A internet tem se tornado um ambiente cada vez mais hostil para mulheres — especialmente para mulheres negras. Entre o desejo de compartilhar uma vitória profissional ou uma foto exaltando a própria beleza, surge o medo de que o próximo comentário seja um julgamento, uma ofensa disfarçada de opinião ou, em casos mais graves, uma ameaça direta à integridade física.
Os números são alarmantes. Segundo dados divulgados em 2022 pelo professor Dr. Luiz Valério Trindade, doutor pela Universidade de Southampton, no Reino Unido, 81% dos discursos de ódio online têm como alvo mulheres pretas e pardas, com idade entre 25 e 35 anos e em ascensão social.
Não se trata apenas de haters aleatórios. As denúncias de misoginia na internet mais que triplicaram no último ano, crescendo 224,9%, segundo levantamento da SaferNet. Em 2024, foram registradas 2.686 denúncias de violência ou discriminação contra mulheres; já em 2025, foram 8.728 registros.
Muitas ofensas podem parecer inofensivas, mas são a faísca que alimenta um ciclo de desrespeito que, muitas vezes, escala para a violência física no mundo real. Para mulheres negras, as “opiniões” ainda têm o agravante do racismo: “Melhor você alisar o cabelo, é mais limpo e profissional”; “Só a promoveram para cumprir a cota”; e “Você é muito raivosa, ninguém pode falar nada”.
Redesenhando o ambiente digital
Para enfrentar essa realidade, a SEPHORA Hearts Not Hate lançou sua campanha para o Brasil. A iniciativa, que chega ao país no Mês da Mulher, propõe uma reflexão profunda sobre como a misoginia tenta impedir a presença das mulheres nas redes sociais.
A proposta é transformar a realidade de forma coletiva. Ocupar as redes, mas preservando a saúde mental e a integridade física.
Estratégias de autodefesa e denúncia:
Não hesite em filtrar: Bloquear e silenciar contas que drenam sua energia não é falta de diálogo, é preservação da integridade.
Produza provas: Em casos de violência digital, reúna prints, links e URLs.
Denuncie formalmente: Registre um Boletim de Ocorrência em delegacias especializadas (Delegacia da Mulher ou de Crimes Cibernéticos).
Busque apoio: Em casos de emergência, ligue 190. Para acolhimento e orientações, ligue 180 para a Central de Atendimento à Mulher.
Redesenhar o ambiente digital é uma escolha coletiva sobre quais vozes decidimos amplificar para garantir a nossa liberdade.
Bruno Manoel não escolheu a gastronomia de forma deliberada. Ela chegou antes, pelo afeto. “A gastronomia entrou na minha vida de uma forma muito afetiva, que foi pela minha mãe. Eu aprendi a cozinhar, vamos dizer que por osmose, que a gente criava em casa. A mãe deixava a gente meio que na barra da saia dela e ela estava cozinhando lá na cozinha. E a gente aprendeu a cozinhar sem ela querer”, conta.
Pernambucano de coração e orgulho, Bruno é chef de cozinha, influenciador de gastronomia e um dos rostos mais conhecidos da cena gastronômica do Nordeste. Estudou na Le Cordon Bleu, mas faz questão de deixar claro: a sua verdadeira formação veio da cozinha de Mainha. É dessa combinação entre técnica acadêmica e saber afetivo que nasce o trabalho do @preto_na_cozinha, perfil onde compartilha a gastronomia nordestina e pernambucana junto com cultura, música e histórias.
O alcance do seu trabalho já chegou à televisão nacional. Venceu o reality Que Delícia no Mais Você com Ana Maria Braga e participou do Chef de Alto Nível, dois dos programas gastronômicos de maior audiência do Brasil.
Antes de virar produto embalado, o milho já era base nas cozinhas do Nordeste. Bruno Manoel (@Preto na Cozinha ) prepara uma canjica simples e afetiva: milho cozido, leite de coco, manteiga, açúcar e canela. Ingredientes que juntos contam uma história muito maior do que a receita. Canjica não é sobremesa. É continuidade. Foi com milho que muita gente aprendeu que comida também é afeto, e que raiz não é sobre luxo: é sobre o que a gente carrega e passa pra frente. #IngredientePrincipal#TheMainIngredient#Milho
É essa voz autêntica e nordestina que ele leva para a campanha #IngredientePrincipal. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Bruno Manoel é um deles.
