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Sua pesquisa pode valer R$50 mil: L’Oréal Brasil premia estudos em pele e cabelo de pessoas negras, indígenas e transgêneras

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Foto: Freepik

O Grupo L’Oréal no Brasil abriu as inscrições para a segunda edição do Prêmio Dermatologia + Inclusiva, que reconhece pesquisas científicas voltadas para os cuidados com a pele e cabelo de pessoas negras, indígenas e transgêneras. Serão premiados quatro projetos com bolsas de R$50 mil cada, reforçando o compromisso da empresa com equidade racial e de gênero na ciência.

Segundo uma pesquisa do Datafolha em parceria com a Sociedade Brasileira de Dermatologia, 58% das pessoas negras brasileiras nunca foram ao dermatologista, em comparação com 42% entre pessoas brancas. Para Nathalia Harnam, Diretora de Comunicação Científica do Grupo L’Oréal no Brasil:

“Acreditamos que a beleza deve ser refletida também na ciência. Por isso, o Prêmio Dermatologia + Inclusiva nasce do nosso compromisso em ampliar o olhar da dermatologia para a diversidade da população brasileira. Expandir o escopo da premiação este ano é uma resposta direta às lacunas históricas de representatividade e uma forma concreta de apoiar pesquisadores que estão construindo uma ciência que reflita a realidade do nosso país.”

A premiação será dividida em quatro frentes prioritárias: acne e pele oleosa; barreira da pele; couro cabeludo e fibra capilar; e fotoproteção e hiperpigmentação. Um júri de especialistas em dermatologia e diversidade selecionará os projetos, com anúncio dos vencedores previsto para início de 2026. Eduardo Paiva, Diretor de Diversidade, Equidade e Inclusão do Grupo L’Oréal, reforça:

“Com este prêmio, queremos estimular o avanço científico em direção a uma dermatologia mais representativa, que englobe todos os tons de pele, tipos de cabelo e identidades, refletindo a rica diversidade brasileira. É também uma forma de reconhecer pesquisadores que atuam na linha de frente por uma ciência mais inclusiva.”

As inscrições estão abertas até 4 de dezembro de 2025, e podem ser feitas pela plataforma oficial do prêmio: Dermatologia + Inclusiva. O resultado parcial será divulgado a partir de 23 de março de 2026.

Com essa iniciativa, a L’Oréal reforça seu papel de liderança global e local, conectando beleza, ciência e inclusão, e criando oportunidades concretas para que pesquisas reflitam a diversidade do Brasil e promovam saúde e autoestima para todos.

Obesidade: quando o cérebro decide mais que a força de vontade

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Foto: Freepik

Um treinador conhecido por ideias conservadoras e meritocráticas ganhou popularidade ao participar de um programa no YouTube em que debatia com 30 pessoas com obesidade. A meta era provar que emagrecer é uma escolha. O resultado foi a amplificação de estereótipos, a naturalização da gordofobia e a repetição de equívocos sobre um tema que a ciência já posiciona como doença crônica. A experiência cotidiana também desmonta a tese simplista. Todos conhecem alguém magro que come muito, é sedentário e não engorda, e também quem, mesmo comendo de forma equilibrada e se exercitando, enfrenta enorme dificuldade para perder peso. A explicação não cabe em slogans motivacionais, ela está no cérebro.

No especial apresentado por Oprah Winfrey sobre emagrecimento e novas terapias farmacológicas, especialistas colocam a discussão no lugar certo, o da evidência. A medicina contemporânea classifica a obesidade como doença crônica. Há uma década, a American Medical Association formalizou esse entendimento. A médica Fatima Cody Stanford, que participou do processo, afirma, “chamamos a obesidade de doença porque há mau funcionamento na forma como o corpo está operando”. Não se trata apenas de “comer demais e não se exercitar o suficiente”, e sim de uma disfunção real que atinge “mais de dois bilhões de adultos” e que, em muitos países, “mata mais pessoas do que a desnutrição”. A própria Oprah, que chegou a 107,51 kg, vocaliza a dúvida de milhões de pessoas, ser obeso é falta de força de vontade ou é uma condição tratável clinicamente.

O cerne dessa regulação está no cérebro. Segundo a Dra. Fatima, existem duas vias que influenciam o peso, a anorogênica, que reduz ingestão e armazenamento, e a orogênica, que “apoia o armazenamento de adiposidade”. Em pessoas com sobrepeso e obesidade, essa segunda via costuma estar “aumentada”, sinal de “disfunção na forma como o corpo está regulando o peso”. Oprah traduz essa realidade ao comparar respostas diferentes a comportamentos semelhantes, “Cory pode comer torta de maçã às 11:00 da noite e ele consegue fazer isso. Seu corpo defende um ponto de ajuste muito magro”. No seu caso, diz, “se eu fizesse exatamente os mesmos comportamentos, eu armazenaria mais excesso de adiposidade. Meu corpo está mais predisposto a armazenar mais gordura”, e brinca, “eu sou uma armazenadora de adiposidade”. A síntese é objetiva, “o cérebro sabe onde quer estar e fará o que puder para te levar de volta a esse peso. É por isso que você sempre volta e é nada que você fez de errado. É apenas que o cérebro é superpoderoso”.

