos que chegam às farmácias, os processos industriais que produzem combustíveis, os métodos de análise que identificam fraudes em alimentos e os materiais que sustentam a eletrônica contemporânea. A química está presente em cada comprimido engolido, em cada fibra sintética usada, em cada litro de água tratada distribuído nas cidades.

A profissão, regulamentada nessa mesma lei, consolidou um campo que já produzia pesquisadores de alto nível muito antes de ser formalmente reconhecida pelo Estado. O país conta hoje com mais de 100 mil profissionais registrados nos conselhos regionais, atuando em laboratórios de análise, indústrias petroquímicas, hospitais, universidades e órgãos de vigilância sanitária. A data serve, portanto, não apenas como celebração corporativa, mas como oportunidade de olhar para quem construiu esse campo e para quem, dentro dele, enfrentou barreiras adicionais para exercê-lo.

A história da química, como a da maioria das ciências exatas, foi registrada ao longo do século XX de maneira seletiva. Os manuais escolares e os livros de história da ciência repetiram por décadas um cânone predominantemente europeu e branco, apagando ou minimizando as contribuições de pesquisadores africanos, afro-americanos e afro-brasileiros. Esse apagamento não foi neutro. Ele produziu efeitos concretos sobre quem se via representado na ciência, quem tinha acesso às universidades e quem recebia financiamento para pesquisa.

Em homenagem ao Dia do Químico e ao legado que precisa ser contado com mais rigor e frequência, o Mundo Negro selecionou 11 profissionais negros cujas descobertas, inovações e realizações mudaram concretamente a vida de pessoas em todo o planeta. A escolha não pretende esgotar esse universo, que é vasto e ainda subexplorado pela historiografia, mas trazer ao centro nomes que merecem figurar em qualquer discussão séria sobre ciência.

George Washington Carver (EUA, 1864–1943) foi o cientista que transformou a agricultura do sul dos Estados Unidos num período de colapso econômico e ambiental. Filho de pessoas escravizadas, Carver assumiu em 1896 a direção do departamento de agricultura do Instituto Tuskegee, no Alabama, e encontrou solos destruídos por décadas de monocultura do algodão. Seu diagnóstico foi preciso e sua solução foi radical para a época. Identificou que o amendoim e a batata-doce fixavam nitrogênio no solo e propôs a rotação de culturas como método sistemático de regeneração da terra. Para criar mercado para as toneladas de amendoim que os agricultores passaram a produzir, Carver desenvolveu mais de 300 produtos derivados da leguminosa, entre tintas, plásticos, borracha sintética, sabonetes e cosméticos. O mesmo processo foi aplicado à soja e à batata-doce. Sua contribuição é considerada pela USDA a base conceitual do que hoje se chama de bioquímica industrial, e a American Chemical Society declarou seu trabalho um Marco Histórico Nacional da Química em 2005. Em sua época, era chamado de “o Thomas Edison negro”.

Foto: Getty Images

Percy Lavon Julian (EUA, 1899–1975) acumulou ao longo da vida três descobertas que teriam sido suficientes, individualmente, para garantir um lugar na história da ciência. Em 1935, sintetizou em laboratório a fisostigmina, composto presente no feijão Calabar que até então só podia ser extraído da planta, tornando o tratamento do glaucoma mais acessível. A American Chemical Society classificou essa síntese em 1999 como um dos 25 maiores feitos da história da química americana. Em 1942, desenvolveu a partir de proteína de soja um fluido extintor de incêndios, o AeroFoam, usado pela Marinha americana em porta-aviões durante a Segunda Guerra Mundial para apagar chamas de gasolina e óleo. Em 1949, desenvolveu um processo para sintetizar cortisona a partir do esterol de soja, eliminando a dependência de glândulas suprarrenais de bois e reduzindo o custo do medicamento de centenas de dólares por grama para centavos, colocando o tratamento da artrite reumatoide ao alcance de milhões de pessoas. Julian acumulou mais de 130 patentes ao longo da vida. Neto e filho de pessoas escravizadas, teve sua casa em Chicago atacada com bomba incendiária duas vezes, em 1950 e 1951.

Foto: Francis Miller/Acervo de fotos The LIFE/Getty Images

Alice Augusta Ball (EUA, 1892–1916) morreu aos 24 anos sem publicar os resultados da pesquisa que revolucionou o tratamento da hanseníase. Em 1915, sendo a primeira mulher e a primeira pessoa negra a obter mestrado em química pela Universidade do Havaí, Ball foi procurada por um médico do Hospital Kalihi que buscava uma forma eficaz de administrar o óleo de chaulmoogra, único tratamento disponível para a doença mas inutilizável em injeções por sua viscosidade extrema. Em menos de um ano, Ball desenvolveu um processo de esterificação que transformou os ácidos graxos do óleo em ésteres solúveis em água, possibilitando a injeção sem os efeitos colaterais que tornavam o tratamento anterior insuportável. O Método Ball, como foi chamado pelo médico Harry Hollmann em publicação de 1922, permaneceu como principal terapia global contra a hanseníase por mais de duas décadas, até o surgimento dos sulfonamidas. Após a morte de Ball, outro pesquisador publicou os resultados como se fossem seus. O reconhecimento formal só veio em 2000, quando a Universidade do Havaí instalou uma placa em sua homenagem.

