Cantora conta que já sabia, desde sua iniciação no candomblé, que ocuparia o cargo religioso; álbum em iorubá encerra trilogia marcada por corpo, alma e espiritualidade.
Majur não separa sua trajetória artística da experiência religiosa que atravessa sua vida. Em entrevista à Billboard Brasil, a cantora revelou que é Ialorixá, título destinado às mulheres que exercem liderança religiosa em uma comunidade de candomblé, e contou que já sabia, desde o início de sua caminhada na religião, que esse seria um caminho que faria parte de sua vida.
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A relação com o candomblé começou antes de “Gira Mundo” existir. Segundo Majur, quando iniciou a produção de seu primeiro álbum, “Ojunifé” (2021), ela já estava se preparando para a trajetória religiosa que viria pela frente. O próprio título do disco, expressão em iorubá que significa “olhos do amor”, nasceu desse período de aproximação e reconhecimento de sua fé.
A dimensão espiritual foi ganhando espaço ao longo da trilogia formada por “Ojunifé”, “ARRISCA” (2023) e “Gira Mundo” (2025). Se o primeiro trabalho marcou um processo de nascimento e reconhecimento de si, o segundo trouxe uma perspectiva mais ligada à vida de Majur fora do terreiro. Já o terceiro mergulhou diretamente em sua relação com os orixás e com o candomblé.
“Gira Mundo” reúne 16 faixas, majoritariamente cantadas em iorubá, e dedica cada música a um orixá. A decisão de fazer um trabalho que não fosse construído a partir de suas próprias palavras em português veio de um processo de reconexão com sua fé. Majur conta que pediu autorização para realizar o projeto e recebeu essa permissão.
O álbum nasceu depois de um período difícil vivido pela cantora. Após o fim de um relacionamento e problemas profissionais, Majur relata ter passado por um quadro de depressão e se afastado das redes sociais. Foi nesse momento que voltou para sua casa de axé, em Salvador, e se aproximou novamente de amigos e de sua espiritualidade.
Em vez de transformar aquela experiência em um trabalho sobre sua própria história, Majur decidiu colocar os orixás no centro da criação. O resultado foi um disco que, segundo a artista, não foi concebido para comercializar o candomblé, mas para expressar uma experiência religiosa que já fazia parte de sua vida.
A proposta também ajuda a entender uma escolha importante do projeto: “Gira Mundo” não foi construído a partir da lógica tradicional de um álbum pop pensado para reproduzir fórmulas de mercado. Ao cantar majoritariamente em iorubá e dedicar as faixas aos orixás, Majur colocou sua experiência religiosa no centro da obra, mesmo sabendo que a escolha poderia gerar estranhamento entre parte do público e da própria equipe.
Apesar de o álbum já ter chegado a diferentes palcos e festivais, a artista construiu uma apresentação própria para o projeto, aproximando música, corpo, espiritualidade e referências da cultura afro-brasileira. Em 2025, por exemplo, “Gira Mundo” foi apresentado em festivais como o Zabumbada, em São Luís, e o Ajeumbó, em Fortaleza.
Da experiência pessoal à obra
Para Majur, “Gira Mundo” também fecha um ciclo de seis anos. A cantora define a trilogia como uma trajetória que passou pelo corpo, pela alma e pelo espírito. Com o encerramento desse percurso, ela afirma estar aberta para criar sem precisar permanecer vinculada a uma única direção estética ou temática.
O álbum também amplia uma presença que já aparecia em seus trabalhos anteriores. Em “Ojunifé”, por exemplo, a faixa “Agô” já fazia referência aos ancestrais, enquanto “Ogunté” era dedicada a Iemanjá.
A cantora também rejeita a ideia de que o disco seja apenas um trabalho religioso. Para ela, a música é uma forma de falar sobre identidade, ancestralidade e transformação a partir de uma experiência que é, ao mesmo tempo, pessoal e artística.
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