Um homem negro de 56 anos denunciou ter sido obrigado a retirar parte da roupa que usava em um supermercado da linha “Assaí” atacadista em Limeira (SP), para provar que não havia furtado nenhum objeto.
O caso aconteceu na noite de sexta-feira, mas o registro foi feito na Polícia Civil na manhã de sábado. Segundo relato do homem à polícia, ele saia do supermercado quando foi abordado por dois seguranças. A vítima teve que tirar a camiseta e mostrar a cueca para os seguranças provando estar saindo do local sem levar nada escondido dentro de suas roupas.
O homem relatou ainda aos policiais que havia entrado no mercado apenas para verificar alguns preços de produtos e por isso estava deixando o local sem comprar nada e, consequentemente, sem passar pelo caixa e que tinha explicado isso ao segurança.
A abordagem ao homem aconteceu na frente de diversas pessoas que estavam no supermercado. A ação foi filmada por diversos clientes que se mostraram indignados com a exposição. Constrangido com a situação, o rapaz começou a chorar sendo amparado por pessoas que presenciaram a cena.
Após tirar a roupa e mostrar que não estava furtando nada, o homem foi liberado para deixar o local. Ele procurou a Polícia Civil para registrar o caso que entrará com uma investigação sobre o caso.
Instalada na casa sede da antiga Fazenda Roseira, a Casa de Cultura Fazenda Roseira é desde de agosto de 2007, um equipamento público. Ela é ocupada e gerida pela comunidade Jongo Dito Ribeiro, sendo bastante conhecida na região por seus eventos como rodas de jongo, festejos, festas juninas, feijoadas de resistência, rodas de capoeira, projetos para todas as idades, discussões sobre tecnologia, ancestralidade, entre outros.
Entretanto, esse símbolo de resistência da luta negra em Campinas ( uma das últimas cidades do país a abolir a escravidão) vem sofrendo com vandalismo e intolerância nos últimos meses. Em janeiro desse ano, a casa foi depredada e furtada, entre os objetos danificados ou levados a administração citou: câmeras, holofotes, alarmes, trincos e fechaduras, uma televisão, um fogão, uma pia, portas, um gira-gira, um cano de água, toda a fiação externa de iluminação e também materiais infantis.
O mato alto, a pouca iluminação e falta de segurança torna a casa ainda mais vulnerável aos ataques, e mesmo com vários pedidos para a solução desses problemas, eles ainda não foram solucionados. Tanto que na noite de ontem, domingo (08) um incêndio começou na Fazenda Roseira. Apesar de ter sido controlado antes que tomasse maiores proporções, ele acabou com boa parte da plantação da fazenda. Nas redes sociais, o público cobra por respostas da prefeitura sobre o pouco caso com esse patrimônio cultural da cidade.
Até o momento, ninguém foi preso por nenhum dos danos causados ao patrimônio.
Ex-marido da atriz, Rico Hines, teve vídeo de sexo com outra mulher vazado na internet em 2016.
A atriz Tichina Arnold entrou com um pedido de divórcio do técnico de basquete Rico Hines, com quem se casou em agosto de 2011. Os dois já estavam separados desde 2016, quando uma gravação de Hines fazendo sexo com outra mulher vazou. De acordo com o TMZ, Tichina pediu o divórcio no início desta semana, indicando “diferenças irreconciliáveis”.
A gravação vazou para o público, o que fez com que a atriz se separasse do treinador de basquete. Segundo Tichina, Hines já a havia traído várias vezes desde o início do casamento. Em entrevista à People, Tichina Arnold disse que “está além do fato de que a infidelidade acontece. Nós cometemos erros. E corrigimos alguns erros de suas infidelidades anteriores. Mas quando se torna um padrão, não é mais problema meu. Chega um ponto em que você tem que abandonar o navio e se salvar”.
Tichina Arnold e Rico Hines se casaram em 18 de agosto de 2012. Eles não têm filhos juntos. Tichina Arnold solicitou que o tribunal restringisse os pedidos de pensão de qualquer uma das partes no julgamento de divórcio em andamento.