Foto: reprodução

Alma Levant Hayden (EUA, 1927–1967) foi a primeira cientista negra da Food and Drug Administration dos Estados Unidos e a responsável por uma das operações de análise química mais importantes da história da saúde pública americana. Em 1963, médicos chamados Stevan Durovic e Andrew C. Ivy comercializavam o Krebiozen, um composto vendido por centenas de dólares por ampola e apresentado como cura para o câncer. A substância tinha seguidores fervorosos e havia gerado enorme polêmica política nos Estados Unidos. Quando a FDA conseguiu amostras do composto, Hayden coordenou a análise usando espectrofotometria infravermelha, comparando as imagens espectrais do Krebiozen com um arquivo de 20 mil substâncias catalogadas. O resultado foi encontrado na letra C. O suposto milagre oncológico era creatina, um aminoácido comum presente naturalmente no corpo humano, sem qualquer atividade anticancerígena. Três equipes independentes, incluindo cientistas do MIT, confirmaram a análise. Os promotores do esquema foram a julgamento criminal. O relatório de Hayden foi incluído no Congressional Record dos Estados Unidos. Ela morreu de câncer em 1967, aos 40 anos.

Foto:Flickr

James Andrew Harris (EUA, 1932–2000) entrou para a história da química ao co-descobrir dois elementos que hoje estão na tabela periódica. Depois de enfrentar discriminação racial ao tentar ingressar no mercado científico após a graduação, Harris conseguiu uma posição no Laboratório Lawrence Berkeley, na Califórnia, onde chefiou o Grupo de Produção de Isótopos Pesados. Seu trabalho era desenvolver técnicas de purificação para preparar os alvos atômicos que seriam bombardeados no acelerador de partículas. O renomado químico nuclear Albert Ghiorso descreveu o trabalho de Harris como “o melhor alvo já feito para pesquisa de elementos pesados”. O resultado foi a co-descoberta do rutherfórdio, elemento 104, em 1969, e do dúbnio, elemento 105, em 1970, tornando Harris o primeiro americano negro a participar da descoberta de elementos químicos. Recebeu doutorado honorário em 1973.

Foto: Wikipedia

Cheikh Anta Diop (Senegal, 1923–1986) foi físico, químico e historiador senegalês que construiu no continente africano uma infraestrutura científica inédita para datação arqueológica. Formado em física e química em Paris, Diop retornou ao Senegal e fundou em 1966, na Universidade de Dakar, o primeiro laboratório de datação por carbono-14 da África Negra. O laboratório, instalado no Instituto Fundamental da África Negra, era o segundo de todo o continente, atrás apenas do da Rodésia do Sul. Com ele, Diop passou a datar de forma independente amostras arqueológicas africanas, determinando a antiguidade de sítios do Neolítico senegalês com base em análises de carvão e ossos, e publicando os resultados na revista científica internacional Radiocarbon. Em 1974, publicou “Physique Nucléaire et Chronologie Absolue”, obra que descreveu os métodos de datação arqueológica e geológica desenvolvidos no laboratório de Dakar. Seu trabalho abriu a possibilidade de que a África produzisse cronologias arqueológicas próprias, sem depender de laboratórios europeus.

Foto: reprodução

Marian Ewurama Addy (Gana, 1942–2014) foi a primeira mulher a alcançar o grau de professora titular de ciências naturais em Gana e realizou pesquisa que conectou dois mundos que a ciência ocidental costumava tratar como opostos. Sua área de trabalho era a bioquímica de plantas medicinais usadas por curandeiros tradicionais, e seu objetivo era verificar, com rigor laboratorial, se as alegações desses praticantes tinham base. Ao estudar o Desmodium adscendens, uma erva usada há gerações no tratamento da asma, Addy identificou que o composto ativo pertencia a uma classe de moléculas que a ciência ainda não havia catalogado, as soyasaponinas. A descoberta validou o uso popular da planta e abriu uma linha de pesquisa sobre suas aplicações no tratamento da asma e do diabetes tipo 2. Addy publicou 22 artigos científicos ao longo da carreira, recebeu o Prêmio Kalinga da UNESCO em 1999 pela popularização da ciência e foi eleita membro da Academia de Ciências e Artes de Gana.

Foto: wikipedia

Oswaldo Luiz Alves (Brasil, 1947–2021) foi o primeiro aluno negro do Instituto de Química da Unicamp, onde se formou em 1973 sem encontrar nenhum outro estudante negro nos corredores da instituição. Em 1979, durante um período de pesquisa na França, entrou em contato com a química do estado sólido e decidiu introduzir a disciplina no Brasil. Voltou a Campinas, criou a primeira disciplina brasileira na área e fundou em 1985 o Laboratório de Química do Estado Sólido na Unicamp, o único do país. Tornou-se também um dos pioneiros da nanotecnologia no Brasil, coordenando o Laboratório de Síntese de Nanoestruturas e Interação com Biossistemas. Publicou mais de 250 artigos científicos e depositou 31 patentes, entre elas uma tecnologia de remediação de efluentes de indústrias papeleiras e têxteis que foi licenciada para o setor produtivo. Presidiu a Academia Brasileira de Ciências entre 1998 e 2000 e recebeu a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2002. Nos últimos anos de vida, passou a defender publicamente a necessidade de identificar e dar visibilidade aos pesquisadores negros espalhados pelo país nas áreas de ciências exatas.

