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Saiba o que pedir a Xangô, o Rei de Oyó não poupa nem os seus

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Foto: gerada por IA

No dia de Xangô, conheça o Rei de Oyó: sua história, seus itans, o machado de duas lâminas e o que a tradição do candomblé ensina sobre ele.

Quando o atabaque acelera e a dança esquenta no barracão, ninguém que conhece o candomblé confunde o toque de Xangô com o de nenhum outro orixá. O ritmo é acelerado, marcado, quente como brasa. Os pés batem forte no chão. O corpo se curva para trás, os braços sobem como raios. Quem ainda não entendeu quem é esse orixá entende naquele momento: É O REI!

Xangô foi o quarto Alafim de Oyó, título que designava o rei soberano do mais poderoso dos impérios iorubás, na região que hoje corresponde ao sudoeste da Nigéria. Antes de ascender ao trono, governava Cossô, pequena cidade nas cercanias da capital, e foi de lá que partiu para destituir o irmão Ajacá-Dadá, considerado inábil para governar, assumindo o comando de um império que reunia os maiores centros do mundo iorubá. A memória que os mitos preservaram não é a de um governante suave: Xangô buscou novas armas, expandiu territórios, julgou disputas no palácio, e quando descobriu uma poção mágica capaz de produzir fogo pela boca, logo a testou dos altos de uma elevação, lançando labaredas sobre pastagens e animais enquanto o povo chamava aquilo de raio e aquele barulho de trovão. Quem ele era no mundo dos vivos determinou quem ele se tornaria depois de morto.

Numa das versões mais difundidas, o rei errou a pontaria com sua poção de fogo e incendiou o próprio palácio, que arrastou consigo toda a cidade de Oyó. Seus ministros se reuniram, enviaram o general Gbaca para destituí-lo, e Xangô, derrotado e humilhado, seguiu o costume que obrigava o rei a responder com a própria vida por desastres que se abatiam sobre o povo sob sua coroa. Retirou-se para a floresta e se enforcou numa árvore, mas nenhum corpo foi encontrado, e seus partidários proclamaram imediatamente que o rei havia ascendido ao céu dos orixás: “Obá ko so”, o rei não se enforcou. A expressão é deliberadamente ambígua na língua iorubá, podendo significar ao mesmo tempo “o rei não se enforcou” e “o rei de Cossô”, o que transforma a proclamação numa afirmação de identidade tanto quanto numa negação da morte. Divinizado, Xangô passou a ser invocado em todos os templos com o grito “Kaô Kabiesilé”, que se traduz como “me curvo diante do Rei”, e o rei de Oió, a partir de então, tornou-se seu primeiro sacerdote.

O trovão que rasga o céu é, para os devotos, a voz desse rei que não se calou. As pedras de raio que surgem na terra depois das tempestades, chamadas edun-ará, são seus mensageiros materiais, e as pedreiras, os maciços rochosos, os terrenos de pedra à flor do chão são seus territórios por uma razão que a tradição não deixa implícita: a pedra não recua, não se parte no primeiro golpe, não muda de posição sob pressão. Pierre Verger registrou que o oxé de Xangô, seu machado de duas lâminas, parece a estilização de um personagem carregando fogo sobre a cabeça, o que se conecta diretamente à cerimônia chamada ajerê, na qual os iniciados de Xangô devem carregar na cabeça uma jarra com furos pelos quais queima um fogo vivo, demonstrando que o transe não é simulado e que o orixá, de fato, desceu.

O MACHADO QUE VÊ OS DOIS LADOS

O oxé é uma arma de duas lâminas que cortam em direções opostas, e a tradição do candomblé é precisa ao explicar o que isso significa: uma lâmina pune o culpado, a outra protege o inocente, e nenhum julgamento acontece sem que as duas sejam consideradas. Isso distingue a justiça de Xangô da imagem ocidental de Têmis, a deusa grega da lei que se representa de olhos vendados para indicar imparcialidade, porque Xangô julga com os olhos completamente abertos, e seus orikis, os cânticos de louvor que a tradição preservou por séculos, deixam isso explícito: ele é “aquele que briga com as pessoas sem ser condenado, porque nunca briga injustamente”, e “olha assustadoramente para as pessoas antes de castigá-las”, o que significa que o castigo não é impulsivo, mas o desfecho de uma observação cuidadosa. Um orixá que vê tudo antes de agir não pode ser ludibriado por quem apresenta apenas uma versão dos fatos.

Num dos itans mais conhecidos, o reino de Xangô enfrentava uma guerra que parecia perdida, com seus soldados sendo massacrados por ordem das autoridades inimigas enquanto o orixá observava da pedreira. Num ímpeto de raiva, consultou Ifá e bateu o osé contra a rocha, e das faíscas nasceu o fogo que destruiu os comandantes do exército inimigo, poupando os soldados que apenas cumpriam ordens. Quando seus próprios ministros exigiram a execução completa dos sobreviventes, Xangô recusou com uma formulação que a tradição preservou como definição de seu caráter: seu ódio não poderia ultrapassar os limites da justiça. Os guerreiros libertados passaram a servi-lo, e aquela vitória passou a ser citada não como proeza militar, mas como demonstração de discernimento. Outro itan narra os três irmãos que chegaram ao rei acusando uns aos outros de traição, e Xangô entregou um machado a cada um com o pedido de que lançassem contra uma pedra: o que se gabou de sua força viu o machado quebrar, o que chorou por sua sorte teve o mesmo resultado, e o que ficou em silêncio, concentrado na intenção, recebeu seu machado de volta intacto. Xangô absolveu esse e puniu os outros dois, porque a justiça não está na força das palavras, mas na integridade de quem as pronuncia.

