O “Egito branco” e outras apropriações da cultura negra

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“O ator Lázaro Ramos, dando mostras do seu enorme talento como ator afro-brasileiro, viverá no cinema o papel de Thor, em lançamento previsto para 2018. Thor, na mitologia nórdica, é o Deus dos Trovões. Ele é considerado o mais forte entre os deuses e também o mais adorado entre os povos germânicos. O enredo do filme falará sobre o Filho de Odin com Jord, que na telona será interpretado por Zezé Motta. Thor tem em seu martelo Mjolnir, sua principal arma, com a qual produz raios e interfere na estabilidade climática de qualquer lugar da Terra. A trama prevê o seu envolvimento com a Asgardiana Sif, Deusa da colheita, que muito logicamente haverá de ser vivida por ninguém mais e ninguém menos do que sua “própria Deusa”, a também atriz Taís Araújo. Em breve em uma sala de cinema perto de você.”

Que tipo de reação poderíamos esperar do establishment brasileiro, caso a manchete fictícia acima fosse disseminada em todos os canais de informação formadores de informação pelo país afora? Pois é exatamente assim que uma boa parte da comunidade afro-brasileira antenada e interessada nos destinos de sua própria cultura tem se sentido, em razão de acontecimentos, já nem tão recentes, no tocante à tutela e apropriação da milenar cultura resultante da Diáspora Africana no ocidente.

No Brasil, um bom exemplo de apropriação cultural pode ser verificado com o antropofagismo do capital sobre as manifestações, outrora eminentemente populares, associadas às festividades do Carnaval.

A celebração, que se consolidou de forma mais organizada a partir dos anos 1920, no século XX, transformou-se em um festival de forte apelo popular, apesar da “resistência” da tradição simplória e simplista dos blocos, cordões e ranchos carnavalescos de rua surgidos pelo Brasil afora, a partir daquela época.

Todavia, e principalmente a partir de meados da década de 1970, com o advento das transmissões de grandes canais de comunicação (destaque feito às coberturas televisivas ao vivo e às publicações volumosas pós-evento, em revistas impressas) o interesse midiático sobre os desfiles de escola de samba se intensificou exponencialmente, atraindo a atenção e o ímpeto de celebridades historicamente alheias e distantes da vida rotineira das comunidades, sabidamente o ventre e o colo originais das escolas de samba dos grandes centros.

A nova cara do carnaval brasileiro

 

O enfoque crescente da mídia, por sua vez, passou a ser um canal de estratégias de marketing de patrocinadores endinheirados e progressivamente mais interessados em associar as suas marcas aos desfiles das escolas de samba, marcadamente as da cidade do Rio de Janeiro, e também em São Paulo, em menor grau e com um pouco menos de visibilidade.

Com a chegada do poder financeiro, o formato e o conteúdo dos desfiles mudaram substancialmente: mega produções, celebridades internacionais… e a visível diminuição da presença de negros e negras nas alas e divisões clássicas de uma escola de samba. Salvo engano, a impressão que se tem é que ao longo dos anos, e de forma insidiosa, os desfiles das escolas de samba estão se tornando um reduto de diversão da classe média elitista do Brasil. Não me surpreenderei se, em breve, o carnaval passe a ter o seu “naming rights” adquiridos por uma corporação ambiciosa, e que passará a chamar o evento de “CarnaFest”.

Mas essa apropriação cultural não se limita ao Carnaval: A produção televisiva brasileira já teve uma novela “Escrava Isaura”, personagem branca, e que, pasmem, acaba em um final feliz! E se viu na telinha também uma outra denominada… “Da Cor do Pecado”. Nesta segunda, as indagações de pura curiosidade que se formaram nas cabeças de uma boa parte das pessoas com um mínimo de discernimento crítico foram:

“Pecado” tem cor? E, se tiver, a cor é negra (ao ponto de se configurar em título de uma produção televisa a ser transmitida diariamente e assistida fielmente por milhões de pares de olhos testemunhando o “romance” entre um homem branco e uma mulher negra)?

Novela “Cor do Pegado”. Pecado tem cor?