Humanizar a discussão implica compará-la a outras doenças crônicas. A Dra. Melanie Jay lembra que “tem diferentes causas e é diferente para cada pessoa”, com influência de genética, ambiente alimentar, oportunidades de atividade física, estresse, trauma e até “medicamentos que causam ganho de peso”. Para reduzir o estigma, a psicóloga Rachel Goldman defende a linguagem de pessoa primeiro, “uma pessoa com obesidade”, tal como se diz “uma pessoa com câncer”. Oprah reforça, “ou uma pessoa que luta com a obesidade”, enfatizando que ninguém deve ser definido pela condição médica. Também é essencial lembrar que “nem todo mundo em um corpo maior tem obesidade”, já que o diagnóstico depende de saúde e funcionamento biológico, não de julgamento estético. Sima Sistani, CEO da WeightWatchers, admite que a própria empresa, “sem saber, introduz[iu] também a vergonha para as pessoas para quem dieta e exercício sozinhos não eram suficientes”, e resume, “a obesidade não é uma falha moral, é uma condição crônica recidivante”.

Com essa base neurobiológica, os tratamentos evoluíram. Mudança de estilo de vida segue essencial, porém, para uma parcela dos pacientes, não é suficiente para vencer o ponto de ajuste cerebral. Ganharam espaço os agonistas de GLP-1 e combinações que atuam nos centros de apetite e recompensa. Eles não são “atalho” nem “cura milagrosa”. A Dra. Fatima explica que “aumentam a via anorogênica” e “diminuem a via orogênica”, agindo diretamente no cérebro. Muitos pacientes relatam, “eu me sinto diferente, algo parece diferente”, porque os fármacos “vão direto à fonte do problema no cérebro”. A resposta, porém, varia. “Há pessoas que tomam os medicamentos e dizem, ‘espere um minuto, perdi dois quilos, por que essa pessoa perdeu 25 quilos’”. Nesses casos, “não é que você falhou no medicamento, é que o medicamento falhou no paciente”, o que indica a necessidade de avaliar outras vias e estratégias. Como compara Sima Sistani em analogia com hipertensão e colesterol alto, “você ainda precisa de intervenção de estilo de vida… mas para alguns, você precisa de um medicamento Statin”.

O que emerge desse corpo de evidências é um convite à empatia e ao cuidado responsável. Quem tenta mudar hábitos e ainda assim enfrenta dificuldade persistente para perder peso não está falhando, está lidando com circuitos cerebrais que defendem um ponto de ajuste. Alimentação equilibrada, sono adequado e atividade física ajudam pessoas com obesidade e todas as outras e fazem parte do tratamento, sem substituir acompanhamento médico. Culpa não trata ninguém. Tratar a obesidade como doença, com linguagem respeitosa, diagnóstico preciso e acesso a terapias eficazes, abre caminho para saúde e autonomia.

Quantas vezes uma mulher negra precisa recomeçar nesta sociedade? 

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Diego do Subúrbio

Em 1988, Vale Tudo apresentava Raquel como uma personagem que, mesmo passando por dificuldades, conseguiu se consolidar como empresária, referência de competência, independência e integridade.Sua trajetória de ascensão mostrava que a superação era possível, ela não precisou “recomeçar” para reafirmar sua dignidade ou posição social, e sua jornada inicial, vendendo sanduíches na praia, era apenas um ponto de partida transitório em sua construção como mulher empreendedora. No remake de 2025, porém, a narrativa coloca Raquel, agora uma mulher negra, em um estado de sobrevivência, vulnerável e dependente de personagens como Celina. Isso levanta questionamentos profundos, ela não estudou? Não se profissionalizou? Por que uma mulher que poderia ser símbolo de autonomia e referência para população negra volta a um ciclo de fragilidade? A escolha do roteiro, mesmo que intencional, sugere que a ascensão da mulher negra nunca é plena ou definitiva, reforçando estereótipos sobre precariedade e dependência, em contraste com a trajetória de Raquel de 1988. 

A honestidade de Raquel em 2025 não é apenas uma escolha moral diante da corrupção, é uma luta constante contra estruturas racistas que historicamente não permitem que pessoas negras permaneçam de pé. Sua queda, então, não é apenas pessoal, mas coletiva, refletindo histórias de mulheres negras empurradas para informalidade, obrigadas a sustentar famílias sozinhas, cujos caminhos foram interrompidos pelo racismo e pelo abandono do Estado. O recomeço de Raquel denuncia uma ferida profunda, a naturalização da instabilidade da população negra, como se cada conquista fosse temporária e frágil. A escritora Chimamanda Ngozi Adichie chamou de “o perigo de uma história única”: “O problema com os estereótipos não é que sejam falsos, mas que sejam incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história” 

Beatriz Nascimento, no livro “O Negro Visto por Ele Mesmo”, lembra que a vida da população negra é muito mais complexa do que a televisão costuma retratar: 

“ A TV veicula uma ideologia aparentemente calcada num dado da realidade socioeconômica, que é o fato de grande parte dos pretos ainda hoje serem integrantes dos extratos sociais mais baixos da população. Entretanto,mesmo nessa mobilidade, todos sociais. Nem todos os indivíduos são necessariamente nas profissões do setor de serviços, nem todos são serventes e escravos, profissionais liberais ou, comerciários, funcionários públicos, qualificados ou não, comerciários… Como no passado, tivemos pretos proprietários, livres, políticos e também profissionais liberais, ao lado de operários e serventes escravos.” 