Há ainda o itan em que Oxalá, pai de Xangô, permaneceu injustamente preso durante sete anos no reino do filho sem que este soubesse. Durante esse período, grandes calamidades se abateram sobre o povo, e quando Xangô finalmente descobriu o que havia acontecido, resgatou o pai, ordenou festas em todo o reino e se reconheceu responsável pela injustiça que ocorreu sob sua coroa, mesmo sem tê-la ordenado. Essa passagem é a fundação da festa das Águas de Oxalá, celebrada até hoje nos terreiros, e a mensagem que ela carrega é constitutiva do culto: o rei responde pelo que acontece em seu reino, e a ignorância não é absolvição.

Seria um equívoco reduzir Xangô à sua função jurídica, porque o orixá que governa a justiça governa também a alegria, e as duas coisas coexistem sem contradição. O toque quente do barracão não existe apesar de Xangô ser um juiz severo, mas porque ele é também o orixá que se alegra quando o corpo se move e o tambor esquenta, e os alabês que tocam para ele sabem que o ritmo não pode ser frio, que a resposta vem do calor da entrega, e que uma festa morna não convoca ninguém. O amalá, feito de quiabo cortado com camarão seco, pimentas e condimentos no azeite de dendê, é seu prato preferido, e suas oferendas devem ser generosas porque ele aprecia que seus súditos comam muito e bem, numa demonstração de abundância que é também uma demonstração de respeito.

Xangô teve três esposas que os mitos descrevem com personalidades distintas e complementares: Iansã, a companheira de batalhas que foi ela quem buscou a poção de fogo nos baribas antes de o rei existir como divindade; Oxum, o amor doce, a sedução e a riqueza, sua esposa favorita; e Obá, a devotada, aquela que demonstrou amor ao extremo de um ato que os mitos registram como tragédia pessoal. O orixá que governa a justiça conhece, pelos próprios relacionamentos, a complexidade das relações humanas, e essa experiência acumulada em mito é parte do que o qualifica para julgar. Suas cores são o vermelho e o marrom, o fogo e a terra, a brasa que já não chama atenção mas ainda queima quando se encosta.

DA CORTE DE OYÓ AOS TERREIROS DO BRASIL

O culto a Xangô chegou ao Brasil como o orixá do império e saiu daqui como o patrono do candomblé. Quando o Império de Oyó entrou em colapso no final do século XVIII sob pressão de seus inimigos, os povos iorubás, antes protegidos pelo poder militar da capital, tornaram-se vulneráveis ao tráfico escravista e passaram a desembarcar no Brasil em grande quantidade durante o século XIX. Vinham de diferentes cidades iorubás, traziam diferentes orixás tutelares, falavam variações distintas do mesmo idioma, mas tinham Xangô em comum porque o culto ao orixá do rei se havia espalhado por todo o império. No Brasil, foram reunidos nas cidades, não mais dispersos nas fazendas do interior, e essa concentração urbana criou as condições para reconstituir a religião. O primeiro terreiro iorubá da Bahia, fundado por mulheres da irmandade da Barroquinha em Salvador, foi dedicado a Xangô.

A marca do orixá na estrutura do candomblé brasileiro vai além da devoção e se inscreve na própria hierarquia dos terreiros, que reproduzem a organização da corte de Oyó com uma precisão que revela o quanto aquelas fundadoras conheciam a vida da capital iorubá. A ekedí, sacerdotisa confirmada que não entra em transe mas cuida do orixá manifestado, corresponde ao título èkejì òrìsà da corte do Alafim. O alabê que toca os atabaques tem paralelo nos isugbin, os musicistas do palácio. A iyá-nasó, título de uma das fundadoras do candomblé, era originalmente a mãe do culto pessoal de Xangô do rei. Esse terreiro não é uma reinvenção livre nem uma adaptação improvisada, mas uma memória arquitetada por pessoas que sabiam exatamente o que estavam preservando e escolheram organizar essa memória em torno da corte do orixá que julgava com os olhos abertos. Em Pernambuco, o culto aos orixás passou a se chamar simplesmente xangô, e na santeria cubana apenas os sacerdotes de Xangô têm o privilégio de receber o sangue sacrificial na cabeça durante a iniciação, enquanto em Trinidad-Tobago xangô é o nome da própria religião, porque o orixá que não se enforcou também não se deixou apagar.

O QUE VOCÊ ESTÁ PEDINDO A ELE

r tudo isso sobre Xangô, seu machado, seus itans, a corte que atravessou o Atlântico e se reconstituiu nos terreiros brasileiros, muda a forma de entender o que significa chegar até ele com um pedido. Existe uma crença difundida de que recorrer a um orixá poderoso garante proteção proporcional ao poder de quem é invocado, e essa crença, quando aplicada a Xangô, produz um equívoco que os próprios ensinamentos do candomblé tratam de corrigir. Xangô não distribui graça independente do mérito de quem pede, porque ele julga o pedido antes de atendê-lo, já que sua função não é conceder favores, mas administrar justiça, e a justiça exige que a causa seja examinada antes que a sentença seja proferida. Pedir a Xangô proteção numa causa injusta não é um pedido que vai simplesmente ser ignorado: é um pedido que coloca quem pede na posição de réu diante de um juiz que vê tudo e que não tem o costume de ser complacente com quem o procura de má-fé.

