Spartakus Santiago: Excelência negra, do Youtube para TV

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Foto: Julia Assis

A mídia negra não é novidade no Brasil. Antes mesmo da abolição, comunicadores negros já se mobilizavam para produzir conteúdo relevante para sua comunidade e contestar a sociedade que viviam. Após a chegada da Internet no final dos anos 90, veículos online voltados para negros surgiram timidade (nós inclusive fomos um deles). Já  nos últimos 10 anos, o cenário mudou muito devido ao advento das Redes Sociais, como Facebook e Youtube.

Por meio do seus smartphones muitos comunicadores negros, começaram a usar um espaço massivamente branco e elitizado, para trazer suas narrativas. Alguns pela necessidade de serem ouvidos e contribuir para sua comunidade, muitos por narcismo e fama (assim como muitos brancos).  Dessas centenas de jornalistas, Youtubers, influenciadores, publicitários, poucos conseguiram destaque.

Um dos nomes negros que saiu do status de aspirante a Youtuber para um dos maiores influenciadores negros do país é Spartakus Santiago, de 24 anos. E não é só pela presença de vídeo, beleza e carisma. Ele leva a profissão a sério. Nascido em Itabuna, na Bahia, ele é formado em publicidade pela UFF e em direção de arte pela Miami Ad School em Nova York. Ele corre atrás e já vem colhendo frutos do seu empenho e investimento (ele se mudou para Tijuca no RJ)  e conquistou um programa só seu no canal Futura.

Confira a entrevista exclusiva que ele concedeu a nossa editora, Silvia Nascimento:

Mundo Negro: Quando você percebeu que ser comunicador era a sua praia? Foi uma sugestão de alguém ou algo que nasceu em você naturalmente?

Eu sempre tive talento escrevendo, ganhava concursos no colégio e tal. Mas só decidi seguir nessa profissão quando no meu terceiro ano, um trabalho de matemática que fiz viralizou na internet. Era uma paródia de Lady Gaga e Beyoncé ensinando geometria espacial, que saiu na Globo, SBT, Record, enfim. É o vídeo mais antigo do meu vlog. A partir desse acontecimento, decidi seguir a carreira de comunicador e criativo.

Quais são suas referencias como creator. Quais suas redes sociais favoritas e quem te inspira? Suas pautas são baseadas no buzz?

Eu sempre gostei muito da Jout Jout, assisto bastante o conteúdo do AD Junior, mas meu conteúdo vem de blogs e leituras fora do youtube; leio muito o Geledés, por exemplo. Minha rede social principal é o facebook, pois sua estrutura permite que meus vídeos viralizem, mas hoje em dia prefiro os stories do instagram por proporcionar uma forma mais prática e direta de criar conteúdo. Sim, eu uso muitas vezes o buzz pra fazer minhas pautas serem ouvidas. Uso o interesse das pessoas pela notícia pra criar um aprendizado útil, como uma estratégia pra fazê-las entenderem questões que eu acho necessárias. Mas também tenho vídeos que não são em cima de polêmicas, que por não serem em cima de um acontecimento quente acabam sendo menos conhecidos.

Foto: Julia Assis

Você muitas vezes tuíta sobre a toxidade das redes sociais e comentários permissivos que você recebe. Como você lida com isso? Já chegou a bloquear a sua criatividade? Sofreu alguma ameaça que te tirou o sono?

Comentários racistas e homofóbicos de conservadores são algo constante na minha vida e eu sinceramente nem ligo mais. No início me incomodava mas depois que entendi que é o preço que se paga por falar coisas que desafiam privilégios. O que mais me incomoda hoje é militância tóxica, é aquela pessoa que é dentro do movimento que te vê como inimigo ao invés do patriarcado branco e heteronormativo. Isso aí realmente me faz mal e eu tenho que bloquear pra preservar minha saúde mental. Sim, eu recebo ameaças que às vezes até posto nos meus stories, e isso me dá um pouco de medo de anunciar minha ida a algum lugar, por exemplo. Mas faz parte.

O projeto Influência negra, como surgiu e quais suas expectativas sobre ele? As marcas não se associam a influenciadores negros, sem ser aqueles 2 ou 3 de sempre? Ou vc percebe uma mudança?

O Influência Negra surgiu como forma de lutar contra marcas que reproduzem a falta de representatividade da mídia tradicional no meio digital, escolhendo só influenciadores brancos. Surgiu também como forma de empoderar criadores de conteúdo negros que são invisibilizados pelo racismo dos usuários das redes sociais. Entendo que por ser um homem negro de pele clara tenho privilégios do colorismo e esse projeto é uma das formas que achei pra dar espaço a outros criadores menos privilegiados. Mas o Influência Negra não foi criado só por mim, ele é antes de tudo um coletivo formado por vários criadores: homens, mulheres, negros de pele clara, retintos, heteros, LGBTs, grandes, pequenos, do sudeste e fora dele também. Entre eles, Ana Xongani, Cleyton Santanna, Maíra Azevedo, Camilla de Lucas, AD Junior e etc. É a nossa forma de se organizar e responder em conjunto, seja pra criticar uma campanha racista, seja pra elogiar a representatividade de um comercial, seja pra divulgar algum influenciador pequeno que merece mais atenção. Infelizmente muitas marcas só escolhem influenciadores baseados em números, sem pensar em representatividade; quando escolhem, realmente usam sempre os mesmos. Mas longe de mim querer culpar esses poucos criadores negros contratados, o problema pra mim é a miopia das agências de publicidade que ignoram nosso valor. Eu sei do meu alcance, eu sei da qualidade do meu conteúdo, eu sei do impacto que eu causo na internet e se as marcas preferem se associar a youtubers brancos que twittam piadas racistas, quem perde são elas. Só lamento.

