O caso aconteceu em Kansas City, no estado americano do Missouri, em abril deste ano. Ralph Yarl foi erroneamente à casa de Andrew Lester, que estava a apenas um quarteirão de distância de onde ele deveria buscar os irmãos. De acordo com o depoimento de Yarl, concedido na semana passada, ele tocou a campainha da casa de Lester no dia do incidente, buscando informações sobre seus irmãos. No entanto, em vez de uma resposta ou ajuda, Lester atendeu a porta brandindo uma arma e proferindo ameaças, ordenando que Yarl não retornasse à sua propriedade. O relato do adolescente indica que, enquanto ele começou a recuar, Lester disparou um tiro em sua direção, atingindo-o na cabeça, e em seguida, disparou novamente depois que ele caiu ao chão.
Inicialmente, Lester foi libertado sob fiança, fixada em 20 mil dólares, conforme registros do tribunal. No entanto, as acusações contra ele agora incluem agressão criminosa em primeiro grau e alegações de crime “de ação criminosa armada”. O processo indica que, se condenado na primeira acusação, Lester não será elegível para liberdade condicional até cumprir 85% de sua pena.
O julgamento de Andrew D. Lester está agendado para o dia 20 de setembro. O caso permanece como um exemplo preocupante de violência racial.
O ataque a Yarl chocou a comunidade onde ele vive e um financiamento coletivo foi criado pela tia do adolescente para auxiliar nas despesas médicas e no processo de recuperação. O adolescente, apesar de ter sido atingido na cabeça, sobreviveu ao ataque, o que foi descrito como um verdadeiro milagre por aqueles que acompanharam sua jornada de recuperação.
Foram presos em Salvador, na Bahia, três homens suspeitos de envolvimento no assassinato da líder quilombola, ialorixá Bernadete Pacífico, que ocorreu no dia 17 de agosto, dentro do Quilombo Pitanga, na cidade de Simões Filho, região metropolitana da capital. O anúncio das prisões foi feito pelo secretário Marcelo Werner na manhã desta segunda durante uma entrevista coletiva organizada pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia.
Os homens, que não tiveram as identidades reveladas, tiveram diferentes participações na morte de mãe Bernadete. Um dos suspeitos seria o executor do crime, o outro é apontado como responsável por guardar as armas usadas na execução da ialorixá, além de ter sido preso por porte ilegal de arma de fogo e o terceiro suspeito teria feito a receptação dos celulares da vítima e de seus familiares durante a ação criminosa.
Segundo a SSP, o suspeito acusado de roubar os celulares foi detido em Simões Filho no dia 25 de agosto após a emissão de um mandado de prisão. Já o homem detido por envolvimento direto no crime teve mandado de prisão cumprido na última sexta-feira, 1 de setembro, ele confessou ter sido o executor e já tem passagem pela polícia. A prisão foi realizada pelas equipes do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), em Araçás, cidade que fica a pouco mais de 100 km de Salvador.
Na sexta-feira, duas pistolas, com munições e três carregadores, dois deles estendidos, que teriam sido utilizadas no crime foram localizadas em uma oficina mecânica na comunidade de Pitanga dos Palmares, na zona rural de Simões Filho, mesma localizado onde fica o quilombo em que morava a ialorixá. O mecânico foi autuado em flagrante por porte ilegal de arma de fogo.
Uma perícia deve ser realizada nos armamentos e ajudará a entender se foram de fato utilizados no crime. A SSP afirma que as armas são compatíveis com os projéteis recolhidos no local onde o crime aconteceu.
“Todo o material relacionado aos projéteis foram coletados e encaminhados para a perícia. Esse laudo também já foi concluído e entregue à Polícia Civil. Agora será feita a perícia nas armas, porque com esse primeiro exame que foi feito dos estojos e dos projéteis, vamos ter como relacionar essas armas que foram apreendidas com o material que já temos. A partir daí, a gente vai poder definir com certeza se essas são as armas do crime”, afirmou Ana Cecília Bandeira diretora-geral do Departamento de Polícia Técnica e perita criminal.
A diretora contou ainda que as imagens de câmeras de segurança do local estão sendo periciadas e que ainda aguardam o laudo.