Com seus filhos, os que nascem sob sua influência e são consagrados a ele nos terreiros, a severidade é ainda maior porque a expectativa é maior, e a tradição é consistente nesse ponto: Xangô poupa menos os seus do que poupa os outros, porque de quem está mais próximo do rei se espera que compreenda melhor as regras do reino. O itan de Oxalá preso por sete anos ilustra exatamente esse princípio: o reino sofreu as consequências de uma injustiça que o rei não ordenou e não conhecia, mas que aconteceu dentro de seus muros, de forma que a proximidade com Xangô não é uma proteção extra contra seu julgamento, mas um aumento de responsabilidade perante ele.

Quando o atabaque começa a esquentar e a dança de Xangô toma o barracão, os que conhecem a tradição sabem que estão diante de um orixá que se alegra com a festa e que exige coerência fora dela. O axé de Xangô não se divide: o mesmo fogo que cozinha o amalá e aquece o toque é o mesmo que desce como raio sobre quem invocou o rei com mentira na boca. Antes de fazer seu pedido, a tradição sugere que você saiba com clareza o que está pedindo e por quê, e que você tenha certeza de que, quando Xangô olhar para o seu lado da história, o que encontrará é a verdade. Porque ele vai olhar, e quando olha bem, não comete erros.

Cida Bento fala sobre pactos que poucos discutem: o da negritude

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“Muitas vezes, o embate entre nós, negros, é mais fácil do que derrubar uma figura branca racista”, afirma a psicóloga

As redes sociais não raramente têm um impacto na comunidade negra similar ao da Carta de Lynch. O texto, que não tem comprovação histórica mas é usado como parábola por ativistas, fala da história de Willie Lynch, um suposto proprietário de escravos no Caribe que mantinha os escravizados sob controle, exaltando as diferenças que eles tinham entre si. A história serve como exemplo de como o “dividir para conquistar” é uma técnica eficiente para criar rivalidade em grupos historicamente oprimidos.

A suposta carta escrita em 1712 dizia: “Verifiquei que entre os escravos existem uma série de diferenças. Eu tiro partido destas diferenças, aumentando-as. Eu uso o medo, a desconfiança e a inveja para mantê-los debaixo do meu controle. Eu vos asseguro que a desconfiança é mais forte que a confiança e a inveja mais forte que a concórdia, respeito ou admiração.”

Cortando para o século 21, a comunidade negra no Brasil ainda interage com seus pares de forma desconfiada. A culpa, assim como no caso dos nossos ancestrais do século XVIII, não é das pessoas negras, mas do cenário onde o racismo gera escassez de oportunidades e onde nossa união é vista como ameaça.

Se para os brancos só ser branco já é um fator que gera empatia, acolhimento e oportunidades entre pares, para os negros é um pouco mais complicado.

Cida Bento é psicóloga, cofundadora e diretora do CEERT, referência em equidade racial no trabalho. Autora de O Pacto da Branquitude, ela influencia políticas públicas e práticas de inclusão, atuando como mentora de lideranças e estrategista contra o racismo institucional. O Pacto da Branquitude é um conceito que descreve um acordo não verbalizado e inconsciente entre pessoas brancas. Baseado em acordos tácitos, visa manter privilégios e posições de poder no Brasil, perpetuando o racismo estrutural e as desigualdades raciais mesmo após o fim da escravidão. É também um pacto narcísico.

Mas e a comunidade negra? Tem seus próprios pactos? Quando discordamos, é válido tornar isso um debate público? O financiamento comunitário pode suprir a fuga das marcas das nossas pautas? Nessa entrevista exclusiva, Cida responde essas e outras questões.

A escritora Cida Bento.

O pacto racial implica ignorar as falhas de membros do mesmo grupo?

“É importante refletir sobre pessoas negras falando de maneira pejorativa sobre organizações e outras pessoas negras. É sempre bom lembrar que nós, brancos e negros, homens e mulheres, aprendemos como se trata os negros no Brasil. Aprendemos nos livros didáticos, nas novelas e na universidade. Aprendemos junto com os brancos.

Apesar dessa aprendizagem, podemos mudar essa realidade, mas precisamos falar sobre ela. Precisamos discutir como nós, negros, também podemos ter internalizado negatividades sobre o nosso próprio grupo e corpo, e como lidar com isso. Isso tem dimensões cognitiva, emocional, afetiva e ética: como cuidamos de nós mesmos?

Muitas vezes, o embate entre nós, negros, é mais fácil do que derrubar uma figura branca racista. Enfrentamos mais dificuldades no confronto com o branco do que com o negro, então as brigas acabam se dando entre nós.

Sobre aceitar as falhas dos nossos: eu acho que não devemos aceitar incondicionalmente. Porém, tenho uma tendência a conversar sobre falhas que ocorrem entre nós no que chamo de ‘cozinha’, na intimidade. Nunca fui a público falar algo negativo contra outra organização ou pessoa negra. Acredito que devemos conversar na ‘cozinha’ e, no máximo, ignorar aquela pessoa, mas deixo para os brancos a tarefa de batê-la.”

Para a senhora, existe um “Pacto da Negritude” no Brasil? A escassez de oportunidades na sociedade dificulta a unidade da comunidade negra como povo?

“Eu penso que existem pactos da negritude, sim. Vejo isso no nosso projeto do CEERT, o Prosseguir. Os participantes relatam como suas vozes são fortalecidas nesse espaço entre iguais, enfrentando dificuldades similares e compartilhando formas de lidar com elas. É o contato com pessoas negras que avançaram em pautas importantes e que compartilham essa experiência.

Esse pacto pode ser melhor compreendido e aprimorado quando discutimos o aquilombamento no conceito de Abdias do Nascimento. Ele traz essa dimensão política e de cuidado de nós para nós. O aquilombamento possui o conceito de luta política e de relações de fortalecimento e afeto. Um grupo precisa ter uma base afetiva, intelectual e de apoio mútuo para se validar e seguir em frente.

