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Stefan aposta na leveza e na alegria para falar de transmasculinidade negra: “o bem-viver é urgente”

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Stefan Costa sorrindo.
Foto: Reprodução/Instagram

Afeto, celebração e cultura são como ferramentas de sobrevivência. É com essa fórmula que o criador de conteúdo Stefan Costa subverte a lógica da mídia tradicional para construir uma comunidade digital baseada com acolhimento mútuo. “Eu queria levar essa leveza e tranquilidade, porque a gente já é muito marcado com trauma, violência e escassez. Isso fica evidente na mídia, sempre tratando pessoas trans com um ponto negativo”, destacou o influenciador em entrevista à editora-chefe do Mundo Negro, Silvia Nascimento, no Mês do Orgulho.

Stefan reflete sobre a urgência de pautar a transição sob a ótica do afeto e da saúde mental. Para ele, o autocuidado é político: “A transição mexe muito com a nossa cabeça, com o nosso corpo, principalmente para quem faz uso de hormônios. Eu costumo dizer que o meu corpo é o meu templo, a minha casa, o meu lar. E a minha casa precisa estar bem arrumada e bem cuidada para que eu consiga ser uma pessoa trans feliz e saudável”, pontua.

Mesmo sendo uma referência nas redes sociais, o creator traz à tona o recuo das marcas na pauta da diversidade e alerta outros transmasculinos negros que trabalham ou desejam trabalhar no ambiente digital. “Diversificar a renda é o que me permite continuar criando conteúdo de verdade, sem pirar a cabeça e sem deixar minha dignidade nas mãos de um mercado que funciona por conveniência.”

Foto: Reprodução/Instagram

Leia a entrevista completa abaixo:

1 – Você é um homem homem negro trans e a impressão que dá visitando seu perfil é que você tem uma grande leveza e alegria para lidar com os temas da sua rotina. Esse é um reflexo da sua personalidade ou é algo estratégico para lidar com pautas que nossa sociedade ainda vê de forma preconceituosa? O bem-viver é algo debatido na comunidade trans masculina?

A leveza dos meus conteúdos vem muito desde que eu comecei a criar. Eu queria levar literalmente essa leveza e tranquilidade, porque a gente já é muito marcado com trauma, violência e escassez, isso fica evidente na mídia, sempre tratando pessoas trans com um ponto negativo. Pensei: não é possível que a gente só tenha coisa negativa para apresentar. Comecei a criar conteúdos muito por essa necessidade, pela falta de ter pessoas trans negras, principalmente homens, e também para falar no sentido positivo: de que a gente tem afeto, celebração e outras expectativas para além da dor.

Sobre o bem-viver, é uma pergunta urgente e central. Muitas vezes o processo de transição empurra a gente para uma masculinidade um pouco mais rígida, performática e isolada. O bem-viver entra justamente para reivindicar esses direitos. Eu sou lido como homem, mas tenho direito à vulnerabilidade, à saúde mental, a uma construção de redes de afeto que me permitam existir, e não só sobreviver às barreiras sociais que são impostas às pessoas trans. Na comunidade transmasculina, o bem-viver vem no sentido de que queremos ser vistos e ouvidos como pessoas humanas, que precisam ter um descanso e que têm vulnerabilidades para além dos nossos corpos. Olham muito para o corpo da pessoa trans e não para o ser em si.

Foto: Reprodução/Instagram

2 – Você tem uma comunidade de homens trans muito engajada. Quem produz conteúdo ensina, mas também aprende. Consegue citar coisas que te marcaram nessa troca com sua audiência?

A minha comunidade tem muita proximidade e é muito engajada justamente porque eu mostro minhas fragilidades. Quando você mostra a sua fragilidade na internet, onde está todo mundo performando muito, fingindo estar bem o tempo todo. No caso de pessoas trans, parece que estão sempre tomando as melhores testosteronas e tendo as melhores barbas. Quando mostro que estou sofrendo com algo e pergunto se já aconteceu com eles, vem uma enxurrada de gente dizendo: ‘caraca, está acontecendo comigo também’ ou ‘eu resolvi assim’. Essa humanização dos nossos corpos traz a diferença. Eu me exponho pra eles e eles pra mim. É uma partilha e uma confiança louvável que depositam em mim, porque sou só um cara que liga o celular e fala sobre suas fragilidades e alegrias.

O que eu aprendi e vou levar para a vida toda é a existência de imaginar a masculinidade de forma plural. Aquela masculinidade rígida e performática se quebra com esse contato. Eu olho para vários meninos trans que me seguem e vejo que existem múltiplas maneiras de ser homem, não apenas uma. A transmasculinidade te leva a isso: não existe uma maneira certa, você pode ser homem do jeito que quiser. Eu sou esse homem formado pela internet, que descobriu coisas com os meus seguidores. Essa troca é super justa e válida também.

Foto: Reprodução/Instagram

3 – Em um dos seus reels você cita coisas nas rotinas que só homens trans conseguem reconhecer e o uso do banheiro é uma delas. Em espaços públicos essa questão gera muitos debates. Como lidar com isso sabendo dos seus direitos, mas também entendendo a sociedade que a gente vive?

Ir ao banheiro é das coisas mais básicas que existem, mas para nós, homens trans, se transforma em algo sufocante. A gente precisa de estratégia toda vez que sai de casa. Isso afeta o nosso corpo; há muitos relatos de homens trans que têm infecção urinária por segurar o xixi por medo e pânico do banheiro de rua. Esse medo adoece física e mentalmente. Recentemente, teve um “zumzumzum” na internet de uma mulher trans dizendo que homens trans não estão lutando para ir ao banheiro porque eles não precisam, porque pra eles é muito fácil, o que mostra a falta de conhecimento da nossa realidade. Não é fácil!

