Quem disse que todo preto tem que ter uma história triste para contar?
Vivemos em um mundo em que o nosso povo sofreu por tantos anos nas garras da opressão, da escassez, da invisibilidade e da marginalização que, inconscientemente, ao olhar para uma pessoa preta, assim como nós, ocupando um espaço que há anos foi negado a ela, o primeiro sentimento é o de reconhecimento acompanhado pela admiração — pelo menos se espera que seja, mas isso é conteúdo para outro artigo.
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O segundo é aquele olhar, muitas vezes compassivo, que surge a partir de uma perspectiva de resiliência. Imagina-se tudo que aquela pessoa teve que enfrentar para chegar até aquele lugar de prestígio. As noites mal dormidas são o de menos. Logo, ela é associada a uma pessoa de origem humilde: quantos ônibus ela tinha que pegar para chegar à faculdade? Quão difícil foi ter que trabalhar e estudar para colocar comida na mesa diante do medo da escassez que bate à porta?
Mas a cabeça dessas pessoas explodiria se elas soubessem que nem todo preto tem o mesmo ponto de partida.
Muito se fala do privilégio branco, mas hoje gostaria de pautar e trazer à luz uma outra realidade, vivida pela minoria da juventude negra, mas que existe.
Esses meses, rolando o TikTok, ouvi alguns relatos de jovens negros satirizando o fato de que, quando chegam à sala de aula de seus respectivos cursos considerados de “elite” ou quando estão em uma roda de conversa com pessoas pretas e brancas, grande parte espera que eles tenham um passado triste para contar. Ou que cresceram sem pai. Ou que viveram, em algum momento da vida, em situação de vulnerabilidade social.
Mas, apesar de os dados comprovarem que uma parcela expressiva da população preta e parda no Brasil vive em uma realidade de escassez, existem jovens pretos que já nascem em famílias estáveis financeiramente, com condições de arcar com moradia, estudos, viagens, intercâmbio e tudo aquilo que ao nosso povo, por muito tempo, foi negado e parecia muito distante.
Em 2024, segundo o IBGE, 25,8% das pessoas pretas e 29,8% das pessoas pardas estavam abaixo da linha de pobreza considerada pelo instituto, enquanto entre as pessoas brancas esse percentual era de 15,1%. Entre os jovens de 15 a 29 anos, a proporção era de 25,4%. Os números ajudam a dimensionar por que a associação entre juventude negra e escassez não surge do nada: ela está ancorada em uma desigualdade racial concreta. Mas esses mesmos dados não significam que toda pessoa negra parta do mesmo lugar.
É justamente nesse ponto que quero colocar a reflexão: existe uma juventude negra que também cresce em ambientes de estabilidade financeira, acesso à educação, viagens, intercâmbios e outras experiências que durante muito tempo foram negadas ao nosso povo. E reconhecer essa existência não apaga a desigualdade. Pelo contrário, expande a forma como enxergamos as diferentes experiências negras.
Esse cenário pode ser facilmente visualizado no universo cinematográfico do diretor e roteirista Tyler Perry, especificamente no último filme da trilogia Why Did I Get Married Again? (Por que eu me casei de novo?), lançado no dia 9 de setembro na Netflix.
A trama reúne o elenco principal de casais, que agora se juntam para prestigiar o casamento dos filhos, quando uma série de conflitos se desenrola ao redor dos relacionamentos da nova geração de protagonistas. Porém, o que me chama atenção na produção é o universo no qual eles estão inseridos, em que a prosperidade, a riqueza e a fartura não são tabus em nenhuma das relações construídas. As personagens convivem dentro dessa realidade com naturalidade.
A mensagem que é transmitida através do filme é que o povo preto também pode partir de relações de privilégio e ser protagonista de suas próprias histórias, que emergem em um ambiente estável financeiramente e emocionalmente.
Porém, no decorrer da trama, vão se revelando desavenças entre o casal protagonista prestes a se casar, estrelado por Armani Greer, como Jasmine, a noiva, e Everett Osborne, interpretando Wesley, o noivo.
Traumas e bloqueios comportamentais ocasionados pela falta de comunicação dentro do ambiente familiar causam mal-entendidos. No final do filme, revela-se que parte desses conflitos é fruto da vergonha dos mais novos em expor a real situação de suas relações amorosas por conta da idealização da vida perfeita na qual cresceram, vendo os pais inseridos nela, mal sabendo eles os obstáculos que tiveram que enfrentar emocionalmente no percurso.
E todos esses desdobramentos me fizeram refletir sobre o quanto a juventude negra vive tão acuada por ser regularmente projetada em uma realidade de escassez, não só financeira, mas também emocional, e até que ponto isso consegue nos impedir de visualizar que existem outras realidades nas quais nós podemos e temos o direito de estar inseridos.
Porque existe uma diferença entre reconhecer os privilégios que tivemos e sentir culpa por eles. Nós não devemos sentir culpa por ocupar espaços de privilégio. Mesmo olhando ao redor e vendo que essa não é a realidade da maioria dos nossos, devemos nos sentir mais livres, adeptos e corajosos para aproveitar ao máximo tudo o que a vida nos oferece nos ambientes em que vivemos, crescemos e aprendemos.
Não precisamos transformar nossas conquistas em uma história de sofrimento para que elas sejam consideradas legítimas. Não precisamos ter passado fome para valorizar a comida, nem ter enfrentado a ausência de oportunidades para reconhecer o valor de uma boa educação. Não precisamos carregar uma história triste nas costas para provar que somos negros de verdade.
A nossa história também pode ser construída a partir da estabilidade, do afeto, da segurança, da prosperidade e do acesso.
E talvez seja justamente por isso que precisamos nos visualizar em espaços que nos foram negados: para que a juventude negra entenda que reconhecer a própria realidade não significa esquecer a realidade coletiva. É possível saber que a maioria da nossa população ainda enfrenta a escassez e, ao mesmo tempo, permitir-se viver aquilo que foi negado a tantas gerações antes de nós.
O ponto de partida da juventude negra não é pré-determinado.
E nós não precisamos pedir desculpas por isso.
Fontes dos dados: IBGE, Síntese de Indicadores Sociais 2025, com dados da PNAD Contínua de 2024. Síntese de Indicadores Sociais 2025 — IBGE
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