O financiamento comunitário seria também uma forma de pacto? Quais outras a senhora destacaria?

Acredito que podemos batalhar por um financiamento comunitário, que é também uma forma de pacto.

A batalha por apoio institucional deve ser intencional. Isso é crucial porque a extrema-direita supera em muito as redes progressistas em termos de engajamento e impacto, como mostra o Manchetômetro. Para mudarmos realidades drásticas, como uma população apoiando chacinas em favelas, precisamos disputar e fortalecer nossas redes com esse tipo de apoio.

*Entrevista publicada originalmente em Dezembro de 2025 .

João Cândido: 146 anos de legado do herói negro

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Retrato de João Cândido em preto e branco.
Foto: Divulgação

“Não há no mundo um pobre coitado linchado, um pobre homem torturado, em quem eu não seja assassinado e humilhado.” – Aimé Césaire

Não podemos aceitar que a memória de João Cândido seja atacada, e muito menos apagada, na história brasileira. Lembrar da sua batalha é o compromisso mínimo de quem não aceita que o racismo continue sendo o alicerce das relações raciais neste país. E aqui faço a minha parte.

O gaúcho João Cândido nasceu no dia 24 de junho de 1880, em Encruzilhada do Sul. Um homem negro elevado, postumamente, ao posto de herói nacional por causa do seu papel no movimento histórico dentro da Marinha do Brasil. A luta do negro é um continuum desde a colonização; com o estabelecimento da Lei Áurea, o ciclo de violência não foi abolido. O racismo simplesmente mudou de métodos. Passamos a ser humilhados, marginalizados, perseguidos e assassinados pelo Estado. Clamamos por socorro, mas o discurso da democracia racial era colocado como um “cala a boca” pelas pessoas brancas.

Na Marinha, os castigos como punição remetiam ao que acontecia nas fazendas. Chibatadas. Chibatadas e mais chibatadas nos corpos negros. Humanos negros. O rastilho de pólvora para a corajosa atitude de centenas de marinheiros, pretos e pardos, que se mobilizaram contra a instituição, aconteceu quando o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi condenado a 200 chibatadas. A tolerância acabou daqueles oprimidos, afinal, era a dignidade humana que estava em questão. João Cândido mobilizou cerca de 2.300 marinheiros. Estavam exigindo a melhoria nas condições de trabalho e a abolição da chibatada. Isso ocorreu na noite de 22 de novembro de 1910.

O governo brasileiro tomou um choque de realidade. Nas palavras do Almirante Negro: “(…) Na organização da revolta eu dispunha de todos os poderes, parei o Brasil. Durante seis dias eu parei o Brasil (…)”. Esses insurgentes ameaçaram bombardear o Rio de Janeiro, na época a capital federal. O governo se viu encurralado e entrou em acordo com os marinheiros; o movimento ficou conhecido como Revolta da Chibata.

Mas como o sistema é perverso, os acordos foram descumpridos pelo governo. A perseguição contra os marinheiros e João Cândido foi implacável. Daquele momento em diante, a história do nosso herói se resume em dor, sofrimento e injustiças. Apesar disso, prefiro pensar na sua coragem e no objetivo alcançado tempos depois: chibatada, nunca mais! E o Almirante Negro eternamente o nosso herói.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CÂNDIDO, João. Depoimento de João Cândido, líder da Revolta da Chibata. Entrevistadores: Hélio Silva e Ricardo Cravo Albin. Rio de Janeiro: Museu da Imagem e do Som, 1968. Transcrição disponível em: Impressões Rebeldes (UFF). Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/2022/wp-content/uploads/2024/05/Entreista-com-Joao-Candido-1968-Impressoes-Rebeldes.pdf. Acesso em: 19 jun. 2026.

MOREL, Marco. João Cândido e a luta pelos direitos humanos. Livro fotobiográfico. Brasília: Fundação Banco do Brasil, 2008. V. 1.PASSOS, Eridan. João Cândido: o herói da ralé. São Paulo: Expressão Popular, 2008

‘Michael Jackson – A História’: série documental sobre o Rei do Pop estreia no Globoplay

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Michael Jackson olhando fixamente para a câmera.
Foto: Divulgação

Na semana que marca os 17 anos da morte do Rei do Pop, ocorrida em 25 de junho de 2009, o Globoplay estreia, nesta terça-feira (23), a série documental ‘Michael Jackson – A História’. Dividida em quatro episódios, que já estão disponíveis na íntegra, a produção comissionada pela BBC e dirigida por Sophie Fuller revisita a trajetória de um dos artistas mais influentes da história da música.

Ao longo dos episódios, o documentário relembra diferentes capítulos da vida e da carreira do cantor, desde sua ascensão meteórica ao estrelato mundial até os acontecimentos que marcaram sua vida fora dos palcos. Para isso, a série combina imagens de arquivo e entrevistas com pessoas próximas a ele, explorando o talento, os desafios, as controvérsias e os momentos decisivos que ajudaram a construir seu legado.

Sua irmã, Janet Jackson — que ficou de fora da cinebiografia ‘Michael’, lançada em abril deste ano —, concedeu uma entrevista exclusiva para a produção, que também conta com o depoimento do rabino Shmuley Boteach.

Quase duas décadas após a sua partida, o astro continua ocupando um lugar único no imaginário da cultura pop mundial. Suas músicas seguem atravessando gerações, suas performances permanecem como referência para artistas de diferentes estilos e sua história continua despertando o interesse de fãs ao redor do mundo.

Doku retorna à Copa após deixar a seleção belga para acompanhar nascimento do filho

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Foto: reprodução / redes sociais @jeremydoku

Atacante belga deixou a concentração da seleção para estar presente no parto do filho Praise em Londres e voltou a Seattle na terça-feira.

