A carga mental de ser um consumidor negro: uma reflexão sobre o varejo no Brasil

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Foto: Fernando Madeira feita durante a cobertura de protesto no Carrefour aqui de Vila Velha, ES.

Ser um consumidor negro é de um peso mental terrível e pode ser perigoso. O que aconteceu com João Alberto – e a escolha de posicionamento do Carrefour Brasil  – em se eximir da culpa ao responsabilizar a empresa de terceirizados – denuncia que o discurso de diversidade e inclusão não está chegando a quem atende pessoas negras diariamente e seguimos lidando com racismo em instituições de consumo. Não acredita? Pergunte às pessoas negras à sua volta.

Essas microagressões vêm de todas as partes, seja das instituições ou até mesmo de outros consumidores não-racializados. Em um país racista como o Brasil a célebre frase do “você trabalha aqui” denuncia o olhar enviesado de que – independente da roupa, condição econômica e estar frequentando o mesmo espaço – se você tem um determinado tom de pele só pode estar ali para servir. 

Isso quando não somos vistos como ameaça. Como o caso de perseguição policial que ocorreu na semana passada na Cidade de São Paulo. A atividade denominada Caminhada São Paulo Negra, conduzida pela agência de viagem e produção cultural Black Bird Viagem, através das passagens por bairros como Liberdade, Sé e República propõe-se a resgatar a memória das contribuições de pessoas negras em momentos importantes na cidade de São Paulo. Após serem abordados por policiais e mesmo após esclarecerem o motivo de estarem reunidos o grupo foi acompanhado por três horas pela polícia. Imagine a sensação de apreensão ao ser escoltado pelo aparato Estatal que deveria estar ali para te proteger e não coagir, enquanto se faz uma atividade simples.

Essa lógica de apreensão e vigilância em relação à presença de corpos negros se perpetua nas instituições de prestação de serviço ou bens de consumo e denunciamos isso a anos. Somos condicionados a não nos sentir confortáveis em determinados lugares. Saímos de lojas com a nota fiscal na mão para evitarmos ser constrangidos sobre um produto que compramos. Diariamente, somos perseguidos pelo segurança do supermercado, da loja, do shopping. E quantas vezes não somos nem atendidos ou somos mal atendidos por vendedores que julgam que a gente “não tem cara de quem consome”. 

   Políticas antirracista não contemplam apenas discussões de  diversidade e inclusão nas empresas, aumento de funcionários negros no quadro de colaboradores, assim como discutir sobre temas ligados a representatividade em meios de comunicação. Ser antirracista deve passar pela cultura empresarial e essa sem prática de seus colaboradores é apenas um discurso vazio.

O que choca no episódio lamentável de agressão brutal a João Alberto no Carrefour e pergunta que perdura é: quando foi que os estabelecimentos comerciais começaram a normalizar a agressão [e microagressões] a corpos negros? Independente dos clientes que presenciaram a cena e foram omissos a situação, se o discurso antirracista tivesse chegado até a ponta, aquelas pessoas que condenaram João Alberto a morte seriam impedidas por seus pares. Onde estavam os outros colaboradores do estabelecimento no momento que aquele homem gritava por socorro? Não adianta estampar nossos rostos em propagandas, patrocinar nossas causas e promover nossas bandeiras se o seu discurso antirracista não chega a ponta de suas lojas e seguem permitindo que sejamos constrangidos ou até mesmo assassinados ao efetuar atividades cotidianas.

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