Para quem pensa em seguir carreira na gastronomia, o conselho dele é simples e direto: “Primeiro de tudo, para você pensar em seguir uma carreira, você tem que gostar daquilo. Não adianta só fazer. Cozinhar é uma coisa que você vai estar fazendo todos os dias. Então se você não gostar daquilo, não vai ficar bom. Não é só zoar, mas tem que ter amor.”
Da cozinha de Mainha ao Le Cordon Bleu, Bruno Manoel mostra que a melhor formação é aquela que começa em casa.
No Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, a UNEafro Brasil realiza seu Aulão Inaugural 2026, marcando o início do ano letivo dos cursinhos populares voltados à juventude negra, periférica e da classe trabalhadora. O evento acontece na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, na Cidade Universitária, em São Paulo, a partir das 9h.
A escolha da data é simbólica. O dia 21 de março foi instituído pela ONU em memória ao Massacre de Sharpeville, ocorrido em 1960 na África do Sul, quando 69 pessoas foram assassinadas durante um protesto pacífico contra o regime do apartheid.
A programação inclui a Aula Magna, que neste ano será conduzida por Sheila de Carvalho, advogada, professora e atual Secretária Nacional de Acesso à Justiça do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e por Douglas Belchior, professor de História, ativista do movimento negro e cofundador da UNEafro e da Coalizão Negra por Direitos.
O aulão também celebra os 17 anos da organização, fundada em 5 de março de 2009 a partir de uma ocupação da Faculdade de Medicina da USP, em ato que denunciava a desigualdade racial no acesso ao ensino superior.
Em 2026, mais de 130 estudantes da rede conquistaram vagas em universidades públicas, entre elas USP, Unifesp, Unesp, UFRJ, UERJ e UFABC. Durante o evento, alguns deles compartilharão suas trajetórias com os novos ingressantes. A programação ainda conta com atrações artísticas, roda de capoeira, almoço no bandejão e um tour pelo campus.
A UNEafro Brasil atua em mais de 40 núcleos de educação popular espalhados por periferias de São Paulo e outros municípios, além de estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e o Distrito Federal.
ServiçoAulão de Boas-Vindas – UNEafro BrasilData: 21 de março de 2026 Horário: 9h às 17h Local: FFLCH-USP – Av. Professor Lineu Prestes, 338, Cidade Universitária, Butantã/SP
Ronaldo Assis costuma dizer que a gastronomia entrou na sua vida antes mesmo de nascer. Sua mãe, grávida, comeu uma bacia de peguari, uma jaca inteira, um mocofato completo. “De uma maneira ou de outra, eu já conseguia degustar as comidas através do paladar dela, dentro da barriga dela”, conta o Afrochef.
Criado em Salvador pela avó enquanto a mãe saía para trabalhar como manicure e pedicure nas casas de família, foi nas mãos dessa mulher que aprendeu a enrolar salgado, fazer cavaco e ocupar o tempo com a cozinha. A mãe, quando voltava nos finais de semana, trazia na vasilhinha um pouquinho do que havia experimentado na casa dos patrões, um fio de risoto, uma colherada de algo diferente. Assim Ronaldo foi conhecendo sabores, texturas e paladares desde pequeno.
A herança vai mais longe. Sua bisavó era indígena, e no interior as pessoas ainda a lembram como alguém que nunca deixou ninguém passar fome. Ia ao brejo, catava o que a natureza oferecia, torrava café, servia jaca mole com farinha. “De uma maneira ou de outra, tudo isso permeou a minha identidade enquanto gastrônomo”, diz.
