A paternidade despertou um senso de coletividade no professor de inglês e afro-empreendedor Humberto Baltar que já oferecia um serviço especial para os seus alunos negros por meio do seu negócio, a Humberto Baltar Consulting .

O Rei Humberto, a Rainha Thainá e o príncipe Apolo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Nesse texto eu farei como ele, que ao me conceder essa entrevista, se referia aos seus amigos negros e negras como reis e rainhas.

Apolo, de quatro meses, é o príncipe herdeiro de Humberto e sua esposa a engenheira e rainha Thainá Barbosa.

Antes do bebê nascer, o professor tornou um acontecimento familiar em algo a mais, conectando pais e mães negros de vários cantos do Brasil e do mundo para o que ele define como aquilombamento e assim nasceu o coletivo Pais Pretos Presentes.

Apesar de em um primeiro momento a Internet ser o meio de conexão desse grupo de pais e mães, o contato resultou em encontros off-line que discutem temas necessários como Abandono Parental, por exemplo.

Em sua condição de homem negro e pai de menino, nessa entrevista Humberto fala sobre medos, mas também sobre esperança e como a comunidade negra, do ponto de vista ancestral, só cresce na união, no acolhimento e empatia. “Essa ideia de vencer sozinho é um traço cultural branco”. Se deleite com essa entrevista que é uma aula sobre afetividade negra no aspecto familiar.

Mundo Negro –  Como pai, o que você acha que tem de melhor na sua geração comparando-se com a geração do seu pai e avôs.
Humberto Baltar – Sem sombra de dúvidas, a permissão social para reconhecer fraquezas, dúvidas e conflitos sem ser julgado por isso. Participo extasiado desta mudança e vejo que a saúde mental da comunidade negra como um todo vem melhorando muito em função desta abertura. O apoio das irmãs pretas do Mulherismo Africana, como a Morena Mariah, Anin Urasse e Aza Njeri, entre outras e os cursos Masculinidades Negras e Paternidade Preta, do professor Henrique Restier reforçaram em mim a ideia de que eu não só tenho o direito de sofrer, sentir e buscar apoio, como também é meu papel ser alicerce emocional e espiritual para os meus irmãos e irmãs. Isso é exercer minha ancestralidade. É viver a filosofia Ubuntu. No grupo Pais Pretos Presentes, já cresci muito ouvindo e sendo ouvido, apoiando e dando apoio. São dores que vão desde de alienação parental a casos de depressão e orientações nas mais diversas áreas como cuidados com o bebê, melhores opções de investimento financeiro, alimentação, etc. Isso é Aquilombamento. Não só virtual, mas também nos nossos encontros presenciais, principalmente.

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🙋🏾‍♂️❤️ Nos conheçam! Esta é a família Gonçalves Restier da Costa Souza, formada pelo Henrique, a rainha Joyce e a linda princesa Manuela, de 7 meses. Nosso irmão é coautor do livro Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades e através de palestras, cursos e debates vem contribuindo muito para a desmistificação do homem preto enquanto ameaçador, irresponsável e hipersexualizado. 💕👸🏾👶🏾 #blackpeople #goals #fortheculture #blackbusiness #africanize #love #blackunity #asnegasdoziriguidum #teamnatural #asnegasdoziriguidumoficial #buyblack #blackfathers #black #blackmagic #blackqueens #blackboyjoy #africanamericans #blackgirlsrock #supportblackbusiness #paipreto #blackowned #blackconsciousness #naturalhair #realblacklove #blackgirlswhoblog #blackamerica #paispretos #paispretospresentes #africanizeoficial #blackentrepreneur

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O pai negro no geral, adquiriu uma reputação de ser aquele que faz o filho e abandona. Isso é um estereótipo? Até que ponto o racismo reforça essa imagem?

