Sérgio Camargo quer homenagear a Princesa Isabel e dá mais uma prova do desmonte que o governo quer promover na Fundação Palmares

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Os ataques a memória e a cultura do povo negro brasileiro não cessam no governo Bolsonaro. O atual presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, é a figura “Clara” de um desmonte da intelectualidade que construímos no país. Como já citei, inclusive em um episódio do meu podcast, não tenho problema algum com ele ser um “negro de direita”, mas com o fato dele ser um homem tão limitado dentro do pensamento bolsonarista que nem reconhece como os movimentos negros sempre foram plurais na história brasileira – aliás, ele é tão incapaz, que ainda cita movimento negro como um grupo uníssono, é um orgulhoso desconhecedor da história e da realidade negra do país.

De certo, acredita que Palmares, em pleno século XVII, era liderado por membros do PT e tinha seus mocambos distribuídos para o PSOL. Essa dicotomia política não cabe na nossa história, mas é utilizada para proselitismo de ambos os lados, obviamente o extremismo de Sérgio Camargo tira toda razoabilidade da sua atuação, sua única função dentro da instituição é desmontar e tentar desmoralizar os movimentos que lutam por isso, rotulados de “esquerdistas vitimistas”.

Em nova empreitada, após anunciar que gostaria de mudar o nome da Fundação Palmares para Fundação André Rebouças, ele afirmou que vai homenagear a Princesa Isabel no dia 13 de Maio (dia da Abolição da Escravatura) e que se recusa a celebrar o dia da Consciência Negra em Novembro – não sou jurista, mas acredito que isso possa abrir um debate sobre desvio de função, já que a instituição que ele preside foi construída como materialização da luta representada por Ganga Zumba, Aqualtune, Dandara e Zumbi.

Gostaria que você, leitor, entendesse algo importante e pudesse se afastar do obscurantismo, da ignorância e da baixeza de pensamento que ele tenta construir: Não existe comparação entre Zumbi e Rebouças, Palmares e Isabel ou qualquer outra que o populismo e extremismo partidário venda.

A princesa Isabel tem um papel, verdadeiramente, importante na abolição da escravatura brasileira. Ela estava, de algum modo, confrontando um sistema patriarcal e nutria sentimentos abolicionistas reais. Tanto que era próxima de grandes nomes abolicionistas como o próprio André Rebouças. Quem dera se houvesse nomes como os dele liderando a atual Fundação Palmares. Todavia, a abolição da escravatura é um processo complexo, cheio de contradições e que foi sendo construída ao longo de décadas por tanta gente em posições diferentes. Elevar um único nome como “Salvador” do povo negro é, no mínimo, um atestado de burrice.

Nenhum historiador sério, professor de caráter ou jornalista empenhado conseguiria descrever todo o processo que findou com a escravidão em nosso país utilizando apenas um ou dois parágrafos sem fazer justiça a nomes como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e, evidentemente, lembrando da “outra abolição” que vinha dos Quilombos.

Só em 1830 em Salvador foram duas ou três dezenas de revoltas que pressionaram o sistema escravagista, a última grande revolta, protagonizada por Manuel Congo e Mariana Crioula (1838) deixou marcas tão profundas que alguns fazendeiros concederam certas liberdades para evitar novos motins, a escravidão estava sendo flexibilizada com leis como Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários (podemos inclusive discutir sua efetividade).

Pelo calor das emoções e pela sua proximidade, após a assinatura da Lei Áurea, o lendário abolicionista José do Patrocínio montou uma guarda negra, um movimento de capoeiristas e partidários da monarquia que se prestavam a defesa de Don Pedro II e da Princesa Isabel, o culto a princesa ficou conhecido, então, como Isabelismo. Não durou muito, com a ascensão da República e isso pode ser uma predição do trabalho de Sérgio Camargo à frente da Fundação.  Em toda história do povo negro brasileiro, um título temporário não é suficiente para desmontar séculos de trabalho árduo. Principalmente quando suas contribuições não passam de grosserias e ideias fundamentadas na idolatria à figura do atual presidente da República.

Nesse contexto, nem mesmo a Isabel será o verdadeiro alvo das homenagens. No Isabelismo de 2020, a coroa da princesa dada por Sérgio Camargo é direcionada para a cabeça exclusiva de Jair Bolsonaro.

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