Os hormônios masculinos são caros, muitos não têm acesso ou não querem usar, e nem todo mundo chega na ‘passabilidade’ de ter uma barba, como eu tenho, ou um corpo lido como socialmente masculino. Para ir ao banheiro e se sentir minimamente seguro, infelizmente a ‘passabilidade’ acaba sendo necessária, mas ela não é garantia de segurança total 100%, inclusive mental. Você ainda fica refém da estrutura. Quando um lugar tem banheiro masculino, não significa que está apto para eu usar. A gente precisa analisar: tem mictório ou só cabine? Se tem cabine, tem tranca? Ela fecha direito ou tem aquela fresta de 5 cm onde quem está fora consegue ver? Isso pode ser perigoso ou não. A gente nunca sabe quem vai entrar; a pessoa pode não se importar, ou pode te agredir ali dentro. Isso acontece, já aconteceu. 

Tudo vira uma logística para sair de casa. Se vou a um lugar que não conheço, preciso me controlar. Pedir pra um amigo ir comigo fazer uma certa segurança. Várias vezes em shoppings eu me controlei para não ingerir líquidos porque não me sinto seguro para usar o banheiro lá. Já fui expulso de banheiro no início da minha transição por não aparentar ser masculino o suficiente, e também já fui expulso do feminino por não aparentar ser feminino o suficiente. Aí você se pergunta: que banheiro eu uso? E não estou falando que seria necessário um terceiro banheiro; para mim, um terceiro banheiro é sinônimo de exclusão, não de inclusão.

O que me impressiona é que entra ano e sai ano — já estamos em 2026 — e ainda estamos discutindo banheiro. É tão absurdo precisarmos que o STF garanta esse direito. É algo tão corriqueiro que nem deveria ser pauta, enquanto deveríamos estar dando atenção à saúde, ao acesso livre ao SUS e a garantir emprego formal ou informal para pessoas trans. O preconceito é tão enraizado que o Judiciário precisa intervir, e mesmo assim não garante total solução. Eu queria estar discutindo a saúde mental dos meus irmãos trans, e não se posso fazer xixi em uma cabine que só tem um vaso. A sociedade surtou com a discussão de banheiros unissex, sendo que todo mundo tem um banheiro unissex em casa. Banheiro tem muitas camadas que adoecem a gente.

Foto: Reprodução/Instagram

4 – Você também cita o SUS quando fala do seu processo transexualizador. Pode explicar para gente como funciona o tratamento por lá pensando em homens que queiram recorrer por não poderem arcar com um tratamento particular?

O processo transexualizador do SUS é uma conquista enorme e inegável, mas eu tenho críticas à eficiência do processo. Fazer a transição por clínicas particulares é extremamente caro. Uma consulta não sai por menos de R$ 400 ou R$ 500, fora o retorno, as receitas e os exames de sangue regulares para monitorar as taxas. A maioria esmagadora transmasculinas não consegue arcar com isso. Por outro lado, a minha crítica sobre a velocidade. É inadmissível que eu tenha ficado dois anos na fila de espera só para conseguir a primeira consulta.

Na prática, aqui no Rio de Janeiro, o caminho começa pela Clínica da Família ou pela Secretaria de Saúde do município. No meu caso, faço parte do Projeto Arco-Íris dentro da Clínica da Família, que dá um suporte básico de clínica geral. Quando decidi entrar no processo transexualizador, eles me inseriram no sistema de regulação (SISREG). Fui encaminhado para o IED (Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia), no centro do Rio, onde tem o AMIG (Ambulatório Multidisciplinar de Identidade de Gênero).

Lá, você passa primeiro pelo serviço social e tem acesso a uma equipe multidisciplinar completa: ginecologista, psiquiatra, psicólogo, assistente social, endocrinologista e fonoaudiólogo. Isso é perfeito e essencial. E eu faço muita questão de destacar, que o acompanhamento é fundamental inclusive para os homens trans que não querem tomar testosterona. Ser trans envolve muitas coisas; você ainda precisa ir ao ginecologista, cuidar da saúde mental e, quem sabe, fazer fonoaudiologia para a voz, mesmo não usando testosterona. 

Para os meninos que querem a terapia hormonal, precisamos tirar a ideia da cabeça de que é só ir lá e aplicar a testosterona e acabou. A transição precisa ser saudável. Eu costumo dizer que meu corpo é meu templo, minha casa, meu lar. E a minha casa precisa estar bem cuidada e arrumada para eu conseguir ser uma pessoa trans feliz e saudável. Se quero continuar aplicando testosterona daqui a 5 ou 10 anos, preciso de calma, carinho e responsabilidade hoje. Preciso fazer os exames regularmente, passar por todos esses profissionais, por mais que desconfortáveis sejam alguns. A fila do SUS é revoltante, mas é o caminho que garante que eu consiga me olhar no espelho, que minha casa está arrumada e faz eu me sentir bem. 

Foto: Reprodução/Instagram

5 –  Sobre rede de apoio, tão importantes para quem durante a transexualização lida com mudanças hormonais que impactam não só o corpo, mas também a mente. O que você diria para quem não tem o apoio familiar nesse momento?

A ruptura e a falta de aceitação da família de sangue dói demais e nos destrói mentalmente. Mas a mensagem principal que eu gostaria de deixar é que a falta desse apoio não define o seu futuro e nem quem você é. Se a sua família de origem não te dá acolhimento agora, você tem todo o direito do mundo de construir a sua própria família, que são seus amigos e outras redes de apoio que encontrar pelo caminho. É você quem escolhe.

A transição mexe muito com a cabeça e com o corpo, principalmente com os hormônios. Precisamos de pessoas ao lado que nos aconselhem, mas que também peguem no pé quando necessário. É fundamental ter uma rede de pessoas trans que saibam exatamente o que você está passando. Procure coletivos, grupos na internet, amigos de confiança. Crie o seu porto seguro fora de casa. O mundo é grandão e tem muita gente pronta para te acolher, te respeitar, pra te ver. Não deixe uma, duas ou três pessoas dizerem que você não pode ser visto. Você não está sozinho. Meu acesso à internet cresceu justamente por isso: por encontrar e criar uma rede de homens transmasculinos negros para mostrar que a gente tem um ao outro, passa por paradas semelhantes e a gente cria uma família sim. Por mais que pareça, a gente não está sozinho. 