Mesmo com coautores negros, nas salas de roteiro, a autoria principal das novelas ainda é majoritariamente branca, concentrando o poder de decisão sobre o que é contadao e como é contado. Quantos autores negros, ao longo dos 60 anos da TV Globo, receberam reconhecimento no mesmo nivel de Glória Perez, Walcy Carrasco ou Manuela Dias? A presença negra muitas vezes se limita à colaboração secundária, sem acesso à liderança criativa. 

É fundamental compreender que ter autores negros na construção de nossas narrativas não limita a criatividade, pelo contrário, enriquece o campo narrativo com experiências, referências e perspectivas autênticas. Não se trata de impedir que a branquitude conte histórias, mas de assumir a responsabilidade de contar narrativas negras de forma íntegra e com profundidade, especialmente em tempos em que estamos apenas começando a ocupar espaços de protagonismo. Romper com a lógica atual exige mais do que abrir portas, é preciso entregar as chaves. A Raquel de 2025 não deveria ser

colocada em vulnerabilidade apenas para simbolizar resistência, ela deveria ser representada com permanência, dignidade e complexidade, abrindo espaço para refletir quantas vezes uma mulher negra precisa recomeçar nesta sociedade e exigindo coragem do Brasil e da indústria cultural para enfrentar essa pergunta de forma honesta e transformadora. 

Apoie a continuidade e permanência de Diego na universidade pública através da sua vaquinha via Pix: diegodosuburbio.contato@gmail.com e mais informações no perfil @diegodosuburbio

Raquel perdeu a paladar: os riscos de entrar numa sociedade acreditando na boa fé do sócio

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Na novela que tem movimentado debates sobre negócios e confiança, Raquel se viu vulnerável após Celina vender sua parte da empresa para Odete. Com 65% das quotas, Odete finalizou as atividades da sociedade, deixando Raquel e Poliana, que detinham o restante, sem poder de reação. O episódio, embora ficcional, levanta uma discussão real sobre como muitos empreendedores entram em sociedades confiando apenas na amizade ou no sonho, sem atenção para a proteção legal.

A contadora Juliana Lourenço, especialista em empresas familiares e sociedades, explica que o contrato social funciona como um “manual de convivência” da empresa. Segundo ela, quem tem menos quotas precisa garantir no contrato social direitos que protejam sua participação:

“Muita gente entra numa sociedade confiando apenas na amizade ou no sonho, mas esquece que contrato social é como o ‘manual de convivência’ da empresa. No caso da novela, a Raquel e o Poliana ficaram vulneráveis porque não havia cláusulas de proteção. Quem tem menos quotas precisa garantir no contrato social direitos como: cláusula de preferência (para ter chance de comprar as quotas antes que entrem terceiros), quóruns qualificados para decisões estratégicas — como venda da empresa, entrada de novos sócios ou dissolução — e acordos de não liquidação sem unanimidade. Sem esses cuidados, os sócios minoritários podem ser surpreendidos, infelizmente.”

Ela reforça que o contrato social não deve ser apenas um documento padrão:

“Meu conselho é: nunca assine um contrato social ‘padrão’, geralmente tem nas Juntas Comerciais dos Estados do Brasil, que é onde registramos os contratos para abertura ou alteração do CNPJ. É fundamental personalizar as cláusulas para refletir a realidade daquela sociedade e prever mecanismos de proteção tanto para quem tem a maioria quanto para quem tem a minoria. Uma boa assessoria contábil e jurídica no início evita muita dor de cabeça depois.”

Juliana também destaca a importância de pensar estrategicamente nas cláusulas de sucessão, que muitas vezes são usadas apenas de forma básica nos contratos:

“A cláusula de sucessão também precisa ser estratégica.”

Por fim, ela explica que essas cláusulas podem ir muito além de simplesmente definir se herdeiros entram ou não na sociedade. É possível determinar se eles terão voz ativa, ou apenas direito ao valor da cota, considerando o valor real da empresa, seus clientes e contratos ativos:

“Se geralmente as cláusulas de sucessão são básicas, tipo assim, elas definem se os herdeiros entram ou não, mas elas podem definir se os herdeiros entram ou não, se o herdeiro entrar, pode definir se ele tem voz ativa ou não. E se ele não entrar, geralmente nos contratos está escrito que o herdeiro só tem direito ao valor da cota, que vai ser apurada num balanço especial com a data do spoiler, ou seja, a data da morte. Só que os balanços contábeis têm uma fotografia do que aconteceu até aquela data. E aí, o que poderia ter nessa cláusula estratégica: a empresa vai pedir um estudo de valor da marca, de contratos já fechados. Então, a minha empresa tem hoje 130 clientes ativos, com uma mensalidade X, contratos por prazo indeterminado. Isso gera valor de mercado para a empresa, não é só o que está no contrato social. E aí, a maioria dos contratos com cláusula de sucessão, todos têm a cláusula de sucessão, mas não tem isso como estratégia. E aí, só o ordeiro acaba tendo direito. Aquilo é só o que está no que está escrito ali e não realmente o que tem direito.”

Para o universo negro empreendedor, que historicamente enfrenta barreiras de acesso a capital e redes de apoio, esse cuidado é ainda mais urgente. Entrar em uma sociedade sem proteção legal é um risco duplo: além de comprometer a segurança financeira, pode minar o reconhecimento e a autonomia de empreendedores negros dentro de seus próprios negócios.

O caso de Raquel, mesmo que ficcional, serve como alerta: amizade, confiança e sonhos compartilhados não substituem planejamento estratégico e contratos bem estruturados. Para quem quer empreender com segurança, a recomendação é clara: invista em orientação contábil e jurídica, personalize suas cláusulas e nunca subestime o valor de um contrato social pensado para proteger todos os envolvidos.

