Estudo analisa mudanças entre 2015 e 2025 e identifica conquistas na educação e na política, mas também desigualdades persistentes no trabalho, na saúde e na segurança
A última década foi marcada por conquistas importantes e desigualdades persistentes na vida das mulheres negras brasileiras. É o que mostra o estudo “Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos direitos das mulheres negras no Brasil”.
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A pesquisa analisa diferentes bases de dados e políticas públicas implementadas entre 2015 e 2025 nas áreas de educação, trabalho, saúde, direitos reprodutivos, segurança pública, justiça climática e representação política.
O levantamento considera o intervalo entre as duas Marchas das Mulheres Negras realizadas em Brasília. A primeira reuniu entre 70 mil e mais de 100 mil participantes em novembro de 2015. Dez anos depois, a segunda mobilização reuniu cerca de 300 mil pessoas, segundo estimativa das organizadoras, com delegações de mais de 40 países.
As mulheres negras somam atualmente mais de 60 milhões de pessoas e representam aproximadamente 28% da população brasileira. Apesar de formarem o maior grupo populacional do país, sua presença nos espaços de decisão política e nas áreas profissionais de maior remuneração permanece distante dessa proporção.
Produzido por Gênero e Número, Observatório da Branquitude e Oxfam Brasil, em parceria com a Marcha das Mulheres Negras, o estudo está organizado em sete capítulos e busca identificar o que mudou e quais reivindicações permanecem atuais dez anos depois da primeira mobilização.
Presença nas universidades quase triplicou
A educação aparece como uma das áreas com os avanços mais expressivos. Entre 2010 e 2022, o número de mulheres negras nas universidades públicas passou de 1,9 milhão para 5,7 milhões. A participação desse grupo no corpo discente cresceu de 15% para 22%.
No período analisado, o número de mulheres negras com ensino superior completo também aumentou 194%. Os dados refletem os efeitos das políticas de ações afirmativas e da ampliação do acesso à graduação, conquistas construídas a partir da mobilização histórica do movimento negro.
Esse crescimento, contudo, não ocorreu da mesma forma em todas as áreas. Mulheres negras permanecem mais presentes em cursos como pedagogia, enfermagem e letras, enquanto medicina, direito e engenharia ainda registram maior concentração de estudantes e profissionais brancos.
A desigualdade também se manifesta na pós-graduação e na composição dos corpos docentes. Segundo o levantamento, ainda existem programas e departamentos universitários sem presença de professores negros.
Para Manuela Thamani, diretora-executiva do Observatório da Branquitude, os avanços não foram suficientes para romper a associação entre determinados espaços profissionais e a figura do homem branco.
No ensino básico, a implementação da Lei nº 10.639/2003 continua distante do que estabelece a legislação. A norma determina a inclusão da história e da cultura afro-brasileira nos currículos escolares, mas 53% das secretarias municipais de Educação ainda trabalham esses conteúdos de maneira esporádica, frequentemente concentrada no mês de novembro.
Registros de violência doméstica cresceram 185%
A segurança pública apresentou um dos cenários mais preocupantes da década. Entre 2014 e 2024, os registros de violência doméstica cresceram 145% no Brasil. Entre as mulheres negras, o aumento chegou a 185%, enquanto entre as mulheres brancas foi de 92%.
Em 2024, o país registrou 1.492 feminicídios. Mulheres negras representaram 63,6% dos casos, segundo os dados reunidos pelo estudo. A maioria dos crimes ocorreu dentro de casa e foi praticada por companheiros ou ex-companheiros.
A pesquisa ressalta que os avanços em outras áreas não garantiram, na mesma proporção, o direito à vida e à segurança. Também recomenda que o quesito raça ou cor se torne obrigatório nos registros produzidos pelos sistemas de segurança pública e de Justiça, permitindo acompanhar as desigualdades e orientar políticas específicas.
Responsabilidade pelo cuidado afasta mulheres negras do trabalho
A distribuição desigual do trabalho de cuidado também continua limitando o acesso à renda, à educação e a empregos formais. Entre 2015 e 2024, aumentou 22% o número de mulheres negras que deixaram de procurar trabalho para cuidar da casa ou de familiares. Entre as mulheres brancas, houve redução de 9%.
No trabalho doméstico remunerado, a pesquisa identificou uma mudança geracional. A presença de mulheres negras mais jovens nessas atividades diminuiu, enquanto cresceu a participação de trabalhadoras com idades entre 41 e mais de 60 anos.
O dado chama atenção para as condições de trabalho, saúde e acesso à aposentadoria das profissionais mais velhas. O estudo defende que o cuidado seja reconhecido como uma atividade estruturante da economia e incorporado ao planejamento das políticas públicas.
Mortalidade materna permanece concentrada entre mulheres negras
Nos direitos reprodutivos, a proporção de mulheres negras entre os óbitos maternos permaneceu inalterada. Elas representavam 64% dessas mortes em 2015 e continuaram correspondendo ao mesmo percentual em 2024, mesmo com uma redução geral de 21% na mortalidade materna no país.
A pesquisa também aponta desigualdades no acesso ao aborto previsto em lei. Mulheres negras aparecem com maior frequência nos registros de aborto espontâneo, mas têm menor acesso ao procedimento legal.
A implementação efetiva da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra está entre as recomendações, considerando o impacto do racismo na qualidade do atendimento, no acesso aos serviços e nos indicadores de saúde.
Representação política cresce, mas permanece desigual
Na política, a participação de mulheres negras apresentou crescimento, embora elas continuem sub-representadas. Entre 2018 e 2022, a presença desse grupo entre as mulheres eleitas para o Congresso Nacional passou de 17% para 31%.
A diferença nas chances de eleição, no entanto, segue expressiva. A taxa de sucesso eleitoral dos homens brancos foi de 8,8%, quase seis vezes superior à registrada entre mulheres negras, de 1,5%.
Para Vitória Régia da Silva, diretora-executiva da Gênero e Número, os avanços são resultado direto da organização e da incidência política das mulheres negras, enquanto a continuidade das desigualdades está ligada às escolhas institucionais e à distribuição desigual de poder, recursos e direitos.
O estudo recomenda a ampliação das cotas para mulheres negras em concursos públicos, a adoção de um orçamento público sensível a gênero e raça e o fortalecimento de políticas permanentes, menos vulneráveis a interrupções provocadas por mudanças de governo.
Julianne Nestlehner, gerente de programas da Oxfam Brasil, destaca que muitas reivindicações registradas na Carta da Marcha das Mulheres Negras de 2015 continuam atuais. O documento, entregue à Presidência da República ao final da primeira mobilização, já reivindicava medidas relacionadas à segurança, à saúde, ao trabalho digno, à educação e à participação política.
O estudo será lançado nesta terça-feira, 14 de julho, às 19h30, no Cine Glauber Rocha, em Salvador. A entrada é gratuita, e a retirada dos ingressos começa às 18h30.
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