Foto: Reprodução/Instagram

6 – Agora sobre o mercado de creator, assim como para comunidade negra, a comunidade LGBT+ sofreu com esses recuos de diversidade. Como se manter criativo apesar dessas dificuldades? Acha importante o creator ter outras fontes de renda?

A Creative Economy é um mercado cruel. Teve uma época em que todo mundo queria falar de diversidade, mas agora as empresas deram um passo atrás, isso contando que 60% das marcas recuaram nos patrocínios da Parada de SP. Mas na verdade, raramente pessoas trans negras fazem publicidade de forma consistente. Dá para contar nos dedos. E eu comparo sim pessoas trans negras com pessoas trans brancas, porque criadores trans brancos ainda têm muito mais acesso.

Eu sou a prova disso. Sempre fiz publicidade com marcas grandes: Disney, Vivo, Google e YouTube. Mas eu conto no dedo quantos meninos trans negros no Brasil têm essa oportunidade como a minha. Então, não dá para ter a internet como única fonte de renda. Este ano, por exemplo, eu ainda não fiz nenhuma publicidade relevante. Ninguém me procurou. Faz muito tempo que eu não faço uma campanha. Como eu me manteria? Por causa dessa volatilidade, entendi muito cedo que não dava para apostar todas as fichas no mesmo lugar. Sou um homem trans negro tentando pagar aluguel, cuidar dos meus cachorros e colocar comida na mesa. As contas não esperam o algoritmo melhorar ou as marcas lembrarem que existimos.

Por isso, fui para o trabalho formal, que hoje me sustenta e traz uma certa estabilidade. No cenário geral, a situação de pessoas trans no mercado de trabalho ainda é muito assustadora. Os dados mostram que apenas 25% conseguem emprego formal com carteira assinada no Brasil. É muito pouco. Ter outras fontes de renda não é uma escolha, é sobrevivência. Eu dou palestras, fico nos bastidores da comunicação, construindo a minha autonomia. O mercado de creator hoje em dia, também demora meses para pagar. Diversificar a renda é o que me permite continuar criando conteúdo de verdade, sem pirar a cabeça e sem deixar minha dignidade nas mãos de um mercado que funciona por conveniência.

Foto: Reprodução/Instagram

7 –  Como alguém que entende de cultura pop, recomenda para gente livros, filmes ou séries com representatividade transmasculina?

Eu sou uma pessoa muito ‘multi’, estou sempre lendo de tudo um pouco, então vou recomendar três livros:

  • Monstrans: Experimentando Horrormônios (Lino Arruda): É uma história em quadrinhos genial. O Lino usa o terror e o conceito de ‘monstros’ de um jeito muito subversivo para falar sobre transição e hormonoterapia. Tem uma cena marcante em que ele diz que a testosterona é o veneno e o antídoto. Isso me pegou forte, porque dialoga sobre o corpo ser a nossa casa: o hormônio nos transforma, assusta a sociedade que nos olha como monstros, mas é o que nos cura e nos faz bem.
  • O Mar Me Levou Até Você (Pedro Rhuas): Uma indicação bem mais leve e tranquila. É um livro fofinho que foge do caminho da tragédia que estamos acostumados a ver na mídia para pessoas trans. Conta a história de uma pessoa não-binária descobrindo o amor, construindo laços profundos e afeto. Mostra que a nossa vida não precisa ser só desgraça; existem caminhos bons. Te conquista nas primeiras páginas.
  • Transmasculinidades Negras: Narrativas Plurais (Org. Leonardo Peçanha): Uma leitura mais acadêmica e de vivência, organizada por um amigo meu. O livro traz exatamente o que o título diz: a pluralidade de homens trans negros no Brasil através de artigos e relatos que cruzam raça, gênero e classe social. É um livro maravilhoso para entender como essas identidades ocupam o mundo e que faz você ver que não está sozinho.”

Viola Davis assume produção executiva de filme brasileiro ‘Cinco Tipos de Medo’

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Viola Davis à direita, e à esquerda Bella Campos e Xamã em cena do filme Cinco Tipos de Medo.
Fotos: Amy Sussman / Getty Images e Divulgação

A produtora Ashé, fundada por Viola Davis, Julius Tennon e pelo brasileiro Maurício Mota, anunciou sua entrada como produtora executiva no thriller brasileiro ‘Cinco Tipos de Medo’, estrelada por Bella Campos e Xamã. O longa foi o grande vencedor do Festival de Gramado 2025, levando quatro prêmios Kikitos, incluindo o de Melhor Filme pelo Júri Oficial, além de concorrer ao Prêmio Grande Otelo nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem de Ficção.

A chegada da Ashé reforça a estratégia de internacionalização do filme, que é uma produção da Plano B Filmes e da Druzina Content, em coprodução com a Quanta e distribuição da Downtown Filmes. Segundo Maurício Mota, este movimento confirma a visão do Grupo Reclaim de investir no soft power brasileiro e na potência de narrativas que nascem fora do eixo dominante do audiovisual do país, impulsionadas por roteiros, direções e atuações fortes.

Com os olhos voltados para o mercado estrangeiro e para a corrida ao Oscar, a Malin Entertainment assumiu a representação internacional do longa, liderando as estratégias de vendas e posicionamento global em parceria com a Ashé, o que inclui a promoção de sessões exclusivas em Los Angeles. O diretor Bruno Bini e a produtora Luciana Druzina celebram a recepção calorosa do público em festivais de cidades como Paris, Barcelona, Chicago e Havana, destacando que histórias profundamente brasileiras, quando contadas com verdade, identidade e excelência, têm a capacidade universal de tocar espectadores de qualquer lugar do mundo.