Qual o ingrediente principal que dá sabor à vida? Para Ronaldo Assis (@afrochefronaldoassis), a resposta começa antes do prato: é comida de verdade, é quem planta, quem cozinha, é o território e os valores de um povo e como ele, junto, cuida da terra. É por isso que o Mundo Negro e o TikTok se uniram para essa jornada em busca de uma vida mais consciente, saborosa e equilibrada. Você vem junto? #IngredientePrincipal#TheMainIngredient
Estudou em colégio militar e tentou medicina por anos. Quando finalmente prestou o ENEM, colocou medicina em primeiro lugar e gastronomia como segunda opção. Passou em gastronomia na Unifax pelo ProUni, migrou depois para a UFBA, e foi se apaixonando cada vez mais pela área. Na oitava chamada, saiu a vaga em medicina. Mas ele não foi. Sua mãe, que sonhava com um filho médico, foi quem disse: “Você nasceu para isso.”
Bacharel em gastronomia pela UFBA, cozinheiro, pesquisador e contador de histórias através da comida, Ronaldo atua hoje com o Buffet LaRô Gastronomia, com catering, eventos, consultoria para criação de cardápios autorais, pesquisa histórica da culinária afro-brasileira, audiovisual e projetos culturais e sociais. Sua cozinha nasce, como ele mesmo define, “do afeto, da memória e da ancestralidade. Vem das mãos das mulheres da minha família, do Recôncavo e Portal do Sertão, do dendê quente, do fumeiro no varal, do feijão no fogo baixo, da rua, da feira, do terreiro, da partilha.”
É essa cozinha que ele leva para a campanha #IngredientePrincipal. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Ronaldo Assis é um deles. “Fazer parte do Ingrediente Principal é uma honra gigante pra mim. Acredito muito nesse projeto porque ele fala exatamente do que eu defendo: ingrediente é memória, ingrediente é território, ingrediente é gente.”
Para os jovens que pensam em seguir o mesmo caminho, o recado é direto: “Se você faz com amor, se você faz com paixão, se você faz com entrega, e se você faz bem feito, você vai ter sucesso. Não se desvencilhe das suas heranças. Porque o que me fez chegar até aqui foi entender que risoto nenhum é melhor do que o meu mocofato.”
A culinária chegou na vida de Bianca Oliveira pela porta da necessidade. Empreendedora criativa, ela buscou dentro de si o dom que já carregava. E foi quando começou a dar os primeiros passos que o dendê chegou e trouxe com ele tudo o que ela ainda não sabia que precisava encontrar. “Logo que comecei a dar os primeiros passos, o dendê chegou e trouxe com ele toda minha ancestralidade e reencontro com os meus, me abrindo caminhos e oportunidades”, conta.
Mulher preta, lésbica, mãe solo e filha de axé, Bianca é cozinheira e chef “soterosergipana”, nascida em Salvador e radicada em Aracaju. Sua formação não veio dos bancos de uma escola de gastronomia tradicional. Veio das suas origens, das suas vivências e de um processo profundo de autoconhecimento e reconexão com a ancestralidade. Teve na Chef Sol sua grande mentora nesse caminho.
O que começou com marmitas virou a Casa do Dendê, espaço que ela idealizou e conduz em Aracaju como um lugar de aquilombamento, celebração e resistência. Ali se servem acarajé, abará e feijoada, sempre com o azeite de dendê como fio condutor de uma cozinha que é, antes de tudo, cultural. “Uso a minha cozinha com a história e a cultura africana, desenvolvendo um trabalho de fortalecimento da identidade negra e da ancestralidade”, diz.
O mito de que azeite de dendê faz mal é um dos mais recorrentes quando o assunto é culinária afro-brasileira. A chef Bianca Oliveira (@user031374378 ) responde com dados: rico em vitamina A, vitamina E e antioxidantes naturais, o dendê protege as células e contribui para uma nutrição equilibrada. Mais do que ingrediente, ele representa cultura, identidade e a história viva da cozinha afro-brasileira. #IngredientePrincipal#TheMainIngredient#AzeiteDeDendê
O trabalho de Bianca ultrapassou as fronteiras de Sergipe. Foi finalista e Top 10 da Expo Favela, participou do programa de Luciano Huck e é embaixadora do Fundo Agbara e do Sebrae. O reconhecimento nacional é reflexo de uma cozinha que oferece mais do que comida: uma experiência cultural completa.
