Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino e o afroempreendedorismo durante a pandemia

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Foto: Reprodução instagram

No dia 19 de novembro, é celebrado o Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de homenagear as mulheres e seus negócios próprios. Sabemos que 48% do total de microempreendedores individuais (MEI) brasileiros são mulheres. E segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), apenas nos últimos dois anos, o número de mulheres que empreendem como principal fonte de renda subiu de 38% para 45%. Mas, a verdade é que sempre precisamos analisar este tipo de pauta e celebração do ponto de vista da mulher negra, pois é a partir do recorte racial que parte nossa régua. 

Por isso, nesta data o Mundo Negro conversou com a afroempreendedora e consultora de negócios Caroline Moreira, CEO da rede Negras Plurais – uma startup e aceleradora de negócios de mulheres negras. Caroline é graduada em Ciências Contábeis, especialista em autoconhecimento e responsabilidade social. Além disso, também atua como facilitadora do Afrolab da Feira Preta e como curadora e Gerente de Projetos do Canal Preto do MPT, OIT e ONU.

Confira a entrevista completa:

Mundo Negro: Conte sua trajetória no empreendedorismo, dores e glórias.
Caroline Moreira: Minha trajetória como empreendedora começa aos 16 anos quando eu comecei a trabalhar e já decidi que teria uma renda extra, a partir da venda de bolos e doces. Isso foi algo que aprendi com a minha mãe e com a minha avó. E sempre gostei muito de vender, então comecei entendendo isso quanto um bico, e não empreendedorismo. Em 2000, quando entrei na faculdade, no curso de Ciências Contábeis, comecei a fazer renda extra vendendo trufas. Então, a minha trajetória começa muito desse lugar de entender que a trufa não era só uma trufa, mas sim um negócio. Dalí, passei a montar uma rede de revendedoras de trufas na faculdade, e isso foi se ampliando. Depois disso, trabalhei em diversas empresas, mas sempre tendo outros trabalhos autônomos em paralelo. O trabalho por si só, nunca me satisfazia, então eu sempre tinha que continuar o comércio de alguma coisa. Eu vendi bolsas, bijuterias, marmitas, doces, pizza, estava sempre vendendo algo durante todo o meu período de formação – que foi bem longo, pois levei mais de 10 anos para me formar. Mais tarde, quando eu me vi mãe, e ainda na faculdade, entendi que existia um outro lugar e que eu gostaria muito de entender, que era sobre mim, sobre me entender quanto mulher negra, sobre o que significava o racismo na minha vida, e foi aí que fui começando a me descobrir negra. A partir deste despertar, eu entendi que existia um caminho que era o do afroempreendedorismo, ou seja, um empreendedorismo pautado nas questões raciais. Neste momento, a faculdade já não estava mais dando conta dessa expectativa que eu estava, desta descoberta que eu estava vivendo e deste empreendedorismo que eu estava conhecendo. Então comecei com algumas amigas a criar alguns projetos, o último deles foi o “Três Tons de Preto”, a primeira produtora de cultura negra em Porto Alegre. Este trabalho teve uma repercussão nacional, o que levou à grupos de influenciadoras, intelectuais e artistas negras. E foi aí que eu comecei a entender que existiam vários processos nossos enquanto mulheres negras, e que eu poderia ser uma facilitadora pela minha rede de contatos. 

Mundo Negro: Como foi o processo de começar a levar esse conhecimento para outras mulheres?
CM: Tive a ideia de fazer um evento, reunindo as mulheres negras que passaram a me ensinar muito sobre negócios e negritude. Meu objetivo era ampliar esse conhecimento, de levar à outras mulheres. E aí eu criei a rede Negras Plurais, que é o meu empreendimento atual, desde 2018. Apesar da rede ter sido o meu reposicionamento no mercado quanto empreendedora solo, eu queria que fosse um trabalho coletivo, trazendo as mulheres que me ensinaram e proporcionando conhecimento à novas mulheres. Então daí a criação da rede Negras Plurais teve esse norte de levar o conhecimento por meio de workshops. Os temas abordados são crenças limitantes e processos internos, além das técnicas que precisamos para manter os nossos negócios de forma competitiva no mercado. E com esses processos eu também fui aprendendo, estudando, até para que quando faltasse alguém para falar de determinado tema, eu estivesse pronta a apresentar. Como sou formada em Ciências Contábeis, acabou que a parte de finanças e precificação, comecei a abordar tanto nos workshops, quanto para empresas. Assim, a Negras Plurais foi tomando um rumo dentro do que eu já imaginava que seria, que era a criação da plataforma digital. 

Mundo Negro: Pensando nesta data do Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino, você acredita que as afroempreendedoras realmente comemoram esta data?
CM: Existem vitórias que às vezes não conseguimos nem comemorar, ou porque não dá tempo em meio a tanta correria, ou mesmo porque nos sentimos constrangidas. É como se fosse errado podermos exaltar que demos certo em nosso projetos, sendo que na minha concepção esse dar certo para nós pessoas negras, vai muito além do dinheiro. Me vejo como um caminho, de facilitar que mais mulheres negras possam chegar aonde outras chegaram, mas de forma mais leve, mais consciente e conectada com seus propósitos e sua ancestralidade.Eu apanho muito do sistema que decidi combater, que é o racismo. Mudei a minha forma de trabalhar, pois trabalhava muito no meio da militância, e então passando a trabalhar mais no meio do empreendedorismo hoje coloco foco nas potências, ao invés das dores. Eu aprendo todos os dias com todas as mulheres que mentoro e que estão na minha rede. 

Mundo Negro: Com a chegada da pandemia e do isolamento social, como você se organizou pessoalmente e quanto empresa?
CM: Eu já estava em isolamento, pois tinha acabado de ganhar minha filha. Eu já tinha planejado o que iria fazer em 2020, então quando todo mundo parou, eu apenas segui com os meus planos. Para mim, a pandemia acabou sendo uma oportunidade, pois eu vi que estava acontecendo um desespero em massa dos afroempreendedores sobre o que seria dessas marcas com a pandemia. Então quis promover uma tranquilidade de vivência, explicando que crise é algo que o povo negro sempre viveu, e a pandemia era apenas mais uma experiência para atuarmos como gestores de crise. Com tudo isso, decidi impulsionar o meu negócio, e por fim, colocar essa plataforma oficialmente no mercado. Oficialmente, porque já fazem 5 anos que eu sou uma referência para curadoria de pessoas, que me pedem indicações devido à minha grande rede de contatos. Isso também era fundamental, já que eu preciso ampliar o meu negócio quanto startup e trazer novas possibilidades. Quando a gente se torna essa plataforma, ficamos sem tempo de executar o que realmente queremos, que é essa transformação social. Essa ideia da plataforma digital já estava no papel desde a criação da Negras Plurais em 2018, porém eu ainda não tinha os recursos necessários. Então criamos o financiamento coletivo e o aplicativo já está pronto, na última fase de planejamentos para o lançamento oficial. A ideia é que esta não seja apenas mais uma ferramenta, estamos entrando no mercado para competir com os grandes do mercado, nos mais variados segmentos: moda, alimentação, beleza, entre outras. E sim, é importante ressaltar que nós negros temos que pensar que vamos competir e principalmente, em como seremos um diferencial nessa concorrência. Eu tirei esse mês de novembro para focar nos estudos, estou fazendo cursos todos os dias da semana, para ser assertiva com este lançamento.

“Somos negras durante todos os 12 meses do ano, não será novembro que determinará o quão relevante é o meu trabalho.”

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