Dia do Jornalista: Nenhuma grande redação tem diretores negros no Brasil

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S’thembiso Msomi do 'Sunday Times', Catherine Kim da NBC e Dean Baquet do 'New York Times'. Foto: Instituto Reuters.

A Comunicação já foi, por muito tempo, conhecida como o “quarto poder”. Capaz de influenciar decisões na política, rumos dos países e dos poderosos. Hoje, o termo já está um pouco fora de moda, mas a importância do jornalismo e da comunicação é cada dia mais visível. Infelizmente, assim como em todas as outras esferas de poder e decisão do Brasil, os negros também estão fora dos assentos de comando das maiores redações do país.

Pesquisa realizada pelo Instituto Reuters e divulgada em março deste ano, demonstra que, dos 80 editores que dirigem veículos relevantes no Brasil, Alemanha, África do Sul, Reino Unido e os Estados Unidos, apenas 12 são não-brancos. Nenhum desses doze é do Brasil. Muito se comemora a presença de âncoras e jornalistas negras e negros nas televisões nos últimos anos. E, embora a representatividade por meio da imagem seja, de fato, muito importante, não são os âncoras e repórteres que controlam a narrativa e as decisões dos veículos.

Para o Instituto Reuters, é importante saber quem são os editores dos veículos porque “existem preocupações de que a mídia pode deixar passar histórias relevantes ou perspectivas relacionadas a assuntos como a questão racial, em parte porque os editores-chefe vivenciam e vêem estes contextos de forma bem diferente das pessoas e da comunidades mais diretamente afetadas por estes problemas”, e este é um fato.

Se é um grande avanço termos as notícias trazidas a partir do olhar e da imagem de repórteres de pele negra no Brasil, quão perto estamos de valorizar os veículos de imprensa criados e alimentados por pessoas negras – desde seu alto comando? Temos visto, a cada dia, o surgimento de oportunidades de formação, cursos, bolsas para jornalistas negras e negros dentro de veículos como a Folha de São Paulo, Nexo Jornal, The Intercept e outros, sob a bandeira da ‘diversidade’. Mas será que não passou da hora de as narrativas e vivências pretas deixarem de ser um recorte e se tornarem a narrativa?

Não podemos perder de vista que estamos em um país formado por uma maioria de pessoas negras que têm seus direitos minorizados e relativizados diariamente há séculos. A presença competente, importante e necessária de profissionais negras e negros nos veículos de comunicação não pode esconder um fato: enquanto povo, ainda controlamos muito pouco as narrativas que influenciam o poder deste país, que viu suas eleições majoritárias em 2018 sendo vencidas pela Comunicação. Uma comunicação baseada em racismo, mentiras, desinformação e que contou com todos os grandes veículos de Imprensa e seus patrocinadores como apoiadores.

A ausência de editores-chefes negros no Brasil não é um acaso, não é falta de qualificação profissional, não vem da inexistência de quadros qualificados. É causa, fruto e consequência do projeto de Comunicação que nos quer fora, mas tenta lucrar em cima da estética, empoderamento e narrativas negras, porque nós movimentamos a economia. Mas decidir e influenciar o poder? Aí já é demais.

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