O atacante belga Jérémy Doku, de 24 anos, acompanhou na segunda-feira, 22 de junho, o nascimento de seu primeiro filho em Londres e deve se reapresentar à seleção da Bélgica na noite desta terça-feira em Seattle, onde o grupo se prepara para a última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026. O bebê se chama Praise e é filho de Doku com sua esposa Shireen. A federação belga confirmou que o jogador viajou à capital britânica com a autorização da comissão técnica e acompanhado por um médico da própria seleção, e que estará disponível para o jogo contra a Nova Zelândia, marcado para a próxima sexta-feira, pelo Grupo G do torneio.

A decisão de liberar Doku gerou uma sequência de reações públicas que extrapolaram o campo esportivo. A apresentadora France Pierron, do canal francês L’Équipe TV, criticou abertamente o jogador durante um programa da emissora, classificando o momento do parto como “nojento” e afirmando que o pai seria “completamente inútil” nessa situação. Pierron argumentou que disputar uma Copa do Mundo representa uma oportunidade raramente repetida na carreira de qualquer atleta e que Doku estaria abrindo mão de algo que centenas de jogadores “dariam tudo para viver”. A fala foi gravada e circulou amplamente nas redes sociais nas horas seguintes. O canal se distanciou das declarações por meio de nota oficial e afastou a apresentadora, além de pedir desculpas publicamente ao jogador e ao público.

Doku respondeu à polêmica com brevidade antes de embarcar para Londres. “Ninguém quer perder o nascimento do seu primeiro filho”, disse o jogador. A declaração foi suficiente para concentrar o apoio de torcedores e de outros atletas ao redor do mundo. O alemão Nadiem Amiri, pai de dois filhos, foi um dos que se manifestaram. O jogador afirmou não entender “de forma alguma” as críticas e acrescentou que “todos os pais sabem como esse momento é especial”.

Foto: reprodução redes sociais

A ausência de Doku na partida contra o Irã, no domingo, não teve relação com a viagem a Londres. O atacante ficou fora do empate sem gols por conta de uma infecção respiratória aguda, diagnosticada durante os treinos em Los Angeles que antecederam o jogo, quando ele precisou deixar as atividades de campo mais cedo. Os médicos belgas recomendaram que ele não jogasse e iniciaram tratamento com antibióticos. Com a recuperação confirmada, sua participação contra os neozelandeses está prevista.

A situação de Doku se desdobrou em um contexto de pressão crescente sobre a seleção belga no torneio. A Bélgica somou apenas dois pontos nas duas primeiras rodadas, após empate por 1 a 1 com o Egito e o placar zerado diante do Irã, e ocupa a terceira posição do Grupo G. O confronto contra a Nova Zelândia, na sexta-feira, é praticamente eliminatório para os Diabos Vermelhos, que chegaram ao torneio entre as seleções apontadas como favoritas ao título.

O debate aberto pelo caso de Doku extrapolou a discussão específica sobre futebol e alimentou um debate mais amplo sobre paternidade, presença familiar e as cobranças impostas a atletas profissionais durante competições de longa duração. A escolha do jogador e a reação da L’Équipe TV mobilizaram comentaristas, ex-atletas e o público em geral, tanto na Europa quanto nas Américas. A federação belga, ao comunicar o retorno de Doku, encerrou a nota parabenizando o jogador e sua família pelo nascimento de Praise.

‘Coisa de Rico’, de Michel Alcoforado, ganha adaptação para o teatro e estreia em SP

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O antropólogo Michel Alcoforado sobe ao palco em agosto com o monólogo ‘Coisa de Rico: Outras Histórias’, baseado em sua investigação sobre os hábitos e códigos da elite brasileira.

Um dos maiores fenômenos do mercado editorial em 2025, com mais de 160 mil exemplares vendidos, o livro “Coisa de Rico: A Vida dos Endinheirados Brasileiros” (Editora Todavia) será adaptado para os palcos. O antropólogo e autor da obra, Michel Alcoforado, estreará o espetáculo “Coisa de Rico: Outras Histórias” nos dias 21 e 22 de agosto no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo. Os ingressos já estão à venda.

A montagem se apresenta no formato de monólogo e expande a investigação de Alcoforado sobre os comportamentos, identidades e distinções sociais que definem as camadas mais abastadas do Brasil. Ao longo de aproximadamente 70 a 80 minutos de duração, o pesquisador compartilha bastidores inéditos de sua pesquisa de campo, relatos e reflexões de quando se infiltrou entre milionários para mapear o chamado “teatro da elite”, o conjunto de gestos, objetos e ambientes que demarcam fronteiras sociais.

O roteiro do espetáculo foi desenvolvido por Alcoforado em parceria com o roteirista Afonso Capellaro, conhecido por trabalhos em programas como Greg News e Que História É Essa, Porchat?. A produção da peça fica por conta da Queremos!, produtora responsável pela realização de festivais e turnês musicais no país.

Serviço:

  • Espetáculo: Coisa de Rico: Outras Histórias
  • Quando: 21 e 22 de agosto de 2026, às 20h
  • Onde: Teatro Sabesp Frei Caneca (Rua Frei Caneca, 569, Consolação, São Paulo – SP)
  • Ingressos: À venda pela plataforma Uhuu, com valores que variam entre R$ 70 (meia-entrada) e R$ 180 (inteira)
  • Classificação: Livre

Após condenação, Rodrigo Branco publica vídeo de desculpas e recebe apoio de famosos

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Foto: reprodução redes sociais / divulgação

Após condenação por racismo contra Thelma Assis, Rodrigo Branco paga indenização de R$ 76 mil, publica vídeo de desculpas e recebe apoio de famosos.