Um outro suspeito que seria um segundo executor do crime é procurado pela polícia. A SSP informou que os envolvidos fazem parte de um grupo criminoso que é responsável por realizar homicídios e tráfico de drogas na região onde o crime aconteceu.
A secretaria também informou que não é possível dizer ainda quais as motivações que levaram ao assassinato de mãe Bernadete.
A família da líder religiosa afirmou que deve realizar uma entrevista coletiva na tarde de hoje para falar sobre as novas informações divulgadas pela polícia civil.
Relembre o caso
Na noite de quinta-feira (17), Maria Bernadete Pacífico, líder da Comunidade Remanescente de Quilombo Pitanga de Palmares, em Simões Filho, foi assassinada a tiros em seu terreiro. A ação foi realizada por bandidos armados que invadiram o local, amarraram pessoas e executaram Mãe Bernadete.
Em depoimento à polícia, uma residente do quilombo disse que ao chegar ao terreiro, ouviu os disparos e se abrigou em um veículo nas proximidades. A quantidade exata de pessoas que estavam na propriedade durante o ataque ainda não foi divulgada.
Mãe Bernadete era ex Secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e líder da comunidade quilombola de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador,
Mãe Bernadete era também mãe de Flavio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como ‘Binho do Quilombo’, vítima fatal de um assassinato em 2017, ocorrido dentro de seu carro, nas proximidades da Escola Centro Comunitário Nova Esperança, situada em Pitanga dos Palmares.
Uma das maiores nomes do cinema norte-americano, o ator Morgan Freeman, 86, estará no Brasil como Convidado de Honra durante o Festival Liberatum que acontece no próximo mês de novembro, em Salvador, Bahia. Ele também virá como Embaixador Cultural Especial para a ocasião.
De acordo com o anúncio feito pela equipe do festival, o vencedor do Oscarde 2004 por seu papel em “Million Dollar Baby”, será homenageado pela Liberatum e pelo país “por sua excepcional contribuição ao cenário cultural mundial e por sua conquista nas artes cinematográficas como ator, produtor e diretor”.
Neste ano, o festival concentra-se especialmente na contribuição cultural de agentes de mudança e visionários negros de todo o mundo. As festividades estão programadas para acontecer entre os dias 3, 4 e 5 de novembro de 2023.
Durante o ‘Liberatum Brasil’, a programação especial incluirá uma retrospectiva da notável carreira cinematográfica de Morgan Freeman no coração histórico de Salvador. Além disso, músicos do Ground Zero Blues Club, clube de blues fundado por Freeman em Clarksdale, Mississippi, EUA, se unirão a músicos da Bahia, incluindo Lazzo Matumbi.
O Ground Zero Blues Club é amplamente reconhecido como um dos melhores clubes de blues do mundo, oferecendo autêntica música do Mississippi Delta Blues para amantes da música em todo o planeta. Já a a Fundação Liberatum é uma organização global dedicada à diplomacia cultural multidisciplinar, será a anfitriã do evento.
“Receita de Diamante”, livro escrito pela autora Simone Mota, conta a história de vida e superação do chef João Diamante, uma obra ilustrada que traz criações gastronômicas do chef baiano radicalizado no Rio de Janeiro. A obra será lançada na Bienal do Livro Rio 2023, na estande da editora Malê, nesta terça-feira (5), às 13h, com a presença do chef e da autora para sessão de autógrafos e bate papo com a escritora.
“Esse livro significa um resumo da minha vida até os dias de hoje, as pessoas que terão acesso vão sorrir, chorar, vão se inspirar, tanto na parte da história de vida, que representa 80% da população brasileira, uma história de muita luta, resistência e resiliência, mostrando uma história de muita luta, da grande parte dos brasileiros que através de oportunidades e força de vontade da família conseguiu vencer. Além de muitas receitas, ler a história e aí vem a conexão da receita, os amantes da gastronomia vão amar o livro, quem gosta de relatos, superação e motivação vão gostar do livro. É para todos os gostos”, comemora o Diamante.
A escritora também relata a felicidade da nova obra. “Eu poderia simplificar dizendo que escrever a história do chef João Diamante é importante por ele ser um exemplo para outros jovens negros e negras. Porque, de fato, ele é. Mas há uma importância ainda maior nisso: registrar as nossas histórias. Guardar memórias para o futuro e alimentar de boas histórias o nosso imaginário coletivo. Quem seríamos se tivéssemos conhecido desde cedo a história de tantas personalidades negras contadas por nós, sob a nossa perspectiva?!”.