Foto: Eduardo Cesar

Viviane dos Santos Barbosa (Brasil) cresceu no bairro da Liberdade, em Salvador, estudou em escolas públicas e chegou à Universidade Tecnológica de Delft, na Holanda, onde desenvolveu a pesquisa que a colocou no mapa internacional da química. Trabalhando com catalisadores, substâncias que aceleram e melhoram o rendimento de reações químicas, Barbosa desenvolveu uma combinação de paládio e platina em escala nanométrica capaz de operar em temperatura ambiente, diferindo de forma significativa dos catalisadores então existentes, que exigiam altas temperaturas para funcionar. O material tem aplicação direta na redução da emissão de gases tóxicos e no desenvolvimento de fontes de energia alternativa. Em 2010, o trabalho foi submetido à International Aerosol Conference, em Helsinque, Finlândia, onde competiu com cerca de 800 trabalhos de pesquisadores do mundo inteiro e conquistou o primeiro lugar.

Foto: reprodução / Mundo D’elas

José Custódio da Silva (Brasil, 1897–1933) farmacêutico e químico mineiro que especializou-se em físico-química na Alemanha e construiu no Brasil, num momento em que o país ainda não tinha tradição científica consolidada, uma das primeiras estruturas institucionais da química nacional. Foi o principal responsável pela criação, em 1929, da Revista Brasileira de Chimica, primeiro periódico brasileiro dedicado exclusivamente à publicação de pesquisas em química. A revista funcionou como plataforma de legitimação da ciência química no país em um momento de construção institucional e foi, por anos, o único espaço formal de difusão científica da área. Custódio da Silva permaneceu quase completamente invisível na historiografia da química brasileira até ser resgatado por pesquisadores da Revista Brasileira de História da Ciência em 2023.

Foto: reprodução

Charles Okechukwu Esimone (Nigéria, 1970) tornou-se professor aos 37 anos e é o primeiro professor de microbiologia farmacêutica do sudeste da Nigéria. Entre 2003 e 2005, com uma bolsa da Fundação Alexander von Humboldt, desenvolveu na Alemanha uma técnica de triagem antiviral baseada em vetores de DNA recombinante que revolucionou o rastreamento de compostos anti-HIV em larga escala, permitindo que laboratórios de pesquisa testassem centenas de moléculas candidatas com muito mais velocidade e precisão do que os métodos disponíveis até então. Paralelamente, sua pesquisa resultou na identificação de novos compostos antimicrobianos com atividade antibacteriana, antifúngica e antiviral, derivados de endófitos, líquens, samambaias e plantas medicinais africanas. Com mais de 100 publicações, Esimone foi reconhecido em 2009 com o Prêmio ANDI para o Melhor Pesquisador Inovador da África e integrou como jovem cientista o Fórum Econômico Mundial de Nova Geração de Líderes, em Tianjin, China.

Foto: divulgação

O que essas histórias têm em comum é que foram produzidas sob condições de acesso desigual. Carver não podia dormir nos hotéis das cidades onde ia dar conferências. Julian teve a casa incendiada duas vezes. Ball morreu sem ver seu nome num artigo científico. Harris foi rejeitado em entrevistas de emprego por empregadores que não acreditavam que um homem negro fosse qualificado para trabalhar com química. Alves era o único negro nos espaços por onde passou. Cada um desses pesquisadores construiu sua contribuição científica carregando, ao mesmo tempo, o peso de uma estrutura que os excluía.

O Dia do Químico é uma data adequada para lembrar que a ciência não é uma atividade neutra produzida em condições iguais para todos. Reconhecer quem foram os pesquisadores negros que a fizeram avançar é parte do trabalho de torná-la mais honesta com sua própria história.

Akin, do Hey Autista, defende a força da representatividade na era digital

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Akin Sá do perfil @heyautista
Foto: Reprodução/ Redes Sociais

No Dia Nacional do Orgulho Autista, o criador de contéudo e ativista trans, Akin Sá, de 25 anos, falou ao Mundo Negro sobre identidade, representatividade e a necessidade de ampliar a visibilidade de autistas negros nos debates sobre neurodiversidade.

Jovem negro e autista, Akin utiliza as redes sociais para compartilhar mais informações, experiências e reflexões sobre autismo com os seus seguidores. Em entrevista ao Mundo Negro, ele destacou a importância de fortalecer narrativas construídas a partir das próprias vivências e expandir o debate sobre representatividade neurodivergente nas redes.

Orgulho autista como afirmação de identidade

Para Akin, o orgulho autista está diretamente relacionado ao reconhecimento e à valorização da identidade das pessoas autistas.

“Quando a gente fala de orgulho autista, nós estamos tratando do reconhecimento de uma identidade e de um empoderamento das pessoas acerca do que significa ser autista”, afirma.

Segundo ele, o conceito vai além da conscientização porque permite que pessoas autistas sejam vistas a partir de suas experiências, culturas e formas de existir.

“O orgulho autista é sobre valorização das nossas vidas, cultura e identidades”, destaca.

