Dia da Consciência Negra: por que ainda precisamos justificar?

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Dia da Consciência Negra: por que ainda precisamos justificar?

Escrito por Debora Simões

Novembro é o Mês da Consciência Negra, é um marco na luta e celebração da população negra no Brasil e é também o mês em que nós, militantes contra o racismo, passamos muita raiva. Na prática, não há um dia sequer em que a gente não sinta algo referente ao racismo (tristeza, ódio, solidão, desprezo, cansaço e a tão presente raiva). Mas novembro é diferente. Além de todos os sentimentos que vivenciamos, também precisamos lidar com os discursos da opinião pública sobre essa data. Nas conversas informais, nas reuniões de trabalho e nas redes sociais todo mundo tem alguma coisa para falar sobre o 20 de novembro. Nos espaços virtuais saltam postagens do discurso de 2006 feito pelo ator Morgan Freeman sobre a possibilidade do dia da Consciência Humana.

O sucesso da fala desse ator norte-americano, ou melhor, de um trecho dela, expressa um desejo de desvalorização de conquistas políticas importantes do Movimento Negro. Não farei uma análise dessa entrevista, estou mais interessada na sua utilização do que nela em si. Porém, para um balanço do discurso, te convido a assistir a entrevista na íntegra e a analisá-la criticamente. Como podemos acreditar que o discurso isolado de um indivíduo pode colocar à prova a trajetória de um movimento social inteiro?

Todo ano precisamos justificar a importância do dia 20 de novembro para a história do nosso país. Você já conversou com alguém que queria acabar com o feriado de 21 de abril, dia de Tiradentes? Eu nunca. O herói da Inconfidência Mineira foi um militar, minerador, dentista, tropeiro e proprietário de escravizados, sim, você leu certo. Ele é ícone da Independência, além de um feriado nacional, ele foi homenageado com várias estátuas pelo Brasil. Tiradentes não está sozinho nesse panteão de “heróis”, que incentivaram o sistema escravista, faço aqui mais um convite, conheça o projeto Galeria de racistas.  

Vamos avançar o calendário para chegar em 20 de novembro. Desde 2003 esse dia foi incorporado no calendário escolar brasileiro por meio da lei 10.639. Em alguns estados, como o Rio de Janeiro, é feriado. Na década de 1970 integrantes do Movimento Negro começaram a reivindicar o 20 de novembro como marco de resistência, em oposição ao 13 de maio, assinatura da Lei Áurea pela princesa branca, aquela que libertou os escravizados.

Novembro expressa a liberdade negra conquistada e não concedida. Em 20 de novembro de 1695, Zumbi dos Palmares, líder do quilombo dos Palmares, foi morto pelo poder colonial. Zumbi é símbolo da resistência negra contra o sistema escravista. O quilombo localizado na Serra da Barriga, atual estado de Alagoas foi liderado por ele durante 20 anos dos quase 100 de existência desse “Estado Negro” como definido por Edson Carneiro no livro O Quilombo dos Palmares. Além da resistência contra as forças lusas, havia também que combater tropas holandesas que queriam destruir esse modo de viver construída pelos negros.

Escrever este texto é também relembrar que nós, ativistas do movimento negro, estamos há décadas lutando por causas antigas. Sabemos que a história não é linear. Se engana quem pensa que estamos evoluindo como sociedade, tempo e progresso não são sinônimos. Mas entender isso não minimiza nem apaga as nossas dores, os nossos traumas coletivos. Nos últimos dias as dores se intensificaram ao vermos por exemplo a mãe do menino Miguel expressando sua dor e indignação, pois está se aproximando o aniversário dele de 7 anos e ela não poderá comemorar. As mães negras não conseguem ver seus filhos crescerem, formarem-se, viajarem, viverem. Observamos também o atual presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, sugerir no Twitter a mudança do nome da instituição para princesa Isabel. Acompanhamos em tempo real o jovem negro influenciador Júlio Sá numa abordagem policial racista, choramos com ele pela violência real e simbólica dessa situação, que é vivenciada pela maioria dos jovens negros. Ao acompanhar estes casos, que não são isolados, lembrei da frase: “quem vai pagar a conta?” presente da música Cabô de Luedji Luna. Os traumas que nós sofremos em consequência do racismo doem muito, para onde enviamos essa cobrança?

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