Por que as mulheres negras estão voltando a alisar os cabelos? Liberdade de escolha ou retrocesso estético?

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Por que as mulheres negras estão voltando a alisar os cabelos? Liberdade de escolha ou retrocesso estético?
Créditos: Divulgação

Por: Nossa Pele Negra e Mundo Negro

Você está rolando a tela e, aos poucos, começa a notar um movimento. Nos vídeos do TikTok e nos Reels do Instagram, o mesmo tipo de conteúdo se repete: mulheres crespas e cacheadas voltando a alisar o cabelo. Algumas interromperam a transição, outras já tinham passado por ela há anos, mas agora parecem compartilhar algo em comum: a preferência pelos fios lisos. O que parecia ter ficado no passado, após o movimento de transição capilar que ganhou força na última década, ressurge agora.

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Os dados ajudam a ampliar essa percepção. No Google Trends, o interesse por termos como “alisamento de cabelo crespo” e “alisamento de cabelo cacheado” nunca desaparece, ele oscila. Esse cenário também dialoga com o retorno de estéticas dos anos 2000, com referências de cabelo liso voltando à cena.

Mas afinal, estamos diante de uma nova mudança estética ou de um ciclo que já conhecemos?

Do “black is beautiful” à estética livre: uma breve linha do tempo

A relação entre a mulher negra e seu cabelo é atravessada por séculos de resistência e imposições. Para entender onde estamos, é preciso olhar para trás:

  • 1858 | O despertar do “black is beautiful”: Em Boston, o abolicionista americano John Swett Rock proferiu um dos primeiros discursos registrados exaltando as características físicas negras. Este marco é considerado a base intelectual para a expressão que, décadas depois, se tornaria um hino de orgulho racial.
  • 1870 – 1920 | A era do pente quente: O uso de técnicas de alisamento por calor, como o hot comb (pente quente), consolida-se como prática comum, sendo amplamente adotado por mulheres negras nos EUA durante o início do século XX como forma de conformação aos padrões vigentes.
  • 1930 – 1950 | O alisamento como padrão: O alisamento ganha força sistêmica nos Estados Unidos. Tanto por métodos térmicos quanto pela introdução de relaxantes químicos, a manipulação do cabelo crespo torna-se o padrão estético praticamente obrigatório em diversos contextos sociais.
  • 1930 | A resistência rastafári: Paralelamente às pressões de alisamento, surge o movimento Rastafári. Mais que um dogma religioso, o movimento utiliza a estética — especialmente as roupas coloridas e os dreadlocks — como símbolo de resistência ao colonialismo e rejeição direta aos padrões eurocêntricos, popularizados globalmente pela figura de Bob Marley.
  • 1960 – 1970 | Black Power e orgulho negro: Em 1966, durante a luta pelos direitos civis nos EUA, o movimento Black Power transforma o cabelo afro em símbolo central de identidade e resistência, com figuras icônicas como Angela Davis e Elaine Brown à frente. No Brasil, esse reflexo fortalece o surgimento dos “salões étnicos”, espaços dedicados a valorizar o crespo.
  • 1980 – 1990 | O reinado da química: O alisamento reafirma-se como a norma estética dominante, consolidando produtos químicos nas prateleiras e nos salões como o caminho para o “cabelo aceitável”.
  • Anos 2000 | A conexão digital: O surgimento dos primeiros fóruns de internet permite que mulheres negras comecem a trocar informações sobre cuidados, quebrando o isolamento e iniciando discussões sobre a valorização do natural.
  • 2010 – 2015 | O boom da transição capilar: O movimento ganha escala global. A transição capilar deixa de ser uma escolha isolada para se tornar um fenômeno cultural de retorno à textura natural.
  • 2016 – 2019 | Identidade política e representatividade: O cabelo natural consolida-se como símbolo de identidade racial e autoestima. Práticas como o Big Chop, uso de tranças, twists e dreads ganham força, enquanto a cultura pop, com o filme Pantera Negra, projeta a estética afro globalmente, validando-a em espaços de prestígio.
  • 2023 – 2026 | A era da estética livre: Vivemos um momento onde as fronteiras entre o natural e o alisado se tornam fluidas. Embora a diversidade de estilos seja maior, o cenário é marcado por uma tensão constante entre a liberdade individual de escolha e a persistência de pressões sociais que ainda tentam ditar a estética da mulher negra.

