Pelé, 80 anos : o mito, o homem e o preto

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1939
Foto: Lemyr Martins /

O Atleta do século XX, pele escura, topete indefectível, no topo de todas as formas de mídia desde 1955, mais de 1200 gols marcados, 4 Copas do Mundo disputadas, 3 conquistadas e o maior jogador de futebol que este planeta já viu. Talhado pela genética privilegiada, se não fosse craque de bola seguramente seria um velocista competente, um saltador dos melhores, um líbero de voleibol instransponível e até mesmo um pivô de basquete de primeira linha. Hábil, ágil, estratégico, tático, mordaz, ardiloso, sagaz, arguto, ligeiro, mortal… gênio.

Espécie de embaixador vitalício brasileiro, Edson Arantes do Nascimento prima por ser uma das mais conhecidas celebridades mundiais há mais de 50 anos. Em muitos aspectos, colocou o Brasil no mapa das grandes estrelas do século passado, com o êxito de se posicionar entre os 5 homens mais famosos do mundo, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Interrompeu guerras no passado e hoje é reverenciado por Chefes de Estado e monarcas dos 4 cantos do mundo e em todos os continentes.

Por seu talento e competência venceu todas as barreiras que um país historicamente excludente como o Brasil impõe aos pretos e pretas por estas bandas, desde 1530. E aquelas que não o atingiram podem ter sido, quem sabe, filtradas pelo arsenal de assessores solícitos e abnegados, empenhados em não deixar que “questões étnicas” tirassem a concentração de uma verdadeira máquina de produzir dinheiro. E tem sido assim, desde que aquele preto de andar gingado e cadenciado iniciou a sua brilhante carreira de futebolista, na cidade de Santos.

Poderia ter ido para fora do país após a Copa da Inglaterra em 1966, mas optou por resgatar a imagem arranhada pelo fiasco brasileiro na competição. Dali até 1969, ficou sob o olhar atento de torcedores e da imprensa. Até entrar definitivamente para a História ao marcar o milésimo gol em uma noite de glória no velho Maracanã, contra o brioso time do Vasco da Gama. Para o desespero e angústia de um goleiro argentino que sucumbiu ao tiro certeiro do Rei.

Fora do campo, a sua postura como cidadão brasileiro lhe trouxe e ainda lhe traz alguns reveses.

Sincero, muitas de suas opiniões foram combatidas e ironizadas pelo establishment brasileiro, algumas até com certa razão. O seu posicionamento político camaleônico e as suas idas e vindas na relação com a CBF sempre deixaram margens para diversas interpretações sobre qual causa ele defende e defenderá.

O homem preto nunca se manifestou. Seja em suas aventuras como entidade midiática, seja como afrodescendente pai (…) de família. A sua distância do engajamento aos obstáculos étnicos explícitos e subjetivos vividos pela esmagadora maioria dos pretos e pretas do Brasil sempre foi um mistério.

Atravessou os anos 60 dos movimentos civis nos EUA, a efervescência do Movimento preto do Brasil e da América nos anos 70 e os anos 80 e 90 de Nelson Mandela sem jamais se posicionar sobre esses assuntos.

O carisma do gênio, se associada fosse com um discurso de representatividade fenotípica, poderia contribuir para a robustez das demandas visíveis e tácitas que povoam o ideário de cidadania plena dos afro-brasileiros e afro-brasileiras, desde que aqui chegamos. A aura em torno dos seus feitos jogaria alguma luz sobre a questão da identidade étnica nacional ou mesmo uma ruptura de sua parte (aos moldes do ocorrido com o não menos midiático Cassius Clay/Mohammad Ali, nos Estados Unidos), serviria para colocar com boa antecedência os reclames dos pretos e pretas brasileiros numa ampla agenda nacional de discussão sobre o assunto.

A sua imagem saudável e vencedora provavelmente, teria produzido (tanto para os conservadores quanto para os reacionários do status quo nacional) um efeito salutar e positivo [enquanto controverso] em uma mobilização, quem sabe, alinhada com a dialética integralista de Martin Luther King, nos Estados Unidos e mais ou menos na mesma época.

O atleta preto de elite serviria de modelo, dado o seu posicionamento inquestionável sobre a sua própria História enquanto afrodescendente, para a construção da autoestima, do orgulho e da atitude em sociedade de outros atletas pretos que o teriam como espelho. Mas a fala esperada nunca foi proclamada e jamais chegou aos ouvidos dos pretos e pretas que a ele foram fiéis a cada entrevista ou matéria jornalística tornada pública há mais de 50 anos.

O mito é imortal. Nada lhe atingirá. O gênio de pele escura vestido de camisa branca ou amarela reinará para sempre na mente e nos corações dos aficionados por essa paixão chamada futebol. Cobriu-se de glórias, reconhecimento e conquistas. Entrou para a História. Tem o mundo aos seus pés. Gol de placa…

O homem um dia passará. Posturas lhe serão rotuladas, algumas dignas de aplauso; outras condenáveis. Na condição de mortal, carrega a dor e o prazer da imperfeição humana que nos coloca todos na vala comum dos erros e acertos de quem nasce, vive e morre. Nos chutes que damos na vida, algumas vezes a bola bate na trave…

O preto será para todo o sempre celebrado pela elite (por bajulação ou interesse) e questionado pela grande maioria dos pretos e pretas com bom grau de discernimento sobre o que é ser afrodescendente no Brasil. E como tal, o preto poderia ter contribuído para a inclusão da retórica étnica em seu discurso. A ausência de “pretitude”, ao meu ver, foi um gol contra que marcou contra toda a comunidade preta do Brasil. No jogo da questão étnica brasileira, o Pelé de origem africana simulou uma contusão e jamais entrou em campo. Uma palavra do grande preto para os demais pretos do Brasil seria a nossa comemoração com o soco no ar… que nunca veio.

Teria sido um golaço…

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