“Os Defensores” e o privilégio branco – o garoto que não fez nada pra merecer estar ali, mas ainda sim está

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Os Defensores

Se você tem Netflix, ou algum dos seus amigos online tem, deve saber que estreou uma nova e “badalada” série na plataforma de streming, “Os Defensores”. Esta, que pode parecer mais uma entre as séries de herói, não é como as outras. Dessa vez temos uma reunião de 4 heróis que já tiveram suas séries solo, e a oportunidade (que alguns aproveitaram, outros não) de se aproximar do público e fazer com que o espectador se importe com eles. Então imagine 4 protagonistas juntos! Esse é o grande encanto que “Os Defensores” trás, além, é claro, da promessa de muita ação, já que estamos falando de 4 heróis!

Então, quem são eles? Matthew Murdock (o Demolidor), Jéssica Jones, Luke Cage e Daniel Rand (o Punho de Ferro). Devo dizer que, de um modo geral, gostei da série. A história é envolvente, os obstáculos que se colocam no caminho deles – que são super-poderosos – realmente parecem fortes o suficiente para abala-los, o núcleo de vilões é bem construído e há aquelas cenas clássicas de equipes de super-heróis, no mais puro estilo “Vingadores”, que é de tirar o fôlego!

Mas, enquanto eu assistia aos episódios, uma coisa não me saída da cabeça: o quê raios esse Punho de Ferro está fazendo aí? O quê o fez ser quem ele é? Cada um dos personagens poderosos têm sua própria história e os motivos que os fazem especiais. Pra resumir a história do Punho de Ferro, o Daniel Rant é um garoto branco, bilionário, que perdeu os pais em um acidente de avião. Ele foi encontrado por um grupo de “monges”, de uma cidade mística, foi treinado para ser um guerreiro e, dentre vários candidatos, ele foi ESCOLHIDO para se tornar o Punho de Ferro. Ele tem um poder MUITO grande, literalmente, nas mãos.

Daniel Rant – o “Punho de Ferro”

Seria tudo lindo, se esse Daniel, não se mostrasse mais nada, além de um garoto branco, rico! Em NENHUM momento ele justifica o fato de o terem escolhido, em nenhum momento ele mostra que mereceu estar naquele posto. Assistindo só dá pra pensar que ele teve “sorte”, a mesma sorte que ele deu em nascer em uma família rica e poder andar de avião e helicóptero particular.

Mais que isso, ele parece nem mesmo se esforçar, porque se sente “merecedor” de tudo que tem; sendo que, nem em sua série solo nem em “Os Defensores”, Daniel demonstrou habilidades próprias que o fizessem especial. Em suma, o cara é um incompetente! Nem o poder que lhe foi dado ele sabe dominar.

Em uma das primeiras cenas da série, Luke Cage, o herói negro do Harlem, conversa com Daniel e diz algo como: “eu reconheço o privilégio quando o vejo”. Luke é o cara da periferia, preto, que já foi pra cadeia injustamente mais de uma vez. É o cara a prova de balas que, mesmo se lançando contra o fogo cruzado, não consegue proteger mães negras de chorarem a perda de seus filhos – seja para a violência, para as drogas ou para a promessa de dinheiro fácil em um lugar de poucas oportunidades.

Luke Cage – o herói do Harlem

Em “Os Defensores” você pode se distrair e apenas se divertir. Tem belas cenas de luta, tem diálogos divertidos, tem uma trama envolvente… Mas, em meio a tudo isso, não pude deixar de notar este contraste, e como, mesmo no mundo dos heróis, falar em privilégios faz sentido. Não por coincidência, dos 4 protagonistas, só Luke é negro. É ele quem vê, diariamente, o quê a violência faz, não com vilões, mas com pessoas comuns de seu bairro. É ele também quem pensa, repensa e hesita antes de partir para a violência; porque é o que esperam dele, mas não é isso que ele é, nem o que quer oferecer.

Fiquei olhando para esse contraste e ele não desapareceu, nem por um minuto. O Punho de Ferro, tão poderoso e, por isso, tão importante na história, estava em posse de um garoto que não perdia a oportunidade de mostrar sua incompetência e falta de critério. Até mesmo alguns personagens não deixam escapara chance de dizer o quanto esse Punho de Ferro é, digamos, despreparado, para o posto. Aí fiquei me perguntando quantas vezes eu já vi isso na vida real.

Quantas vezes eu já vi o cara branco da faculdade, que não se dedicou, mas tem um belo sobrenome, sendo escolhido para uma vaga? Quantas vezes a pele negra foi determinante para que, no fim, eu estivesse fora? E quantas vezes a pele branca, o olho claro, o cabelo liso, foram “confundidos” com competência? Pois é… desse ponto de vista, “Os Defensores” é menos ficção do quê parece.

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