A complexidade em torno do cabelo crespo e cacheado não é apenas uma percepção individual, mas um fenômeno mapeado por estudos recentes que expõem as tensões sociais vivenciadas pela mulher negra brasileira. Os dados confirmam essa percepção. 

A marca Seda, em parceria com o Instituto Sumaúma e a agência Pretas, conduziu o estudo “Cabelos Sem Limites, Como Nós” para explorar o papel fundamental dos fios naturais na vida dessas mulheres. Os dados, coletados com 1.001 mulheres pretas e pardas de 18 a 50 anos nas capitais Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, revelam um cenário de dualidade:

  • Oito em cada dez mulheres entrevistadas consideram seus cabelos crespos e cacheados como uma ferramenta essencial de expressão pessoal.
  • Para 55% das participantes, os fios possuem uma importância extrema em relação à sua própria identidade.
  • Apesar desse protagonismo, o estudo destaca que quase 70% dessas mulheres ainda sentem uma forte pressão social para alisar os cabelos.

Esse contraponto entre o orgulho de se expressar e a imposição de padrões estéticos reforça que, para a mulher negra, o cabelo nunca é “apenas cabelo”. A busca por uma mudança na sociedade passa, justamente, por compreender que a escolha capilar é um terreno de resistência, onde a autoexpressão enfrenta, diariamente, desafios sociais persistentes.

Para a influenciadora Preta Araujo, o movimento não é necessariamente uma “tendência” inovadora, mas um possível retrocesso. “Muitas mulheres negras voltarem a alisar permanentemente os cabelos esteja ligado a um conjunto de pressões estéticas que vêm ganhando força novamente, como o padrão de magreza e a estética ‘clean girl'”. 

“Claro que, se uma mulher negra decide alisar o cabelo simplesmente por gosto estético, acho totalmente válido. Nosso cabelo é extremamente versátil, e mulheres negras devem ter liberdade para fazer o que quiserem com a própria aparência. Mas também entendo que, em muitos casos, essa escolha acaba atravessada por questões mais profundas do que apenas estética ou praticidade”, completa a criadora de conteúdo. 

Para a também influenciadora Mannu Viana, a discussão sobre o alisamento transcende o aspecto meramente capilar, envolvendo uma jornada profunda de autoconhecimento e construção de identidade. Até os 16 anos, sua relação com o cabelo era pautada por uma tentativa de adequação ao que era socialmente aceito, marcada pelo esforço em reduzir o volume, que ela percebia como uma forma de evitar o racismo e buscar aceitação.

A mudança de perspectiva de Mannu veio após explorar seu cabelo natural em diversas formas: tranças, penteados, cores e texturas variadas, e se sentir linda em cada uma delas. 

“Explorar essas possibilidades capilares foi o meu primeiro contato com a sensação de liberdade, de sustentar minhas escolhas e sem dúvidas, foi muito importante pra construção da minha autoestima, e hoje, minha decisão sobre alisar o cabelo é justamente sobre liberdade.”

Para ela, a escolha de alisar o cabelo hoje é um ato de autonomia, pois ela ressignificou o processo e enxerga o alisamento apenas como uma das muitas possibilidades de estilo que pode adotar, sem que isso apague sua identidade: “A Mannu de 16 anos só via o liso como possibilidade, a de 25 entende que é o crespo quem sustenta isso tudo e vai voltar pra ele sempre que ela quiser e vai se enxergar linda, sabe? Eu decidi fazer como eu quero porque é isso que me importa. Voltar a alisar o cabelo é uma forma de dizer pra mim mesma que hoje eu tomo minhas decisões com base nas minhas próprias vontades e só, entendendo principalmente que elas podem ser momentâneas.”