A Olimpíada de de Paris 2024 vai trazer o breakdance para a lista de esportes participantes. O evento vai repetir a fórmula da edição recém finalizada em Tóquio, incorporando às competições esportes que conversem com os jovens e com a cultura urbana, visando aumentar o nicho de público e modernizar os Jogos Olímpicos. O breakdance nasceu como um dos elementos da cultura Hip-Hop e era usado como forma de evitar que jovens negros entrassem para gangues de rua.
Imagem: Nika Kramer
O surf e o skate fizeram grande sucesso este ano e estarão novamente na próxima edição, embora ainda não considerados fixos e precisando de análise a cada edição.
É benéfico que haja inovações conforme a popularidade e demanda pela prática de esportes não tradicionais aumente, como já foi o caso do vôlei de praia em 1996, da BMX em 2008 e este ano do skate. Dança é uma linguagem universal e já existem competições em vários países do mundo com b-boys e b-girls (nome dado aos praticantes) de todos os continentes.
As competições de breakdance estão sob a responsabilidade da WDSF (World Dancing Sports Federation), uma entidade criada para organizar as competições internacionais de dança de salão e foi ela que apresentou o projeto de inclusão do esporte. As Olimpíadas da Juventude costumam ser usadas para teste das novas modalidades a serem incluídas no evento principal e a edição de 2018, sediada em Buenos Aires, contou com a dança em batalhas de um um round na primeira fase. Os dançarinos mostram seus passos de forma alternada e é criado um ranking pelos jurados com os mais bem avaliados (chamado de “round robin”). Depois disso vem a fase eliminatória e as finais que são decididas em batalhas de quatro rounds. passam a ser de melhor de quatro rounds. Vence quem tiver, no total, mais votos dos juízes na soma de todos os rounds. Os critérios dos jurados envolvem técnica, variedade, criatividade e personalidade, performance, musicalidade.
Um dos grandes expoentes do breakdance no Brasil é o paulista Pelezinho, primeiro brasileiro a chegar numa final mundial em competição do estilo. Em entrevista para o site Breaking World, o dançarino deu sua impressão de quais são as chances do país em 2024: “Temos B-Boys e B-Girls que possam disputar medalhas para o Brasil, mas tudo depende de toda a estrutura e logística que será montada aqui no Brasil, de como será, se vai convidar os B-Boys e as B-Girls direto ou se vai fazer etapas. Então, dando uma resumida, eu acho que já estamos atrás dos outros países: o Japão já tem o time pronto, a Holanda praticamente também, a França, EUA, a China e o Brasil ainda não está! Quem estiver na frente tem que fazer de verdade! E resolver tudo o mais rápido possível, porque esse ano já descartamos praticamente, então, só sobra 2023 e 2024. Porque até o processo todo ser feito com a estrutura. Estou falando da minha visão como dançarino e como produtor e criador de eventos”, apontou.
O Brasil não teve representantes da modalidade nos Jogos Olímpicos da Juventude em Buenos Aires.
Parte da renda das venda das peças será revertida para as ações do ID_BR
Em parceria com o ID_BR – Instituto Identidades do Brasil a Hering lança coleção que pretende ampliar a conscientização e o engajamento com o movimento antirracista. As peças, que terão parte da venda revertida para o ID_BR, chegam ao e-commerce da marca nesta segunda-feira (9). Com este lançamento, a Hering se torna a marca oficial das camisetas que levam o logo da campanha Sim à Igualdade Racial, assinada pelo ID_BR. Além da peça icônica da linha, a coleção traz também moletons, calças e bermudas em uma cartela com tons do bege ao marrom.