Representatividade ainda não contempla toda a diversidade autista

Akin chama atenção para a persistência de estereótipos que limitam a compreensão sobre quem pode ser uma pessoa autista.Para ele, a construção dessas imagens está relacionada a desigualdades históricas que impactam quem tem acesso ao diagnóstico e à visibilidade social.

Nesse contexto, a representatividade desempenha um papel fundamental ao criar referências para diferentes grupos.

“A representatividade funciona como uma janela para o mundo, que permite difundir e ampliar visões, quebrar estereótipos e convidar as pessoas para o diálogo”, explica.

O criador de conteúdo também ressalta que o autismo não está restrito a um único perfil.

“As pessoas pensam que existe apenas um lugar específico onde estão os autistas, quando, na realidade, nós estamos em todos os lugares”, afirma.

Redes sociais como espaço para autistas negros, indígenas e LGBTQIAPN+

Ao falar sobre sua trajetória nas redes sociais, Akin conta que um dos principais desafios foi encontrar formas de comunicar informações complexas de maneira acessível sem abrir mão da profundidade do conteúdo.

Segundo ele, a linguagem próxima e o diálogo direto ajudaram a construir pontes com seu público.

O criador também avalia que as redes sociais contribuíram para ampliar o acesso à informação sobre neurodiversidade e possibilitaram que mais pessoas autistas compartilhassem suas próprias histórias.

Apesar dos avanços, ele acredita que ainda existem desafios importantes relacionados à pluralidade da representatividade.

“Nas entrevistas, reportagens e programas, ainda são priorizados autistas que seguem o estereótipo ou o mais próximo que existe dele. Falta ouvir mais os autistas que fazem parte de outras minorias, como os autistas negros, indígenas e LGBTQIAPN+”, afirma.

“Está tudo bem ser diferente”

Ao deixar uma mensagem para pessoas autistas que ainda estão em processo de descoberta e autoconhecimento, Akin reforça a importância do acolhimento e da valorização da própria identidade.

“Está tudo bem em ser diferente. Não desistam dos seus processos de descoberta e autoconhecimento. Saber quem você é é apenas o início de uma jornada que pode ser libertadora.”

Para ele, o orgulho autista é uma ferramenta de fortalecimento coletivo diante das barreiras impostas por uma sociedade ainda marcada pelo capacitismo.

“O orgulho autista existe para mostrar que, apesar de todas as dificuldades que ainda enfrentamos numa sociedade capacitista, podemos sentir orgulho da nossa identidade, ocupar espaços e dar voz para a nossa causa.”

Akin encerra com uma mensagem que resume o significado da data:

“Toda história é importante, todo autista é único.”

UOL e Drauzio Varella debatem dignidade menstrual e raça

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Menina sentindo dor de cólica
Foto: Imagem gerada por IA

Debate em evento do UOL e Portal Drauzio Varella aponta como raça, gênero e acesso a direitos influenciam a experiência menstrual

Durante o evento Pulso: um diagnóstico da saúde e do bem-estar, promovido nesta terça-feira (17) pelo UOL e pelo Portal Drauzio Varella, especialistas discutiram temas centrais para a saúde da população brasileira. Entre eles, a dignidade menstrual e os impactos que desigualdades sociais e raciais continuam exercendo sobre a vida de meninas e mulheres.

O Mundo Negro acompanhou os debates e teve acesso ao estudo “Ser menina não deveria doer: as dimensões do direito das meninas à dignidade menstrual e o mapeamento legislativo no Congresso Nacional”, divulgado em maio de 2026. O documento chama atenção para um aspecto frequentemente invisibilizado nas discussões sobre menstruação: a dor, o estigma e as desigualdades estruturais que rotulam a experiência menstrual de milhões de brasileiras.

Quando a menstruação deixa de ser apenas uma questão de saúde

Embora a menstruação seja um processo biológico natural, especialistas apontam que ela continua cercada por silêncio, constrangimento e falta de informação.

Historicamente, as políticas públicas voltadas ao tema concentraram-se no combate à pobreza menstrual e na distribuição de absorventes. Embora essas iniciativas sejam fundamentais, o estudo argumenta que elas não são suficientes para responder à complexidade do problema.

A saúde menstrual envolve também acesso à informação, acolhimento, diagnóstico de condições como a endometriose, privacidade, infraestrutura adequada e reconhecimento da dor como uma questão legítima de saúde pública.

Dor menstrual continua sendo subestimada

Os números apresentados pelo estudo revelam a dimensão do problema.

Entre 66% e 73% das adolescentes e jovens mulheres convivem com dores menstruais. Destas, entre 30% e 35% relatam dores moderadas ou intensas.

O levantamento também destaca que entre 62% e 75% das jovens encaminhadas para investigação especializada recebem posteriormente diagnóstico de endometriose. Mesmo assim, o diagnóstico da doença pode levar até 12 anos para ser confirmado.

A demora no reconhecimento dos sintomas pode gerar impactos físicos, emocionais, educacionais e profissionais ao longo da vida.

O recorte racial da dignidade menstrual

As desigualdades relacionadas à menstruação não atingem todas as meninas da mesma forma.

Segundo o estudo, 58,8% das meninas que vivem sem banheiro ou chuveiro em casa são pretas ou pardas. O dado evidencia como raça, gênero e condição socioeconômica se cruzam no acesso a condições básicas para o cuidado menstrual.