Essa conexão humana e intensa se reflete na trama do thriller, onde as vidas de cinco pessoas aparentemente desconectadas colidem em um caminho sem volta na Baixada Cuiabana. Segundo a sinopse oficial, “Murilo, um jovem músico em luto, se envolve com Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo com um traficante. Suas histórias se cruzam com as de Luciana, policial movida por vingança, e Ivan, advogado com intenções ocultas. Cinco vidas aparentemente desconectadas colidem num caminho sem volta.”

Espetáculo “Ultimatum”: Valéria Monã e Orlando Caldeira atores sublimes que transformam presença em linguagem

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Os atores Valéria Monã e Orlando Caldeira em cena expressiva na peça Ultimatum.
Fotos: Flora Negri

Por: Rodrigo França

Se você gosta de teatro, de interpretação e do tipo de atuação que continua ecoando depois que a luz acende, existe um motivo para assistir “Ultimatum”: Valéria Monã e Orlando Caldeira.

Há espetáculos que se sustentam pela encenação. Outros pela dramaturgia. Em “Ultimatum”, o encontro desses dois atores cria um terceiro elemento: presença. Daquelas que reorganizam a atenção do público.

Montado a partir do último texto inédito de Domingos Oliveira e dirigido por Marcio Meirelles, o espetáculo trabalha num território exigente, onde ensaio, ficção, memória e realidade se cruzam continuamente. Não é uma peça que entrega respostas ou conduz o espectador pela mão. Exige escuta, disponibilidade e precisão dos intérpretes. E é justamente nesse terreno que Valéria Monã e Orlando Caldeira revelam a dimensão dos seus trabalhos.

Valéria Monã aparece como uma atriz que domina algo raro: maturidade de linguagem. Sua interpretação não busca impacto imediato nem excesso emocional. O que impressiona é o controle. A forma como administra ritmo, silêncio, escuta e deslocamentos internos da cena. Existe uma segurança construída por trajetória, mas sem acomodação. Ela não atua para confirmar experiência, atua para continuar investigando. E isso produz um efeito potente: o público não assiste apenas a uma personagem, acompanha uma atriz pensando e construindo em tempo real.

Em cena, Valéria lembra algo que o teatro brasileiro nem sempre reconheceu como deveria: atrizes negras não são apenas presença simbólica ou força narrativa. São também elaboração técnica, sofisticação interpretativa e pensamento cênico.

Orlando Caldeira entra por outro caminho e talvez aí esteja uma das grandes forças do espetáculo. Há nele uma qualidade muito difícil de encontrar: intensidade sem ansiedade. Orlando não disputa atenção nem força protagonismo. Trabalha a cena com inteligência, escuta e disponibilidade. Existe rigor no modo como ocupa o espaço e constrói relação com os parceiros. Sua atuação tem densidade sem rigidez e presença sem excesso.

Interpretando Breno e Manuel, Orlando demonstra domínio de mudança de registro, composição e condução dramática. Não existe caricatura nem marcação evidente. Existe um ator que entende que atuar não é exibir recurso, mas produzir sentido.

Ao lado de Valéria, o que surge não é um contraste geracional. É continuidade. Uma atriz que representa permanência, pesquisa e repertório encontra um ator que aponta caminhos de renovação sem romper com a tradição do ofício.

Também há mérito importante na direção de Marcio Meirelles, que evita transformar o último texto de Domingos Oliveira em homenagem estática. A montagem mantém a inquietação, a fragmentação e o caráter vivo que atravessam a escrita do autor.

Esta observação não ignora a qualidade do elenco de “Ultimatum”, que sustenta uma montagem complexa e exigente com alto nível de entrega. Mas, considerando o recorte editorial do Mundo Negro e seu compromisso histórico com a crítica e a visibilidade da produção artística negra, o foco em Valéria Monã e Orlando Caldeira é uma escolha consciente. Não para isolá-los do conjunto, e sim para reconhecer, com a atenção crítica que merecem, dois intérpretes que transformam presença em linguagem e reafirmam o lugar central de artistas negros na elaboração estética do teatro brasileiro contemporâneo.

A peça estará disponível até o dia 21 de junho, no teatro Sesc Arena de Copacabana. Sábado e domingo, às 18h.

‘Somos Sol Vivo’: Aza Njeri lança livro com proposta de nova ética baseada em filosofias africanas

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Aza Njeri e a capa do seu livro Somos Sol Vivo.
Créditos: Reprodução/Instagram e Divugação

Em um movimento de retorno às origens para curar o presente, incorporando o princípio ancestral de Sankofa, a intelectual Aza Njeri lança a obra Somos Sol Vivo: ensaios radicais sobre experiências da Vida. No livro, a pesquisadora desenvolve o conceito de “Solaridade”, uma provocação para que a sociedade brasileira abandone as bases coloniais e reconstrua seu imaginário a partir da valorização comunitária.

Com uma narrativa fluida e emocionante, a doutora em Literaturas Africanas tece reflexões que entrelaçam sua própria história pessoal e familiar com análises críticas sobre o sistema sociopolítico global, a educação e as artes. O coração da obra bate no conceito de “Sol Vivo”, cunhado pela autora como um princípio essencial de vitalidade e responsabilidade coletiva. Em contraposição ao individualismo adoecedor do Ocidente, a Solaridade orienta os valores de convivência para uma perspectiva comunitária de existência, onde o brilho de cada indivíduo é nutrido pela coletividade.

Em suas redes sociais, a escritora celebrou a chegada da obra, que condensa uma longa trajetória de dedicação acadêmica e espiritual. “Esse livro é a reunião dos meus últimos sete anos de pesquisa, um trabalho aprofundado que perpassa as filosofias africanas, filosofias afrodiaspóricas, principalmente as de terreiro. Passa por um trabalho pelas artes, pensando música, literatura e cinema, e, principalmente, faz uma crítica ao mundo contemporâneo”, destaca a autora. “Essa obra é muito especial porque eu me dediquei durante muito tempo para pensá-la e estou muito feliz em saber que agora ela ganha o mundo para também acender outros sóis.”