O símbolo que estampa as peças tem foi construído a várias mãos, como explica a diretora executiva do ID_BR, Luana Génot. “Eu fiz o símbolo, Kenyu Kanashiro coloriu o símbolo e o Gustavo Zimmerman foi o co-idealizador. Essa logo foi pensada para representar a luta pela igualdade racial. É um coração que geometricamente representa a sociedade e que evoca um convite para que todo mundo se dê as mãos para lutar por um mundo mais igualitário. Um mundo que ainda é um ideal, não é uma realidade, também longe de ser uma romantização de uma sociedade que tem a igualdade como algo estabelecido e, por isso, é um símbolo que se propõe a ser um convite. A gente convida a sociedade para ter um coração mais aberto para uma igualdade racial exercida na prática”, conta.
Para Luana, a moda tem uma forte conexão com a transmissão de ideias e valores atrelados ao que as pessoas vestem. “A ideia de dizer ‘Sim à igualdade racial’ em parceria com a Hering é fazer, de fato, com que as pessoas vistam a camisa, ou melhor, vistam a camiseta. E, a partir disso, fazer com elas se sintam mais envolvidas e engajadas com a causa tendo algo que é bastante próximo ao corpo delas e que as lembre de que esse engajamento ele precisa ser algo diário. É um convite para todo mundo, de fato, possam colocar essa causa em pauta todos os dias”, defende.
Para Fabíola Guimarães, diretora de marcas da Hering, a realização da campanha é um convite para os usuários da marca.“A Hering é inclusiva por essência e o nosso básico está em ir além. Apoiar a igualdade racial é primordial para o momento que passamos no país. Uma marca legítima brasileira, acredita e valoriza a importância do seu povo e convida os clientes a refletirem sobre como serem antirracistas na prática”, afirmaa.
Xande de Pilares foi o convidado da semana no programa Trace Trends. Falando sobre sua história na música e carreira, o compositor comemora a chegada aos 50 anos, sendo um homem negro de periferia. “Tinha uma história, no morro, que eu ia morrer com 30 anos. (…) Eu perdi tantos amigos na minha infância e adolescência e eu achei que eu não chegaria nem aos 30. Cheguei aos 50 e sem ter a cara de 50, então tá tudo certo!”, brinca. No papo, Xande ainda ressalta alguns nomes da música brasileira que o inspiram como Alcione, Zeca Pagodinho e Martinho da Vila.
Com mais de 30 anos de estrada, Xande de Pilares revelou no programa que teve que ir contra a vontade de sua avó para se tornar músico. “Tive que contrariar minha avó que não queria que eu mergulhasse na música. (…) A minha mãe foi muito corajosa por abdicar da música e lutar pela família. Com certeza se ela optasse pela música, eu não estaria aqui… Tudo acontece como tem que acontecer”, diz.
Durante a conversa, o sambista falou sobre o início e a retomada de sua carreira, apontando a relação com o samba como um traço significativo de sua história e seu lugar de origem, como também a herança musical de sua família, o que abriu portas para que pudesse estar neste meio e representar os seus.
O programa traz ainda tudo sobre o filme “Doutor Gama”, de Jeferson De, Ad Júnior explicando o termo afrodescendente, a música e arte de Alice Guél, as dicas e conselhos de Babu Santana e as novidades musicais com “Bafros” de Dexter, 2:22music, Kynnie, Original Groove, Larissa Luz, Renegado com Grupo Bom Gosto, Master KG com David Guetta e Akon.
Com apresentação de Alberto Pereira Jr., Xan Ravelli, Ad Júnior, João Luiz Pedrosa e Babu Santana, a nova temporada do Trace Trends tem, a cada semana, um episódio inédito exibido às quartas-feiras no Globoplay e às sextas-feiras, às 17h, no Multishow.
Em entrevista ao Atlanta Black Star, o ator Alfonso Ribeiro, mais conhecido pelo seu personagem em “Um maluco no pedaço”, conversou sobre se sentir um “estranho” na comunidade negra por ter se casado com uma mulher branca, a esposa Angela Ribeiro e ter um histórico de relações apenas com mulheres brancas.