Por que você acha que canais cujo os donos são notoriamente racistas, não são bloqueados?

Li recentemente uma entrevista do Mark Zuckeberg falando sobre esse problema dentro do facebook. Infelizmente, são empresas com donos brancos que às vezes acham que o racismo é liberdade de expressão, e que lutar contra esse ódio é “censura”. Claramente uma visão de pessoas que não entendem a gravidade desse conteúdo, como ele pode influenciar pessoas a serem cada vez mais preconceituosas e fazer negros serem discriminados. Uma grande irresponsabilidade que pode custar vidas. Mais do que isso, as plataformas não se preocupam em criar pontes nem dar visibilidade a conteúdos com impacto social. Eu me sinto totalmente ignorado. Mas aceito que é o tipo de coisa que vamos passar a vida toda por sermos minoria e tento hackear o sistema.

Vimos que você começou a trabalhar no canal Futura. Como está sendo essa experiência para você. Como chegou esse convite?

Existia um programa antigo no canal chamado Cine Conhecimento, onde um filme era exibido e depois uma apresentadora fazia um comentário cinematográfico sobre ele. O pessoal do futura viu um vídeo meu que viralizou analisando Pantera Negra e resolveram me chamar pra um projeto que buscava renovar esse programa. Agora ele virou o Cineclube Futura, e agora no final do filme há um debate entre eu e outros convidados sobre questões sociais presentes no filme. Terminamos de gravar a primeira temporada agora e foi uma experiência incrível. Os debates foram extremamente relevantes, falamos sobre racismo, machismo, homofobia, aborto, drogas, violência, corrupção, meritocracia, desigualdade, privilégios… todos os temas possíveis. A maior parte da equipe é composta de mulheres, num programa apresentado por um gay negro. E nos debates os convidados são bem diversos: negros, brancos, mulheres, homens, héteros, LGBTs, cis, trans, pessoas do sudeste e fora dele. É uma grande dádiva poder estar nesse projeto, de verdade.

Você fez um vídeo muito legal sobre a solidão do homem negro. Nessa era digital, o relacionamento offline está mais difícil, não só o amoroso, mas o social como um todo?

É um vídeo bem pessoal, que surpreendentemente teve uma resposta bem grande do público. Vários gays negros se identificaram com minha história e se inspiraram com o vídeo, o que eu acho incrível. Eu não acho que o relacionamento offline está mais difícil, na verdade as redes se tornaram até pontes pra que eles sejam possíveis. Se você é gay, a única forma de você conseguir arranjar alguém era ir numa balada gay. Hoje em dia você tem aplicativos de encontros, tem o instagram, o Facebook… É claro que tem pessoas que acabam preferindo as relações digitais, que ignoram as pessoas ao seu redor pra ficar no celular, mas acho que faz parte desse momento onde a sociedade ainda está aprendendo a lidar com toda essa nova tecnologia.

Como você explica o fato dos canais negros no Youtube terem baixo alcance, se somos mais de 54% da população? Você acha que é uma plataforma black-friendly?

Os criadores brancos chegaram nessas plataformas antes de nós, por ter mais poder financeiro pra ter acesso a tecnologia. Agora que nós estamos ocupando esse espaço, o topo já está ocupado por eles. Além disso temos que lidar com o racismo dos usuários, que acham criadores brancos mais bonitos, mais interessantes, mais inteligentes. Somos vistos por muitas pessoas como negros chatos reclamões, até por outros negros. Apesar de 54% da nossa população ser negra, nem todo mundo se interessa por questões raciais ou sabe a importância de apoiar outros negros. Somos educados desde crianças que os brancos são os centros do mundo e muitos de nós reproduzem isso inconscientemente. É preciso descolonizar a mente.

Pelos Stories você diz que está relançando o seu Vlog. O que podemos esperar de novidade?

Meu vlog começou por acidente, quando eu postei um vídeo no meu perfil do Facebook sobre apropriação cultural que viralizou. Como eu era publicitário e tinha pouco tempo livre, durante esse ano eu tinha levado ele como um hobbie, gravando quando dava, sem muita organização. Agora eu larguei a publicidade e meu canal virou meu trabalho principal. Por isso, agora começa a fase profissional do meu vlog. Vou mudar toda a identidade visual, vinhetas, estou fazendo um planejamento de conteúdo e finalmente começarei a fazer colaborações com outros Youtubers. Podem esperar um canal mais completo, com conteúdo mais diverso e cada vez maior.

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