Em seu quarto livro, a escritora revisita memórias de vida dialogando com a saudosa Dona Antônia, sua avô materna

Quando o surfista Ítalo Ferreira ganhou a medalha de ouro nas Olimpíadas de Tokyo, disse: “Eu queria que minha avó estivesse viva para ver isso. Para ver o que eu me tornei”. Essa atitude de olhar para trás em reverência ancestral, que a tradição africana denomina de sankofa, é a síntese do novo livro da filósofa e feminista negra, Djamila Ribeiro. Em ‘Cartas para Minha Avó’ (Companhia das Letras, 2021), seu quarto lançamento, a escritora traz memórias e pensamentos através de epístolas endereçadas a Dona Antônia, sua avó materna, mostrando uma escrita íntima, delicada, e igualmente repleta de sabedoria.

enzedeira famosa em São Dimas, bairro de Piracicaba, Dona Antônia foi figura fundamental na vida de Ribeiro. A matriarca de uma família de sete filhos, faleceu aos 68 anos, em decorrência da fragilidade da saúde que foi se acentuando depois de uma picada de barbeiro, deixando um legado de cuidado, visão de mundo e personalidade que influenciam fortemente a escritora.

“Ao ver seus olhos na foto, entendi de onde herdei os meus”, descobre a autora por meio das reminiscências entre os quintais da avó no interior de São Paulo e o apartamento em Santos, onde acompanhamos histórias sobrepostas que narram o crescimento e amadurecimento de Djamila. E a narrativa vai além dos episódios de racismo e questões de gênero, temas vivenciados e amplamente abordados em suas obras predecessoras e no seu ativismo. Nas cartas há espaço para uma menina traquina, partilhando a experiência do primeiro beijo; de uma moça que é sucesso na pista de dança e chora com músicas românticas; e de uma poeta que foi premiada com seus versos.

A presença da ancestralidade é recorrente na obra em várias nuances. Já na capa se apresenta um ofá (flecha) de Oxóssi, orixá de frente da escritora, anunciando essa procura às suas raízes. Em ‘O Espírito da Intimidade’ (Odysseys, 2003) Sobonfu Somé mostra como os parentes da aldeia Dagara em Burkina Faso são importantes para o fortalecimento de seus seus familiares, sobretudo na escuta, orientando-os em suas decisões. 

Como “Brasil também é África” (leia o livro para entender essa máxima), a experiência diaspórica é similarmente vivenciada por Djamila, que se conecta com seus familiares ancestrais partilhando momentos de sua trajetória. E aqui o diálogo se expande para Dona Erani e Seu Joaquim, mãe e pai da autora, que também faleceram precocemente. Relação amorosa, ensinamentos, orientações pra combater o racismo e demais vivências que Ribeiro teve no bojo familiar, foram diretrizes para criar sua filha Thulane, rompendo alguns ciclos (como conversas sobre sexo, consideradas tabus pra suas mais velhas) e realizando a manutenção de outros, como a proteção vinda das rezas e do banho de erva

Há brechas para o riso e para o choro. Nesta obra, a neta fala tanto quanto a celebrada escritora, que também é uma mulher apaixonada e sonhadora, sem deixar desvanecer a sua potência enquanto ativista, e sua força como uma das 20 mulheres de sucesso do Brasil, segundo a Forbes (2021). Assim, a autora consegue ilustrar a profundidade das múltiplas facetas que compõem as pessoas negras, opondo-se à insistência em colocá-las numa narrativa de apenas dor ou superação. Isso é humanizar pessoas. 

É positivo o fato de uma mulher negra em ascensão, sinônimo de influência e poder, contar suas intimidades e vulnerabilidades, pois assim fortalece a identificação das pessoas que a leem. Afinal, como pontua a escritora, “restituir a humanidade também é assumir fragilidades e dores próprias da condição humana”.

Ao contar histórias de sua avó, Ribeiro conta suas próprias histórias, as de sua mãe, e as de tantas outras mulheres negras (e também homens) que, mesmo carregando suas narrativas individuais, partilham de dores, dengos e delicadezas comuns. 

Seja pela experiência do racismo, ou pelas similaridades presentes no convívio e na cultura de famílias pretas, conseguimos identificar as Antônias, as Eranis, as Djamilas e as Thulanes que passam pelo tempo cronológico, mas permanecem em nossas vidas e nas vidas dos nossos. Contar essa história é uma forma de perpetuar a presença antepassada, que foi responsável por abrir caminhos e continua sendo esteio existencial. No fundo Djamila sabe que, mesmo não estando presente em matéria, Dona Antônia comemora, do Orun, a medalha de ouro que é sua neta. Axé!

‘Cartas para Minha Avó ’Djamila Ribeiro Companhia das Letras, 2021200 páginas R$34,90 (venda no site)

*Lucas de Matos é soteropolitano, Comunicador com habilitação em Relações Públicas (UNEB) e Pós-Graduando em Comunicação e Diversidades Culturais (Faculdade 2 de Julho). É poeta e apreciador da literatura.

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