
Denúncia protocolada no Ministério Público de São Paulo será analisada pela Promotoria de Justiça dos Direitos Humanos; especialistas apontam reprodução de hierarquias raciais.
A representação de pessoas negras em posições de serviço enquanto manequins brancos aparecem vestidos para festas em uma vitrine da loja Arthur Caliman, na zona sul de São Paulo, motivou uma representação no Ministério Público de São Paulo (MPSP). Protocolado na terça-feira (3), o documento será analisado pela Promotoria de Justiça dos Direitos Humanos – Inclusão Social.
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A composição da vitrine chamou a atenção pela distribuição dos personagens: manequins negros vestiam aventais e apareciam em posições que simulavam servir ou atender manequins brancos, vestidos com roupas de festa. Não havia figuras negras usando os trajes de celebração expostos pela loja nem manequins brancos representados na função de atendimento.
Para o advogado Hédio Silva Jr., fundador do Jusracial e atuante há mais de 28 anos na defesa da igualdade racial e dos direitos das religiões afro-brasileiras, a disposição reproduz uma representação histórica de subalternização da população negra.
“É uma projeção de um lugar de subalternidade da população negra, sempre servindo, subserviente, serviçal de brancos”, afirmou ao g1. Segundo ele, a composição reforça uma associação entre pessoas negras e posições de inferioridade social, enquanto reserva às pessoas brancas os lugares de prestígio e celebração.
A análise também foi feita por Manuela Thamani, diretora executiva do Observatório da Branquitude. Para ela, a disposição dos manequins expressa uma hierarquia racial que atravessa a formação da sociedade brasileira e atualiza referências construídas durante o período escravista.
Vitrines também comunicam hierarquias raciais
A discussão ultrapassa a escolha estética de uma composição comercial, pois vitrines funcionam como espaços de comunicação visual apresentando produtos, construindo imagens de pertencimento e ajudando a estabelecer quem ocupa determinados lugares no imaginário de consumo.
Na avaliação de Manuela, a composição estabelece uma divisão simbólica entre quem aparece como sujeito do luxo e quem é colocado na posição de servir. A diretora relaciona essa representação ao conceito de privilégio simbólico da branquitude, no qual a brancura é apresentada como referência de beleza, prestígio e pertencimento.
O que diz a Arthur Caliman
O caso evidencia o senso de responsabilidade que deve ser atribuído a marcas e estabelecimentos comerciais na construção de imagens sobre a população negra e na reprodução de referências raciais em espaços públicos de consumo.
Em posicionamento enviado ao g1, a Arthur Caliman afirmou que repudia qualquer forma de racismo e discriminação. A empresa explicou que a escolha dos manequins varia conforme a composição das vitrines e que, no caso registrado, a intenção era valorizar o contraste entre a cor dos bonecos e a das roupas expostas.
A loja também declarou que a vitrine anterior era composta inteiramente por manequins pretos vestidos com roupas claras.
“Jamais houve a intenção de transmitir qualquer mensagem de cunho racial. Lamentamos o desconforto causado e, assim que recebemos o contato da reportagem, substituímos o manequim da vitrine”, afirmou a empresa.
A representação protocolada no MPSP será analisada pela Promotoria de Justiça dos Direitos Humanos – Inclusão Social.