Ao longo dos ensaios, Somos Sol Vivo se revela um verdadeiro tour de force. A autora utiliza a educação e a pesquisa como ferramentas inegociáveis de reparação histórica de populações marginalizadas. O livro apresenta ao leitor uma “gramática de resistência”, fortalecendo os debates contemporâneos sobre o letramento racial.

Para estruturar essa jornada, cada capítulo é conectado a um Adinkra—conjunto de símbolos visuais do povo Ashanti (Gana) que sintetiza provérbios, valores e conceitos filosóficos fundamentais. A obra ainda estabelece conexões profundas com as filosofias Bacongo e Ubuntu (“Eu sou porque nós somos”), mostrando como o apagamento da presença negra na constituição simbólica do país empobrece nossa compreensão de mundo.

A obra já está disponível para venda no site oficial da editora HarperCollins Brasil. Aza Njeri reforça o convite para que o público se reconecte com essas reflexões urgentes. “Venha conhecer esse meu novo trabalho, feito para acender o seu sol com muito respeito, e lembrar a todos, todas e todes que a nossa humanidade, ela é inegociável”, convida a escritora.

Aza Njeri é professora e pesquisadora de literaturas, culturas, artes e filosofias africanas e afro-diaspóricas. Integra o corpo docente da PUC-Rio, além de atuar como roteirista, crítica teatral e literária, e criadora de conteúdo no YouTube.

Brasil encara hoje a primeira república negra independente do mundo

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Foto: reprodução/ Patrick Noze

O Haiti chega à Copa do Mundo 2026 com uma história que poucos conhecem; entenda quem é o adversário do Brasil hoje em Filadélfia.

O Haiti entra em campo nesta sexta-feira (19), às 21h30, horário de Brasília, para enfrentar o Brasil pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo 2026, no Lincoln Financial Field, em Filadélfia. A partida marca apenas a segunda participação haitiana em um Mundial, 52 anos depois da primeira. A memória dessa história foi resgatada nesta sexta-feira pelo comentarista e apresentador Marcos Luca Valentim, dos canais Globo e do perfil @ubuntuesporteclube, em vídeo publicado em suas redes sociais no dia do jogo, lembrando que a trajetória do Haiti é uma das mais singulares do continente americano.

No século XVIII, a ilha de Saint-Domingue, atual Haiti, era a engrenagem mais lucrativa do sistema colonial europeu. Sob domínio francês, a ilha produzia sozinha mais da metade do açúcar e do café consumidos no mundo ocidental, tornando-se a possessão colonial mais rentável do planeta. Essa riqueza era extraída de uma estrutura demograficamente insustentável: em 1789, a população era composta por aproximadamente 500 mil pessoas escravizadas, 40 mil mulatos livres e apenas 30 mil brancos. A violência necessária para manter esse sistema era proporcional à desproporção que o sustentava.

Em agosto de 1791, numa cerimônia religiosa conhecida como Bois-Caïman, lideranças escravizadas do norte da ilha organizaram o início de uma revolta que se espalharia por todo o território. O que começou como levantes fragmentados ganhou coesão com a ascensão de Toussaint Louverture, um ex-escravizado que havia obtido a liberdade em 1776 e desenvolvido por conta própria um domínio notável de estratégia militar e política. Toussaint organizou a população rebelde num exército disciplinado, capaz de enfrentar tropas coloniais profissionais, e conduziu o movimento com uma habilidade que desconcertou as potências europeias que tentaram, sucessivamente, suprimir a revolução.

Foto: reprodução / wikipedia

Toussaint navegou pelas contradições geopolíticas da época com precisão calculada, aliando-se inicialmente aos espanhóis da parte oriental da ilha para fortalecer suas forças, e mudando de lado quando a França revolucionária promulgou a abolição da escravidão em 1794, tornando-se rapidamente a principal liderança militar do território. Em 1801, com o controle consolidado sobre toda a ilha, redigiu uma constituição que aboliu formalmente a escravidão e estabeleceu a autonomia do território, enviando uma cópia diretamente a Napoleão Bonaparte, que havia assumido o poder na França com planos de reestabelecer o controle colonial.

A resposta de Napoleão foi uma expedição de mais de 20 mil soldados veteranos das campanhas europeias. Toussaint foi capturado por meio de uma armadilha diplomática em 1802, deportado para a França e morreu preso no forte de Joux em abril de 1803, sem ver o desfecho do processo que havia estruturado. Antes de morrer, teria alertado que a França havia cortado apenas o tronco da árvore da liberdade, e que ela voltaria a crescer porque suas raízes eram profundas. Jean-Jacques Dessalines assumiu o comando, derrotou os franceses na Batalha de Vertières em novembro de 1803 e proclamou a independência em 1º de janeiro de 1804. O novo país recebeu o nome de Haiti, palavra de origem taína que significa “terra das montanhas”, em homenagem aos povos originários que habitavam a ilha antes da colonização. A derrota francesa na ilha também contribuiu para a decisão de Napoleão de vender o território da Louisiana aos Estados Unidos em 1803, alterando de forma permanente a configuração política da América do Norte.

O Haiti se tornou a primeira república negra e independente do mundo, o primeiro país do hemisfério ocidental a abolir definitivamente a escravidão e a única nação cuja independência resultou de uma revolta vitoriosa de pessoas escravizadas. O impacto desse evento atravessou fronteiras e décadas. No Brasil, onde cerca de 40% de todos os africanos escravizados trazidos às Américas haviam desembarcado, o temor de uma revolta similar marcou o debate político por gerações e esteve presente no contexto da Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835.

