Pesquisas mostram que gente negra sustentou a guerra que garantiu a independência do Brasil na Bahia, com Maria Felipa e Antônio Rebouças na linha de frente
A independência do Brasil é apresentada nos livros didáticos como um gesto solitário do príncipe regente Pedro, que teria anunciado às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, a separação em relação a Portugal. Pesquisas de historiadores como Hélio Franchini Neto, diplomata e doutor em História pela Universidade de Brasília, mostram um processo bem mais longo e sangrento, que mobilizou mais de 50 mil soldados entre 1821 e 1823 em confrontos armados espalhados do norte ao sul do país. A tese de Franchini Neto, publicada em livro pela Topbooks sob o título “Independência e Morte”, reconstitui esse período de instabilidade política que só se encerrou de fato no primeiro semestre de 1823.
Notícias Relacionadas



A imagem mais conhecida da independência é a pintura “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, concluída em 1888 por encomenda da comissão responsável pela construção do Museu do Ipiranga, atual Museu Paulista da Universidade de São Paulo. A obra retrata o príncipe montado a cavalo, cercado por uma comitiva vestida com trajes formais. Pesquisas de historiadores da própria USP apontam que a comitiva viajava, na verdade, em mulas, mais adequadas ao trajeto acidentado entre o litoral paulista e a capital, e usava roupas comuns de viagem, sem o brilho de corte europeia reproduzido na tela.
A decisão de proclamar a independência também não partiu apenas do príncipe. Em 2 de setembro de 1822, enquanto Pedro estava em São Paulo tentando apaziguar uma disputa política local, chegou ao Rio de Janeiro um decreto das Cortes portuguesas que exigia seu retorno imediato e anulava atos de seu governo. A princesa Maria Leopoldina, que assumira a regência interina do Brasil em 13 de agosto daquele ano, reuniu o Conselho de Estado, que recomendou por unanimidade a ruptura com Portugal. A recomendação chegou ao príncipe em 7 de setembro, data que se tornou o marco oficial da independência.
Na Bahia, a separação em relação a Portugal levou mais tempo e custou mais vidas. As tropas portuguesas resistiram à independência até 2 de julho de 1823, em batalhas que mobilizaram a população negra de Salvador e da região do Recôncavo. Uma das lideranças desse combate foi Maria Felipa de Oliveira, mulher negra nascida na Ilha de Itaparica e descendente de africanos sudaneses escravizados. Marisqueira e capoeirista, Felipa liderou um grupo de cerca de 40 mulheres que atraiu marinheiros portugueses para uma emboscada, agrediu-os com folhas de cansanção, planta que provoca queimaduras, e incendiou embarcações inimigas na Baía de Todos os Santos. A ação foi decisiva para impedir o avanço português sobre Salvador e é lembrada anualmente no desfile cívico do 2 de julho na capital baiana.
Também fez nome nessa guerra o advogado Antônio Pereira Rebouças, filho de pai português e da negra liberta Rita Brasília dos Santos. Autodidata, sem diploma em direito, Rebouças manteve diários em que relatava sua participação nas batalhas decisivas da Bahia e se descrevia como um herói da independência. A historiadora Keila Grinberg, autora da biografia “O Fiador dos Brasileiros”, confirma que foi ali, na guerra baiana, que ele começou a construir o nome que o levaria à política. Em 1824, ao assumir a secretaria de governo da província de Sergipe, Rebouças enfrentou forte resistência de proprietários locais incomodados com um homem negro à frente dos negócios públicos. Mesmo assim, seguiu carreira política longa, como deputado em diversas legislaturas e conselheiro do Império.
A permanência da escravidão foi a condição que sustentou o acordo entre as elites políticas e econômicas responsáveis pela criação do novo país. A historiadora Ynaê Lopes dos Santos, professora da Universidade Federal Fluminense e consultora do podcast “Projeto Querino”, explica que a unidade nacional buscada pela elite brasileira dependia diretamente da manutenção do trabalho escravo, instituição que organizava a sociedade não apenas economicamente, mas também política e socialmente. Dois anos após a separação de Portugal, a primeira Constituição do Império, outorgada por Pedro I em 1824, manteve intacto o sistema escravista.
O jornalista Tiago Rogero reuniu essas histórias no podcast “Projeto Querino”, produzido pela Rádio Novelo, e depois em livro publicado pela editora Fósforo. O nome do projeto homenageia Manuel Raimundo Querino, jornalista, professor e abolicionista baiano autor de “O Colono Preto Como Fator da Civilização Brasileira”, de 1918. Uma frase do fotógrafo e ativista do movimento negro Januário Garcia abre o trabalho de Rogero: “existe uma história do negro sem o Brasil, o que não existe é uma história do Brasil sem o negro”.
Ao reunir episódios como a resistência de Maria Felipa e Antônio Pereira Rebouças na Bahia e o pacto que manteve a escravidão após 1822, pesquisadores como Franchini Neto, Ynaê Lopes dos Santos e Tiago Rogero convidam o leitor a revisitar o 7 de setembro com outra pergunta em mente, a de quem, além do príncipe a cavalo, também lutou para que o Brasil deixasse de ser colônia.
Notícias Recentes