Dias após a divulgação de sua condenação por danos morais em um processo movido pela médica, apresentadora e vencedora do “BBB 20”, Thelma Assis, o empresário Rodrigo Branco publicou um pronunciamento em suas redes sociais para se desculpar publicamente e detalhar o cumprimento da sentença.

O caso remonta a 30 de março de 2020, quando Branco participou de uma transmissão ao vivo no Instagram e afirmou que a torcida por Thelma no reality show existia apenas “porque ela é negra coitada”. Recentemente, a juíza Flávia Snaider Ribeiro, da 6ª Vara Cível de São Paulo, determinou uma indenização de R$ 40 mil por danos morais, classificando as falas como um “comportamento discriminatório que não se pode admitir”. Embora a decisão de primeira instância coubesse recurso e apontasse que o empresário havia sido citado por edital sem apresentar defesa formalizada nos autos, Branco declarou que optou por não recorrer.

No vídeo publicado, o empresário afirmou ter efetuado o pagamento total atualizado de R$ 76.061,07. “No momento que eu soube da condenação falei com o meu advogado, eu falei: ‘não quero recorrer, não quero nada, eu quero cumprir integralmente o que foi determinado'”, relatou.

Branco afirmou que nunca tentou fugir das consequências: “Minha vida sempre continuou sendo pública. Moro na mesma casa há 8 anos, todo mundo que me segue sabe onde eu trabalho […] Nunca desapareci, nunca tentei fugir das consequências”, declarou, rebatendo a informação de que não teria sido localizado pela Justiça durante a tramitação da ação. O empresário pontuou que o episódio aconteceu há seis anos e que, desde então, passou por um período de reflexão e transformações pessoais. Nominalmente, ele estendeu os pedidos de desculpas à Thelma Assis, à jornalista Maju Coutinho e à influenciadora Ju de Paula.

A publicação do empresário gerou uma série de manifestações de apoio por parte de figuras públicas e celebridades brasileiras nos comentários da postagem, que destacaram o reconhecimento do erro e o processo de evolução.

A publicação do empresário gerou uma série de manifestações de apoio por parte de figuras públicas e celebridades brasileiras nos comentários da postagem, que destacaram o reconhecimento do erro e o processo de evolução.

A apresentadora Xuxa Meneghel prestou apoio ao empresário, escrevendo: “Ro, achei de muita coragem e valia o que vc fez … errei muito e estamos aqui pra aprender e tentar errar menos .. é que essa pauta doí muitoooo e nos brancos NUNCA vamos entender essa dor , espero de coração que vc , eu e o planeta mude NAO DA MAIS pra errar nesse assunto , bjs no seu coração”.

A cantora Simone Mendes também comentou na publicação: “Reconhecer uma falha exige humildade, e transformar esse aprendizado em uma mensagem de respeito ao próximo demonstra maturidade. Nunca vamos saber a real dimensão da dor que foi causada, porque somente quem a sentiu conhece o peso que ela carrega. Parabéns pela coragem de se posicionar com humildade”. O influenciador Gominho registrou seu apoio escrevendo “É isso!”, e a atriz Fabiana Karla completou: “Parabéns pelo aprendizado, querido. Sigamos todos aprendendo”. Outros nomes como Luciana Gimenez e a apresentadora Adriane Galisteu (“É sobre isso”) também deixaram acenos de suporte na publicação.

A atriz Deborah Secco escreveu na postagem: “Pessoas não são descartáveis… A gente erra, aprende, se responsabiliza pelos nossos erros e faz diferente. Te amo e amo acompanhar sua evolução”. A apresentadora Lívia Andrade declarou: “Não te conhecia na época do ocorrido, mas esse é o Rodrigo que eu conheci e admiro. Não acredito em desculpas acredito em mudança de comportamento”. A apresentadora Astrid Fontenelle também se manifestou: “Sou das que te falou que errou. E acredito que agora você está pronto pra vir pra essa luta antirracista. Não é fácil. Meu filho segue sendo um dos dois pretos q estudam na escola . Diariamente vemos no noticiário casos e mais casos racistas. E somos nós, brancos e brancas que temos q ir à luta por eles. Bem vindo”.

Antes da publicação do vídeo, Thelma Assis havia se pronunciado afirmando que doará parte do valor recebido na causa para uma instituição dedicada ao combate ao racismo, celebrando o reconhecimento do fato pela Justiça após anos de trâmite processual.

Elza Soares, a mulher que cantou pelas mulheres

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Elza Soares (Foto: Reprodução / Twitter)

Elza Soares cantou o que muitas mulheres viviam e o Brasil preferia não ver. Conheça as músicas que se tornaram hinos de resistência feminista e antirracista.

O registro oficial aponta o nascimento de Elza da Conceição em 23 de junho de 1930, na favela da Moça Bonita, subúrbio carioca de Padre Miguel. A própria cantora, contudo, desconfiava do papel; acreditava ter nascido anos depois. A divergência burocrática escondia uma violência precoce: a adulteração de sua idade pelo pai para forçá-la a um casamento aos 12 anos. O episódio antecipava o Brasil que Elza enfrentaria, um país que frequentemente utiliza seus mecanismos oficiais para chancelar abusos.

A trajetória pessoal da artista confunde-se com a própria crônica das vulnerabilidades brasileiras. Viúva aos 21 anos e mãe de cinco filhos, Elza vivenciou o luto de perder quatro deles ao longo da vida. Conheceu a violência doméstica em dois casamentos e, em 1970, viu sua residência no Jardim Botânico ser metralhada pela repressão da ditadura militar enquanto o companheiro, o craque Garrincha, e os filhos estavam no imóvel. O episódio forçou o casal ao exílio na Itália, onde foram amparados por Chico Buarque.