A realidade também dialoga com uma questão historicamente presente na sociedade brasileira: a naturalização da resistência da mulher negra à dor.

Pesquisas nacionais e internacionais têm demonstrado que estereótipos raciais podem influenciar a forma como dores e sintomas relatados por pessoas negras são interpretados ou acolhidos por instituições e profissionais de saúde.

Quando esse cenário se encontra com os tabus em torno da menstruação, meninas negras podem enfrentar barreiras adicionais para ter suas necessidades reconhecidas e atendidas.

Um debate sobre dignidade e direitos para milhares de estudantes

Mesmo com avanços recentes no debate público, muitas meninas ainda escondem absorventes ao caminhar pelos corredores escolares, evitam pedir ajuda ou enfrentam dificuldades para acessar banheiros que garantam privacidade e segurança.

O estudo destaca que a menstruação marca um momento importante da vida de meninas e adolescentes, podendo impactar autoestima, participação social e permanência em ambientes educacionais quando não existem condições adequadas de acolhimento.

Ao reunir profissionais da saúde, pesquisadores e comunicadores, o evento Pulso reforçou a importância da informação baseada em evidências para enfrentar desafios históricos da saúde brasileira.

Lucy Ramos e Sheron Menezzes vivem amizade em “Por Você”

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Lucy Ramos e Sheron Menezzes como Juli e Bela em "Por Você"
Foto: TV Globo/Fábio Rocha

Interpretadas por Lucy Ramos e Sheron Menezzes, Juli e Bela protagonizam uma história sobre amizade, cuidado e escolhas de vida na próxima novela das 21h da TV Globo.

A amizade entre Juli e Bela é o ponto de partida de “Por Você”, próxima novela das 21h da TV Globo com estreia prevista para agosto. Vividas por Lucy Ramos e Sheron Menezzes, as personagens compartilham uma trajetória construída desde a infância na Vila Maravilha, comunidade da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde cresceram como vizinhas e transformaram a convivência em um vínculo de irmandade.

Embora tenham seguido caminhos diferentes, as duas permaneceram conectadas ao longo da vida. Bela realizou o sonho de se tornar médica e construiu uma carreira de destaque como ginecologista e obstetra. Já Juli encontrou na maternidade o centro de sua jornada, criando quatro filhos enquanto conciliava trabalho, afeto e responsabilidades cotidianas.

A relação entre as duas durante a trama, destaca as diferenças de percurso das personagens e como elas se entrelaçam. Quando Juli decide se formar como técnica de enfermagem, é Bela quem a incentiva e apoia. Mais tarde, as amigas passam a trabalhar juntas no mesmo hospital, fortalecendo uma parceria construída ao longo de décadas.

Para Lucy Ramos, a personagem representa uma história que retrata o cuidado coletivo e a importância das redes de apoio. A atriz, que retorna às novelas após a maternidade, destaca a conexão que encontrou com Juli desde o primeiro contato com o roteiro.

“A única rede de apoio da Juli é a amiga Bela. Sem pais ou parceiros, elas se completam: uma ajuda, acolhe e apoia a outra em suas dificuldades e dores. É uma amizade muito bonita de acompanhar”, afirma Lucy.

No decorrer da novela, a amizade das duas será colocada à prova após um acontecimento que muda o rumo de suas vidas. O impacto dessa história também impacta na construção e crescimento de Bela, personagem que, segundo Sheron Menezzes, carrega camadas de força, vulnerabilidade e transformação.

“A cada capítulo que eu leio, e a cada camada da Bela que eu desbravo, eu me reconheço um pouco. É uma mulher guerreira, que não mede esforços e encara os desafios com dignidade, sempre em busca dos seus objetivos”, destaca a atriz.

Criada por Dino Cantelli e Juliana Peres, “Por Você” tem direção artística de André Câmara e direção geral de Jeferson De.

Documentário sobre doceiras de Pelotas é lançado no YouTube

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Mulher negra sorrindo.
Foto: Gabriela Cunha

As vozes e as mãos negras que sustentam a tradição doceira de Pelotas (RS) ganham novo destaque no ambiente digital. A produção do projeto “As Mulheres Por Trás dos Doces” está disponível gratuitamente para o público no YouTube. O lançamento audiovisual coroa a iniciativa das fotógrafas Andressa Santos e Gabriela Cunha, que busca reparar uma lacuna histórica e dar rosto às verdadeiras guardiãs desse patrimônio imaterial.

Embora o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tenha reconhecido as tradições doceiras de Pelotas em 2018, a narrativa oficial frequentemente apaga o protagonismo negro. Se a origem dos doces é portuguesa, a execução e a sobrevivência das receitas no século XIX passaram, obrigatoriamente, pelas mãos de mulheres negras escravizadas nas cozinhas das charqueadas e casarões.

Um caso emblemático é o do Quindim, uma releitura da “Brisa do Lis” portuguesa que só se tornou o pilar da identidade gaúcha após receber o toque ancestral do coco pelas mãos africanas.