João Diamante também destaca a importância da editora Malê para a publicação do livro. “É uma editora preta, já conceituada no mercado, então estou super feliz e atrelado à escritora Simone Mota, a maneira que ela narra é muito leve e conectada. Só quem acompanha minuciosamente, para transmitir tanta sensibilidade. Eu li e me surpreendi, parei e refleti, quanta coisa aconteceu até aqui”, finaliza.
A dançarina Mileide Guedesdos Anjos Soares, que estava desaparecida desde a última quinta-feira, 31, reapareceu no último domingo, 3. A família da jovem emitiu um comunicado afirmando que Mileide está hospedada em um hotel acompanhada de um familiar.
A nota também afirma que seu quadro psicológico é delicado: “Apesar do quadro psicológico delicado estamos fazendo de tudo para trazê-la de volta à Brasília. Salientando que ela precisa de acompanhamento psiquiátrico pois está com certa agressividade e confusão mental. Caso algum profissional queira ajudar com o caso favor entrar em contato conosco. A produção da cantora IZA está acompanhando e se comprometeu em prestar toda assistência. Agradecemos o apoio de todos”.
Mileide saiu de Brasília na última quinta-feira, 31, e foi para o Rio de Janeiro e desde então não havia feito qualquer contato com a família ou amigos. A dançarina deveria participar dos ensaios com a equipe de balé da Iza para a apresentação do festival The Town, que acontecerá nesta semana na cidade de São Paulo, mas desapareceu.
Em nota emitida pela família na ocasião, foi informado que Mileide havia sido assaltada e espancada, levando um tiro na perna. A jovem foi atendida no Hospital Salgado Filho na madrugada do dia 2 de setembro, no sábado, e saiu do local às 5h30 da manhã sem ter recebido alta, a informação foi confirmada em nota pela assessoria do hospital.
A família também informou que a dançarina foi acolhida no Hostel Maresias do Leme e saiu no domingo, por volta de 12h30. Ela estava sem documentos e desnorteada. Outras informações também apontavam que mais tarde a jovem foi vista em um teatro em Copacabana. Havia a suspeita de que Mileide estava em surto psicótico.
A própria Iza chegou a publicar nas redes sociais uma mensagem falando sobre o desaparecimento de Mileide: “Coração apertado, mas fé que vamos encontrá-la”, postou.
“Eu quero você gatinha”. Neste domingo (03), Bruno Mars fechou o primeiro final de semana do The Town. A apresentação contou com diversos hits, dança e muito charme, além de fazer o público do festival (e de casa) cantar todas com ele. Mas além de um lindo show, também reacendeu outro debate: Bruno Mars é negro?
Durante a apresentação, um tweet fez o assunto voltar para a comunidade negra e levantar alguns questionamentos sobre. Como pode ele nao ser branco e também não ser negro?
O que acontece é que Bruno Mars é lido como asiático marrom. Ele nasceu no Havaí, é descendente de filipino por parte de mãe e porto-riquenho por parte de pai, uma mistura de asiático com latino.
Mas assim como no Brasil, o colorismo é um assunto que sempre levanta algumas questões pelo o mundo e não seria diferente na vida do dono de hits como ‘Talking To The Moon’ e ‘When I Was Your Man’. Levi Kaique analisou que mesmo não sendo negro, no Brasil ele acabaria sendo considerado pela pigmentocracia. “O mais importante sobre o fato do Bruno Mars não ser negro é que ELE MESMO sabe disso e nunca disse ser negro. Nós brasileiros que consideramos ele negro porque a nossa leitura racial é baseada na pigmentocracia”, comentou Levi no X.
O mais importante sobre o fato do Bruno Mars não ser negro é que ELE MESMO sabe disso e nunca disse ser negro. Ele já falou várias vezes sobre ser latino (descendente de pai porto-riquenho) e asiático (descendente de filipinos).
Nós brasileiros que consideramos ele negro porque…
Mesmo não se considerando negro, Mars já foi acusado algumas vezes de se apropriar da cultura negra, já que sua música e suas apresentação são quase todas voltadas para a cultura negra.