É esse olhar que ela leva para a campanha #IngredientePrincipal. O TikTok escolheu o Brasil para inaugurar essa campanha global, que conta com o Mundo Negro e o Guia Black Chefs como parceiros estratégicos na produção de conteúdo com 20 profissionais negros da gastronomia e nutrição. Bianca Oliveira é uma delas.
Para os jovens que querem seguir o mesmo caminho, ela tem uma bússola: “Que busquem de dentro pra fora a inspiração para criar e continuar. Quando o que fazemos nos nutre de alguma forma, a chance de seguir e prosperar aumenta, porque há um combustível chamado coragem.”
Da necessidade ao dendê, da marmita ao aquilombamento, Bianca Oliveira mostra que a cozinha também é lugar de existência.
O mercado de luxo no Brasil dá um passo importante contra a discriminação racial contra seus clientes. Neste Mês do Consumidor, a L’Oréal Luxo e a Sephora anunciaram com exclusividade ao Mundo Negro, a conclusão da capacitação de 100% de suas equipes de vendas no país contra o racismo. A ação faz parte do programa Afroluxo, que se fortalece com a adesão da Sephora ao Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro.
O movimento simboliza a expansão do Afroluxo, programa de longo prazo da L’Oréal Luxo criado em 2024 para enfrentar o racismo estrutural nas relações de consumo brasileiras, e reforça a importância da atuação conjunta entre indústria e varejo na promoção de uma beleza verdadeiramente diversa.
Para Sephora, a adesão vem como um aprimoramento de uma jornada de diversidade já estruturada, com políticas, metas e práticas consolidadas de diversidade, equidade e inclusão em toda a operação.
A marca mantém uma área dedicada exclusivamente à DE&I desde 2022 e uma estratégia contínua, chamada Sephora (+), voltada à promoção de pertencimento, representatividade e capacitação interna.
“O Afroluxo nasceu do compromisso da L’Oréal Luxo em transformar o mercado de beleza em um ambiente mais justo e representativo. Hoje, a realidade está bem distante disso: 9 em cada 10 consumidores negros enfrentam racismo nos ambientes de consumo de luxo. A adesão da Sephora, ícone em varejo de beleza no mundo, é motivo de muito orgulho para nós, reforçando nossa crença de que uma mudança efetiva só acontece quando indústria e varejo caminham juntos. Esse é um passo histórico, que nos aproxima de um novo padrão de atendimento e respeito à pluralidade da beleza brasileira”, afirma Bianca Ferreira, head de Comunicação, Diversidade e Sustentabilidade da L’Oréal Luxo.
O Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro reúne 10 diretrizes de autorregulamentação antirracista e propõe uma revisão das práticas de atendimento e consumo no setor. Embora sem validade jurídica, o documento estimula marcas e varejistas a repensarem suas condutas e a implementarem mudanças concretas em prol de uma experiência de compra ainda mais justa e acolhedora.
Entre as diretrizes, destacam-se:
● Capacitação antirracista: Estabelece a obrigatoriedade de treinamentos em letramento racial para colaboradores, com foco na eliminação de vieses e práticas racistas, sejam elas verbais ou não verbais.
● Excelência no atendimento: Propõe que consumidores negros sejam atendidos com atenção, respeito e qualidade desde o primeiro contato, reconhecendo a importância de reparar práticas históricas de exclusão e garantir uma experiência de compra acolhedora e equitativa.
● Livre acesso e circulação: Veda qualquer tipo de barreira — física ou simbólica — que restrinja o acesso de consumidores negros aos espaços de venda, garantindo igualdade de condições.
A Sephora terá o documento disponível em todas as 45 lojas da rede no Brasil, reafirmando seu compromisso público com a diversidade, a equidade e a inclusão.
Desenvolvido em parceria com a Black Sisters in Law e o MOVER, o Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro propõe uma revisão profunda na forma como consumidores negros são recebidos e atendidos nos pontos de venda. Como parte da adesão ao Código, os colaboradores das lojas passam por treinamento específico, certificado pelo ID_BR (Instituto Identidades do Brasil), parceiro estratégico do programa Afroluxo.