O projeto rompe o silêncio entre o centro e a periferia ao registrar o cotidiano e a memória afetiva de seis mulheres fundamentais para essa engrenagem cultural:

  • Claudete Lessa, Sônia Mara Farias e Marli Bandeira: Lideranças do Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão, onde coordenam a “Cozinha das Mais Velhas” — espaço que une o preparo do alimento ao combate à insegurança alimentar e ao repasse de saberes aos jovens.
  • Lígia Maria Ribeiro: Uma das fundadoras da Cooperativa dos Doceiros de Pelotas na década de 1980 e peça-chave na criação da Fenadoce e da consolidação da Rua do Doce.
  • Cibele e Cíntia Costa: Representantes da continuidade familiar à frente da marca Doces Vô Jordão, fundada nos anos 1960.

O registro vai além da culinária; é um manifesto sobre resistência e memória afetiva, documentando como essas técnicas foram preservadas em cozinhas domésticas e quintais distantes, muitas vezes à margem das certificações oficiais que priorizam o capital em detrimento da tradição oral.

Além do fotolivro — lançado fisicamente no Museu do Doce da UFPel —, o documentário de 30 minutos agora cumpre sua missão de democratização do acesso. Ao disponibilizar a obra na maior plataforma de vídeos do mundo, a produção garante que a história contada a partir da perspectiva de quem preservou a tradição oral e a economia criativa de Pelotas alcance o reconhecimento global que a história oficial tentou ocultar.

O documentário completo pode ser acessado diretamente no YouTube, no canal oficial da produtora fuzzz lab.

Lil Nas X retorna às redes e revela diagnóstico de transtorno bipolar: “Estou me sentindo muito melhor”

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Foto: reprodução/redes sociais

Após meses em reabilitação e longe dos holofotes, Lil Nas X confirma diagnóstico de transtorno bipolar e anuncia que novos projetos musicais estão a caminho.

Lil Nas X voltou a se comunicar com o público nesta semana com um vídeo em que detalhou, pela primeira vez de forma abrangente, o que viveu nos últimos meses: internação em reabilitação, acompanhamento com terapeuta e psiquiatra, e um diagnóstico de transtorno bipolar que, segundo ele, já suspeitava há anos mas evitava encarar.

O episódio que marcou o início desse período aconteceu em 21 de agosto de 2025, quando a Polícia de Los Angeles foi acionada após relatos de um homem nu caminhando pela Ventura Boulevard, em Studio City, pouco antes das 6h da manhã. Quando os agentes chegaram ao local, o suspeito avançou em direção a eles. Montero Lamar Hill, nome de registro do cantor, foi levado a um hospital por suspeita de overdose e em seguida preso por agressão a policial, respondendo a três contagens de agressão com lesão a policial e uma de resistência à prisão, acusações que somadas poderiam resultar em até cinco anos de prisão. Ele pleiteou inocência em todas elas.

Em abril deste ano, um juiz concedeu ao cantor a possibilidade de cumprir um programa de desvio para saúde mental no lugar da pena. As acusações poderão ser encerradas caso ele conclua o programa e não cometa novos crimes nos próximos dois anos.

No vídeo divulgado esta semana, Lil Nas X falou com franqueza sobre o período que se seguiu ao episódio. “Estive em reabilitação por alguns meses. Desde então fiquei em casa, seja em Atlanta com minha família ou em Los Angeles comigo mesmo, com amigos, tentando me reconectar com a realidade e sair da minha cabeça”, disse ele. A revelação central do vídeo foi o diagnóstico de transtorno bipolar, confirmado publicamente pela primeira vez. “Tenho um terapeuta e um psiquiatra agora, o que tem sido muito útil desde que recebi o diagnóstico de transtorno bipolar. Sinto que sabia disso há alguns anos, mas não queria admitir, porque não queria ter que tomar medicação e não queria que as pessoas me vissem diferente. Já sou negro e gay, caramba, negro, gay e bipolar, é como viver no modo difícil extremo da vida.”

O cantor também fez questão de contextualizar o estado atual. “Estou muito melhor. Me sentindo bem. Criando livremente, com menos medo no coração, cheirando as flores. Faz sete anos que faço música, isso é insano.” E encerrou com um anúncio que deve movimentar sua base de fãs: músicas novas estão a caminho. “Tem música nova chegando. Ainda não vou entrar em detalhes, mas estou animado para fazer isso e para percorrer essa próxima fase com vocês.”

Lil Nas X, que tem 26 anos e nome completo Montero Lamar Hill, estourou em 2019 com “Old Town Road”, faixa que ficou 19 semanas consecutivas no topo da Billboard Hot 100, recorde à época. Desde então construiu uma carreira marcada por provocações estéticas e posicionamentos públicos sobre identidade, sendo um dos artistas mais jovens a assumir abertamente a homossexualidade no mainstream do hip-hop americano. O período de afastamento foi o mais longo e silencioso de sua trajetória pública.

O lendário torcedor do rd Congo que permanece imóvel até o apito final

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Foto: Chris Milosi/Anadolu via Getty Images

Congolês de 49 anos permanece imóvel 90 minutos nos jogos da RD Congo em homenagem a Patrice Lumumba. Conheça o símbolo da Copa do Mundo 2026.