Em 2021, em uma entrevista para o The Breakfast Club, ele se defendeu sobre as acusações de apropriação cultural e falou sobre suas referências. “Você não consegue encontrar uma entrevista onde eu não tenha falado sobre os artistas que vieram antes de mim. A única razão pela qual estou aqui é por causa de James Brown, Prince, Michael”, rebateu o cantor.
Não há como negar que a música do Bruno não lembre a música negra, as referências da black music, seja o R&B, o Funk e o Soul, estão presentes em toda sua discografia e também nas suas apresentações, como foi possível ver no seu show no The Town. “Essa música vem do amor e se você não consegue ouvir isso, não sei o que te dizer”, comentou Mars.
Outro ponto que deve ser levado em conta é que tanto suas parcerias musicais como sua banda é composta por negras, o que acaba dando mais credibilidade nas suas músicas.
Mas o mais importante, a comunidade negra ama as músicas do Bruno Mars e se sente representada. Mesmo não sendo afro-americano, ele continua sendo considerado um grande artista com referências da música negra e até sendo chamado por alguns de “Nego Doce”.
se tivesse um prêmio de maior nego doce bruno mars levaria claramente
Estamos recebendo e lendo de maneira crítica informes públicos sobre ações de empresas que estão adotando programas de Diversidade e Inclusão que têm na falta de transparência sobre seus dados e indicadores um denominador comum.
Recebem prêmios, são citadas em entrevistas, apresentam informes animadores, que mais parecem ser uma peça promocional da empresa, que uma prestação de contas.
Há algumas questões que precisam ser perguntadas, a primeira se a empresa tem um ambiente democrático, pois sem respeito à democracia, fica difícil acreditar que promovam diversidade e inclusão. Estruturas hierarquizadas, com lideranças autoritárias, politicamente de extrema direita são incompatíveis com a existência de um clima democrático. Raramente esses programas de Diversidade e Inclusão relatam que puniram algum diretor sobre manifestações racistas, homofóbicas, machistas. É como se lançar algumas publicações sobre o tema fosse o suficiente.
Democracia é incompatível com discriminações de qualquer natureza.
Outro tema é a noção de que implementação de políticas de diversidade e inclusão possa ser vista como política assistencialista, caridade, benemérita ou de responsabilidade social e nunca como uma política de direitos. Isso torna tudo muito diferente. Os dados e indicadores divulgados são modestos e definidos aleatoriamente, dando a entender que qualquer mudança insignificativa diante do tamanho do grupo social contribuiria de alguma forma. Quando na maioria das vezes é como se estivéssemos correndo em uma esteira, não saímos do lugar.
Quanto custa financeiramente um programa de Diversidade e Inclusão? Não existe resposta, nem dados sobre esta questão. Há uma absoluta falta de transparência nos relatórios apresentados por fundações, empresas, bancos etc. Há uma dura e cínica perspectiva que nos é passada, em que todas as ações são simbólicas, e precisam ser festejadas por menor que sejam. Devemos simplesmente agradecer, sem nenhuma crítica.Não existe diálogo, nem tampouco solidariedade entre as pessoas que são sujeitas dos programas de Diversidade e Inclusão. Cada um disputa seu percentual nas empresas, cada um procura mostrar o tamanho das desigualdades que se referem a seu grupo, sua representatividade.
A luta pela sobrevivência de todos os trabalhadores nas instituições cria limites para uma atuação mais libertária, mas um ponto há que se destacar e nos preocupar: a saúde mental de uma pessoa que passa por discriminação racial. Os transtornos mentais relacionados ao trabalho são um componente ignorado por esses programas. No máximo há uma menção sobre a criação de um espaço de escuta, ou recomendação para ações individuais de prevenção a problemas de saúde mental. A organização do trabalho em uma instituição está diretamente relacionada ao adoecimento mental, mas é ignorada na hora de equacionar elaborar as estratégias de políticas de Diversidade e Inclusão.
Um programa bem-sucedido de diversidade exige o compromisso de todos os setores da empresa, a começar por sua alta direção, assumindo a diversidade como um valor essencial da empresa, expresse-a em sua declaração de missão e incorpore-a ao seu planejamento estratégico. Entretanto, os líderes das empresas raramente manifestam-se publicamente sobre a política de Diversidade e Inclusão.
