“Iemenjá é preta” e a negritude sensorial de Larissa Luz

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📷 @gspalha Direção de arte e acessórios de vidro : @viniciussa.art

Entrevista e texto: Camilla Prado
Edição: Silvia Nascimento

Larissa Luz é cantora, compositora, atriz, produtora, curadora, ativista e empresária. Morando em São Paulo, a multiartista baiana é feita de muitas Larissas dentro de uma Larissa. Mulher intensa, retada e que faz acontecer. Já lançou três discos ao longo dos seus 10 anos de carreira – Mudança (2012), Território Conquistado (2016) e Trovão (2019), interpretou Elza Soares no musical Elza, fez a curadoria da primeira edição do Festival Afropunk, foi protagonista e responsável pela co-criação da campanha da Avon “Essa é minha cor” e segue calibrada para os passos que vem por aí.

Essa semana, no dia de Iemanjá (02/02), Larissa lançou o single “Iemanjá é Preta”, uma letra linda e forte. Não resistimos e a convidamos para uma resenha em Salvador, em sua casa, no aconchego, na poesia e na bossa do Rio Vermelho.

Mundo Negro ( Camilla Prado) – Lari, “Iemanjá é Preta” tem uma letra forte e necessária, pois para lembrar a todos que por mais que tenham imagens de Iemanjá como uma mulher “branca”, ela é um orixá de nossa ancestralidade, da África, assim como os outros orixás, ou seja ela é uma mulher negra. Como surgiu o processo de composição dessa canção? E como estão sendo os resultados do clipe?


Larissa Luz – Eu já venho pensando sobre isso há muito tempo, já tenho isso na minha cabeça. Falar sobre isso já é uma urgência pra mim há muito tempo. Há muitos anos eu vejo se repetir uma imagem de uma Iemanjá que não faz sentido, já que estamos falando de um orixá, de uma entidade que tem uma história, uma origem africana. Por que ela é branca? A gente sabe na verdade o porquê mas, eu não via o reflexo desse pensamento, de quem estava já tendo lucidez acerca disso na prática sobre isso, não tava vendo as coisas se transformarem na prática, então, usando a arte que é a minha ferramenta de protesto, minha ferramenta de transformação e esse ano, como não teve a festa em si (devido às adversidades que estamos atravessando ), me senti ainda mais motivada de trazer essa pauta, até como um presente. Essa seria minha oferenda, já que a gente não tem como ir lá e fazer o festejo físico, eu pensei de que maneira Iemanjá poderia se sentir contemplada e homenageada.

Ela deve pensar: “Eu não sou essa.. eu não sou branca, não tenho cabelo liso e nariz fino”.
Longe de ser a justiceira dos orixás, mas aqui nesse mundo físico, podemos usar o que a gente tem de uma forma respeitosa pra promover transformações significativas. Existe uma revolução estética – cor da pele, traços. Estamos falando de imagem, de representação, não é sútil, não é uma bobagem representatividade.

E como as pessoas receberam esse novo trabalho?
A repercussão do vídeo foi muito boa. Muitas pessoas ficaram aliviadas de verem aquilo ali ser dito e propagado dessa maneira porque eu sinto que tem muita gente que tem muitas coisas presas ali dentro, que não tem talvez tempo, ímpeto, energia pra se envolver, pra questionar ou alcance.. então eu senti que tinham muitas vozes, muitos pensamentos, muitas pessoas pensando a mesma coisa, mas que isso ainda não tinha sido condensado de uma forma que pudesse ecoar e ter uma reverberação grande pra começar uma transformação.. a ideia começa a se propagar mais, começando uma revolução de pensamento, as pessoas vão começando a se transformar por dentro, para aí então, virar uma atitude. O que fiz é um movimento, um passo a mais, na direção dessa transformação pra gente começar a reivindicar o que é nosso.

📷 @gspalha

Você tem um papel de uma artista que traz muitas provocações. “Bonecas Pretas” e “Não tenha medo de mim” são músicas reflexivas e traduzem os nossos sentimentos, a nossa experiência. Muitas de nós carregam dores, rejeições, carências, falta de amor e afeto. Quantas de nós nunca se enxergou ou se sentiu representada, nunca recebeu um carinho no cabelo ou qualquer atitude um afeto? Como isso reflete em você? Como você enxerga as relações?
Eu tô aprendendo também. A música é um reflexo do meu processo de aprendizado e da minha vontade de fazer com que isso seja uma realidade, sem utopia, sem achar que vai acontecer igual acontece nos contos de fada com príncipe encantado (risos), eu tento não romantizar. Humanizar as mulheres pretas e os homens pretos e entender que a gente tem um monte de ferida e um monte de questão e quando a gente se encontra pra equacionar, organizar. Esses dois lados machucados é uma demanda e precisa ter vontade, imersão, paciência, entrega.

