Representatividade na ficção importa também!

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“I just saw a black woman on television; and she ain’t no maid!” – Whoopi Goldberg, sobre sua reação quando, na infância, se deparou com Nichelle Nichols interpretando a Tenente Uhura em Star Trek.

(Acabei de ver uma mulher negra na televisão e ela não é uma empregada!)

Por Fernando Sagatiba *

Ainda na carona do assunto ‘Tocha Humana negro’, muita gente diz que não pode mudar e blá blá blzzzZZZZZZZZ. Sono. Muito sono com esse povo e esse papo. Não vou entrar nos mesmos argumentos de antes, apenas estamos cientes de que do quadrinho para o cinema ou para a TV, a mídia muda, os tempos são outros, são outras cabeças pensantes (?!) então, o resultado final é um produto diferente, obviamente. Por exemplo, eu adoro o personagem Flash e o que mais acompanhei foi Wally West. Muitos preferiam Barry Allen, que, por sinal, é o personagem por trás da máscara do ligeirinho na recente série de TV. Eu, particularmente, não vi nada de mais, gostei dos efeitos especiais, mas o background da CW (produtora da série) é muito novelão, lembre-se de Smallhaçãoville, por exemplo. Não gosto de novelão com poderes, não gosto dessa versão ‘Peter Parkerizada’ do Flash. Ele é só um Homem-Aranha que corre muito rápido. Mas eu vou achar que tinha que ser do jeito que eu especialmente gosto? Não, sabe porque? Porque o personagem tem décadas de existência, já passaram, como eu disse, inúmeros desenhistas e roteiristas pela revista e não dá pra cagar regra de que a minha especial é que é a certa.
“Ain, mas ele é negro!”

Nichelle Nichols participou do elenco principal de Star Trek, a original, entre 1966 e 1969

 

Agora vem a cereja do bolo. Nichelle Nichols e sua importância na cultura pop (cof nerd cof). Nichelle participou do elenco principal de Star Trek, a original, entre 1966 e 1969 e foi quem gerou interesse em, por exemplo, Whoopi Goldberg em estar naquele mundo que presenciava, segundo ela mesma, indo correr para a mãe em casa falando ‘Mãe, tem uma negra na TV e ela não é uma empregada’. Na verdade, era o contrário, Uhura era tenente, tendo sido reconhecida até por Martin Luther King Jr como um divisor de águas e uma importante personalidade para a identificação de do negro. Por isso que eu falo, representatividade conta e muito. Não estamos falando de um capricho infantil e superficial de ‘mudou a cor’. Estamos mais preocupados com coisas que realmente importam. Não é pra afrontar um cabeça oca, é pra olharmos e falarmos ‘tá aí, eu compro essa ideia, ela me faz sentir incluído e não um estrangeiro do mundo’. É pelas crianças que hoje estão tendo a chance de ver muito mais representatividade do que tivemos e já vão ser figuras para repassar essa importância com muito mais bagagem. Eu ainda acho que seria mais legal o já citado Tocha ter uma irmã negra também. Já que mudou, ue mudasse logo os dois irmãos, em vez de colocar a Sue como adotada, mas enfim…

Whoop Goldberg e Nichelle Nichols

Só lembrando que o episódio piloto de Star Trek tinha sido rejeitado porque trazia uma mulher numa posição de destaque… depois, sua posição não veio tão destacada como um protagonista, mas ainda assim, na ponte de comando, uma tenente. E negra, quando mesmo se fosse branca, já teria dificuldades. É bem verdade que geralmente, negros servem muito como elemento ‘exótico’, mas a representação está ali, imagina só, em tempos de conflitos por direitos civis para os negros, o elenco principal de uma série estadunidense traz uma mulher negra, sendo que lá, ao contrário do Brasil, a população negra é minoria. Uhura é representatividade. Isso serve de mais um exemplo de especulações de mudança. Por exemplo se pusessem uma mulher branca nesse universo paralelo dos novos filmes, faria toda a diferença, já que é parte da construção da Uhura ser mulher e negra. Não daria pra mudar um desses elementos sem descaracterizar. Ao contrário do Tocha onde não faz a menor diferença ele ser branco, índio ou japonês. Calhou de ser negro nessa nova. Numa próxima ele pode ser a Paris Hilton… Rá!

Fernando Sagatiba  – Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Blog: Divagar é preciso:  http://garciarama.blogspot.com.br/

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Silvia Nascimento é jornalista e diretora de conteúdo do site Mundo Negro, curadora digital e produtora de conteúdo especializada em questões étnicas. Pisciana contestadora ela é consciente do seu propósito e exerce sua liberdade por meio da escrita. Ah, ela ainda realizou o primeiro curso dedicado apenas black creators no Youtube. Contato: silvia@mundonegro.inf.br