Taís Araujo reivindica a busca por pertencimento e identidade de mulheres negras na peça “Mudando de Pele”

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Taís Araujo reivindica a busca por pertencimento e identidade de mulheres negras na peça “Mudando de Pele”
Foto: Nanna Moraes/Divulgação

Muitas mulheres negras demoram para reconhecer a própria negritude, batalham para manter o contrato invisível de boa conduta em um “bom emprego” ou um “bom relacionamento”, e evitar conflitos. Porém, mais cedo ou mais tarde, é preciso reconhecer nossos limites, encarar as contradições e fazer um mergulho interior.

Nessa perspectiva, a magnífica Taís Araujo comove o público no solo coletivo “Mudando de Pele”. Mantendo o humor e a crítica na medida certa, a peça traz as angústias da sua personagem Mayah. Ela chega ao limite por ser a única pessoa negra em um ambiente corporativo tóxico, por conviver com um relacionamento desgastado e sem acolhimento, e por tentar corresponder às expectativas da família sobre como deveria ser aos quase quarenta anos. É nesse momento que ela recomeça a vida inteira do zero.

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Escrita pela inglesa Amanda Wilkin, a montagem conta com a brilhante direção da premiada Yara de Novaes, que transforma temas urgentes das mulheres negras em uma comédia dramática essencial, além do trabalho excepcional de Nathalia Cruz no dramaturgismo.

Com mais de 30 anos de carreira, cada trabalho de Taís Araujo se revela único, imperdível e surpreendente. Em cada diálogo, descrição e reação, é possível envolver-se e, muitas vezes, identificar-se com os sentimentos de Mayah.

Nesse período de transformação, ela conhece duas mulheres que darão novo sentido à sua vida: Mildred, uma senhora jamaicana de 90 anos com quem irá alugar um quarto, e Kemi, uma jovem expansiva que não se prende ao que os outros pensam e com quem irá trabalhar no novo emprego.

Com Mildred, Mayah sente a necessidade de viver mais em comunidade, conhecer as histórias das pessoas que a cercam — especialmente as da colega de quarto, que lutou pelos direitos civis da população negra. Com Kemi, ela percebe a importância de se empoderar como mulher negra e de parar de diminuir-se para caber em algum lugar.

Em diversos momentos, como mulher negra, me identifiquei com o desenvolvimento de Mayah na sua busca por pertencimento e identidade, me fazendo também refletir sobre como nos terreiros é ensinado a importância de ouvir os mais velhos, mas também os mais jovens. Essas trocas geracionais enriquecem a nossa trajetória, fazem com que a gente evolua e se conheça cada vez mais.

Ao longo da jornada, Mayah vai parecendo mais leve conforme passa por transformações e pensa na própria identidade, que também se torna visível através dos próprios figurinos. 

Enquanto Taís envolve o público com o monólogo, as musicistas Dani Nega e Layla conduzem a trilha sonora do palco de forma excepcional, agindo quase como um novo personagem que dá mais vida à personagem. Layla ainda utiliza o kora, um instrumento africano que nos conecta diretamente na busca de Mayah por pertencimento. 

O trabalho nos bastidores também conduz os elementos do palco de forma ágil e coerente com a trama: iluminação, adereços e a movimentação cênica compõem uma equipe em sincronia. À medida que todos se movimentam pelo palco e pelos bastidores, percebe-se um trabalho coletivo bem desenvolvido.

Com toda essa qualidade, “Mudando de Pele” recebeu, nesta semana, cinco indicações ao Prêmio Shell de Teatro nas categorias Atriz, Direção, Figurino, Iluminação e Música, posicionando-se como um dos fortes concorrentes desta edição.

Sucesso de público após temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, “Mudando de Pele” desembarca em Belo Horizonte nos dias 8 e 9 de agosto, com ingressos esgotados. Em seguida, a equipe retorna a capital paulista entre 13 de agosto e 6 de setembro, na FAAP; os ingressos ainda estão à venda.

Assistir Taís Araujo é sempre um grande privilégio. 

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