70% das mulheres têm problemas de saúde mental; fim da escala 6×1 pode mudar esse quadro

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70% das mulheres têm problemas de saúde mental; fim da escala 6×1 pode mudar esse quadro
Foto: gerada por IA

Trabalhar seis dias para descansar um. Para milhões de brasileiros, essa é a matemática da vida. Para as mulheres, a conta ainda não fecha: quando termina o turno, começa a outra jornada, a dos filhos, dos idosos, dos doentes, das tarefas que ninguém contabiliza. “Além da jornada de trabalho, elas têm a jornada do cuidado, que é o cuidado com a família, com os filhos, com os idosos, com os doentes, e além de tudo, a pressão social para ser perfeita, para dar certo, para dar conta de tudo”, afirma Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora.

“Nunca na história os trabalhadores estiveram tão adoecidos mentalmente”, diz Fontes. E dentro desse quadro, ela destaca um recorte que considera urgente: o das mulheres. Pesquisas da Rede Mulher Empreendedora apontam que 70% delas relatam alguma questão relacionada à saúde mental. “Isso tudo tem uma pressão muito forte”, afirma.

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Na escala 6×1, esse acúmulo se torna ainda mais pesado. “A pessoa trabalha 6×1 e só sobra o domingo para poder fazer alguma coisa”, diz. Menos tempo livre significa menos espaço para dividir tarefas, menos espaço para descansar, menos espaço para cuidar de si.

Para Fontes, a mudança na jornada pode romper esse ciclo. “Tenho certeza que isso vai criar um ciclo positivo: vai ajudar as questões de saúde mental do próprio empreendedor, das mulheres, dos colaboradores. Não dá para viver numa sociedade onde é só o trabalho.”

O QUE MUDA PARA O PEQUENO EMPREENDEDOR

Na terça-feira, 28 de maio, a Câmara dos Deputados aprovou o fim da escala 6×1. O projeto, apresentado pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) em parceria com o vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), idealizador do Movimento Vida Além do Trabalho, substitui o modelo atual pelo 5×2 e reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas. O texto segue para o Senado Federal.

A aprovação dividiu opiniões. Empresários como Rony Meisler, fundador da Reserva, alertam para o impacto direto no pequeno negócio: “A conta vai chegar para os donos de pequena empresa, que terão que contratar para cobrir os turnos, pagar hora extra ou demitir.” Para Fontes, a leitura é outra. “Toda mudança gera questionamentos. Acredito que este seja um momento histórico e que os empresários vão encontrar caminhos e novos modelos, porque existe saída”, diz. Para ela, o aumento de preços ao consumidor não é inevitável. “Isso é possível sem necessariamente gerar um impacto final para o consumidor, desde que haja disposição para pensar em outras soluções.”

Fontes fala da própria experiência. Na Rede Mulher Empreendedora, o modelo já é 5×2, com duas horas a menos às sextas-feiras, e a equipe opera em formato híbrido, três dias presenciais e dois em casa. “Isso não diminuiu em nada a nossa produtividade, a nossa participação no mercado. Tudo conseguiu funcionar”, afirma.

Ela reconhece que a transição não é simples, mas rejeita o que chama de “histeria coletiva”. “O importante é cada empreendedor olhar para a sua realidade e, dentro dela, fazer conta, prestar atenção, ver o que pode fazer de melhor, pensar em bonificações para os colaboradores.” O argumento central é que colaborador bem e descansado produz mais. “Se o colaborador está bem, está feliz, está conseguindo trabalhar, o negócio vai melhor, a produtividade vai melhor e isso vai fazer bem para todo mundo, para a sociedade, para o trabalhador, para o próprio pequeno negócio.”

Ela lembra ainda que o Brasil discute o primeiro estágio da transição enquanto outros países já estudam o modelo 4×3. “Existem estudos no mundo inteiro falando na redução do 4×3. A gente está discutindo ainda o primeiro estágio, que é o 5×2, quando existem países já discutindo o 4×3.”

“O trabalho é uma parte fundamental da nossa vida, mas a gente precisa ter também tempo para descanso, para convivência com a família e para cuidar de si próprio”, conclui Fontes.

Entrevista realizada por Silvia Nascimento, Head de Conteúdo do Mundo Negro.

Foto: Divulgação

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