“Estou em um relacionamento interracial e recebo coisas, como olhares e comentários constantemente”, constatou. O comentário foi em resposta à uma pergunta ao saber se ele já tinha ouvido se não era “negro o suficiente”, como seu personagem Carlton foi contado no oitavo episódio da quarta temporada depois que ele tentou fazer parte de uma fraternidade negra.
“Estou em meu próprio mundinho com o apoio de quase ninguém, apenas por estar apaixonado por alguém que me apaixonei. Como isso faz sentido ? Não importa. Todos nós queremos viver em um mundo onde todos sejam aceitos por serem quem são, amados e viverem da maneira que escolheram para viver. Apoiarei qualquer pessoa que queira viver em um mundo em que queira viver”, disse.
“Eu vivo em um mundo interracial e amo esse mundo. Eu vivo em um mundo negro e amo esse mundo. Eu sinto que todos deveriam ser apoiados. Eu lido com isso o tempo todo. Acho engraçado pelo fato de que sou um apresentador de televisão convencional, estou no jogo há muito tempo e poderia comprar ingressos para ir ao BET Awards”, finalizou o ator ao responder a questão.
Luiz Gama tem tido cada vez mais reconhecimento, seja por pares do direito, área pela qual ficou conhecido, seja por pessoas que têm tido contato com sua luta abolicionista. E para coroar um ano extremamente benéfico para a memória de Gama, chega aos cinemas “Doutor Gama”, dirigido por Jeferson De. E não teria mãos melhores para comandar um longa sobre essa figura histórica do que o diretor responsável por ‘Correndo Atrás’ e ‘M8 -Quando a Morte Socorre a Vida’, todos filmes protagonizados por pessoas pretas.
FOTO TIRADA EM PARATY 22/02/2019
O olhar racializado faz bem para o longa que em nenhum momento usa o período de escravidão para chocar o público com cenas de violência contra os escravizados, recurso utilizado recentemente em produções norte-americanas.
O longa passa rapidamente pela infância do futuro advogado e sua vontade de aprender a ler desde pequeno e sua venda como escravizado pelo pai. Em seguida, o jovem Gama (Angelo Fernandes) está com Antônio (Johny Massaro), o amigo que o ensinou a ler numa mesa de bar conversando com advogados brancos sobre direito com propriedade de doutor. Infelizmente essa fase da vida é mostrada de forma corrida e pouco vemos da formação e dúvidas que permearam a juventude do abolicionista e isso faz um pouco de falta. Inclusive a relação com a jovem Claudina (Samira Carvalho) que passa correndo apenas mostrando o envio de cartas e os dons de Gama como poeta romântico.
Se o começo do filme parece vacilante e corrido, do meio para frente a obra ganha força e musculatura com César Mello encarnando de maneira excelente o personagem principal, que se vê diante de um caso difícil. Defender José (o ótimo Sidney Santiago) de uma condenação certa no caso em que o escravizado matou um ‘senhor’ para defender sua esposa de constantes abusos.
A contraposição às ponderações de Gama no tribunal ficam por conta de Pedro (Erom Cordeiro), que já tinha o antagonizado anos antes. O ator consegue despertar a antipatia esperada de um advogado que prega a morte de um escravizado e fornece bom contraponto ao discurso humanitário defendido por Luiz Gama.
É nos trechos do tribunal que reside a energia máxima do filme. A retórica do brilhante advogado sai de forma convincente da voz de Mello e há uma (não óbvia) quebra da quarta parede, com palavras que vão direto aos corações e mentes do espectador: “Quando um escravo mata o seu senhor, não estamos falando de assassinato. Não,senhores! Estamos falando de legítima defesa”.
Os olhos de cumplicidade e angústia de Claudina, vivida por Mariana Nunes suprem a ausência de mais diálogos entre os dois, o que desperta a curiosidade de como seria se houvesse maior exploração dessa dinâmica, mas para uma figura tão rica quanto Luiz da Gama, o longa cumpre bem seu objetivo de pintar um retrato sobre um ponto específico de sua história.
