“Até hoje a ficha não cai”, Madalena fala sobre a situação análoga à escravidão que viveu nos últimos 38 anos

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Foto: Arquivo Pessoal

1 mês e duas semanas após ser resgatada da casa de família de escravocratas, Madalena Gordiano comenta sobre a situação em que viveu por 38 anos e falou como tem sido sua vida desde que saiu da casa da família Rigueira

Em entrevista para o portal UOL Madalena contou que passou por momentos de muita amargura e solidão. A mulher de 46 anos, foi escravizada desde os 8 anos, e parece ainda não ter noção da gravidade do crime que foi cometido contra ela.

“Eu levantava cedo, passava um monte de roupa, fazia café, ia limpar a casa, banheiro… Ficava até de noite arrumando as coisas, até a hora de deitar, não parava um minuto as costas até doía. Tá doendo ainda.” Contou Madalena sobre a sua rotina.

Madalena conta que os patrões saíam e ela tinha que arrumar a casa toda, era privada de pintar as unhas, arrumar o cabelo entre outros tratamentos básicos.

“Eles gostavam do meu cabelo curtindo, eu não podia deixar crescer, que falavam que tava feio” contou Madalena. O único momento em que Madalena não ficava sob o controle da família Rigueira era quando ia pra missa, e ainda assim isso deixava os “patrões” insatisfeitos. “Você tá indo pra missa só pra fofocar” dizia Maria das Graças para Madalena.

Quando foi resgatada, gravações de Madalena fazendo compras e passeando no shopping repercutiram nas redes sociais, e ela contou que ficou muito feliz em poder comprar roupas novas e no ínicio da entrevista, mostrou contente aos entrevistadores um vestido de bolinhas. “Antes eu comprava as roupas, mas ficava devendo aos outros”, lembrou.

Madalena, que é religiosa contou que pedia a Deus para sair da situação e já chegou a conversar com o padre sobre não aguentar mais viver da forma que estava vivendo. “Entra no seu quarto, reza um ave-maria, um pai nosso, deixa pra lá isso vai acalmar!” dizia o padre para Madalena.

Atualmente, longe da família Rigueira, Madalena está em um projeto de ressocialização da Universidade Federal de Uberlândia Uberaba (MG) e tenta se recuperar dos traumas dos anos em que foi escravizada.

“Tanto que eu chorei, hoje não tenho mais vontade de chorar.” disse Madalena que vive com suporte psicológico e na companhia de uma assistente social. Madalena está recebendo carinho dos brasileiros pelas redes sociais, onde mostra um pouco da sua nova rotina, rodeada de pessoas que cuidam dela.

Madalena ainda contou sobre seu sentimento em relação a família Rigueira e disse ter medo de os encontrar de novo. “Eu choro muito. Nossa! Medo dos homens me seguirem, de sair, medo de morar sozinha. É difícil. Tenho medo de eles mandarem alguém para me perseguir. É medo” desabafou.

Com um pouco mais de 1 mês longe da família que a escravizou durante décadas, Madalena falou sobre seus sonhos e o que espera para o futuro. “Eu ainda não escolhi a cidade. Mas sabe onde quero morar? Rio Grande do Sul, Uberlândia, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Florianópolis” contou suas preferências.

Os últimos 38 anos foram roubados de Madalena, sem poder ter amigos, comemorar aniversários, ter suas próprias coisas e ver sua família, Madalena contou que viveu momentos de muita angústia, mas agora pretende aproveitar a sua vida.

“Eu quero ter o meu lugar. É hora de arrumar o meu lugar. Eu quase não tenho sonho de nada. Eu não sonho com muita coisa não. Só mudança de casa” completou. Madalena já criou uma conta no Instagram, onde dividi um pouco da sua nova rotina.

Ainda não foram divulgadas novas informações sobre a situação atual do caso.

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