Recentemente uma produtora de comerciais “genial” levou ao ar a propaganda de um Machado de Assis… branco!

Detalhe: era a propaganda de uma instituição financeira secular bancada pelo Estado brasileiro! O vídeo foi refeito após reclamações:

E a pressão não se restringe ao Brasil.

Dos dois maiores (senão os maiores mesmo!) ídolos pop do século passado, Elvis Presley e Michael Jackson, construíram carreiras artísticas históricas e milionárias com padrões comportamentais no mínimo intrigantes. Elvis, o Rei do Rock, branco, tornou-se um ícone do gênero “cantando como um negro”. Michael, o Rei do Pop, negro, tornou-se um mito do showbusiness global em um esforço (aparentemente) macabro e contínuo em se “transformar” em um homem branco.

Ambos sintetizaram de forma cabal as agruras da apropriação cultural: o branco se entupiu de milhões de dólares e pílulas usando os timbres e nuances musicais comuns aos vocalizes negros do sul dos Estados Unidos. E o negro viveu em um conto de fadas de outros tantos milhões (e também de analgésicos) no qual, desde criança, ao que tudo indica, aceitou uma percepção, por fim enganosa, de que a intensidade de seu sucesso midiático seria inversamente proporcional ao seu afastamento do seu eixo étnico, estético, familiar e comunitário.

Louis Prima, Janis Joplin, The Osmonds, Fernando Mendes, Eminem, Jorge Vercílo, Ana Carolina, New KidsontheBlock, Lisa Standfield, Jamiroquai, Jerry Adriani, Maurício Manieri, Amy Winehouse, Johnny Cash, João Bosco, The Doobie Brothers, Joss Stone, Cat Stevens, Joe Cocker, Angela Rô Rô, Duffy, Teena Marie e Adele, para ficar em apenas alguns casos, são outros exemplos do universo musical em que os artistas encontraram nas várias “escolas” de música negra, uma forma de expressar o seu talento e ganhar (muito) dinheiro.

A cantora Joss Stone

E em outro nicho e mais recentemente, a polêmica sobre esta tendência de apropriação cultural recai sobre o filme “Deuses do Egito”, de Alex Proyas, com estreia no Brasil prevista para Abril de 2016. Sinal de que, mais do que uma tendência, essas manobras de apropriação de uma outra cultura baseiam-se sobretudo no foco em amealhar fortunas robustas em cima das tradições culturais de outros povos.

Não obstante ao fato insofismável de que o Egito é um país AFRICANO, as primeiras peças publicitárias da produção dão conta de que os personagens principais (e, por extensão, os “Deuses” da trama) serão todos … brancos, em que pese a presença do ator afro-americano Chadwick Boseman, em uma aparição menor e secundária. E aqui não se trata mais de um exercício de imaginação, como o especulado no parágrafo fictício ilustrando o nosso querido e prestigiado ator Lázaro Ramos, logo na abertura deste artigo. Falamos agora de um fato real e em vias de se tornar realidade.

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Imagem promocional do filme “Deuses do Egito” que será lançado em 2016

Este panteão de Deuses egípcios… brancos…  aponta para a necessidade da comunidade afrodescendente residente no Brasil em munir-se de ações calcadas na livre iniciativa, as quais, legitimamente, blindem e preservem o seu legado histórico e sua herança cultural. Por mais redundante que a afirmação possa parecer, a nossa cultura… é nossa!

Assim como a cultura oriental é dos orientais, a cultura dos povos nativos da terra pertence aos povos nativos, e assim sucessivamente.

E desses saberes e visões de mundo milenares nós temos o direito (e até mesmo o dever!) de nos sentirmos guardiões e guardiãs, uma vez que eles nos foram passados de geração em geração e que nem mesmo o flagelo da Diáspora Africana conseguirá apagar.

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Egito fica no continente africano, portanto a população tem pele escura.

Do meu cabelo, da minha pele, do meu canto, da minha alma e de tudo aquilo que é meu, eu mesmo(a) TOMO CONTA!

Minha História, Minha Cultura… MINHA PROPRIEDADE!!!

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