O último ponto que sintetiza um pouco esse comentário nada otimista sobre as políticas de Diversidade e Inclusão tem haver com o fato de não haver nenhuma ou raríssimas menções nas estratégias de implementação que deveria fazer parte dos relatórios e textos de divulgação sobre o respeito aos Direitos Humanos nas empresas. Esse é um aspecto que sintetizaria a necessidade de reflexões mais ambiciosas e mais próximas da realidade dos grupos sub-representados nas empresas, e na definição de ações relacionadas a políticas de Diversidade e Inclusão.
O debate sobre o colorismo tem tomado conta das redes sociais, das mesas de bares, dos almoços de domingo em diferentes lugares e discutido por diferentes pessoas. Serei mais uma. Mas tentarei fazer um percurso diferente, ao expor meus argumentos. Para tanto faremos, juntos e juntas um caminho temporal (passado, presente e futuro) e entre dimensões (privado e público).
Para organizar, vamos primeiro ao passado. Parece óbvio, mas vale lembrar, que quando os portugueses chegaram ao Brasil e começaram a explorar a terra, esta “terra à vista” já estava ocupada pelos diversos povos indígenas. A invasão que levou ao massacre, mas também a resistência dos povos indígenas é constantemente revisitada, um exemplo é a tese jurídica do marco temporal. Já estamos transitando pelos diferentes tempos.
Entre o século XVI e o XIX o Brasil liderou o comércio de africanos escravizados. O país recebeu mais africanos do que qualquer outra região das Américas. Quando de fato, o comércio transatlântico de pessoas cativas se tornou ilegal, por aqui se intensificou uma espécie de tráfego entre Estados, conhecidos na época como províncias). O sangue e suor dos negros (africanos ou nascidos no Brasil) foram usados em Minas Gerais, entre finais do século XVII e meados do século XVIII na extração de ouro saíam dos portos de Recife e Salvador. Após um tempo, o Rio de Janeiro começou a liderar o envio de cativos para trabalharem forçosamente na mineração em Minas Gerais, Mato Grosso e parte de São Paulo. Se você quiser saber mais sobre as viagens transatlânticas de pessoas cativas acesse o site do projeto Slave Voyagesque lá você encontrará dados atualizados não apenas sobre o Brasil.
Em 1888, o Brasil finalmente assinou a Lei Áurea extinguindo a escravidão. Mas antes e depois dessa lei o governo incentivou a vinda de trabalhadores europeus para o Brasil para ocuparem, principalmente parte do Rio de Janeiro e São Paulo onde a produção cafeeira estava em alta e o café foi por muitos anos o principal produto de exportação. O café brilhou até parte do século XX. Dinheiro público foi direcionado não para promover saúde, educação, moradia e trabalho para a população recém liberta, mas sim, para possibilitar a vinda de mão de obra branca.
No século XIX, nasceu o racismo científico, e pelo mundo as teorias racistas. A partir do conceito de raça, pesquisadores classificaram a humanidade delimitando desigualdades entre os diferentes povos. Essas teorias afirmavam que a humanidade está dividida em raças e estas estão organizadas numa espécie de hierarquia biológica, onde o branco está na posição superior, dotado assim, de inteligência e beleza e os não brancos ocupam as posições inferiores. Passados anos e inúmeros debates científicos essas teorias foram retiradas, progressivamente, dos debates acadêmicos e foram por fim superadas. Atualmente, raça é um conceito sociológico que não serve para hierarquizar, mas diferenciar a partir de traços socioculturais.
A construção do Brasil e a ideia de identidade nacional aqui foi feita a partir da valorização da miscigenação. Na ilusão de que as três raças (européia, indigena e a africana) conviviam harmoniosamente. Outra falácia. Acreditamos, enquanto sociedade, na concepção da suposta democracia racial. A miscigenação produziu, no Brasil, um diferente gradiente de tons de pele que vai do mais claro ao mais escuro.
Também, aqui, a população negra é a junção de pardos e pretos. Sendo possível o negro de pele clara. Níveis diferentes de melanina na pele, texturas de cabelo, traços do rosto e do corpo são elementos que podem colocar o sujeito mais próximo do branco e consequentemente mais distante do preto.