A iniciativa dialoga com os 21 dispositivos racistas identificados na pesquisa “Racismo no Varejo de Beleza de Luxo”, conduzida pela L’Oréal Luxo em 2024, e reforça o compromisso com a transformação concreta dos espaços de varejo.
“Na Sephora, diversidade, equidade e inclusão são compromissos permanentes e parte essencial da nossa estratégia de negócio globalmente falando. Temos metas públicas de e ações contínuas de capacitação e fortalecimento de uma cultura de pertencimento, e a parceria com a L’Oréal Luxo através do Afroluxo reforça esse propósito ao promover um varejo de beleza de prestígio mais justo e representativo. A adesão ao programa Afroluxo e ao Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro é mais do que um avanço: é mais um passo concreto na construção de um novo padrão de atendimento, respeito e pertencimento para a beleza brasileira. Essa é uma evolução natural da nossa trajetória de diversidade, que há anos orienta nossas decisões e experiências.”, destaca Marcele Gianmarino, Gerente de Inclusão e Diversidade no Brasil.
Para marcar o Mês do Consumidor e celebrar os direitos dos consumidores negros, L’Oréal Luxo e Sephora também promovem eventos exclusivos para consumidoras negras em diversas regiões do país, reforçando o protagonismo e a valorização da beleza negra. Os eventos irão acontecer ao longo de março e abril em praças selecionadas com datas ainda a serem confirmadas
Afroluxo: um novo padrão de inclusão no mercado de luxo
O Afroluxo lançado em 2024, é um programa de longo prazo que visa o enfrentamento ao racismo no mercado de luxo brasileiro. Seus pilares são: transformar o negócio, empoderar o ecossistema e impactar positivamente a sociedade.
Além do Código, o Afroluxo abrange diferentes iniciativas inéditas para combate ao racismo, como o primeiro protocolo de atendimento antiracista do mercado de luxo, auditorias anuais dos times de vendas com enfoque na questão racial através do Black Mystery Shopper; ampliação do portfólio de bases de Lancôme, que se tornou a marca de beleza não profissional com o maior portfólio para pele negra disponível no mercado brasileiro desde 2025; bem como o lançamento do Pacto Afroluxo de Enfrentamento ao Racismo nas Lojas de Beleza de Luxo, a primeira coalizão deste tipo no segmento que busca unir esforços entre o varejo e a indústria em prol do combate ao racismo.
O comando da Polícia Militar relatou que os três agentes envolvidos na morte da cirurgiã oncológica Andréa Marins Dias, de 61 anos, estavam com suas câmeras corporais descarregadas. O crime ocorreu no último domingo (15), em Cascadura, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A médica havia acabado de sair da casa dos pais, de 88 e 91 anos, quando foi alvejada pela PM durante uma suposta perseguição.
Imagens gravadas por moradores revelam o horror da abordagem. Enquanto o carro de Andréa exibia marcas de tiros no para-brisa e na traseira, um policial gritava: “Desce do carro. Desce ou vai morrer”, batendo na janela com um fuzil — mas a médica já estava sem vida.
Segundo as investigações, os policiais buscavam criminosos em um Corolla, enquanto a médica dirigia um T-Cross branco. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) apura agora se os agentes confundiram os veículos. Os três PMs foram afastados do patrulhamento e as armas utilizadas na ação foram apreendidas para perícia.
O sepultamento de Andréa Marins ocorreu nesta terça-feira (17), no Cemitério da Penitência, em uma cerimônia restrita a familiares e amigos. Referência na saúde da mulher, Andréa tinha quase 30 anos de carreira e era especialista no tratamento de endometriose e câncer.
Nota da PM na íntegra
“A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que, de acordo com as análises preliminares dos setores técnicos da Corporação, foi identificado que as baterias das câmeras corporais utilizadas pela equipe estavam descarregadas no momento da ocorrência.
Todos esses fatos seguem sob apuração integral da área correcional da SEPM.