Não seria surpresa se Jeferson De fosse chamado para explorar outros casos do agora Doutor Honoris Causa pela USP ou até mesmo personagens que oferecem uma isão diferente quanto às formas de se lutar contra a escravidão como é o caso da imponente Maria Júlia, encarnada por Dani Ornellas.
‘Doutor Gama’ é um dinâmico suspense de tribunal que deixa a curiosidade ver mais sobre seu herói.
Alan Rocha, ator do musical “A Cor Púrpura”, da vida a Balthazar na nova produção das 18 horas da Globo, “Nos tempos do Imperador”, personagem que é um dos líderes da Pequena África, local que acolhe os negros após o comércio de escravos se tornar ilegal no país, a partir de 1831 (local hoje é a zona portuária do Rio de Janeiro).
Balthazar ajuda no resgate de escravos refugiados ou alforriados que por lá chegam a procura de abrigo e emprego, organiza uma forma de resgatar estes negros antes de serem escravizados. O personagem, como o ator, é músico, e um trio de choro é criado com a chegada de outros refugiados no local, como Samuel, personagem de Michel Gomes.
“Esse trio de choro formado pelo Baltazar (cavaquinho), com Samuel (violão) e Cariri (flauta), para mim, cria uma conexão com Pixinguinha, que frequentou muito as festas da Penha, bairro onde moro. Essa conexão também se dá a outros grandes chorões e ao inicio das formações desses grupos regionais de choro.”, declara Alan Rocha.
Imagem: Arquivo Pessoal ; nos tempos do imperador
No cinema, o ator está no elenco de “Doutor Gama” (Globo Filmes), longa-metragem de Jeferson De que também estreia em agosto. Mais um trabalho que retrata a época da abolição da escravatura do país, cinebiografia sobre a vida do advogado abolicionista Luiz Gama (1830-1882), nascido de ventre livre, mas vendido pelo seu pai aos 10 anos. Também no cinema, aguarda a estreia do filme “Os Suburbanos”, do Rodrigo Sant’Anna. Alan também participa em episódio da nova temporada do humorístico “Tô de Graça”, do Multishow.
Foto Miguel Angelo Ferreira
Com o ano de 2021 repleto de projetos sendo lançados na TV e no cinema, Alan Rocha planeja lançar mais duas músicas até o fim do ano, um novo videoclipe e aguarda ser convocado para os ensaios de um novo musical onde vai emprestar seu talento como um artista repleto de possibilidades – na atuação, na música, nas artes do seu país.
“Todos da nossa classe artística desejam este retorno aos palcos e estou ansioso para começar os trabalhos que já estou no elenco. Enquanto isso, organizo a consolidação do “Clube AKorin”, projeto que traz o teatro e a musicalização infantil. A valorização da cultura negra para a infância nas redes sociais, que será veiculado no YouTube e no Instagram.”, afirma o inquieto Alan Rocha.
Em seu quarto livro, a escritora revisita memórias de vida dialogando com a saudosa Dona Antônia, sua avô materna
Quando o surfista Ítalo Ferreira ganhou a medalha de ouro nas Olimpíadas de Tokyo, disse: “Eu queria que minha avó estivesse viva para ver isso. Para ver o que eu me tornei”. Essa atitude de olhar para trás em reverência ancestral, que a tradição africana denomina de sankofa, é a síntese do novo livro da filósofa e feminista negra, Djamila Ribeiro. Em ‘Cartas para Minha Avó’ (Companhia das Letras, 2021), seu quarto lançamento, a escritora traz memórias e pensamentos através de epístolas endereçadas a Dona Antônia, sua avó materna, mostrando uma escrita íntima, delicada, e igualmente repleta de sabedoria.
enzedeira famosa em São Dimas, bairro de Piracicaba, Dona Antônia foi figura fundamental na vida de Ribeiro. A matriarca de uma família de sete filhos, faleceu aos 68 anos, em decorrência da fragilidade da saúde que foi se acentuando depois de uma picada de barbeiro, deixando um legado de cuidado, visão de mundo e personalidade que influenciam fortemente a escritora.