Michel Kuka Mboladinga, congolês de 49 anos conhecido pelo apelido “Lumumba Vea”, tornou-se o rosto mais reconhecido da torcida da República Democrática do Congo ao adotar um ritual que pratica desde 2013 e que ganhou o mundo durante a Copa Africana de Nações realizada no Marrocos entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026: permanecer completamente imóvel durante os 90 minutos de cada partida dos Leopardos, de pé sobre uma pequena plataforma, com o braço direito erguido em direção ao céu, reproduzindo a postura da estátua de Patrice Lumumba erguida em Kinshasa, capital congolesa.

O gesto tem origem deliberada e carrega peso político preciso. Patrice Lumumba foi o principal líder da independência da República Democrática do Congo, assassinado em 1961, e Mboladinga reproduz a postura da estátua erguida em sua homenagem na capital Kinshasa. O apelido “Lumumba Vea”, atribuído pelos próprios torcedores congoleses, significa “Lumumba vive” na língua local, e sintetiza a intenção declarada do torcedor de manter a memória do líder presente nos estádios. Em entrevista ao Wall Street Journal, Mboladinga afirmou que treina entre 40 e 50 minutos antes de cada partida para suportar o esforço físico de permanecer imóvel durante todo o jogo, e explicou que fica parado porque acredita que isso dá resistência emocional ao time.

Foto:  Arsene Mpiana/AFP/Getty Images

Da Copa Africana à delegação oficial

Durante a Copa Africana de Nações de 2025, disputada no Marrocos, Mboladinga se tornou um fenômeno que extrapolou o futebol e passou a ser discutido como um acontecimento cultural. Sua imagem circulou por jornais europeus, africanos e sul-americanos, e seu nome passou a ser pesquisado por torcedores que nunca tinham acompanhado uma partida da RD Congo. Vestido com ternos nas cores azul, vermelho e amarelo da bandeira congolesa, ele repetiu o ritual em cada partida da fase de grupos, contra Senegal e Botswana, tornando-se presença constante nas transmissões televisivas do torneio.

A trajetória na competição africana encerrou com a eliminação para a Argélia por um gol de Adil Boulbina aos 119 minutos, e a reação de Mboladinga repercutiu tanto quanto sua imobilidade durante os jogos. Com o apelido Lumumba Vea consolidado, o torcedor retirou os óculos, enxugou as lágrimas e caiu de volta à multidão ao redor no momento em que o árbitro encerrou a partida. O jogador argelino Mohamed Amoura correu até a arquibancada congolesa e imitou a pose de Mboladinga antes de cair no chão em comemoração, gesto que gerou críticas generalizadas nas redes sociais. Amoura publicou posteriormente um pedido de desculpas afirmando que não tinha conhecimento do significado e da história por trás do gesto, e declarou que pretendia apenas provocar de forma brincalhona, sem má intenção.

A repercussão da Copa Africana converteu Mboladinga em figura reconhecida pela própria federação nacional. Jogadores e comissionados da RD Congo defenderam sua inclusão na delegação oficial para a Copa do Mundo, e a presidente da federação, Véron Mosengo-Omba, afirmou que os jogadores da seleção o consideram um símbolo nacional de resiliência e orgulho. A decisão de incluí-lo na comitiva foi aprovada com respaldo do próprio presidente da República, Felix Tshisekedi, transformando o que seria uma presença informal nas arquibancadas em participação oficial no maior torneio de futebol do planeta.

O obstáculo burocrático e os próximos jogos

A chegada de Mboladinga aos Estados Unidos esbarrou em um obstáculo que mobilizou autoridades congolesas e gerou cobertura internacional. A ausência do torcedor ganhou particular relevância no Congo, ao ponto de o caso ter mobilizado várias entidades e merecido atenção especial das autoridades do país, mas os atrasos relacionados com a autorização de entrada impediram sua integração imediata à comitiva. O resultado é a ausência nas arquibancadas do NRG Stadium, em Houston, onde a RD Congo enfrenta Portugal nesta quarta-feira (17), às 14h, pelo Grupo K da Copa do Mundo.

Mboladinga deve se juntar à delegação nos próximos dias e acompanhar os dois jogos restantes da fase de grupos: contra a Colômbia, no dia 24, no Estádio Akron, em Guadalajara, e depois contra o Uzbequistão. A RD Congo disputa o Mundial pela primeira vez desde 1974, quando o país ainda se chamava Zaire, e a presença de um torcedor na delegação oficial, com custos cobertos pela federação, é uma raridade no futebol internacional que evidencia o quanto Mboladinga deixou de ser apenas um torcedor para se tornar parte reconhecida da identidade do time.

“Homem de verdade não faz terapia”: O ciclo que Kendrick Lamar decidiu encerrar

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Foto: divulgação

Em Father Time, Kendrick Lamar expõe a crença que afasta homens negros da terapia e o que essa resistência cobra ao longo de uma vida inteira

A abertura de “Father Time”, terceira faixa de “Mr. Morale & The Big Steppers”, lançado em maio de 2022, é uma cena construída com material real. Whitney Alford, noiva de Kendrick Lamar e mãe de seus dois filhos, gravou a narração do álbum, e foi ela quem emprestou a voz para a mulher que, nos primeiros segundos da música, diz ao companheiro que ele precisa ir à terapia. A resposta de Kendrick está ali como ele a descreveu ao Spotify no mesmo ano, palavra por palavra, como a única resposta que conhecia para aquela pergunta: “Um cara de verdade não precisa de terapia, que porra cê tá falando?”

