Nós, moradores de territórios marginalizados, enfrentamos inúmeras adversidades resultantes da ausência do Estado na produção de políticas públicas que nos ofertem sobrevivência digna. E como reflexo, acostumamo-nos a comemorar com certo entusiasmo as pequenas conquistas pessoais. Celebramos a promoção no emprego, a publicação de artigo na imprensa, o curso concluído ou ingresso na universidade, a reforma da residência, a aquisição de algum  bem material etc. Às vezes nem é sobre nós, comemoramos também as superações das pessoas que estão na mesma condição social. E acho importante que façamos isso, pois cultiva a esperança e fortalece a autoestima de um povo que se reinventa para sobreviver neste mundo abundante de injustiça social, como disse o intelectual Milton Santos (2000) “(…) os pobres não se entregam. Eles descobrem cada dia formas inéditas de trabalho e de luta”.

Favela no Rio de Janeiro. Foto: Getty Images.

No entanto, as conquistas não são eventos comuns, muitas pessoas convivem somente com derrotas e sofrimentos. Por essa razão, critico os que colocam as experiências individuais como universais e representativas da população que sobrevive no mesmo espaço geográfico. De maneira mais específica, refiro-me aos artistas, militantes e políticos que lançam mão do slogan “A favela venceu” nas ocasiões em que os moradores da periferia conquistam algo material ou simbólico, ou situações que a própria cultura marginalizada ocupa espaços privilegiados. Eu vejo nessa manifestação o mero ajuste ao ideário neoliberal, desconectado da realidade concreta da massa negra e pobre. É o flerte com a meritocracia, pois como pano de fundo considera o esforço a matéria-prima do sucesso, homogeniza as individualidades e abandona as críticas que deveriam ser feitas ao Estado por não garantir os direitos fundamentais da população. Decerto, se a sociedade não fosse estruturalmente racista, possivelmente, nem favelas existiriam neste país, já que os negros são a maioria nesses lugares. Os disseminadores do slogan, simplesmente, desconsideram as dores das mães, familiares e amigos de pessoas que foram assassinadas pelas ações do poder público em nome do combate às drogas. Urge que sejamos críticos diante disso, e questionemos “como assim a favela venceu?” se o que vemos é a manutenção e aumento da violência contra os negros e pobres.

Veja só, por conta da desigualdade social as favelas estão se multiplicando no Brasil. De acordo com a estimativa do IBGE, o total de “aglomerados subnormais” – favelas, palafitas, etc. – saiu de 6.329 em 323 municípios para 13.151 em 734 cidades de 2010 a 2019.[1] E mais, pesquisa II Vigisan (Inquérito Nacional Sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia Covid-19 no Brasil) divulgou que há 33,1 milhões de brasileiros passando fome no Brasil.[2] Isso é estarrecedor! Não restam dúvidas de que os famintos estão espalhados nas favelas, e outros espaços marginalizados; atualmente, há um aumento exponencial de pessoas morando em barracas, sob viadutos, nas praças e calçadas situadas nos centros das cidades. E o que me deixa indignado é constatar que a reflexão da escritora Carolina Maria de Jesus, nos anos 60, continua atual “O maior espetáculo para o pobre da atualidade é ter o que comer em casa”.

Foto: Felipe Iruatã/TNH.

Devemos rechaçar pensamentos individualistas massificados, principalmente, por quem o sistema concedeu migalhas e oportunidade de participação em espaços privilegiados. A realidade violenta exige a construção de ações concretas e  discursos radicalizados contra o sistema que oprime a população. Nesse aspecto, Milton Santos (1996/1997) escreveu que é fundamental “um discurso cientificamente elaborado, que não pode ser um discurso choramingas, nem um discurso de pura emoção. A organização é também indispensável, como um dado multiplicador das forças limitadas”. Conversemos com as pessoas e mostremos que no capitalismo a mobilidade social dos pobres é descendente, e os que ascendem são apenas exceções confirmando a regra. Mas, se mesmo assim elas insistirem na reprodução do slogan, pergunte se os que andam revirando lixo, encarando a “fila do osso”, e os familiares que perderam seus entes queridos, na “guerra às drogas”, compartilham da mesma opinião.

Texto: Ricardo Corrêa (Especialista em Educação).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CABRAL, Amílcar. Unidade e Luta I. A Arma da Teoria. Textos coordenados por Mário Pinto de Andrade, Lisboa: Seara Nova, 1978.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.

SANTOS, Milton. Cidadanias mutiladas. In: LERNER, Julio (Ed.). O preconceito. São Paulo: IMESP, 1996/1997, p. 133-144.

SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Record, 2000.


[1] Aumento no número de favelas no Brasil é reflexo da desigualdade crescente, afirma Denise Morado

[2] Inquérito Nacional Sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia Covid-19 no Brasil

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