O colorismo advoga que há um tipo de indivíduo que está mais próximo do ideal da brancura, contudo, esse sujeito não é exatamente branco, ele tem o que a gente chamaria de passabilidade. Porém, basta que esse sujeito utilize algum elemento ou símbolo da cultura negra, como um turbante, ou ser adepto das religiões de matrizes africanas que ele perde esse trânsito, conforme pontua Alessandra Devulsky no livro Colorismo. Como a autora destaca e eu concordo com ela, o colorismo é um subproduto do racismo. O povo negro é o racializado pelo outro, o branco que visto como sem raça, ele é o humano, a norma. Acredito que colorismo é uma daquelas ideias usadas para distrair no foco e constantemente é usada entre nós negros como se fosse criação nossa. Estamos olhando para dentro quando nosso olhar e denuncia poderia (ou melhor, deveria) ser exógeno.
Com isso, e aqui termino, afirmo que pessoas negras de pele clara e as pessoas negras de pele escura sofrem de maneiras diferentes as mazelas do racismo. Pessoas de pele escura, ou com mais traços fenotípicos do que se entende por laços com a africanidade estão mais expostas as diversas facetas do racismo, sofrendo mais com a violência do Estado ou desprezo afetivo. Somos negros e diversos entre nós. Sermos colocados numa unicidade é também racismo, fortalecer a nossa diferença faz parte da construção das identidades negras.
Por Shenia Karlsson, Psicóloga clínica, Co-Fundadora do Papo Preta.
Essas duas últimas semanas foram efervescentes no mundo da web, e o tema polêmico das relações amorosas sempre mobiliza muito, engaja muito. Os últimos escândalos envolvendo casais negros e racializados aos quais terceiros elementos, neste caso “mulheres brancas”, apareceram publicamente pleiteando supostos direitos, forçando um protagonismo característico da fragilidade branca. Definitivamente isso chamou a atenção do público.
De um lado, homens negros e racializados, artistas de gêneros musicais voltados principalmente para a cultura negra. De outro lado, mulheres negras e racializadas, lindíssimas, bem sucedidas em suas profissões e gozando de um reconhecimento público merecido. No meio, mulheres brancas precárias e de atitudes duvidosas, tentando manter uma superioridade ilusória construída pelo racismo e seus privilégios no mercado afetivo, principalmente quando alvo são homens negros, afinal, elas sabem que esse grupo as aceitam sem muitos critérios, ou às vezes nenhum. Outro assunto que fez muita gente se surpreender. Ser branca não é critério de escolha para nada, entretanto, em pleno 2023, existem aqueles que seguem firmes. Força camarada!
Este artigo não é sobre palmitagem, mesmo porque este termo apequena a discussão e a torna superficial. Meu intuito é trazer à luz certos aspectos aos quais não são levados em consideração, mas são extremamente importantes para abordar: o medo branco e a dominação pelo afeto. Esses fatos colocaram em ênfase algo historicamente problemático, a relação de rivalidade entre mulheres brancas e não brancas. O universo feminino é por si só um ambiente fértil para disputas, contudo, quando se trata da interação entre mulheres brancas e não brancas, o componente hierarquia nas mais variadas dimensões é ressaltado e as mulheres brancas fazem questão de impor a verticalidade dessa relação como fator predominante para que a experiência aconteça.
Foto: Freepik.
A história entre mulheres brancas e não brancas no Brasil é uma história controversa. No livro ‘Casa Grande e Senzala’ do autor Gilberto Freyre, ao narrar a vida na época da Colonização ele discorre como as mulheres brancas, negras e indígenas eram vistas. Pelo fato da colonização ter sido um advento primordialmente masculino e branco, as primeiras mulheres que esses homens se depararam foram as mulheres indígenas, um tipo totalmente diferente das quais eles estavam habituados, tendo sido elas um objeto de desejo e de tentação. Com o advento da escravização de africanos e a chegada das mulheres negras, outro tipo de corpo passou também a ser um objeto de desejo e de perturbação para os europeus, visto que socialmente essas mulheres não eram corpos moralmente aceitáveis para relações formais. Não preciso estender essa discussão sobre os estupros sistemáticos, certo?! Ok.
