Porque brancos odiaram o comercial de O Boticário e nós detestamos o da Perdigão

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Reprodução: Twitter

Não há negros em campanhas brasileiras de joias, carros de luxo, serviços prime, nem como pessoas ricas nas novelas, nos filmes nacionais. Com a alegação de que se “falta atores negros”, ficamos “cismados” quando em campanhas de financiamento de casas populares, benefícios do SUS, papel de segurança, doméstica e até bandidos na dramaturgia, esses atores negros emergem do nada, passam nos testes e representam a comunidade negra em papeis secundários, ou pior ainda, carregados de estereótipos.

Reprodução/Twitter
Cacau Protásio, em “Avenida Brasil”, viveu a empregada Zezé,

Quando falamos de racismo estrutural dentro de um recorte de representatividade nos meios de comunicação, estamos dizendo que brancos sempre vão fazer papeis de ricos e bonzinhos, ou no máximo um vilão carismático e os não brancos, grupo onde entramos, sempre serão os pobres e bandidos. Essa é a estrutura perversa da leitura midiática de etnias que ainda é forte e presente no Brasil do século XXI.

Não por acaso, esse é um dos motivos pelos quais pessoas brancas se espantaram com a campanha da família negra do O Botícário e a comunidade negra se manifestou contra a campanha do natal solidário da Perdigão, onde uma família negra agradece a doação de um Chester, feita por meio de uma ação de um homem branco (que comprou o alimento, depois fez discurso de cidadão do bem para sua família).

Há quem apontou uma mulher negra no “lado branco” do comercial, mas o diálogo da campanha se dá entre a mulher negra pobre agradecida e o homem branco rico que ajuda os carentes, reforçando a imagem do racismo estrutural, dos papeis que são para brancos e os que são para negros. E essa imagem que faz com que nossas crianças negras se sintam menos que as crianças brancas, que sempre verão o rosto negro, como a representação da pobreza.

O Youtuber e produtor de conteúdo AD Júnior foi além, remetendo ao branco, do comercial, o papel de princesa Isabel, salvadora dos negros.

Não podemos negar que negros são a maioria dos pobres do país, mas há uma classe média que carece de representatividade e de pessoas negras, que mesmo sendo pobres, planejam seu orçamento para oferecer uma mesa farta a suas famílias no final de ano ou que mesmo ao longo do ano, consomem produtos de boas marcas, mesmo que eventualmente.


O publicitário Fernando Montenegro, o maior especialista em afro-consumo do país apontou uma outra leitura interessante sobre o comercial.“O negro não é tratado pela marca como um consumidor direto de seus produtos, não é o verdadeiro público alvo dessa peça publicitária, que mira na família branca apostando no apelo assistencialista da campanha. A mensagem transmitida é a de que a única forma de a família negra ter acesso ao Chester Perdigão é por meio dessa caridade – vide o quão agradecida a matriarca aparenta estar pela doação”.

Montenegro ainda mostra um outro comercial, também dá Perdigão com o mesmo recorte.

Se movimentamos a economia, são os brancos que deveriam nos agradecer por isso, afinal se 54% da população deixar de consumir, o que será desse país?

Resposta da Perdigão:
 “A Perdigão lamenta que a campanha publicitária de Natal tenha ofendido qualquer um de nossos consumidores. Nunca foi essa a nossa intenção. Falar de generosidade é, para nós, uma forma de união e agradecimento a todos os nossos consumidores, que há três anos colaboram para o Natal de mais de 6 milhões de pessoas, independente de cor, gênero, raça ou religião. É nisso que acreditamos“.

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