A democracia não é uma aventura

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A democracia não é uma aventura
Arte de Taynara Cabral

Para o povo negro o exercício da democracia é uma construção coletiva conquistada a custas de trabalho e organização. Passadas as primeiras 24 horas do resultado das eleições, já é possível refletir sobre os resultados e desenhar suas consequências.

Nesse pós-eleitoral o que fica expresso em votos e vitorias é a importância da organização popular, foi ela que elegeu no Brasil inteiro um número expressivo de mulheres negras e mulheres trans as câmaras de vereadores. Esse resultado significa um passo importante para o avanço civilizatório e a possibilidade de construir concretamente mudanças estruturais numa sociedade racista, machista e transfóbica.

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A revolução será feminina, negra e LGBTQI+ porque essas minorias politicas ultrapassaram as barreiras impostas pela violência do estado e pelo silencio social que juntos e por séculos invisibilizaram suas existências.

Ao desconsiderar sua capacidade de intervenção, também deslegitimaram suas vozes e suas necessidades, sufocando o desejo de participação ativa dessas pessoas, a sociedade aumentou o abismo social entre elas, ao mesmo tempo possibilitou que esses grupos pudessem se organizar, ampliar seus espaços de inserção e principalmente se colocarem nesses ambientes como agentes de transformação social.

A construção dessa vitória foi lenta e a base de muitas reivindicações e lutas. Essa campanha eleitoral, foi o ápice de uma caminhada que começou antes de Palmares e se consolidou numa série de movimentos e revoluções que envolveram as experiências do povo negro.

Desde o século passado o povo negro se organiza em busca de liberdade, autonomia e protagonismo. A Revolta dos Búzios, a revolta dos Malês, A Revolta da Chibata, a Balaida e tantos outros são a base desse chão que hoje pisa as câmaras municipais de cidades como São Paulo, Rio de janeiro, Curitiba, Salvador e tantos outros.

Na medida que o povo negro foi se organizando suas pautas foram carecendo de visibilidade, temos então a criação de importantes veículos de comunicação como o periódico O Mulato e O Homem de Cor no Rio de Janeiro, O Homem no Recife, A Pátria, a Imprensa Negra Paulista e o Teatro Experimental do Negro em São Paulo.

A conquista do espaço político é parte importante das experiências de luta por participação do povo negro. As pressões feitaS para que a sociedade nos ouvisse como representantes legítimos de parcela substancial da população, são capitulo indispensável para entender os efeitos da organização para alcançar espaços de poder e decisão.  

A Frente Negra Brasileira, o MNU e a Marcha Zumbi dos Palmares foram movimentos fundamentais para que homens e mulheres, negros e negras, se organizassem organicamente para ampliar o espaço de intervenção na sociedade.

A importância, envolvimento e inserção das mulheres negras nesse processo de luta por respeito, participação e reconhecimento da população negra na sociedade brasileira é inegável, diria que foi fundamental.

São muitos os movimentos que nasceram a partir dos olhares da mulheres negras temos o Geledés, a Marcha da Mulheres Negras de São Paulo, o Crioula, a Articulação de Mulheres Negras do Brasil, a Casa de Cultura da Mulher Negra, o Fala Preta, o Fórum Nacional de Mulheres Negras e o Instituto AMMA Psique e Negritude são algumas das organizações de mulheres negras organizadas no pais que discutem estratégias e formulam políticas públicas sobre as questões de gênero e raça para a inclusão e bem viver da população negra.

A presença e o crescimento das mulheres negras na luta por cidadania fez em meio as violências físicas e emocionais, além da invisibilidade, quando não do apagamento social sistemático de referências femininas negras como Neuza Borges do Nascimento, Lélia Gonzales e Carolina Maria de Jesus.

Sobreviver ao pensamento escravocrata que permeia o inconsciente coletivo, exige de nós mulheres negras organização, tenacidade, persistência, coragem e sobretudo confiança na ancestralidade que rege nossos passos.

A presença de Marielle Franco ao longo desse doloroso processo do exercício da cidadania para as mulheres negras, materializa a potência e a capacidade de reinvenção, organização e intervenção dessas mulheres.  A ausência de Marille Franco, ainda que nos doa, fortaleceu esses movimentos e possibilitou chegar em 2020 tão grande quanto foi Palmares.

Nós somos semente e os frutos das experiências dos nossos corpos negros irão transformar as estruturas sociais, as transformações estão em curso e nós somos os instrumentos dessa revolução.

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