Mannu critica a existência de uma “ditadura” que impõe o que é certo ou errado na estética negra, argumentando que isso enfraquece o debate e impede que o foco seja o fortalecimento da autoimagem da mulher negra. Ela enfatiza que a identidade não deve ser resumida apenas ao cabelo ou à aparência, questionando: “nossa identidade está somente no nosso cabelo? Continuamos sendo resumidas somente pela nossa aparência?”. 

Preta Araújo ainda reforça o impacto do processo de alisamento na autoestima das mulheres: “Acredito que isso pode impactar negativamente a autoestima de mulheres negras que ainda sentem que só são bonitas com os cabelos alisados. Sinceramente, eu imaginava que já tivéssemos avançado mais nesse debate, mas diante de tantos retrocessos sociais recentes, as mulheres negras também acabam sendo afetadas por esse e outros cenários”, conclui.

Por fim, Mannu reforça a importância da honestidade consigo mesma ao considerar qualquer mudança, aconselhando que a motivação venha de um desejo genuíno de explorar novas versões de si, em vez de pressões externas: “Toda vez que um debate se torna uma ditadura, ele perde força e a oportunidade de aprofundar coisas importantes. Nesse caso, estamos perdendo a oportunidade de debater sobre quais sãos os fatores que interferem que uma mulher negra reconheça a sua beleza e a de seus iguais, e a partir disso, trazer perspectivas positivas e maximizar possibilidades, era  pra ser um fortalecimento, não um detrimento ou retrocesso”, conclui.

O alerta das especialistas: a saúde do fio em primeiro lugar

Independentemente da motivação, a saúde do cabelo não pode ser negligenciada. O cabelo crespo, por possuir uma estrutura elíptica e mais pontos de torção, é naturalmente mais propenso à quebra e ao ressecamento. Além disso, o uso de químicas exige cautela extrema. Especialistas reforçam o perigo das incompatibilidades, como a mistura de guanidina com tioglicolato, que pode resultar em corte químico.

Lívia Rodrigues, coordenadora de Valorização Científica em Pesquisa e Inovação da L’Oréal Brasil, alerta para o cuidado com a estrutura dos fios: “O cabelo crespo tem uma estrutura com formato elíptico e mais pontos de torção, o que o torna mais frágil e mais propenso à quebra. Por ser um cabelo que também têm maior tendência ao ressecamento, é essencial o uso de formulações que já tragam agentes condicionantes e hidratantes desde a primeira etapa, afirma Lívia Rodrigues. Segundo a especialista, o cuidado no pós também é essencial, para isso é importante utilizar produtos que ajudem a reparar a estrutura interna dos fios, garantindo mais força e vitalidade. 

Já Franciele Rodrigues, Gerente de Estratégia da Salon Line, reforça como é fundamental intensificar os cuidados após o processos químicos: “Os cabelos crespos e cacheados possuem uma tendência natural maior ao ressecamento devido à sua estrutura em curvas, que dificulta a distribuição da oleosidade ao longo dos fios. Após processos químicos, como alisamentos e relaxamentos, essa necessidade de cuidado se intensifica, já que há uma alteração da fibra capilar, tornando-a mais suscetível à perda de hidratação e ao enfraquecimento”, explica. Especialistas da marca ainda orienta que o pós-química deve priorizar a reposição de água, nutrientes e proteínas por meio de produtos hidratantes. Já na etapa de reconstrução deve-se intensificar os tratamentos que atuam no processo de restauração extrema, devolvendo vida para os fios.

O debate sobre o alisamento entre mulheres negras revela que, embora 8 em cada 10 entrevistadas considerem seus cabelos uma ferramenta essencial de expressão pessoal , a decisão de alisar, ou não, ainda é um campo de batalha entre o desejo genuíno e o que a sociedade espera de nós.

A provocação que fica é: ao decidir mudar o visual, você está ouvindo sua própria voz ou atendendo a um eco externo que insiste em limitar sua beleza? A liberdade de escolha é um direito fundamental, mas ela só é plena quando exercida com a consciência de que a sua identidade é muito maior do que a forma que o seu cabelo toma. Antes de buscar a química, pergunte a si mesma: por que estou fazendo isso, e para quem estou me tornando essa versão?.

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