“Ao ver seus olhos na foto, entendi de onde herdei os meus”, descobre a autora por meio das reminiscências entre os quintais da avó no interior de São Paulo e o apartamento em Santos, onde acompanhamos histórias sobrepostas que narram o crescimento e amadurecimento de Djamila. E a narrativa vai além dos episódios de racismo e questões de gênero, temas vivenciados e amplamente abordados em suas obras predecessoras e no seu ativismo. Nas cartas há espaço para uma menina traquina, partilhando a experiência do primeiro beijo; de uma moça que é sucesso na pista de dança e chora com músicas românticas; e de uma poeta que foi premiada com seus versos.
A presença da ancestralidade é recorrente na obra em várias nuances. Já na capa se apresenta um ofá (flecha) de Oxóssi, orixá de frente da escritora, anunciando essa procura às suas raízes. Em ‘O Espírito da Intimidade’ (Odysseys, 2003) Sobonfu Somé mostra como os parentes da aldeia Dagara em Burkina Faso são importantes para o fortalecimento de seus seus familiares, sobretudo na escuta, orientando-os em suas decisões.
Como “Brasil também é África” (leia o livro para entender essa máxima), a experiência diaspórica é similarmente vivenciada por Djamila, que se conecta com seus familiares ancestrais partilhando momentos de sua trajetória. E aqui o diálogo se expande para Dona Erani e Seu Joaquim, mãe e pai da autora, que também faleceram precocemente. Relação amorosa, ensinamentos, orientações pra combater o racismo e demais vivências que Ribeiro teve no bojo familiar, foram diretrizes para criar sua filha Thulane, rompendo alguns ciclos (como conversas sobre sexo, consideradas tabus pra suas mais velhas) e realizando a manutenção de outros, como a proteção vinda das rezas e do banho de erva
Há brechas para o riso e para o choro. Nesta obra, a neta fala tanto quanto a celebrada escritora, que também é uma mulher apaixonada e sonhadora, sem deixar desvanecer a sua potência enquanto ativista, e sua força como uma das 20 mulheres de sucesso do Brasil, segundo a Forbes (2021). Assim, a autora consegue ilustrar a profundidade das múltiplas facetas que compõem as pessoas negras, opondo-se à insistência em colocá-las numa narrativa de apenas dor ou superação. Isso é humanizar pessoas.
É positivo o fato de uma mulher negra em ascensão, sinônimo de influência e poder, contar suas intimidades e vulnerabilidades, pois assim fortalece a identificação das pessoas que a leem. Afinal, como pontua a escritora, “restituir a humanidade também é assumir fragilidades e dores próprias da condição humana”.
Ao contar histórias de sua avó, Ribeiro conta suas próprias histórias, as de sua mãe, e as de tantas outras mulheres negras (e também homens) que, mesmo carregando suas narrativas individuais, partilham de dores, dengos e delicadezas comuns.
Seja pela experiência do racismo, ou pelas similaridades presentes no convívio e na cultura de famílias pretas, conseguimos identificar as Antônias, as Eranis, as Djamilas e as Thulanes que passam pelo tempo cronológico, mas permanecem em nossas vidas e nas vidas dos nossos. Contar essa história é uma forma de perpetuar a presença antepassada, que foi responsável por abrir caminhos e continua sendo esteio existencial. No fundo Djamila sabe que, mesmo não estando presente em matéria, Dona Antônia comemora, do Orun, a medalha de ouro que é sua neta. Axé!
‘Cartas para Minha Avó ’Djamila Ribeiro Companhia das Letras, 2021200 páginas R$34,90 (venda no site)
*Lucas de Matos é soteropolitano, Comunicador com habilitação em Relações Públicas (UNEB) e Pós-Graduando em Comunicação e Diversidades Culturais (Faculdade 2 de Julho). É poeta e apreciador da literatura.
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