Com toda a certeza se trata de um estereótipo. O racismo é estrutural e estruturante. Isto significa que ele não só vê o negro de forma depreciativa, como leva o próprio negro a se ver da mesma forma. Eu mesmo, com formação em uma das melhores escolas públicas do Rio de Janeiro, o CAP UERJ, e formado na UERJ, ou seja com acesso a informação, até bem pouco tempo não me via digno e capaz de ter um casamento feliz e uma família plena. Não em termos materiais, mas em relação ao merecimento, condições de dar amor e criar um filho, honrar uma esposa e assim por diante. Mas quando a gente não é letrado racialmente, achamos que é tudo insegurança ou cisma da nossa cabeça e ignoramos a indústria cultural que massifica diuturnamente em nossas mentes a ideia de que o homem preto é malandro, preguiçoso, indigno, infiel, trapaceiro e assim por diante.

São diversos personagens em novelas, filmes, músicas e até desenhos animados reforçando essa imagem, de forma que inconscientemente assimilamos essa perspectiva e começamos a nos enxergar da mesma maneira. O teólogo, pastor e grande irmão Ronilso Pacheco foi e continua sendo importantíssimo na minha trajetória por ter me apresentado a Teologia Negra. Até conhecê-lo eu naturalizava o silêncio da igreja em torno do racismo institucional brasileiro. Hoje percebo que até na minha fé cristã devo exercer o auto-amor e não apenas exigir respeito como também representatividade nas mais diversas funções e ministérios, reconhecendo inclusive a luta antirracista no próprio evangelho de Jesus Cristo. Dou este exemplo para salientar que quanto mais inconscientes das opressões e micro-agressões que sofremos, mais reforçaremos o status quo e a permanência das mesmas. Com a paternidade preta não é diferente. São 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai no registro de nascimento de acordo com o Conselho Nacional de Justiça com base no censo escolar de 2011 e ainda assim, o sistema tenta propagar a ideia de que essa é uma questão racial, ignorando ainda o genocídio negro endossado pelo estado que mata um jovem negro a cada 23 minutos. Praticamente toda pessoa preta conhece alguém que perdeu o pai ou o filho assassinado. Considerando estes dados é fácil perceber que a imagem do pai preto ausente é uma narrativa que serve à ideologia racista.

 

O rei Rudson e seu príncipe Tom Zé de 1 ano e 3 meses (Foto – Reprodução Instagram)

Quando conversei com pais negros em uma roda de conversa que moderei no SESC, eles falaram sobre o medo em relação à paternidade. Dois eram os principais: serem mortos pela violência (visto os dados sobre Homicídio) ou terem seus filhos sendo vítimas da violência. O que você pensa sobre isso?

Esse medo é recorrente e compartilhamos dele. No nosso grupo de acolhimento já foi abordada esta questão e o cenário foi o mesmo. O medo de deixar os filhos órfãos ou perdê-los para o Estado genocida impera entre nós. Minha esposa nem sabe disso, mas apesar de estarmos 3 anos juntos eu nunca dirigi o carro dela mesmo sendo habilitado por receio de ser “confundido” com assaltante ou coisa do tipo. Carro preto, área atingida pela violência e homem preto dirigindo é considerado suspeito no Rio de Janeiro. Muitas vezes quis dirigir vendo o cansaço dela principalmente à noite após um filme ou jantar, mas prefiro não arriscar deixar meu filho sem pai, como aconteceu com aquele músico negro numa abordagem de militares nesta mesma cidade. Quase todo homem preto sabe como é sofrer uma abordagem policial. A gente se sente um nada. Humilhado. Como indigentes. Esse medo de morrer pelo crime ou pelo Estado é prudência e está longe de ser exagero ou mimimi, como pensam muitas pessoas. Outro medo que me persegue desde o nascimento do meu filho é o dia que terei que contar que o tom de pele dele não é bem visto por muitas pessoas e por isso ele terá que ser forte em muitas situações por causa do preconceito que vai sofrer. Ler Abdias do Nascimento me motivou a estar entre outros pretos atentos a estas problemáticas e isso tem sido muito importante pra mim. O grupo Pais Pretos Presentes tem sido um refúgio nesse sentido.

Fale sobre o projeto do Pais Pretos Presentes. Ele é seu? Como surgiu e quais os principais objetivos?