Os versos da faixa descrevem como a resistência à terapia se constrói antes que a criança entenda que está sendo formada. “Uma criança que cresceu acostumada, levantando rápido quando arranhava meu joelho / Porque se eu chorasse por causa disso, ele diria que era pra eu parar de ser fraco.” O pai que aparece na música aprendeu que dor não interrompe nada, que quando a própria mãe morreu voltou ao trabalho no dia seguinte porque, como disse ao filho: “Essa é a vida, as contas não vão parar de chegar.” Essa frase chegou a Kendrick como instrução, e ele a carregou como quem carrega algo que não sabe que pesa até tentar colocar no chão.

O psicanalista Cleubecyr Brito, que atende predominantemente homens negros e periféricos, descreveu em entrevista ao portal Desenrola e Não Me Enrola em 2024 o que acontece quando esse homem chega ao consultório, quando chega. “Quando nós estamos falando de masculinidade, nós estamos falando dessa ideia de precisar ser forte, viril, potente, desse cara que não sente, e em análise é completamente o oposto. Você vai ser o tempo todo estimulado a interagir com as suas fragilidades.” Brito acrescenta que a maioria dos homens que inicia um processo terapêutico é levada pelas parceiras, exatamente como aconteceu com Kendrick, e que essa resistência começa antes da vida adulta, nos meninos que desde cedo aprendem que pertencimento e força são a mesma coisa.

A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, realizada pelo IBGE, mostrou que homens negros representavam apenas 14,8% dos pacientes em atendimento psicológico no Brasil, o menor percentual entre todos os grupos pesquisados, número que coexiste com uma taxa de homicídios de 37,8 por 100 mil habitantes entre brasileiros negros, contra 13,9 entre não negros, e com o dado de que a cada dez jovens que se suicidam no país, seis são negros, segundo levantamento do Ministério da Saúde em parceria com a Universidade de Brasília. São corpos que adoecem e morrem sem ter tido acesso ao que Kendrick descreve na música como um passo completamente novo numa geração completamente nova.

Kendrick é pai de dois filhos, e “Father Time” carrega esse peso em cada verso, especialmente quando ele rapa: “Minha galera cresceu sem pai, cresceram compensando de outros jeitos / Aprenderam porra nenhuma sobre ser um homem e fantasiaram isso sendo gângsteres”, descrevendo o que acontece quando a formação emocional não acontece dentro de casa e o menino busca referência onde encontra. O verso final da faixa fecha sem culpa e sem solução: “É crucial, eles não podem nos parar se acharmos os erros”, uma frase que aponta para os filhos que ainda estão aprendendo o que é ser homem e para o que será repassado a eles.

Para homens negros que não chegam ao consultório por falta de dinheiro, de tempo ou de um profissional preparado para uma escuta que considere raça e contexto, a arte tem funcionado como uma primeira abertura, e os dados sustentam essa observação. A plataforma Pra Preto Psi, fundada pelas psicólogas Bárbara Borges e Francinai Gomes, surgiu para conectar pacientes negros a terapeutas treinados para o que pesquisadores chamam de clínica racializada, um atendimento que entende o racismo não como pano de fundo, mas como parte constitutiva do adoecimento. Com o crescimento das consultas online, a distância entre se reconhecer numa música numa madrugada e marcar uma sessão no dia seguinte ficou menor do que em qualquer momento anterior.

Numa declaração publicada no Instagram em 2022, Kendrick resumiu o que a música representou na sua própria construção: “O rap ajudou de verdade na expansão do meu eu, para além da percepção de quem eu acreditava ser. Música é ar para um jovem preto naquele ponto da vida.” “Father Time” é onde essa afirmação se torna visível dentro de sua própria obra, numa faixa que existe porque alguém decidiu que nomear em público valia mais do que continuar guardando tudo dentro, e que a música podia ser o lugar onde isso acontecesse.

Evandro Fióti, irmão do rapper Emicida e figura conhecida no cenário cultural negro brasileiro, tomou um caminho parecido ao decidir compartilhar publicamente sua experiência com a terapia e os dilemas racializados que enfrentou ao longo dela. Em entrevista ao Correio Braziliense em 2024, ele disse que homens negros precisam enxergar a própria vulnerabilidade e ser ouvidos, e que falar sobre isso abertamente se tornou, para ele, uma forma de referência para outros homens que acompanham sua trajetória.

O que Fióti descreve e o que Kendrick grava em “Father Time” apontam para o mesmo movimento, o de homens negros que voltam à criança que aprendeu de um jeito e entendem que esse aprendizado não precisa ser a última palavra sobre quem são. Conversar, nomear, procurar um consultório ou uma tela de computador numa sessão online, são gestos que a comunidade negra começa a tratar com menos silêncio e mais seriedade, ainda que em ritmo lento diante do tamanho do problema. Os dados do IBGE de 2019 mostram que homens negros seguem sendo o grupo que menos acessa atendimento psicológico no Brasil, mas iniciativas como a plataforma Pra Preto Psi e a clínica racializada indicam que a estrutura para receber quem decide chegar está sendo construída. O que falta, muitas vezes, é a primeira decisão de ir.

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