Elza Soares despediu-se em 20 de janeiro de 2022, aos 91 anos, por causas naturais. Deixou o plano físico dias após concluir as gravações de um novo álbum, mantendo o pacto com o ofício até o último fôlego.

Ao longo de 35 discos e mais de seis décadas de carreira, Elza demonstrou uma lucidez artística precisa. Seu repertório focado em racismo, machismo e violência doméstica nunca foi uma adesão oportunista a pautas sazonais, mas sim o eco de suas próprias cicatrizes. A cantora compreendia o poder de penetração da música, uma arte capaz de furar bolhas intelectuais, ecoar em rádios populares e ocupar as ruas.

Essa postura combativa manifestou-se de forma pioneira no início dos anos 1980. Em uma época em que os maus-tratos domésticos eram confinados ao silêncio das residências, Elza ocupou o sofá do programa TV Mulher, na TV Globo, para pautar o assunto em rede nacional. O gesto corajoso inspirou, décadas mais tarde, o compositor Douglas Germano, que presenciara as agressões sofridas pela mãe na infância, a escrever a canção que se tornaria um dos maiores hinos de resistência da música brasileira contemporânea.

"Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180 / Vou entregar teu nome e explicar meu endereço / Aqui você não entra mais, eu digo que não te conheço."
— Maria da Vila Matilde (Douglas Germano)

Gravada em 2015 para o aclamado álbum A Mulher do Fim do Mundo, quando Elza já contabilizava 85 anos, “Maria da Vila Matilde” transcendeu as plataformas de áudio. O refrão “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim” virou palavra de ordem em protestos, como as manifestações que tomaram a Câmara Municipal do Rio de Janeiro após o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018. A urgência da faixa permanece infelizmente atual: dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que, no Brasil, a maioria expressiva dos feminicídios é cometida por parceiros ou ex-companheiros das vítimas.

A Mulher do Fim do Mundo marcou um ponto de inflexão na discografia de Elza ao ser seu primeiro trabalho composto exclusivamente por faixas inéditas. Sob a produção de Guilherme Kastrup e cercada pela vanguarda musical paulistana, a intérprete reuniu samba, rock distorcido, rap e música eletrônica em um repertório que conquistou o Grammy Latino.

As faixas desse período revelam uma honestidade brutal:

  • “A Mulher do Fim do Mundo”: Na faixa-título, o verso “Eu sou e vou / Até o fim cantar” ganha contornos de manifesto existencial, amparado pela densidade de uma voz que sobreviveu ao silenciamento.
  • “Língua Solta”: Desmistifica a coragem ao apresentá-la não como uma ausência de medo, mas como uma reação coletiva e hesitante diante do horror.
  • “O Que Se Cala”: Faixa de abertura do álbum seguinte, Deus É Mulher (2018), inicia-se a cappella. A voz de Elza surge nua, sem instrumentos, reivindicando para si o direito à narrativa histórica da mulher negra.
  • “Dentro de Cada Um”: Rejeita eufemismos literários ao retratar a violência de forma crua, expondo as marcas físicas e psicológicas do abuso.

Outro marco fundamental de sua discografia é a releitura de “A Carne”, gravada originalmente em 2002 no álbum Do Cóccix Até o Pescoço. Composta por Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti, a música ganhou contornos definitivos na interpretação de Elza. Ao cantar que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, a artista explicitou a indissociabilidade entre gênero e raça no Brasil. Anos mais tarde, ciente do impacto de sua luta, Elza ressignificou o próprio clássico ao afirmar publicamente que a carne negra já não era a mais barata: “Vale uma tonelada”.

Eleita em 1999 como a “Cantora do Milênio” pela corporação britânica BBC, Elza Soares consolidou uma obra que se recusa a envelhecer como mera peça de museu. Suas canções operam hoje como ferramentas pedagógicas e manifestos sociais, mantendo viva a postura de uma artista que se recusou a dourar a pílula da realidade, transformando a própria biografia em um espelho incômodo e necessário para o Brasil.

“Sem palavras pelo carinho”: Black Alien volta às redes e anuncia novo álbum

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Foto: Reprodução / Roncca

Rapper carioca voltou às redes sociais após longo período em tratamento e revelou detalhes do projeto “ADZ AINDA: Aloha From Hell”, com produção de Papatinho e Barba Negra

Gustavo de Almeida Ribeiro, o Black Alien, voltou às redes sociais nesta semana para comunicar ao público que está bem e anunciar seu novo álbum. A mensagem foi publicada nos stories do Instagram de sua conta pessoal, @mr.black_gus, e encerrou um silêncio prolongado que coincidiu com um período de tratamento de saúde. “Eu estou bem. Sem palavras pelo carinho. Não se esqueçam que eu amo vocês”, escreveu o rapper ao final do comunicado.

O novo projeto se chama “ADZ AINDA: Aloha From Hell” e tem lançamento previsto para dezembro de 2026. A produção principal ficará a cargo de Papatinho e Barba Negra, com participação de outros beatmakers que assinarão loops e samples próprios no disco. O título retoma a sigla ADZ, referência direta ao seu último álbum solo, “Abaixo de Zero: Hello Hell”, lançado em 2019 e produzido integralmente por Papatinho.

No mesmo comunicado, Black Alien descreveu uma mudança significativa no seu processo criativo durante o período de afastamento. A viola, instrumento que ele passou a tocar sem pretensões, evoluiu para uma ferramenta de composição com intenção definida. Segundo o rapper, as músicas passaram a “pedir” melodia e letra, e responder a esse pedido tornou-se o princípio que orienta o trabalho atual.

