Quando a população negra vota. O poder muda de mãos?

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Quando a população negra vota. O poder muda de mãos?
Foto: Reuters/ Divulgação/ Getty

Por Liliane Rocha

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As eleições legislativas no Estados Unidos, chamadas Midterms, de 3 de novembro de 2026 produziram uma mudança significativa no cenário político do país, os democratas conquistaram o controle da Câmara e do Senado, impondo uma derrota política a Donald Trump. Lembremos que nestas eleições de meio de mandato de 2026, os americanos votaram para eleger todos os 435 membros da Câmara dos Representantes e os 35 membros do Senado.

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Alguns dados me chamaram particularmente a atenção, segundo a pesquisa representativa realizada pela empresa de pesquisa de mercado e de opinião SSRScom quase 80.000 eleitores verificados, 92% das mulheres negras entrevistadas votaram em candidatos democratas. Segundoo artigo “Principais conclusões das eleições de meio de mandato nos EUA” da Reuters, os republicanos perderam apoio entre homens negros, latinos e eleitores jovens.

O que isso quer dizer na prática? As eleições legislativas dos Estados Unidos nos dão a oportunidade de fazer uma reflexão que ultrapassa a disputa entre democratas e republicanos. Mais do que identificar vencedores ou perdedores, os resultados nos convidam a refletir sobre como a população negra influencia e até decide o rumo das eleições, mesmo em um país no qual são somente 13% da população. Em um país marcado por desigualdades sociais e raciais históricas e profundas, compreender o comportamento do eleitorado negro é também compreender as disputas por representação, direitos e principalmente acesso aos espaços de tomada de decisão. Uma conversa que certamente encontra paralelos com a realidade brasileira.

Nesse contexto, Barack Obama, primeiro presidente negros dosEstados Unidos, teve um papel central. Já há alguns dias temos tido a oportunidade de observar seu empenho e envolvimento ativo na campanha democrata, apoiando candidaturas, mobilizando eleitores e recursos.  Sua presença demonstra que mesmo uma década depois de deixar a Casa Branca, a sua liderança segue relevante na política americana.  A reviravolta é tamanha que Hakeem Jeffriestem a possibilidade de se tornar o primeiro presidente negro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, caso seja eleito por seus pares para o cargo, no início da nova legislatura do Congresso, em 3 de janeiro.

A pergunta que permanece ao final desta análise é: em que medida esse poder de decisão, essa influência e essas conquistas simbólicas se traduzem em mudanças concretas na vida da população negra do país?Nos Estados Unidos assim como no Brasil, essa parcela da população parece ser estratégica e determinante para a definição de quem está o poder.

Sigo afirmando que mudanças estruturais exigem que a força do nosso voto se traduza em uma presença proporcional de representantes negros nos mais diversos espaços de poder.

Sobretudo em um contexto no qual a pressão política exercida por Donald Trump tem contribuído para o recuo de empresas em suas estratégias de diversidade e inclusão, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, com cortes de equipes, ações e orçamentos e até o abandono da palavra “diversidade”, os resultados eleitorais de 2026 poderiam sinalizar uma mudança de direção? Se, nos Estados Unidos, onde a população negra é minoria, essas eleições apontam para novas possibilidades de ocupação do poder, o que podemos construir no Brasil, onde somos maioria?

Será que aqueles que hoje manifestam publicamente sua aversão e seu desdém pelo tema, sem vergonha, sem medo, sem pudor, voltarão a reconhecer que todas as pessoas influenciam os rumos da política e da economia e, portanto, devem ter voz e lugar à mesa onde as decisões são tomadas?

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