Preto e Gay: Um relato pessoal sobre interseccionalidade

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O ano é 2010, eu e meus amigos adolescentes sentados num ponto esperando o ônibus pra irmos à escola.  Um vendedor passa, olha para o meu amigo (bastante afeminado), e exclama com olhar de repulsa:

– Não basta ser preto, ainda é gay –.

Ninguém fala nada.

Não sabíamos das implicações de ser gay.

Não sabíamos das implicações de ser negro.

Mas já sabíamos que a coexistência desses dois fatores tornaria tudo ainda mais difícil.

O homem gay negro é ora visto como mero objeto de curiosidade e fetiche, ora visto como não atrativo; mas nunca considerado como alguém dotado de qualidades, medos, características e desejos próprios. Somos sempre objeto da imaginação e necessidade de realizar fantasias de homens brancos. Nos aplicativos a dicotomia persiste: a maioria dos gays se dividem entre “não me relaciono com negros” e “adoro um negão desde que, bem dotado”, sendo a segunda afirmação muitas vezes vista com bons olhos até mesmo por alguns negros já que, é isso ou nada. Afinal de contas, na vida real relacionamento com negros só se for pra uma transa casual e as escondidas.

É aí que entra a tal da hipersexualização de corpos negros, a idealização do “negão” selvagem, viril, bem dotado que remonta ao tempo da escravidão quando os negros eram obrigados a serem reprodutores. Isso se reflete ainda nas abordagens, que sempre são acompanhadas de frases como: “é dotado?”, “curte meter sem pena num rabo branco?”, “quero um negão pra me arregaçar”, entre outros absurdos.

Nos espaços, o homem gay negro é geralmente invisível. Outro dia, no tinder, dei match com um menino branco que sempre frequentava a mesma balada que eu. Ao comentar com ele a respeito disso, ele responde: “Ué, mas eu nunca te vi por lá”. Talvez nunca tenha visto mesmo, a quantidade de gays brancos no local era imensa como era possível para ele notar alguém com outra cor de pele? Somos sempre os amigos da bicha branca que já se relacionou com meio mundo de gente, estamos sempre por ali, mas ninguém nos nota. Essa invisibilidade é perpetuada não só pela mídia, mas também pela comunidade lgbt.

Por exemplo, um site especializado em cinema postou uma lista com os melhores filmes gays para se assistir, e só um filme era protagonizado por gays negros, no caso, Moonlight (a lista tinha 100 filmes). Gays negros quase nunca são representados.

Não é por acaso também que muitos negros só se relacionaram afetivamente com homens brancos… Não estamos acostumados a nos enxergamos. Mas não se engane, esses relacionamentos são também permeados por situações decorrentes do racismo… Olham como se dissessem: “não acredito que aquele menino lindo (o branco), namora com esse menino (o negro)”, há ainda aqueles que exibem o seu namorado branco como um troféu, uma dádiva, um privilégio.

Até as nossas preferências sexuais são colocadas em questão. Certa vez, um menino num aplicativo me disse que não era possível eu ser passivo (sim, gay negro precisa ser ativo), isso não foi um fato isolado… Desde que iniciei a minha vida sexual ouço comentários do tipo “você não tem cara de passivo” (por cara, leia-se cor), “você está inventando desculpa porque não quer ficar comigo” (como se fosse realmente impossível para um negro ser passivo), entre outras coisas.

Tem ainda os que dizem não se relacionar com homens negros por questão de gosto, como se isso justificasse toda e qualquer contra argumentação. Sim eu sei! Todo mundo em maior ou menor grau precisa lidar com rejeição na vida, a grande questão é que neste caso a rejeição é exclusivamente baseada na cor da sua pele. O fato é que gosto é construção social, ninguém é obrigado a ficar com ninguém, de fato, mas quando suas preferências eliminam todo um grupo da possibilidade afetiva não é questão de gosto, é questão de racismo.

Tudo isso acaba por destruir a autoestima do homem gay negro que é alimentada por uma sensação de não-pertencimento, não nos sentimos incluídos nas pautas do movimento lgbt e tampouco nas discussões do movimento negro, para além disso temos que lidar com o racismo e homofobia que permeiam a nossa sociedade. À noite, as pessoas atravessam a calçada ao cruzarem conosco, de dia, estamos solitários e somos obrigados a nos contentar com relações casuais, marginalizadas e às escondidas.

Daí que surge a necessidade de nos fortalecermos enquanto negros. E isso é mais do que uma frase de efeito, é um processo lento e gradual que consiste em nos aceitarmos, nos entendermos e nos amarmos. Fazendo com que a gente se enxergue e possa enxergar o outro.

Fortalecimento. Este que nos permite dizer não a situações que outrora nos submeteríamos, a nos relacionarmos com outros meninos negros.  Nos tornando espelho, exemplo, aprendizes e companheiros de nós mesmos. E nos possibilitando entender aquilo que sempre nos foi negado: Ser preto é lindo e como se já não bastasse, ser preto e gay é lindo demais.

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