Por Isadora Santos

A exemplo de nossos ancestrais, pessoas negras têm desenvolvido estratégias para sobreviver e prosperar, criando espaços e hackeando o sistema

“Pretos no topo”, “Favela venceu” e outras frases de efeito costumam circular pelas redes sociais, compartilhadas por pessoas negras orgulhosas de seus feitos e conquistas, que certamente devem ser comemoradas. Mas sabemos que se tratam de processos individuais e que, o ‘topo’, na verdade precisa ser um espaço muito maior que caiba o coletivo.

O caminho para conquistarmos espaços ainda é longo. Um levantamento realizado pela consultoria Gestão Kairós no início de 2022 mostrou que mulheres negras ocupam apenas 3% dos cargos de liderança nas empresas, no geral, as mulheres representam 25% dos profissionais nesses cargos, de acordo com a pesquisa.

Esperar que as instituições, tanto públicas, quanto privadas, promovam de maneira espontânea ações de inclusão e diversidade que aumentem o número de pessoas negras nesses espaços não nos levará longe. É por isso que vemos, desde sempre, pessoas negras articulando para construir suas próprias estratégias de desenvolvimento profissional e de negócios e promover toda a comunidade.

Como é o caso da Adriana Barbosa, CEO do PretaHub. Há 20 anos, Adriana criou a Feira Preta, dando espaço para que os pretos pudessem mostrar todo seu potencial de criação artística e de negócios. “Desde que comecei a Feira Preta, há mais de 20 anos, olhava os espaços e territórios e sentia a ausência da população preta. E a primeira atitude foi ocupar o espaço. Hackeamos os espaços, mas vejo a criação de outros pela população negra como estratégia importante para protagonizarmos as nossas histórias”, contou Adriana Barbosa em entrevista.

Para Fernanda Ribeiro, Presidente da Associação AfroBusiness, co-fundadora e CCO da Conta Black, uma fintech que busca contribuir para o fim da exclusão financeira e desbancarização da população pobre e negra, o fato de pessoas negras lutarem para criar espaços também significa que estamos ‘hackeando o sistema’ através de nossas próprias estratégias. “Eu acredito que tudo isso faz parte de um processo de “hackeamento do sistema” que está posto! Existe estranhamento, mas também existe transformação nesses ambientes e acredito que precisamos estar lá para trazer provocações. Mas entendo que essa “ocupação” precisa acontecer de forma estratégica e sem se desviar do propósito coletivo”, explica Ribeiro. 

Luana Génot, Fundadora e Diretora Executiva no Instituto Identidades do Brasil, o ID_BR, que se dedica a criar ações para a promoção da igualdade racial no Brasil, explica que “Mais do que ocupar um espaço, eu queria ter o poder da caneta. Eu acho que isso fez toda a diferença nas minhas tomadas de decisão de carreira. Não só por mim, mas pelas pessoas que eu entendi que tinham todo o potencial de liderança, mas que não exerciam seus plenos talentos por conta de um sistema opressor, racista, já pré-moldado”, explica.

“Hoje minha posição é a seguinte: eu acredito que é tão importante ocupar espaços já criados, quanto criar espaços. É uma coisa e outra. Até porque, para que a gente possa empreender é necessário que as condições nos sejam dadas”, complementa Génot.

Fundadora da BlackRocks, Maitê Lourenço percebeu na faculdade a importância de gerar oportunidades para pessoas negras na área de tecnologia e inovação. “Tornar isso minha missão profissional foi durante a faculdade e logo depois, quando entrei de cabeça na área de tecnologia/no ecossistema de startups com a BlackRocks, ali eu não vi que era somente importante e sim uma oportunidade de gerar negócios onde ninguém até então estava interessado em atuar (digo homens brancos com potencial de desenvolvimento de negócios que com todo pacto narcísico da branquitude não enxergam, até hoje, potencial onde nós enxergamos)”, explica. 

Nossas entrevistadas compartilham também a condição de serem mulheres negras em ambientes dominados por homens brancos, o que torna ainda mais desafiador o trabalho que realizam. Quando perguntamos a elas como é ser uma mulher preta e ter que criar espaços que reconheçam o talento e a excelência negra, o cansaço e a exaustão são quase um consenso entre elas. Afinal, criar espaços é necessário e estratégico para nós, mas isso não torna o trabalho fácil.

“Eu resumiria em algumas palavras: desafiador, cansativo, motivador e gratificante. Tudo ao mesmo tempo, inclusive. Ser uma mulher preta em um país racista e machista, como o que vivemos, já é uma prova diária para qualquer sanidade. Ser uma mulher preta, jovem, retinta em um ecossistema que tem uma representação imagética que é exatamente o oposto (homens, brancos e mais velhos) já diz muita coisa”, analisa  Fernanda Ribeiro.

Adriana Barbosa destaca a necessidade de se reconhecer a humanidade de mulheres negras nesses processos. “Cansativo e desgastante demais. Imagine estar lutando há 20 anos, quero parar de brigar, quero simplesmente viver. Não dá para nós mulheres negras estarmos sempre no front, na resistência, sermos guerreiras. Somos humanas e vulneráveis também”, complementa.

Luana Génot ainda destaca a importância de superar o racismo mostrando que podemos fazer o que quisermos. “Ser uma mulher negra, de pele preta, e ter que criar espaços que reconheçam o talento e a excelência negra e indígena para mim é uma forma da gente conseguir espalhar que nós somos muito maiores que o racismo”.

O que esperar dos espaços futuros

Luana Génot destaca que é importante lembrar de quem veio antes:  “Eu espero que não seja mais uma grande questão ver uma mulher negra ou indígena sendo a próxima governadora do Estado, a próxima CEO. E eu vou avançar, andar e percorrer o máximo de estrada que eu puder fazer em vida para ver isso acontecer, até porque é uma passagem de bastão. Se eu estou fazendo isso é porque tantas pessoas fizeram muito antes de mim e estão fazendo agora comigo”, afirma a diretora executiva do ID_BR.

“Eu acredito em um futuro onde as pessoas pretas não serão empurradas ao endividamento, perdurando uma lógica cruel. Cabe parafrasear Martin Luther King, que dizia que “apesar das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho”. Sinceramente não acredito que a Conta Black vai resolver esse problema sozinha, nem temos essa pretensão, mas acredito muito no poder das pequenas ações impactando as grandes transformações”, conta Fernanda Ribeiro.

Maitê Lourenço reforça o que espera para o futuro: “Eu sempre brinco que sucesso pra mim é ver que a BlackRocks ou qualquer outro empreendimento que eu tenha, não faça mais sentido de existir. Que as discriminações tenha acabado e que possamos estar proporcionalmente em todos os espaços de poder, que as instituições se preocupem realmente com equidade e entendam que ceder espaços, patrocinar ações e restituir o que foi retirado de direito seja algo comum e já feito por todos, eu espero no futuro ter sucesso”, conclui.

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