As mulheres negras que viajam o mundo sozinhas

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As mulheres negras que viajam o mundo sozinhas
Fotos: Reprodução/Instagram

Rebecca Aletheia, 36, mora em Santo André (SP), já conheceu 32 países e é a idealizadora do coletivo Bitonga Travel, feito por e para mulheres negras que viajam ao mundo, com o objetivo de compartilhar experiências de afroturismo em grupo e fomentar encontros.

“É um coletivo de mulheres negras, latino-americanas e caribenhas e também de mulheres negras africanas, de países que falam a língua portuguesa, que traz narrativas de mulheres negras viajantes desde 2018”, explica a enfermeira.

Atualmente, o coletivo conta com 202 mulheres que colaboram de forma voluntária com os conteúdos nas redes sociais, site e canal do Youtube. Apesar de ser voltado para mulheres negras, Rebecca diz que é um coletivo muito diverso. “Tem muita diferença na questão social, modelos de vida. São mulheres ao redor do Brasil e do mundo. E quando a gente fala de Brasil, de América Latina, a gente não está falando só de São Paulo, a gente está falando de mulheres peruanas, dominicanas, com filhos, mais velhas, LGBT’s”.

A Rebecca costuma compartilhar detalhes das suas viagens nas redes pessoais e no blog. “Como chegar, o que fazer em cada lugar, principalmente por destinos não muito frequentados e por ter um olhar muito voltado pro afroturismo, com um olhar mais crítico e racial dessas questões, que nos aflige, o racismo, a questão de gênero e de classe”.

O coletivo eventualmente realiza viagens de mulheres negras presencial ou virtual. “Eu tive a oportunidade de fazer um encontro na Bélgica, no Royal Museum, o maior museu africano fora da África [localizado no Canadá]. A gente já fez encontro na Bahia, no Rio de Janeiro, em São Paulo. Vai muito além de viagem, é a gente poder ocupar espaços que muitas vezes nos é negado”.

Neste Julho das Pretas, o coletivo já tem um novo encontro marcado em Sorocaba, interior de São Paulo. “É um encontro em referência ao Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, no dia 27 de julho, no quilombo Cafundó, que preserva a língua banto, assim como tem uma grande produção de produtos orgânicos na cidade”, diz Rebecca.

Como dica imprescindível, Rebecca destaca a importância de não se limitar por ser uma mulher negra e economizar dinheiro. “Acredito que a gente é muito podada, isso é muito ruim, enquanto mulheres, negras, administram nossos lares. Faça o seu plano, está tudo bem se você demorar cinco, dez anos pra realizar o seu sonho, mas que você consiga colocar ele no papel, que você batalhe para isso acontecer.

E completa: “Se preciso for, abra mão de algumas coisas que são pequenos luxos, que às vezes a gente não quer se desfazer por querer estar com todo mundo. Então talvez reduzir um pouco as saídas ou um pouco os nossos consuminhos de bebida ou aplicativos de carro. Esse dinheiro vai fazer muito sentido. A gente sabe que pra viajar, mesmo com pouco dinheiro, vai precisar”.

Atualmente a enfermeira está morando em Serra Leoa, onde deverá ficar por seis meses, junto a uma organização internacional em um projeto de abertura de uma maternidade.

“Esse é o décimo país africano que eu conheço, mas é o primeiro da África Ocidental, então pra mim é tudo novo. Eu costumo dizer que estou na região da “Iorubalândia”, região do iorubá que vai muito além da Nigéria. O lugar é muito bonito, as pessoas, a cultura e também toda essa riqueza do minério. Eu estou vivendo numa região um pouco afastada da capital, Kenema. Uma cidade que tem muito diamante, tem toda uma história, uma riqueza. Mas as pessoas vivem em um vilarejo, eu costumo dizer que eu vivo num quilombo”, detalha.