Foto: reprodução / wikipedia

A seleção haitiana chegou pela primeira vez a uma Copa do Mundo em 1974, na Alemanha Ocidental, após vencer as eliminatórias da CONCACAF disputadas em Porto Príncipe. No Grupo D, os Granadeiros enfrentaram Itália, Polônia e Argentina. No dia 15 de junho de 1974, no Olympiastadion de Munique, o atacante Emmanuel Sanon marcou contra a Itália de Dino Zoff, que não sofria um gol havia mais de 1.100 minutos. Por seis minutos, o Haiti liderou sobre os italianos. A Itália reagiu e venceu por 3 a 1, mas o gol de Sanon atravessou décadas. Ele marcaria novamente contra a Argentina na última rodada, tornando-se até hoje o único jogador haitiano a marcar em Copas do Mundo. O Haiti perdeu os três jogos e foi eliminado na fase de grupos, mas deixou uma marca que meio século não apagou.

A volta ao Mundial em 2026 chegou de forma surpreendente. O Haiti terminou na liderança de um grupo considerado difícil nas eliminatórias da CONCACAF, superando seleções mais tradicionais da região como Costa Rica e Honduras, e garantiu vaga direta para o torneio. A campanha foi disputada integralmente em campos neutros porque a grave crise de segurança provocada por gangues que controlam partes significativas do território haitiano impediu a realização de jogos no país. Cerca de 80% da população vive na pobreza, e grupos armados detêm controle territorial suficiente para paralisar estradas e impedir o funcionamento de instituições. Classificar-se para um Mundial nessas condições é um resultado que extrapola qualquer tabela de pontos.

Brasil e Haiti acumulam três confrontos anteriores: o amistoso de abril de 1974 em Brasília, vencido pelo Brasil por 4 a 0 numa preparação para a Copa daquele ano; o amistoso de agosto de 2004 em Porto Príncipe, disputado durante um conflito armado que havia derrubado o governo haitiano e que ficou conhecido como o Jogo da Paz, com vitória brasileira por 6 a 0; e o jogo da Copa América Centenário de 2016, nos Estados Unidos, com goleada de 7 a 1. O confronto desta sexta-feira em Filadélfia é o quarto da história e o primeiro em uma Copa do Mundo. Para o Haiti, é a segunda vez em 52 anos que chega a esse palco, representando uma nação que construiu sua identidade na resistência e que hoje escreve mais um capítulo dessa história.

Fontes: InfoMoney, Agência Brasil, FIFA, Trivela, Flashscore, Haitian Times, Wikipedia

Alice Carvalho viverá Marta em cinebiografia com estreia anunciada

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MARTA - Produção: Conspiração / Creditos: Laura Campanella

Produção da Conspiração com Globo Filmes percorre locações no Rio de Janeiro e em Alagoas; estreia está marcada para 8 de abril de 2027

A cinebiografia da jogadora Marta Vieira da Silva iniciou as filmagens no Brasil em junho, após concluir a primeira etapa na Suécia, e chega aos cinemas em 8 de abril de 2027. O filme, intitulado “Marta”, é estrelado por Alice Carvalho e dirigido por Andrucha Waddington, com roteiro de Elena Soárez e Thais Tavares. A produção é uma realização da Conspiração em coprodução com Globo Filmes, TV Globo e a produtora sueca Fox In The Snow, que também assina a distribuição no Brasil.

As gravações em território nacional percorrem locações com significado direto para a trajetória da atleta. No Rio de Janeiro, a equipe utilizou a Granja Comary, centro de treinamento da Seleção Brasileira em Teresópolis, além do Estádio de São Januário e do Estádio Nilton Santos, conhecido como Engenhão. A produção segue em ritmo intenso ao longo de julho e ainda passará por Alagoas, estado onde Marta nasceu, em Dois Riachos, em 1986.

Ao lado de Alice Carvalho no papel principal, o elenco reúne Karina dos Santos como Rosana, Vitoria Ribeiro como Formiga, Camila Cocão como Simone Jatobá, Raissa Borges como Katia Cilene, Sophia Dinis como Ester e Betina Bion como Andrea Suntaque. A escolha de reencenar figuras reais do futebol feminino brasileiro indica que o roteiro não se limita à trajetória individual de Marta, mas recupera o contexto coletivo em que sua carreira se desenvolveu.

A passagem pela Suécia na primeira etapa das filmagens não é casual. Marta construiu parte central de sua carreira europeia no país, onde defendeu o Umeå IK entre 2004 e 2008 e conquistou dois títulos da Liga dos Campeões da UEFA feminina. Foi nesse período que se consolidou como melhor jogadora do mundo pela FIFA, prêmio que recebeu seis vezes entre 2006 e 2018, recorde absoluto na categoria.

A Conspiração chega ao projeto com uma trajetória consolidada no audiovisual brasileiro e internacional. A produtora acumula dez indicações ao Emmy Internacional, entre elas a vitória na categoria Melhor Comédia com “A Mulher Invisível”. No cinema, integrou a coprodução de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 e maior bilheteria brasileira do período pós-pandemia. A Globo Filmes, coprodutora do projeto, opera desde 1998 e reúne mais de 560 títulos lançados, com filmes como “Cidade de Deus”, indicado ao Oscar em quatro categorias, e “Bacurau”, premiado em Cannes.

“Marta” estreia nos cinemas brasileiros em 8 de abril de 2027.

CUFA e iFood ampliam parceria para impulsionar o empreendedorismo e as oportunidades nas favelas

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Equipe da Cufa e iFood reunida.
Foto: Divulgação

Juntos desde 2020, a CUFA (Central Única das Favelas) e o iFood anunciaram a consolidação e a ampliação de sua parceria institucional, para fortalecer o ecossistema periférico, unindo a tecnologia social e a tecnologia digital de cada organização. O foco principal da nova fase é a aceleração do empreendedorismo e a geração de oportunidades reais para a população periférica em todo o Brasil.

A aliança, que vai muito além das ações em momentos de crise humanitárias, já colocou de pé iniciativas de peso como o iFood Acredita e o iFood ChegaJunto, que apoiam projetos sociais e o desenvolvimento local. Agora, o objetivo é estruturar soluções duradouras baseadas na emancipação econômica e na inclusão digital.