A chegada das mulheres brancas foi gradativa e com um intuito bem delimitado, garantir a linhagem branca, ou seja, poderes materiais e simbólicos na manutenção e construção de uma supremacia branca brasileira. Eram mulheres sem relevância, não desejadas, vistas como feias, sem encanto, utilizadas para gerar filhos brancos descendentes e proporcionar ao homem branco o status de homem de família, cristão e reto. Visto que o desejo carnal destes homens eram direcionados às indígenas e negras, as mulheres brancas construíram uma relação de ressentimento com mulheres não brancas. Por um lado, gozavam do privilégio de serem protegidas e escolhidas para a constituição da família, por outro eram esvaziadas de seu status feminino e reduzidas a meras indumentárias.
Após a abolição da escravatura, o discurso eugênico estava tão embrenhado na sociedade que a chegada de europeus muito pobres na substituição da mão de obra negra fez com que a superioridade branca fosse afirmada como norma. Outros desdobramentos foram acontecendo e homens negros que foram adquirindo posses passou a escolher mulheres brancas pobres para constituir matrimônio e família. Essas mulheres brancas fora dos padrões elitistas da branquitude foram gradualmente disputando o mercado afetivo com mulheres não brancas pelo privilégio que o racismo entregou a elas.
E qual foi o resultado desta equação? Segundo Rachel A. Feinstein, autora do livro ‘When Rape Was Legal’ ( Quando o estupro era legal – em tradução livre) é possível acessar relatos de violências perversas praticadas por mulheres brancas, como castigos físicos, humilhações, perseguições e negligência quando descobriam os estupros praticados por seus pais, maridos, filhos e familiares. Eram coniventes com todas as violências praticadas na época e muitas vezes participavam ativamente de tudo, e a moeda de troca era o privilégio de manter seu status de sinhá. Sendo assim, a mulher branca relacionou-se com mulheres não brancas somente através de relações assimétricas e de poder, em que suas projeções negativas pudessem encontrar nessas mulheres um depositário de suas frustrações.
Foto: Arquivo Digital da Biblioteca Nacional.
Hoje, as violências estão mais sofisticadas embora continuem a todo o vapor, seja no trabalho, nas relações familiares ou no tal mercado afetivo. As mulheres brancas tentaram a todo custo manter as mulheres não brancas como simples espectadores de suas vidas, fazendo-as de cuidadoras, empregadas, mucamas, confidentes e figurantes da vida idealizada da branquitude e nunca houveram esforços para a construção de relações equânimes, horizontais e de liberdade. Mulheres brancas costumam acusar mulheres não brancas de invejá-las e odiá-las, mas, quem mesmo iniciou tudo isso e continua jogando baixo?
No livro ‘Entre o Encardido, o Branco e o Branquíssimo’ da autora Lia Vainer Schucman, em umas de suas entrevistas com uma mulher branca jovem totalmente fora dos padrões da beleza – bleleza que eles mesmo estabeleceram, confessou que preferia investir em homens negros acima do padrão e admitiu obter vantagem diante de mulheres negras por ser branca. Inclusive a obra demonstra o quão conscientes os brancos estão sobre seus privilégios e que os usufruem sem nenhuma reflexão crítica. A postura de mulheres brancas no que tange todas as violências sociais praticadas no Brasil é absolutamente questionável na medida que elas sustentaram o colonialismo e a escravização com o intuito de obter benefícios próprios e hoje continuam a sustentar o racismo também em benefício próprio.
Hoje, diante das mudanças sociais, mulheres “não brancas” têm ganhado algum destaque e estão com muita dificuldade tentando disputar esse mercado afetivo ao qual tem os mesmos direitos, mas as mulheres brancas não enxergam desta forma. A historiadora Célia Maria Azevedo e autora do livro ‘Onda negra, medo branco: O negro no imaginário das elites’, destaca o medo branco como um componente importante para analisar como os brancos se mobilizam para tentar manter uma suposta ordem e garantir assim o controle em vários níveis. A pergunta “o que fazemos com os negros?” É tão atual quanto na época, na medida que ações vão se corporificando com um único intuito, o controle sobre nossos corpos. Quais corpos os brancos podem usar quando querem? Quais corpos eles detém o poder? Quais corpos podem ser desejados? Quais corpos podem ser amados?