Ser uma mulher negra viajando o mundo costuma ter seus bônus e ônus. “Falo em nome do coletivo: é muito discrepante o apoio às produtoras de conteúdo de viagens mulheres pretas. É muito fácil você conviver em grupos com influenciadoras brancas recebendo milhões por produção de conteúdos e olhar para mulheres pretas do coletivo ou não, que não tem nenhum apoio e o apoio muitas vezes vem em forma de ‘a gente te dá visibilidade’. Mas no final do mês, a gente tem que pagar nossas contas, nosso aluguel e a gente também quer viajar, quer comer. É muito difícil esse reconhecimento”, desabafa Rebecca.

Para compartilhar mais das experiências e dicas para outras mulheres negras viajantes, Rebecca lançou o livro “EscreVIVER: carta de uma viajante negra ao redor do mundo“. “É um livro que a gente pode encontrar na Amazon, impresso e também na forma de vídeo áudio no YouTube. Sabemos que a população negra é a que menos lê, então trouxe ele em diversas formas para que a gente possa alcançar muitas outras pessoas, pra que a gente possa entender que viajar é preciso. Pra mim, ser uma mulher hoje negra viajando o mundo é um ato revolucionário. E eu me sinto em revolução”.

Viajando o mundo com a aposentadoria

Há cinco anos, a Josefa Feitosa Acioly, mais conhecida como , 62, se aposentou e fez uma mala para desbravar o mundo sozinha. Se desfez da casa, dos móveis e se despediu dos três filhos e de um neto para viver uma vida diferente do que a sociedade espera das mulheres na terceira idade.

Membro do coletivo Bitonga, atualmente ela está no Peru, se ambientando com o clima e a altitude do local. “A experiência não é muito boa pra quem está acostumada a climas como o nosso. Outra questão também é com a moeda. Sempre que me mudo de país preciso me organizar e ficar atenta. E agora principalmente com a nossa moeda tão desvalorizada”, explica.

As viagens podem ter destinos inesperados na rotina da Jô. “Eu não planejo nada. Eu sigo ao sabor do vento e das boas indicações que me chegam através de reportagens que leio e informações de pessoas que já estiveram em determinado local. Outra coisa que conta também é estar próximo do lugar onde já estou. Por exemplo: eu escolhi o rolê pela América Latina então vou seguindo o mapa Colômbia, Equador, Peru… Depois daqui eu ainda não sei. Os outros países eu já fui. Menos a Venezuela. Mas agora com a instabilidade tá difícil ir lá. Deixo pra outra vez”.

Até 2016, a aposentada trabalhava como assistente social no sistema prisional do Ceará e atuava em defesa das mulheres transexuais, sob constantes ameaças.

É com o dinheiro da aposentadoria que Jô custeia todas as viagens. “Eu me sinto ao mesmo tempo uma mulher forte, empoderada e privilegiada. Principalmente por ter vencido o medo de enfrentar preconceitos racial, xenofobia, machismo, idades e gêneros. Tenho orgulho de poder mostrar para outras mulheres como eu, que podemos ser e estar onde quisermos”.

Foram tantos países incríveis que ela conheceu, como a Índia, o Egito e o Vietnã, que a Jô tem a certeza de que existem mais lugares lindos para se ver como esses e quase não pensa em voltar para algum destino. Mas tem a certeza de um país que não pretende voltar, o Quênia.

“Fui confundida com imigrante ilegal e passei uma noite detida. Mesmo mostrando a cópia do passaporte não me liberaram. O episódio foi em Nairóbi e apagou todos os bons momentos que passei em Mombaça, que é uma cidade maravilhosa do país, onde cheguei a fazer voluntariado em um orfanato”, relata.

Jô também realiza palestras para falar das experiências vividas como mulher preta e de terceira idade viajante e participou inclusive do 3º Encontro Brasleiro de Mulheres Viajantes, realizado em São Paulo, em março deste ano.

Rompendo os padrões de avó que fica em casa para cuidar dos netos, Jô mantém uma relação a distância com a família. “Eles já se acostumaram. A tecnologia nos aproxima. Nossa relação é muito respeitosa. Mantenho contato diariamente com eles”.

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