Como você enxerga as relações não afrocentradas?
Eu acho que os homens pretos passam por coisas que a gente não passa, óbvio.
Não passamos por situações de julgamento que eles passam, como andar na rua e ver uma pessoa atravessando a rua porque acha que vai ser assaltada. Ou tem dificuldade em pegar um táxi. O homem preto vem com uma ferida muito profunda, que eu não vou saber dizer, porque eu não sinto. Assim como eles também não sabem das nossas pautas profundamente, eles só sabem e o que a gente sente, então começa daí. Aí eu acho que faz sentido na relação com a mulher branca como um troféu, porque eles não tinham acesso, e não só não tinham acesso como eram condenados e muitas vezes inclusive, alvejados, injustamente, apenas porque eram pretos. Eu não condeno os homens que se relacionam com mulher branca, pois isso é de muito tempo, isso vem de uma construção de base e não sei o que é passar por isso, ser perseguido dentro de uma loja.

Acho que a gente precisa começar a entender, tanto para os homens como para as mulheres. as mulheres também veêm, pra mim, esse lugar de salvação, porque como os homens pretos já estão com as mulheres brancas, agora então a gente vai sobrar quem pra amar, gente? então vem um homem branco querendo amar a gente, que quer ser amada.. então vira um ciclo, onde pra mim eu vejo funcionando perfeitamente a eugenia, um projeto implantado há anos, dando certo até hoje, que é uma política de embranquecimento da população. Vamos misturar. Todos os caminhos param aqui: no fim da nossa comunidade, do nosso povo. Porque a eugenia era um projeto que não era nem pra ter mais preto aqui… embranquecendo embranquecendo, até não ter mais. Acho que essa é uma questão que precisa ser pensada com cuidado porque não é simples, mas também tô tentando refletir como a gente vai resolver, vai solucionar isso. Porque também não é digno a gente julgar os pretos e pretas que estão querendo um pingo de afeto, que passaram a vida inteira mendigando afeto, pedindo pelo amor de Deus para receber um cafuné porque os caras não querem meter mão nos cachos, no cabelo crespo. Muitas mulheres não sabem o que é um cafuné, Tia Má falou isso, e mexeu muito comigo. Então, quando essa mulher vai lá e acha um homem branco que está disposto, eu não posso condenar ela.

Fabrício Boliveira com Larissa Luz no clipe “Não tenha Medo de Mim” – Foto: 📷 @caiolirio

E, aproveitando que estamos falando em dar voz, em adentrar espaços.. vamos falar da potência Elza Soares? No musical “Elza” emocionou e impressionou a todos nós com a personificação de tamanha semelhança com Elza Soares.
Como é a artista, a pessoa Larissa Luz depois do musical Elza, depois desse mergulho?

Eu falo que sou “antes de Elza e pós Elza, divido meus momentos”. Eu passei muito tempo imersa, ensaiava 11 horas por dia, chegava em casa e assistia a entrevistas, entrevistas e biografias. Eu conversava com ela, olhava nos olhos dela e pensava “meu Deus, eu vou interpretar ela! Muito frio na barriga! No primeiro dia ela foi assistir, eu fiquei toda cagada (risos), porque tocar em assuntos tão delicados assim, com “a mulher” ali na sua frente, vendo você fazendo ela, o empresário dela disse que ela apertava o braço dele e dizia “meu Deus sou eu!”, ela ficou chocada, apertou meu braço e disse “sou eu, sou eu!”. Eu queria que ela sentisse isso!

A princípio, nem era uma demanda, nem era uma exigência fazer “Elza”, fazer o timbre de Elza, estar parecida.. mas comecei a estudar, a pesquisar ela, a cantar as músicas, e percebi que queria que ela me olhasse no palco e sentisse que ela estava ali, que era ela, em 3D. É tão raro a gente fazer homenagem com o artista em vida, poder contar uma história pra ela se ver, parecida. Quis, tentei e a diretora falou que eu estava parecida e resolvemos assumir. Até os olhos puxados, que os meus já eram, puxamos mais. O que mais mudou na minha vida depois da história dela foi a minha capacidade de enxergar e encarar os problemas. Toda vez que eu tinha qualquer questão e que eu ficava pensando “o mundo vai se acabar”, eu parava e me lembrava de Elza e pensava “o mundo não vai se acabar, você é muito maior do que isso, levante porque você pode, se Elza pode, você pode!”. O que ela passou na vida, o que enfrentou, o que superou, atravessou para estar aqui hoje viva, fazendo música, fazendo disco. Eu não conheço nenhum ser humano que chegou nesse ponto, não conheço ninguém de perto. O que ela passou fisicamente e emocionalmente, era de perdas profundas: perder filho pra fome, perder filho de acidente de carro, de perder mãe num acidente provocado pelo marido, de ser agredida fisicamente pelo marido e emocionalmente pela sociedade por ter se relacionado com o marido. Ela condensa na história dela a história de muitas mulheres pretas, a história dela é realmente um canal pra trazer a tona todas essas mazelas sofridas pelas mulheres pretas periféricas, principalmente, porque são as que mais recebem a rebordosa dessa sociedade cruel. Fiquei muito mexida mesmo.

Sim, Larissa é tudo isssooooo!
Uma potência!

Encerro essa entrevista com uma aspas de Larissa que resume tudo que ela é “Quando percebo o tamanho da disparidade, das injustiças.. fico pensando que a gente precisa realmente se juntar e fazer coisas […] Podem me chamar de monotemática, mas vou passar o resto da vida falando disso”.

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