Vale ressaltar que na corporação existem normas rígidas que determinam que os policiais, ao perceberem que há qualquer tipo de falha ou mau funcionamento das câmeras, devem regressar à unidade de origem para substituição dos equipamentos.
Os policiais seguem afastados dos serviços nas ruas.”
Uma estudante negra de apenas 11 anos foi alvo de ofensas racistas na Escola Municipal Forte dos Reis Magos, em São Mateus, Zona Leste de São Paulo. Ao tentar protegê-la, sua irmã mais velha foi agredida com um soco na boca pelo agressor, um menino de também 11 anos.
O crime aconteceu na semana passada e ganhou repercussão nesta quarta-feira (18). Segundo os relatos, após a menina ser xingada de “macaca” por um colega de classe, a irmã buscou satisfações, mas foi agredida fisicamente. O episódio gerou uma onda de indignação entre os alunos; cartazes denunciando o racismo foram colados nos portões da unidade em um ato de solidariedade às irmãs.
A violência, no entanto, não parou depois da ocorrência. Segundo a direção da escola, a mãe do agressor teria intensificado o conflito, proferindo ameaças de morte contra as vítimas e tentando agredir a assistente de direção.
Para Antonio Carlos Ferreira, pai das meninas, é preciso ter responsabilidade familiar na construção do preconceito: “Fiquei muito triste, porque uma criança não nasce racista, a criança é o reflexo do que ela aprende em casa.”
A família agora busca justiça. O advogado Abraão Leonardo Dutra Sales afirmou que, embora o agressor seja menor de idade, a luta jurídica agora foca na responsabilização cível dos pais e na aplicação de medidas socioeducativas. O caso foi registrado como lesão corporal, ameaça e preconceito de raça ou cor.
Em nota, a Secretaria de Educação informou que o aluno agressor foi transferido para a rede estadual a pedido da família e reiterou manter políticas de combate ao racismo.
Casos de racismo podem ser relatados ao Disque 100 ou em delegacias especializadas!
Em 1948 o lendário Abdias do Nascimento enviou uma Carta aberta ao Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, na qual denunciava que: ”Basta um negro ser detido por qualquer coisa insignificante – assim como não ter uma simples carteira de identidade – para ser logo tratado como se já fosse um criminoso. Dir-se-ia que a polícia considera o homem de cor um delinquente nato, e está criando o delito de ser negro”.
Mais de meio século depois o Supremo Tribunal Federal reproduzia, com outras palavras, o pungente postulado de Mestre Abdias, agora revestido de força própria de sentença proferida por nossa mais alta Corte. Disse o STF no julgamento do denominado HC do Perfilamento Racial:
“Os policiais não podem decidir abordar pessoas apenas com base em sua raça, sexo, orientação sexual, cor da pele ou aparência física. Essa conduta discriminatória desrespeita a dignidade humana e viola outros direitos fundamentais previstos na Constituição. A revista só pode ser realizada quando a pessoa estiver em posse de arma de uso proibido ou com objetos que indiquem a prática de crime.”(STF – Pleno, HC 208.240, j. 11.04.2024)
Transcorridos poucos dias deste julgamento paradigmático, a questão do racismo intencional voltou a ser tratada pelo pleno de nossa Suprema Corte, com reconhecimento explícito de discriminação racial praticada diariamente por todo o sistema de persecução penal:
“(…)O branco, para ser considerado traficante, tem de ter 80% a mais que o preto ou pardo. (…) Isso realmente vem gerando uma discricionariedade exagerada, insisto, no início da autoridade policial, passando pelo Ministério Público e chegando ao Poder Judiciário. Todo sistema de persecução penal vem gerando discriminação, porque as medianas quantitativas são muito diferentes nos critérios de grau de instrução, idade e cor da pele. Não há razoabilidade para isso. O estudo demonstra que não há razoabilidade para isso. (…)Por exemplo, um analfabeto negro e jovem leva desvantagem em relação a um branco maior de 30 anos, com curso superior, que pode ter, às vezes, até 136% a mais de droga. Não há razoabilidade nisso. (STF – RE 635.659 – Rel. Gilmar Mendes, j. 26.6.24 – extratos do voto vista do Ministro Alexandre de Moraes)
Analisando o fuzilamento perpetrado no último domingo, a sangue frio, que destroçou a trajetória luminosa da médica negra Dra. Andréa Marins Dias caberia perguntar, à luz destes julgados, qual seria a arma ou objetos de crime que ela levava consigo? Teria esboçado alguma reação? Teria pronunciado algo inconveniente aos ouvidos sensíveis do agente de autoridade policial que insiste em ser tratado como autoridade?