A dominação pelo afeto é uma estratégia muito eficiente que a branquitude tem usado para a nossa submissão e afirmo que talvez seja o capital social mais importante e o que eles têm mais medo de perder. Imagina acordar um dia e descobrir que não é mais o modelo ideal de nada? Que é odiado e menosprezado? Essa é a angustia vivida hoje por mulheres brancas que acreditam que homens negros e racializados são de domínio próprio delas.
As demonstrações de rivalidade, ódio, destruição e desespero são comportamentos típicos da violência da branquitude, que atacam quando sentem-se coagidas ou ignoradas. O protagonismo seria a única forma de estar, e assim é necessário dizimar a mulher não branca simbolicamente humilhando-a publicamente, seja saindo do Hotel de um homem comprometido ou até chamar uma mulher negra de vagabunda num momento de extrema inveja e rejeição. Uma mensagem clara: Eu sou a escolhida, a única a ser amada! Se não pode ser meu, seu não será. A ideia de assistir mulheres não brancas vivendo plenamente suas vidas é insuportável para aquelas que acreditaram que esse direito é somente delas.
Neste artigo não vou aprofundar a questão da fidelidade, da lealdade e da incapacidade de homens não brancos de protegerem mulheres não brancas e sim, destacar uma guerra em curso que só mulheres não brancas não vêem, pois as mulheres brancas estão a todo vapor e dispostas a tudo o que vocês puderam ver por aí, e quem sabe pior. Então, preparem-se, irmãs! Protejam-se! Sejam felizes e amadas, e não esqueçam, o jogo não é limpo. E quanto às brancas, estamos de olho e agora, vamos reagir, já que não tens mais o chicote como defesa. Fica a dica.
Educador popular, comunicador e ex-Conselheiro Tutelar de Jacarepaguá, Jotta Marques, participou nesta semana do podcast ‘PCDPOD’, apresentado por Benedita Casé e Pedro Henrique França. Durante o episódio, Marques destacou a importância de se falar sobre as pessoas negras com deficiência no Brasil e no mundo. “É crucial reconhecer uma realidade dolorosa: As pessoas negras com deficiência são negligenciadas“, publicou o educador ao compartilhar um vídeo de sua participação no ‘PCDPOD’. “Elas são vítimas das estruturas capacitistas e racistas que permeiam nossa sociedade, economia, sistema educacional, política e, por óbvio, os nossos relacionamentos e famílias“.
Historicamente, a luta por direitos e reconhecimento das pessoas negras tem sido uma batalha contínua. No entanto, as vozes e as experiências das pessoas negras com deficiência frequentemente ficam à margem até mesmo dentro dos movimentos de direitos civis. Membro fundador do movimento ‘Vidas Negras Com Deficiência Importam (VNDI)’, Jotta Marques contou como surgiu o desejo de criar uma organização com o objetivo de buscar por uma sociedade antirracista e anticapacitista.
“O VNDI parte de uma discussão da Luciana Viegas, que é nossa diretora, fundadora, que é a pergunta clássica: ‘Onde estão as pessoas negras com deficiência?'”, explicou o educador. “Mais do que encontrar essas pessoas, como que a gente pensa as nossas vidas pra dizer pras essas pessoas que elas importam. Mas como que eu vou dizer que nós somos importantes se antes disso a gente precisa provar que a gente existe? Você está dentro dos espaços de educação, dentro dos espaços de trabalho, dentro dos espaços de família, mas você é invisibilizado de tal forma, que ao longo do tempo passa a ser desumanizado. Sendo desumanizado é a morte emvida, né? Você é desumanizado de tal forma que você não é visto, você não é lembrado, você não é reconhecido, você não tem nome.
A invisibilização também se manifesta em aspectos estruturais, como acesso limitado a serviços de saúde de qualidade, educação inclusiva e oportunidades de emprego. As barreiras físicas e sociais muitas vezes impedem que pessoas negras com deficiência participem plenamente da vida cotidiana. Como pontuado por Jotta Marques, o movimento VNDI surge para mostrar ao mundo a existência de corpos negros com deficiência. “O VNDI é mais do que qualquer coisa, mais do que um movimento social que promove datas, que constrói relatórios, que está na ONU, é mais do que isso, é para dizer pra todo mundo que a gente existe. E aí, o que que vocês fazem com isso agora? É uma provocação“, pontuou o educador.
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