Para os próximos anos, as frentes de atuação incluem programas de formação, aceleração de negócios, apoio à formalização e ampliação do acesso de empreendedores locais a ferramentas tecnológicas e novos mercados. A estimativa é de que mais de 3 mil pessoas sejam diretamente impactadas somente em 2026 em diversas regiões do país.

“A favela nunca foi um lugar de escassez de ideias, mas sim de oportunidades de escala. Quando a CUFA se une ao iFood, não estamos falando de ajuda, estamos falando de conexão de potências. O iFood entende essa grandeza e nos acompanha na construção de soluções que geram autonomia real, emancipação econômica e dignidade. É uma parceria de quem acredita na capacidade produtiva da favela e seus territórios”, afirma Kalyne Lima, Presidente Nacional da CUFA.

A parceria também visa desenhar novos projetos que usem a inovação como chave para o desenvolvimento sustentável das periferias. Luana Ozemela, CSO e Vice-Presidente de impacto e sustentabilidade do iFood, destaca a importância de construir soluções ao lado de quem vive e entende a realidade desses territórios.

“Acreditamos que a transformação social acontece quando conectamos tecnologia, conhecimento e oportunidades. A parceria com a CUFA é um exemplo concreto disso. Ao unir a inteligência territorial e a capacidade de mobilização da CUFA com a tecnologia e a escala do iFood, conseguimos ampliar o alcance de iniciativas que fortalecem o empreendedorismo, geram renda e impulsionam o desenvolvimento das favelas. Mais do que apoiar projetos, queremos construir soluções duradouras ao lado de quem conhece profundamente esses territórios e sua potência. Essa parceria reforça nossa convicção de que inovação e inclusão precisam caminhar juntas para promover impacto real e sustentável”, diz Luana.

Além dos programas de aceleração, o iFood consolidará seu apoio à cultura e à articulação comunitária ao patrocinar a agenda completa de eventos nacionais da CUFA, celebrando a identidade e a força produtiva das favelas brasileiras.

Bianca Oliveira critica fala racista de participante no MasterChef Brasil: “Desumaniza mulheres negras”

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Chef Bianca Oliveira com olhar sério e Reinaldo Bockor no MasterChef Brasil.
Fotos: Rafael Borgatto e Renato Pizzutto/Band/Divulgação

O participante da 13ª edição do MasterChef Brasil causou indignação após proferir uma fala racista que foi exibida na TV Band na última terça-feira (16). Durante a avaliação dos jurados, o biomédico Reinaldo Bockor tentou explicar o conceito de sua receita utilizando uma analogia desrespeitosa: “Ele [o prato] tem que ter um pouco de manteiga no caldo, trouxe uns legumes, rasguei com a mão, imaginei aquela ‘mama criola’ rasgando com a mão assim, cozinhando para um francês que casou e tal”, declarou o catarinense.

A chef e fundadora da Casa do Dendê Aracaju, Bianca Oliveira, criticou a fala do cozinheiro amador. “A declaração do participante reforça estereótipos raciais que, há muito tempo, são usados para diminuir e desumanizar mulheres negras na gastronomia e fora dela”, destacou em entrevista ao Mundo Negro e ao Guia Black Chefs.

“Ao afirmar que cortou as folhas ‘igual às crioulas que casam com franceses’, ele não faz apenas uma comparação. A fala reproduz uma visão ligada a heranças coloniais, associando mulheres negras à subordinação e sugerindo, ainda que de forma indireta, que seu reconhecimento ou ascensão social dependeria da relação com homens brancos”, completa a chef, que também é pesquisadora da cultura alimentar afro-brasileira.

Bianca também critica a naturalidade com que a produção do programa exibiu a fala racista. “Causa preocupação que uma declaração como essa seja exibida sem uma reflexão mais ampla sobre seu significado. Mulheres negras não precisam ser associadas a ninguém para que sua competência, talento e trajetória sejam reconhecidos. Somos protagonistas de nossas próprias histórias”, pontua.

A chef destaca, ainda, que as mulheres negras carregam conhecimentos que construíram e sustentam até hoje uma parte importante da culinária no Brasil e no mundo. “Não podemos aceitar que nossas trajetórias sejam reduzidas a piadas, estereótipos ou comentários preconceituosos apresentados como humor. O que pedimos é algo simples: respeito às mulheres negras. Respeito às nossas ancestrais. Respeito às cozinheiras que ajudaram a construir e continuam construindo a história da alimentação”, conclui.

Com a repercussão negativa nas redes sociais, o catarinense se pronunciou nesta quarta-feira (17) para se defender. “Eu estava me referindo à comida de origem Cajun, que é uma comida que nasceu no Sul dos Estados Unidos, que é uma comida de origem crioula. Assim como a gente tem aqui no Brasil a comida nordestina, a comida paraense, a comida sulista, é uma comida de regiões, né? Eu estava contando naquele momento a história da comida como ela começou”.

O participante concluiu com um pedido de desculpas: “Se a fala ofendeu alguém, eu quero pedir humildemente perdão porque realmente não foi a minha intenção. Não entrei na cozinha do MasterChef para ofender ninguém, não entrei na cozinha do MasterChef para prejudicar ninguém, eu entrei porque eu gosto de cozinhar”.

Até o momento, a assessoria do programa e a emissora não se pronunciaram sobre o episódio.

Endrick: trajetória do jogador de 19 anos até a Copa do Mundo

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Endrick comemora em campo pela Seleção Brasileira antes da Copa
Foto: Joilson Marconne/CBF

Do Distrito Federal ao futebol mundial, a história do atacante da Seleção Brasileira é marcada por disciplina, apoio familiar e a coragem de seguir acreditando nos próprios sonhos

Aos 19 anos, Endrick já alcançou feitos que muitos atletas levam uma carreira inteira para conquistar. Titular da Seleção Brasileira, jogador do Real Madrid e convocado para sua primeira Copa do Mundo, o atacante representa uma geração de jovens negros que segue transformando talento, planejamento, disciplina e apoio coletivo em caminhos possíveis para realizar sonhos.