Lil Nas X é acusado de três crimes após episódio em Los Angeles

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O rapper Lil Nas X foi formalmente acusado de quatro crimes graves, entre eles três acusações de battery (agressão) com lesão a policiais e uma de resistência a oficial executivo, conforme divulgado pelo escritório do promotor distrital de Los Angeles.

Na manhã de quinta-feira, 21 de agosto de 2025, ele foi encontrado caminhando pela Ventura Boulevard, em Studio City, apenas de cueca e botas de cowboy. De acordo com relatos policiais, Lil Nas X teria investido contra os agentes ao ser abordado, o que gerou as acusações atuais. Pouco depois, foi hospitalizado por suspeita de overdose e, em seguida, levado sob custódia, inicialmente sem direito a fiança até sua primeira audiência.

O caso atraiu ampla atenção internacional — vídeos e imagens circularam intensamente nas redes sociais mostrando o rapper em comportamento errático, como usar um cone de trânsito na cabeça e cantar trechos de uma música de Nicki Minaj enquanto caminhava quase nu. A situação acontece em um momento delicado para o artista, que recentemente havia falado publicamente sobre seus desafios pessoais e a busca por autoconfiança e renovação criativa em sua carreira musical.

Segundo o People, as acusações criminais podem acarretar anos de prisão, além de multas de até US$ 10 mil por cada crime de agressão, caso haja condenação. Ele compareceu a uma audiência de acusação em Van Nuys, mas até o momento não há maiores informações confirmadas sobre sua permanência na prisão ou possibilidade de liberação sob fiança.

Em resumo, o episódio evidencia os desafios de saúde mental enfrentados por artistas negros, cuja visibilidade pública intensifica pressões e expectativas, ao mesmo tempo em que se tornam mais expostos às consequências jurídicas e à repercussão midiática.

Mostra de Cinemas Africanos chega ao RJ pela primeira vez; veja os destaques da programação

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A Lenda da Rainha Errante de Lagos (Foto: Leo Purman)

A Mostra de Cinemas Africanos chega pela primeira vez ao Rio de Janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB RJ), o único festival continuado no Brasil dedicado exclusivamente à exibição de filmes africanos contemporâneos. A programação integra a Temporada França-Brasil 2025 e será realizada entre os dias 10 e 15 de setembro. A entrada é gratuita mediante a retira de ingressos disponibilizados às 9h do dia da sessão na bilheteria física ou em bb.com.br/cultura.

Criada há oito anos, a Mostra já circulou por seis cidades brasileiras e levará ao Rio, 15 longas e 5 curtas de 11 países africanos. As produções já marcaram presença em festivais como Cannes, Locarno, Tribeca e Berlinale, e muitas delas serão exibidas de forma inédita no Brasil. A curadoria é assinada por Ana Camila Esteves, idealizadora do projeto, e pela ganense Jacqueline Nsiah, integrante do comitê de seleção da Berlinale.

Entre os destaques estão:

  • O Fardo da Nigéria (When Nigeria Happens, Nigéria, 2025), filme de abertura seguido de debate com a diretora Ema Edosio;
  • Demba (Senegal, 2024), novo trabalho do premiado Mamadou Dia, que encerra o evento com a presença do cineasta;
  • Sobre Quando Quebrei o Silêncio (On Becoming a Guinea Fowl, Zâmbia/EUA, 2024), produção da A24 dirigida por Rungano Nyoni, cineasta reconhecida por Eu Não Sou uma Bruxa.
O fardo da Nigéria (Foto: Iyua Alaha)

Naija Focus: a força do cinema nigeriano

Um dos pontos altos desta edição é o Naija Focus, recorte especial dedicado à cinematografia da Nigéria. O termo “Naija”, usado de forma afetuosa por nigerianas e nigerianos, reflete orgulho e identidade nacional. Além do filme de abertura, o foco reúne três longas de grande destaque:

  • A Lenda da Rainha Errante de Lagos (The Legend of the Vagabond Queen of Lagos, 2024), fantasia urbana do Agbajowo Collective, exibida no TIFF;
  • O Fim de Semana (The Weekend, 2024), de Daniel Oriahi, suspense que retrata a classe média nigeriana, exibido em Tribeca;
  • A Estrada da Liberdade (Freedom Way, 2024), de Afolabi Olalekan, denúncia da corrupção policial, também apresentado no TIFF.

O Naija Focus ainda traz cinco curtas em parceria com o S16 Film Festival, de Lagos, e uma exibição especial de Mami Wata (2023), de C.J. Obasi, com participação da diretora de fotografia brasileira Lílis Soares, vencedora em Sundance por este trabalho.

Demba (Foto: Sheldon Chau)

Formação e reflexão

A programação no Rio inclui ainda um minicurso sobre cinema nigeriano, ministrado por Ana Camila Esteves. A atividade mergulha no universo de Nollywood, uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo, explorando sua história, estratégias de mercado, narrativas populares e presença nas plataformas de streaming.

Clique aqui e veja a programação completa!

SERVIÇO
Mostra de Cinemas Africanos – Rio de Janeiro
De 10 a 15 de setembro de 2025

Evento gratuito. Os ingressos serão disponibilizados a partir das 9h, na bilheteria do CCBB

Inscrições para o minicurso através do link: Even3

Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro

Rua Primeiro de Março 66, Centro

Entrada franca. Ingressos disponibilizados às 9h do dia da sessão na bilheteria física ou em bb.com.br/cultura.