O projeto Pais Pretos Presentes surgiu de uma angústia minha que nasceu do dia em que eu soube que seria pai: “Como ser o melhor pai para o meu filho dentro das minhas possibilidades? “Daí decidi fazer um post no Facebook, Twitter, Instagram e Stories do WhatsApp com um pedido: “Conhece um pai preto presente? Me apresente, por favor. Preciso conhecê-lo.”. Para a minha surpresa, vários pais surgiram não apenas do Rio de Janeiro, como também em outros estados e fora do Brasil, todos trazendo conselhos, sugestões recomendação. Pediam que eu fizesse um grupo para que as nossas trocas nos comentários dos posts não se perdesse. Alguns pediram até que nos encontrássemos. Ali eu percebi que o aquilombamento é uma necessidade real e ancestral nossa. Vi também que a vida da pessoa preta caminha muito melhor quando ela vive em consonância com princípios ancestrais africanos. O Ubuntu, ou ser junto, crescer coletivamente, é um deles. Essa ideia de vencer sozinho é um traço cultural branco. Quando me chamam pra falar do meu sucesso como afro-empreendedor, eu sempre reforço que se hoje o meu curso personalizado de inglês pelo WhatsApp tem sucesso, o mérito é de todas as pessoas que me ajudaram no caminho. Daí a ideia das bolsas de estudo e condições especiais para facilitar o acesso. Oportunidade é a chave. E o post à procura de pais pretos presentes me conformou isso. Muitos pais estão buscando oportunidades de se tornarem melhores para seus filhos e não encontram. A partir da criação do nosso grupo de acolhimento nas redes sociais, diariamente vemos pais sendo aconselhados, amparados, amados e também cobrados quando necessário, pois a desconstrução e o aprendizado são para a vida toda. Os objetivos principais do nosso grupo são ouvir os pais pretos, compartilhar experiências e resgatar uma vivência alinhada com a nossa ancestralidade, valorizando princípios africanos que nos proporcionam uma vida de qualidade com a nossa família. A mulher tem um papel central na cultura africana. Valorizá-la, ouví-la e respeitá-la é imprescindível. Nosso primeiro encontro presencial realizado na Casa Preta, na Cidade de Deus, teve como tema justamente o Abandono Parental, suas causas e como evitar posicionamentos e mentalidades que levam a ele, como a reprodução de comportamentos machistas, por exemplo. O segundo encontro, na Casa do Nando, teve como tema Ouvindo os Nossos Irmãos. As irmãs do Projeto Avança Nega abriram um dia inteiro de discussões  conosco, homens pretos, sobre os mais diversos temas, inclusive a paternidade negra e seus desafios. O terceiro encontro, mais íntimo e pessoal, foi no Parque Madureira. Apenas pais e filhos estiveram presentes. Enquanto o outro moderador, Lucas Maciel, conduzimos as postagens nas rede sociais, nosso irmão Adriano Cipriano coordena os encontros presenciais. Nós três somos pais de bebês, o que nos coloca como os que mais precisam de aprender no grupo. A ideia não é ensinar nada a ninguém, mas aprender e crescer junto, como família preta que somos. A pedido das irmãs criamos também o grupo aberto às mães pretas e nossas trocas se tornaram ainda mais ricas. Seria loucura a ideia de que chegaríamos a algum lugar sem a troca e vivência com as nossas irmãs. Quem desejar nos conhecer ou fazer parte do nosso grupo de acolhimento, basta ser preto e buscar Pais Pretos Presentes nas redes sociais ou acessar o link bit.ly/PaisPretos

Mais sobre o coletivo Pais Pretos Presentes: 

WhatsApp com as mães: http://bit.ly/MaesPaisPretos

WhatsApp só de pais: http://bit.ly/WhatsPPP

Skype: http://bit.ly/SkypePPP

Twitter: http://bit.ly/TwitterPPP

Instagram: http://bit.ly/PPPInstagram

Telegram: http://bit.ly/TelegramPPP

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Nosso Grupo no Facebook: http://bit.ly/GrupoFacePPP

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