Sua história, compartilhada por familiares, treinadores e pessoas que acompanharam sua formação, mostra que o sucesso não nasceu da sorte. Foi construído diariamente por uma família que acreditou no potencial do filho, mesmo diante das dificuldades financeiras e dos obstáculos que surgiram pelo caminho.

Os primeiros passos: um menino de quatro anos que já chamava atenção

Nascido em Taguatinga, no Distrito Federal, e criado em Valparaíso de Goiás, Endrick começou a jogar futebol ainda criança.

O atleta entrou pela primeira vez em campo aos quatro anos, em uma escolinha de futebol local. Mesmo competindo com crianças mais velhas, a dedicação chamou a atenção de treinadores e observadores muito cedo, devido à sua personalidade, coragem e competitividade incomuns para a idade.

O sonho que exigia sacrifícios

Enquanto o talento de Endrick crescia, a realidade da família exigia esforço constante.

O pai, Douglas, conciliava trabalho e viagens para acompanhar o desenvolvimento do filho. Já a mãe, Cíntia Ramos, assumia grande parte da rotina de deslocamentos para treinos e competições.

Em entrevista à ESPN Brasil, ela relembrou os desafios enfrentados naquele período e destacou a importância da rede de apoio formada por familiares e amigos. Sem recursos abundantes, a família precisou criar alternativas para manter vivo o sonho do jovem atleta. Entre elas, a venda de cafés da manhã próximos à estação Barra Funda, em São Paulo, enquanto buscavam estabilidade na nova cidade.

A mudança para São Paulo e a oportunidade que mudou tudo

Monitorado por grandes clubes desde os oito anos, Endrick passou por avaliações difíceis ainda muito jovem.

A virada aconteceu quando o Palmeiras ofereceu as condições necessárias para que a família pudesse se estabelecer em São Paulo. A mudança representou um novo capítulo na trajetória do garoto que já era visto como uma promessa do futebol brasileiro.

Nas categorias de base, os resultados vieram rapidamente. Gols, títulos e atuações decisivas transformaram Endrick em um dos principais nomes da formação alviverde e em uma referência para jovens atletas.

Da base ao profissional

Em 2022, aos 16 anos, Endrick estreou pelo time principal do Palmeiras.

A ascensão foi meteórica, mas sustentada por anos de preparação. Em pouco tempo, conquistou títulos importantes, ganhou projeção internacional e confirmou as expectativas criadas desde a infância.

Seu desempenho chamou a atenção do Real Madrid, que fechou uma das maiores negociações envolvendo um jovem jogador brasileiro.

O sonho europeu

Chegar ao Real Madrid representou a realização de um objetivo construído desde a infância. Porém, essa experiência também trouxe novos desafios.

A concorrência, a adaptação ao futebol europeu e uma lesão importante exigiram maturidade de um atleta que ainda estava iniciando sua trajetória profissional. Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de atuar pelo clube francês Lyon, experiência que permitiu ao atacante ganhar sequência, confiança e protagonismo em território europeu.

O retorno ao protagonismo e a convocação para a Copa

Na França, Endrick voltou a mostrar o talento e a dedicação que o levaram ao topo. As boas atuações recolocaram seu nome entre os destaques brasileiros no exterior e abriram caminho para a tão aguardada convocação para a Copa do Mundo de 2026.

A vaga de titular da Seleção Brasileira tornou-se símbolo de anos de dedicação compartilhados entre o atleta, sua família e todos aqueles que acreditaram em seu potencial desde o início.

O exemplo de uma juventude negra que não abre mão de sonhar

A história de Endrick dialoga com a realidade de milhares de jovens negros brasileiros que diariamente trabalham em favor dos seus sonhos, desenvolvem talentos, enfrentam desafios, mas constroem trajetórias de excelência em diferentes áreas.

Ao olhar para trás, é possível enxergar uma história repleta de suor e disciplina, resultante da convicção de que o futuro poderia ser transformado com propósito e preparação.

Como afirmou sua mãe, Cíntia Ramos, em entrevista à ESPN Brasil:

“É muito gratificante. Na vida, o negócio é não desistir. Perseveramos juntos, muitos sorrisos, choros, vitórias, alguns obstáculos, mas continuamos de pé e vencendo a cada dia. Essa caminhada não terminou, mas é um momento épico na vida dele e de quem torce por nós.”

‘Chico Bento 2’: Isaac Amendoim anuncia sequência do filme sucesso de bilheteria

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Isaac Amendoim sorrindo vestido como Chico Bento no filme.
Foto: Fabio Braga

Após se consagrar como a segunda maior bilheteria nacional de 2025 e conquistar o coração de mais de 1 milhão de espectadores nos cinemas, o ator Isaac Amendoim anunciou hoje (18) a sequência do filme ‘Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa’. As filmagens de ‘Chico Bento 2’ acontecerão em 2026, reunindo novamente o elenco e a equipe responsáveis pelo primeiro longa.

O filme infantil coleciona reconhecimentos importantes, incluindo o Grande Otelo de Melhor Filme Infantil 2025 e o Prêmio ABRA de Melhor Roteiro Infantil 2026. Sob a direção de Fernando Fraiha, a produção dominou as salas comerciais por onze semanas e desenhou uma trajetória de forte impacto social ao promover mais de quarenta sessões gratuitas em diversas regiões do país, democratizando o acesso à cultura e formando novos públicos para o cinema nacional.

“Tô feliz dimais em estar de vorta pra telona do cinema! A gente já tá nos ensaios com nosso diretor Fernando e a diversão só aumenta. Eu tava com muita sardade da Vila Abobrinha e da minha turma. Tenho certeza de que essa história vai ser boa dimais da conta e arrancar mais risadas de todo mundo”, afirma Isaac, caracterizado como Chico Bento no vídeo.

Desta vez, a trama levará Chico Bento e seus amigos a embarcar em uma aventura emocionante, movida por um desejo muito especial ligado à Vó Dita. Mais detalhes sobre o elenco, bastidores e data de estreia serão revelados em breve.

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