Mais informações em bb.com.br/cultura

De ‘Malcolm X’ a ‘Luta de Classes’: a parceria de mais de 3 décadas entre Denzel Washington e Spike Lee

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Malcolm X (Foto: Warner Bros, cortesia da Everett Collection)

Denzel Washington e Spike Lee construíram, ao longo de mais de 30 anos, uma das parcerias mais marcantes do cinema. Descritos pelo próprio Lee como o “duo dinâmico, D e Lee”, eles se reencontram agora para o quinto trabalho conjunto: o filme “Luta de Classes”, que estreia na Apple TV+ no dia 5 de setembro.

A trajetória da dupla começou em 1990, com “Mais e Melhores Blues”. Para viver o personagem do drama musical, Washington aprendeu a tocar trompete, mostrando a dedicação que viria a marcar todas as suas atuações sob a direção de Spike. No ano anterior, Denzel conquistou seu primeiro Oscar com “Tempo de Glória”, enquanto Lee lançava “Faça a Coisa Certa”, obra que o projetou mundialmente.

Mais e Melhores Blues (Foto: Divulgação)

Em 1992, lançaram “Malcolm X”, considerado um dos melhores cinebiografias da história do cinema e exigiu de Denzel uma imersão completa, com um ano de preparação antes das filmagens. Spike enfrentou dificuldades para viabilizar a obra e se inspirou no próprio legado do revolucionário ao recorrer ao apoio de personalidades negras para financiar a produção. Para o cineasta, a atuação de Washington é “a melhor atuação em um filme biográfico de todos os tempos”.

Jogada Decisiva (Foto: Entertainment Pictures)

Nos anos seguintes, vieram produções como o drama esportivo “Jogada Decisiva” (1998) e o suspense policial “O Plano Perfeito” (2006), demonstrando a versatilidade da dupla e mantendo a boa recepção da crítica.

Agora, 19 anos depois do último projeto, eles voltam a dividir o set com “Luta de Classes”. O thriller é uma releitura contemporânea do clássico japonês “Céu e Inferno” (1963), de Akira Kurosawa, mas desta vez ambientado na indústria da música. No longa, Washington interpreta um magnata do ramo musical, famoso por ter “o melhor ouvido do negócio”, que se vê diante de um dilema moral ao precisar decidir entre vida e morte após um pedido de resgate.

Luta de Classes (Foto: David Lee)

Mais do que uma parceria profissional, a relação entre Denzel e Spike é de irmandade. “Nós somos irmãos. Simplesmente fazemos o que fazemos. Nos conhecemos bem… nossas famílias são muito unidas”, disse o diretor no ano passado. Washington retribui a admiração: “Spike é Spike de forma consistente, e eu adoro isso nele”, disse Washington. “E adoro trabalhar com ele, e trabalharia com ele novamente. Eu simplesmente gosto do jeito que o cérebro dele funciona.”

“Foi a minha primeira vez na África, mas a sensação era de volta”- Laís Gomes sobre viagem à África do Sul

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Por Laís Gomes

Eu me chamo Laís Gomes, tenho 38 anos, voo desde os 18 e, internacionalmente, desde os 26. Sou jornalista, profissão que me faz viajar de avião constantemente e, ainda assim, foi a primeira vez que vi um piloto negro. Na verdade, toda uma tripulação. Esse foi meu primeiro impacto ao chegar à África do Sul. E essa sensação de primeiras vezes seguiu ao longo da viagem. Assim como a sensação de pertencimento.

Foi a minha primeira vez na África, mas a sensação era de volta. De reencontro com velhos amigos, porque o povo sul-africano é extremamente gentil, prestativo e curioso em saber mais sobre as pessoas e o mundo.

Foram só dois dias em Johannesburgo, antes de ir para Cape Town, que equivaleram a uma faculdade de história. Da história que a história não conta, como cantou a Mangueira em 2019. Escolhi fazer os passeios sem agência, encontrando guias locais. O primeiro, Lungsta, nos conduziu por seu lugar: Soweto, uma periferia habitada por mais de 2 milhões de pessoas, onde aconteceu um fato que eles contam e recontam para que não se repita e não se esqueça.

E se eu te disser que uma linha, e não falo de uma linha imaginária, mas física, cortava Soweto em dois lados, onde brancos e pretos não podiam se misturar? Pisei e cruzei a linha várias vezes, meio inconsciente, até perceber o que e por que estava fazendo aquilo. Tudo isso enquanto escutava nosso guia contar a história de 16 de junho de 1976, quando crianças e adolescentes protestavam pacificamente, com cartazes, contra consequências do Apartheid, como a superlotação das escolas para negros e a proibição do ensino de sua própria língua, o bantu.

Eles foram recebidos por uma tropa de choque que respondeu com tiros e matou um adolescente de 13 anos, Hector Pieterson, que saiu carregado nos braços pela irmã. O registro foi capturado por jornalistas locais que acompanhavam a manifestação disfarçados e publicado no dia seguinte nos jornais. Hector virou símbolo da “revolta de Soweto”, que teve mais de 600 mortos e marcou para sempre a história daquele lugar.

Me perguntei diversas vezes como eu nunca tinha ouvido falar dessa história na escola, em reportagens, vídeos ou podcasts. E então segui para a casa de Nelson Mandela e do reverendo Desmond Tutu, também no bairro, aprendendo mais sobre os heróis daquele país.