As composições criadas antes dessa virada permanecerão instrumentais e integrarão o disco como riffs e loops nas produções de Papatinho e Barba Negra. “Até outro dia, viola era uma diversão soltinha, pretensão zero, 100% fun. Igual ao rap no começo, hoje é 101 por cento e meio for fun porque to compondo com um norte”, afirmou Black Alien no texto publicado nos stories.

Black Alien teve duas overdoses, em 1999 e 2013, e passou por uma depressão em 2010, após a morte do amigo e rapper SpeedFreaks. A luta pela sobriedade tornou-se matéria-prima do último disco: “Este álbum é sobre luta. Mas não se trata só de dependência química, pois o buraco para todos nós é sempre mais embaixo. É sobre a luta para ser melhor do que eu mesmo”, disse ele à época do lançamento de “Abaixo de Zero: Hello Hell”.

Em fevereiro de 2025, durante show na Audio, em São Paulo, o artista enfrentou dificuldades para lembrar as letras de suas músicas, o que gerou especulações entre os fãs sobre uma possível recaída. O afastamento que se seguiu foi acompanhado de preocupação pública, com cancelamentos de apresentações e ausência completa das redes sociais.

O comunicado encerra um período de silêncio que gerou preocupação real entre fãs e colegas de profissão. A confirmação de que está bem, feita pelo próprio Gustavo, é a informação mais aguardada pelos que acompanham sua trajetória, e antecede o anúncio do álbum como dado mais relevante da publicação. “ADZ AINDA: Aloha From Hell” tem lançamento previsto para dezembro de 2026, com produção de Papatinho e Barba Negra.

Grazi Mendes participa de vivência na Itália com Marcelo Gleiser

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Grazi Mendes durante experiência Island of Knowledge na Itália
Foto: Reprodução/ Instagram

A professora, autora e executiva de tecnologia Grazi Mendes foi uma das convidadas para participar do Island of Knowledge – Questione a Realidade, experiência realizada na Toscana, Itália, e idealizada pelo físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser.

A iniciativa reúne pessoas de diferentes áreas para refletir sobre ciência, filosofia, espiritualidade e os desafios diante do presente e do futuro. Em relato compartilhado nas redes sociais, Grazi descreveu a vivência como uma experiência que ainda está sendo elaborada e que provocou reflexões profundas sobre conhecimento, liderança e de sua própria existência.

“Vai demorar um tempo para eu elaborar tudo o que aconteceu na Toscana e aqui dentro do peito”, escreveu.

Liderar exige reaprender a fazer perguntas

Entre os principais aprendizados da experiência, Grazi destaca uma mudança de perspectiva sobre liderança.

Segundo ela, um dos convites feitos ao longo da imersão foi olhar para o universo não como algo que pode ser controlado, mas como um espaço de mistério, descoberta e questionamento.

Em entrevista ao Mundo Negro, a executiva afirmou que esse olhar dialoga diretamente com desafios contemporâneos como a crise climática, o avanço da inteligência artificial, as desigualdades e o esgotamento de modelos tradicionais.

“Diante da crise climática, da inteligência artificial, das desigualdades e do esgotamento dos modelos antigos, o líder não pode ser apenas alguém que entrega respostas rápidas. Precisa ser alguém capaz de questionar a realidade com coragem, humildade e imaginação radical”, afirma.

A vida no centro das decisões

Outro aspecto que marcou a experiência foi a reflexão sobre a centralidade da vida nas decisões humanas.

Ao observar as discussões sobre o cosmos, a raridade da existência e a fragilidade da Terra, Grazi passou a refletir sobre responsabilidade, impacto coletivo e futuro.

Para ela, liderança não pode ser reduzida a desempenho, produtividade ou crescimento. Cada decisão produz efeitos concretos sobre pessoas, territórios e gerações.

“O universo nos coloca em perspectiva: somos pequenos, mas não somos irrelevantes. Justamente por isso, responsabilidade é inegociável”, destaca.

Um sonho da infância revisitado

Em conversa com o Mundo Negro, Grazi relatou que a experiência teve um significado pessoal para ela.

Apaixonada por física desde criança, ela relembra que estudou em escola pública e nem sempre teve acesso a professores especializados na área. O interesse pela ciência surgiu cedo, mas encontrou limitações estruturais que marcaram sua trajetória educacional.

Por isso, participar de uma imersão conduzida por um dos cientistas brasileiros mais reconhecidos internacionalmente despertou memórias de uma antiga curiosidade.

“Tem uma parte minha dessa menina da quinta série que queria ter aula com um professor de física”, conta.

A experiência também a levou a refletir sobre acesso ao conhecimento e oportunidades educacionais. Para Grazi, o encantamento produzido pela ciência pode ampliar a forma como crianças e jovens compreendem a vida, o planeta e seu lugar no mundo.

Tecnologia, consciência e futuro

As discussões da vivência também reforçaram uma preocupação presente em sua atuação profissional: a relação entre tecnologia e humanidade.

Segundo ela, o futuro não pode ser pensado apenas a partir da capacidade técnica de criar novas ferramentas. É necessário discutir quais valores devem acompanhar essas transformações.

“A grande pergunta deixa de ser só o que seremos capazes de criar, mas que tipo de humanidade queremos preservar enquanto criamos”, afirma.

Convite para retornar em 2027

A participação de Grazi no Island of Knowledge terá continuidade.

Após a experiência na Toscana, ela foi convidada a retornar à Itália em março de 2027 para integrar um grupo formado por dez pensadores que debaterá o tema “Futuros”.

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