Ser uma jornalista negra e dona do meu próprio veículo em um país racista é algo além da resistência

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Silvia Nascimento, jornalista e fundadora do Mundo Negro - Crédito da imagem: Arquivo pessoal

Quem consome conteúdo sempre pode usar um filtro sobre aquilo que quer consumir e se privar de temas que despertam coisas negativas. Jornalistas não tem essa escolha. E quando o jornalista é negro, mesmo quando não trabalhemos com questões raciais diretamente, somos diariamente expostos à conteúdos perversos que representam em muitos dos casos, nossos piores pesadelos, como por exemplo, a prisão de pessoas inocentes e mortes violentas, sobretudo pela mão do Estado.

O Mundo Negro nasceu com o boom da Internet nos anos 2000, sendo a primeira plataforma digital de comunicação para negros da América Latina, e por mais que minha linha editorial tenha mudado para um conteúdo propositalmente mais positivo ao longo desses 20 anos, isso não em blinda de estar exposta a conteúdos sobre racismo e violência.

Optar por assuntos que não sejam somente sobre racismo, genocídio, violência e dados estatísticos que mostram que somos a base da pirâmide em praticamente em todos os indexadores sociais me custou a ser taxada de superficial, de fazer um jornalismo menor. Palavras vindas da minha própria comunidade. É como se falar sobre negritude sem falar das dores, não fosse algo legítimo. E não culpo os meus por essa perspectiva. Nós ainda não aprendemos a descansar ou relaxar. Momentos bons nos remetem a culpa, afinal, não é bom ser negro no Brasil. Porém o que nos faz uma nação preta resistente é o fato de contarmos um com os outros e por conta disso outros espectros da negritude precisam ser celebrados.

No quesito branquitude a coisa é mais complexa. “Imagine se fosse Mundo Branco?”, é uma questão que já nem respondo mais. Como veículos pretos (jornalísticos) ainda são muito poucos, não somos nem lidos como veículos de comunicação e sim como coletivo político ou cultural. As pessoas me chamam de Oprah pelo o que ela representa como comunicadora, mas ela é também uma empresária de comunicação, usando sua formação jornalística para produzir programas e filmes. Eu empreendo em jornalismo, sou gestora de comunicação, tenho uma equipe que recebe seu salário em dia, pago todos os impostos insanos que sou obrigada a pagar, tenho empresa estabelecida, eu estudo, fecho negócios, sou a patroa sim.

Não há como eu desassociar meu ofício da minha negritude. Estar há duas décadas resistindo mental e financeiramente está muito relacionado a minha gratidão aos meus ancestrais. Comunicar pelos que não puderam fazer isso, unir minha comunidade descendendo de seres humanos que foram separados da própria família, mostrar nossas potências em um país que nos tratou como animais por quatro séculos. Esse é o propósito de quem trabalha em veículos afrocentrados ( ou pelo menos deveria).

Ser jornalista negra e escolher falar sobre negritude fundando o meu próprio negócio é uma das coisas que mais me orgulho. Só ganhei um prêmio físico, da Empregueafro, durante todos esses anos, mas as recompensas ancestrais são bem maiores. Não é qualquer veículo que se mantém crescente e relevante durante tantos anos.

Vida longa ao Mundo Negro e aos jornalistas negros que escolheram a nossa comunidade como pauta.

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