Visitei ainda o Museu do Apartheid, que já impacta na entrada separada para brancos e não brancos, e que conta, em detalhes, a história do regime separatista que durou até 1984 e cujo reflexo permanece não só em Johannesburgo, mas em todo o país.

Conheci também o Constitution Hill, complexo histórico que inclui uma cadeia onde ficaram presos políticos como Mandela e Gandhi. É de embrulhar o estômago. O mais impressionante é que não estamos falando de 100 ou 200 anos, mas de 45.

Apesar das mazelas, me encantou o que eles carregam: havia sorriso, alegria, orgulho, muito orgulho dos seus cabelos, da sua história, de quem são. E havia também a esperança e a certeza de que eles jamais serão colonizados novamente.

O que os meus olhos viram em Johannesburgo eu jamais vou esquecer.

“É menos frequente a validação externa da superdotação e altas habilidades para pessoas negras”, diz especialista

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Foto: Divulgação

Superdotação e altas habilidades tem sido um assunto recorrente nas redes sociais, mas este ainda é um cenário de pouco debate e reconhecimento entre as pessoas negras. O psiquiatra Lucas Mendes, 36 anos, descobriu apenas recentemente que é uma pessoa com superdotação, com o auxílio da neuropsicóloga Luciene Pires. Sendo um homem negro, ele conta que mesmo tendo passado em primeiro lugar no vestibular de Medicina aos 17 anos e conquistado vaga em uma das residências em Psiquiatria mais concorridas do país, nunca teve o diagnóstico sequer sugerido.

“Ninguém conseguiu considerar nos ambientes que eu passava, que um cara preto pudesse ser superdotado, mesmo vendo que tinha uma inteligência e um desempenho muito grande”, afirma em entrevista ao site Mundo Negro. Segundo Mendes, esse apagamento fez com que ele passasse anos desmerecendo suas conquistas, atribuindo-as à sorte ou ao apoio de terceiros. “Eu costumo dizer que eu passei com 17, mas eu demorei 17 anos para me apropriar do que eu fiz e para ter realmente orgulho do que eu fiz”, conta. Para ele, a invisibilidade do tema atinge de forma ainda mais dura pessoas negras, cujas capacidades intelectuais muitas vezes não são reconhecidas ou são distorcidas.

Lucas também explica o que são as altas habilidades e a superdotação. “São conceitos diferentes, mas que se resumem a mesma coisa, que é o potencial cognitivo de um indivíduo em áreas específicas. E aí que entra, por exemplo, um potencial elevado para destreza motora fina, que aí pode ser pintores, escultores, artistas, um potencial para destreza motora mais ampla, um atleta. A ideia das habilidades é que a gente tem múltiplas habilidades cognitivas que são desempenhadas de diversas formas.”

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Leia a entrevista completa abaixo:

MN: O que exatamente significa “superdotação” e “altas habilidades”? Existe diferença entre os dois conceitos?

Altas habilidades e superdotação são conceitos diferentes, mas que se resumem a mesma coisa, que é o potencial cognitivo, especialmente cognitivo, de um indivíduo em áreas específicas. E aí que entra, por exemplo, um potencial elevado para leitura, um potencial elevado como músicos, para audição, para percepção de ritmo, um potencial elevado para destreza motora fina, que aí pode ser pintores, escultores, artistas, um potencial para destreza motora mais ampla, um atleta e por aí vai. Então a ideia das habilidades é que a gente tem múltiplas habilidades cognitivas que são desempenhadas de diversas formas e que algumas pessoas têm elas maiores ou menores. E aí quando a gente está falando de superdotação é um potencial global aumentado, tudo aumentado. Essa é uma das linhas de teoria quando se está falando de altas habilidades, são ou todas, ou várias, ou algumas habilidades específicas aumentadas ou várias habilidades específicas aumentadas. 

Pro MEC [Ministério da Educação] e para o Ministério da Saúde, superdotação e altas habilidades são a mesma coisa. Ele é usado como conceito para formalizar o diagnóstico de avaliação educacional infantil como a mesma coisa. Alguns autores colocam no mesmo lugar e tem inclusive conceitualizações diferentes. De múltiplas inteligências, de potencial, de talento inato, então, são conceitos complexos. No Brasil, pelo MEC, é usado muito como o mesmo significado. Nas testagens neuropsicológicas, que são um tipo de exame que usa para fazer o diagnóstico, muitas vezes eles vêm como sinônimos. Mas, dependendo da linha e aí de forma didática, não é necessariamente isso, mas como é um jornal de forma didática.

MN: Como o imaginário social sobre inteligência e genialidade — muitas vezes associado a pessoas brancas — interfere na autoimagem e no desenvolvimento de pessoas negras superdotadas?