A resposta, como sabemos, é terminanente negativa! Bastou que ela fosse negra para que o agente se sentisse autorizado – com aval de boa parte da sociedade, diga-se – a alvejá-la, ciente de que logo surgiriam as teses do “engano”, do “fato isolado”, a velhacaria dos “afastamentos temporários” e no fim da linha uma provável sentença de um tribunal militar decretandoque 257 disparos efetuados na direção de um veículo não demonstram intenção de matar – como no caso do músico Evaldo dos Santos Rosa.
Como diz a famosa canção de Caetano e Gil, “Haiti”, “todos sabem como se tratam os pretos”!!!
Há décadas o Brasil é signatário de uma Convenção para Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio e adotou uma lei federal que pune este tipo de crime, ambas dormitando em berço esplêndido num país em que milhões de pessoas tratam a temática racial como “mimimi”.
Assombrado com a naturalização do genocídio da juventude negra no Brasil, em 2020 o Senador Paulo Paim apresentou o projeto de lei n. 5404/2020 criando uma circunstância qualificadora (espécie de agravante) do homicídio motivado por clivagem racial – exatamente como no caso da Dra. Andréa Dias e de milhares de indivíduos mortos diariamente pelo fato de serem negros.
Mais do que uma qualificadora racial do homicídio, ja passa da hora de o Congresso Nacional criar um tipo autônomo de genocídio no Código Penal – a exemplo do feminicídio – com causas de aumento de pena (na hipótese de vítima criança, gestante ou idoso/a por exemplo), aplicando-lhe a Lei dos Crimes Hediondos, agravando a lei de execução penal e assegurando prioridade de tramitação.
A Dra. Andréa Dias foi morta pela violência racial, por desprezo ou discriminação à sua condição racial – fosse uma loira pobre muito provavelmente estaria viva – porquanto a resposta punitiva deve ser condizente com a gravidade da conduta.
Não é aceitável que a imolação da Dra. Andréa Dias tenha sido em vão ou seja empurrada, com a passagem do tempo, para a galeria do naturalização e da impunidade – já alertava Abdias nos anos cinquenta do século passado.
Hédio Silva Jr., Advogado, Mestre e Doutor em Direito pela PUC-SP, escritor e conferencista, é fundador do IDAFRO – Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-brasileiras e do Jusracial @drhediosilva
A médica Andrea Marins Dias, de 61 anos, foi morta a tiros por policiais militares do 9º BPM (Rocha Miranda) na noite deste domingo (15), em Cascadura, Zona Norte do Rio de Janeiro. A policia investiga se o agentes teriam confundido o carro da vítima com o de criminosos.
Andrea havia acabado de sair da casa dos pais e dirigia um Corolla pela Rua Palatinado quando foi atingida. Segundo a Polícia Militar, a equipe buscava assaltantes que utilizavam um T-Cross branco, além de um Jeep e uma motocicleta, nenhum modelo compatível ao da cirurgiã oncológica.
Imagens da abordagem mostram o momento em que os agentes cercam o veículo de Andrea e chegam a bater com um fuzil na porta da motorista. Ao abrirem o carro, os policiais encontraram a médica já sem vida. Testemunha registrou momento que um agente grita: “Desce irmão, vai morrer! Vai morrer, irmão, desce!”.
A corporação alega que houve ordem de parada e troca de tiros durante a perseguição, que culminou no baleamento da médica.
A Polícia Militar instaurou um procedimento interno para investigar as circunstâncias da ocorrência, resultando no afastamento preventivo dos agentes envolvidos e na apreensão de suas armas, enquanto o carro da vítima passou por uma perícia complementar nesta segunda-feira (16).