Eu, particularmente na minha experiência profissional, tenho recebido muitos pacientes na vida adulta, eu não atendo crianças e adolescentes, adolescentes eventualmente no contexto específico, mas trabalho mais com adultos, e tenho recebido muitos adultos com altas habilidades de superdotação. Alguns de um nível de excepcionalidade muito alto, mas que não tinham essa auto percepção e que isso gera uma distorção de auto percepção que a pessoa não consegue entender o funcionamento dela. Inclusive, os problemas do funcionamento, as dificuldades de se enquadrar em grupos, de socializar, de pertencer a grupos acadêmicos, de escola, de tudo, de lidar com autoridades intelectuais, e essas pessoas tentam acreditar que isso é um problema delas. Essa é uma distorção racial frequente, porque o racismo faz uma tradução simultânea de tudo que é bom em algo ruim, então a pessoa começa uma perseguição por um problema, e isso já aconteceu várias vezes, a pessoa vem atrás de um problema e problemas que já foram sugeridos, inclusive pelo viés racista, “ah, é borderline, é bipolar”, e quando você vai aprofundando tá em outro lugar. É uma intensidade emocional muito grande que vem de uma superdotação, mas um funcionamento muito acima da média, e aí entra o outro fenômeno racial que é o da validação externa. 

É muito, muito, muito menos frequente a validação externa dessa superdotação e altas habilidades para pessoas negras e para as pessoas brancas inclusive é validado mesmo não tendo. Isso gera quase um sequestro e aí vem um fenômeno que é: ou você espera encontrar em pessoas brancas uma genialidade às vezes, até força com que ela esteja lá não estando. Às vezes é uma habilidade específica que inclusive não é nem uma habilidade nata, é um esforço repetitivo com a pessoa desenvolveu a habilidade e destitui isso quando ele existe numa pessoa negra. Então é bem comum, a gente vê isso muito em ambiente acadêmico. Especialmente eu vejo em pós-graduações, mestrado, doutorado, esse olhar que tende a hipervalorizar a inteligência da pessoa branca e desvalorizar da pessoa negra. E aí com certeza a autopercepção de valor cognitivo, intelectual, e aí vale para tudo, ela fica distorcida e como todo efeito do racismo ele faz uma distorção invertida negativa, então o que é bom, transforma em ruim. E aí a criança é o problema, criança que reclama muito, é uma série de questões.

MN: Quais são os sinais mais comuns que podem indicar que uma pessoa tem altas habilidades? E como investigar?

Essa é uma pergunta difícil, que eu particularmente não gosto muito, porque eu acho que tem que ser cuidadoso. Por exemplo, especialmente numa matéria, e não correr o risco de simplificar uma coisa que é muito complexa e que aí ocorra numa coisa que a gente vê bastante ultimamente e crítica muito, que é o hiperdiagnóstico de pessoas por detalhes. Então assim: “se a pessoa tem um hiperfoco ela é autista”. E aí eu realmente prefiro não dizer quais são os sinais mais comuns, porque é muito heterogêneo e é difícil de precisar, porque envolve um desempenho global da pessoa no ambiente onde ela está. Então vai variar de estímulos que ela recebe e tudo mais, mas no geral é avaliado pelo desempenho cognitivo, aí entra uma questão. Tem uma distorção muito frequente que a gente entende desempenho cognitivo como nota na escola. E nota na escola é uma das avaliações de um tipo mais específico de desempenho cognitivo que pode ter inúmeros outros. Motor, subjetivo, emocional, por exemplo, que é bem interessante de ver pessoas que têm uma habilidade emocional muito boa de comunicação e interação social, de linguagem, pessoas muito persuasivas e que têm uma capacidade de comunicação com outras pessoas muito interessante, muito grande. Então é muito difícil dizer sinais mais comuns porque varia, por exemplo, de que tipo de habilidade vai depender, o que você vai ver e o contexto. Então não dá nem para dizer isso. 

E aí como é que investiga? Avaliação psicológica, avaliação pedagógica, ou psicopedagógica. Uma das formas interessantes é a testagem neuropsicológica, que é um exame realizado por psicólogos ou psicólogas, e que avalia objetivamente as funções cognitivas, e aí ele dá uma estimativa do coeficiente intelectual, do QI. Esse é um exame objetivo bem interessante para complementar a avaliação, e aí avaliação psiquiátrica, psicológica e pedagógica. Esses três juntos conseguem fazer esse olhar ampliado, porque a superdotação de altas habilidades é uma condição que é a forma de existir da pessoa. É o jeito dela, é a forma como ela veio, é a estrutura neurológica e psíquica dela. Então, você tem que ver aquilo ao longo da vida toda. Claro, ajustado para o contexto, mas tem que estar lá a vida inteira, então tem que fazer essa avaliação global. “Fiz uma prova de concurso difícil, passei, logo sou superdotado.” Não é simplista assim. Então eu tomaria esse cuidado. O melhor é procurar avaliações bem de qualidade para poder saber do que a pessoa irá rastrear por ela mesma. Até porque a gente já tem um senso comum e se tem um indício, vai atrás.

MN: Isso é possível ainda na infância ou adolescência?

É a melhor época. Quanto mais cedo, melhor. Claro, não vai fazer isso no bebê, mas quanto mais cedo for possível avaliar globalmente o funcionamento cognitivo de um indivíduo e ajudar ele a entender como ele é e até como ele destoa da média das pessoas, porque essa é a grande questão. Pessoas superdotadas e com altas habilidades, elas fogem da média de nível intelectual ou de nível de habilidades, e isso pode ser muito bom se ela desenvolver as habilidades ou entender o funcionamento dela, entender as questões envolvidas, as reações emocionais intensas, algumas características específicas dessas pessoas, isso vai ajudar muito, mas também pode ser uma fonte de sofrimento imensa por a pessoa não se enquadrar. Por ela não conseguir seguir um regime escolar habitual, por exemplo, porque ela acha chato, ela já entendeu as coisas, então é bem complexo.

Afeto, Raízes e Comunidade: Cidoca Nogueira faz da Casa Milagre um território vivo de memória e pertencimento

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No coração do Velho Cosme, a Casa Milagre surge como um refúgio que une beleza, memória e ancestralidade. À frente deste projeto está Cidoca Nogueira, mulher preta, empreendedora e guardiã de espaços de afeto e resistência. Com olhar sensível e intuitivo, Cidoca transformou seu jeito de viver e compartilhar em cada detalhe do lugar: cores, texturas, aromas e objetos que contam histórias, evocam memórias e celebram a presença negra.

A Casa Milagre vai muito além de um espaço para hospedagem: é um lar que convida à troca, à comunidade e à experiência de pertencimento. Cada elemento do ambiente reflete a trajetória de Cidoca e a potência de um projeto que nasceu da vontade de criar conexão, acolhimento e beleza em harmonia com a ancestralidade.

Em entrevista ao Mundo Negro, Cidoca compartilhou sua trajetória, suas inspirações e os conceitos por trás da Casa Milagre. Ela falou sobre a importância de criar um espaço que une estética, ancestralidade e comunidade, além de refletir sua visão de pertencimento, afeto e coragem para sonhar e realizar projetos como mulher preta e empreendedora.

Inspiração e Intenção

O que te inspirou a criar a Casa Milagre no Velho Cosme, e qual era o sonho ou a intenção por trás desse projeto desde o começo?

“Já nasci com um senso de comunidade muito presente! Fui filha única durante 21 anos, e meus pais sempre foram atentos, principalmente nos primeiros 6 anos de vida, quando o caráter está sendo formado. Preocupados em que eu não me tornasse uma criança e, mais tarde, uma adulta egoísta. Não daria certo ser preta, pobre, mulher e egoísta na vida. Desde criança, sempre compartilhei minhas coisas com as pessoas, e sigo minha vida dessa maneira. A Casa Milagre nasceu dessa memória afetiva de compartilhar, pelo apreço de acreditar no desejo, no conforto e nos desafios de viver em comunidade.”

Decoração e Conexão com a Ancestralidade

A decoração da Casa Milagre carrega elementos que parecem conversar com a ancestralidade, fé e afeto. De onde vêm essas escolhas e como elas refletem sua história e identidade?

“Tudo acontece de forma muito intuitiva. Eu não penso muito, apenas sinto, vou fazendo, colocando, arrumando, e quando vejo, está pronto. Meu coração me guia de forma natural. Tudo tem muito de mim, e acredito que tem a ver com minha fé e ancestralidade. Sinto Deus e os orixás na criação de tudo que tem poder, cor, cheiro, harmonia e sensibilidade estética. Crio meus espaços dentro do que sou, do que sinto e do que acredito.”

Estética, Política e Pertencimento

Você sente que a Casa Milagre é uma resposta estética e política dentro do território? Como ela rompe ou ressignifica a ideia tradicional de hospedagem?

“O Rio me trouxe um lugar de pertencimento, igual ao que só senti em Montes Claros, Sertão Norte Mineiro, onde nasci. Ser mulher preta, não ter sócios, ter 57 anos, não ter parceiros fixos e escolher acreditar é um desafio e uma coragem diária. Aqui, minhas trocas com pessoas pretas são frequentes: trocar ideias, ouvir, mostrar que é possível realizar e viver sonhos. Esse é o território Casa Milagre, onde pessoas pretas como eu sonham, adquirem, acreditam nas conquistas e possibilidades com coragem diária de não desistir. É se permitir ocupar lugares novos, expandir-se com coragem, presença, verdade e calma. Aqui é lugar de expansão e, ao mesmo tempo, recolhimento. Daí vem nosso diferencial, que rompe e ressignifica.”

Experiência de Hospedagem

Quando você olha cada detalhe da casa — texturas, objetos, cheiros — o que espera que as pessoas negras sintam ao se hospedar aqui?

“É uma casa comunitária, principalmente! Uma comunidade onde dividimos proximidade, pão e amor. Conversamos sobre nossas dores e unimos nossos sonhos. Fácil não é, mas acredito que é possível. Li esses dias que resgatar a aldeia é resgatar valores: comunidade é família estendida, irmãos, amigos próximos, pessoas que dividem o pão e também os mesmos valores. É essa a minha construção na Casa Milagre: proximidade.”

Milagre e Cotidiano

O que é milagre para você hoje como mulher preta, empreendedora, guardiã de espaços de beleza, memória e resistência?

“São as sutilezas de cada dia: o encontro entre mar e montanha, água doce e salgada. Luxo aqui é se sentir à vontade, é transformar uma construção grandona em lar de puro aconchego. Milagre mora aqui porque está dentro de tudo que habita esta casa, dentro de cada um de nós. Casa Milagre é um convite para mergulhar no calor e efervescência carioca com a certeza de que há um cantinho fresco e sereno à sua espera sempre que quiser voltar para casa.”

A Casa Milagre, sob o olhar sensível de Cidoca Nogueira, é mais do que um espaço físico: é um refúgio de afeto, ancestralidade e comunidade. Cada detalhe, cada textura e cada cor refletem a história de quem cria e acolhe, oferecendo um lugar onde pessoas negras podem sonhar, trocar experiências e se sentir pertencentes. Ao visitar a Casa Milagre, percebe-se que o verdadeiro luxo está na simplicidade, na proximidade e na capacidade de transformar um lar em um espaço de memórias, coragem e milagre cotidiano.

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