“O racismo está em todos os lugares e não seria diferente em multinacionais”, diz Cíntia Aleixo, psicóloga antirracista

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“O racismo está em todos os lugares e não seria diferente em multinacionais”, diz Cíntia Aleixo, psicóloga antirracista
Foto: Divulgação.

Mulher, mãe, esposa, preta, psicóloga, empreendedora, palestrante. Essa é Cíntia Aleixo, que vislumbra um mundo de possibilidades para conquistar objetivos e realizar sonhos. Sejam os seus, sejam os de seus pacientes. Especialista em Saúde Mental e mestranda em Psicologia Clínica pela PUC- RJ, ela atua em várias frentes: consultora terapêutica antirracista em ambientes corporativos, educação antirracista, equilíbrio e bem-estar emocional, comunicação não violenta, afetividade, empatia, ansiedade e emoções acometidas psiquicamente nas relações humanas institucionais, consultório particular online e palestras sobre comportamento, relações humanas, atitudes diante de vida e tendências atuais. Ela também criou o projeto Um Mundo de Possibilidades Maternas, focado na mulher e em todas as questões femininas.

Cíntia Aleixo é criadora e orientadora do projeto Rodas de Conversa para a População Preta em Empresas, e trabalha questões sobre a temática racial sob aspectos emocionais e estruturais, habilidades, valores, soluções, suporte e acolhimento.

“Enquanto mulher preta e profissional com 20 anos de experiência em psicologia, já passei por empresas e sei como funciona o racismo no mundo corporativo. O racismo está em todos os lugares e não seria diferente em multinacionais. As rodas consistem em ofertar, além de espaço de troca, o reconhecimento da própria raça e valores para profissionais pretos. Por meio de diálogos e reflexões fundamentadas na psicologia preta e psicanálise, as pessoas são acolhidas e podem cuidar de casos especiais e pessoas por meio dos encontros”, ressalta a terapeuta.

A psicóloga observou que os colegas brancos não conseguem acolher os funcionários negros com a compreensão necessária porque o racismo não é uma dor que lhes atravessa. Cíntia conhece bem os desafios das pessoas pretas em ambientes corporativos e revela que a análise é interminável para ela e para seus pacientes.

“Há também o desafio positivo de me ver como prestadora de um serviço que é ligado a um referencial ancestral. Meus ancestrais não tiveram a oportunidade de falar sobre suas dores verdadeiras, sobre o enfrentamento que vivenciaram ao longo da escravidão e recentemente quando eram serviçais de pessoas brancas e viviam outro tipo de escravidão. Ou ainda quando eram maltratados em seus cargos ainda que tivessem estudado e conquistado cargos altos. É satisfatório, por esse lado, poder movimentar as estruturas raciais de dentro para fora e ver pessoas pretas chegando mínimas e saindo máximas, emocionalmente falando”, empolga-se a terapeuta.

Já o projeto Um Mundo de Possibilidades Maternas é um desdobramento de Cíntia Aleixo como psicóloga. O projeto procura desmistificar a busca pela terapia e ampliar o acesso a conteúdos de cunhos psicológicos atingindo o maior número de pessoas possível. A escolha do atendimento, que pode ser também online, e a geração de conteúdos sobre as questões femininas visam a tornar esses conhecimentos acessíveis a todas as mães, gestantes e tentantes. O conteúdo está disponível no canal “Um mundo de possibilidades maternas” Já os serviços oferecidos pelo projeto são: terapia individual, terapia online e grupos terapêuticos.

“A necessidade de criar o Possibilidades Maternas surgiu a partir da observação de que mulheres se tornavam mães e tinham de enfrentar o mito da mãe perfeita. A partir da minha maternagem e das sessões clínicas com outras mães, percebi que era necessário um espaço político e terapêutico para mulheres vivenciarem e construírem a maternidade para além do que é cultural e do senso comum. É possível não gostar da maternidade e ser mãe, ou saber o que gosta ou não na maternagem. e ainda assim amar o bebê”, explica Cíntia Aleixo.

O atendimento à mulher sempre foi um nicho de trabalho muito presente em sua carreira profissional desde a sua formação em Psicologia, no ano de 2004. Ela coleciona, no currículo, celebridades que ela atendeu ao longo da sua jornada profissional.

Cíntia Aleixo também tem forte atuação nos meios de comunicação. Atualmente, a psicóloga é comentarista do noticiário Regional RJTV e do Programa Encontro com Fátima Bernardes. Durante dois anos, foi também comentarista sobre saúde mental do programa Papo de Almoço da Rádio Globo – Rio de Janeiro. Em todas essas participações, sempre ao vivo, Cíntia levantou reflexões sobre questões no âmbito psicológico de um modo geral, sendo ela uma referência em excelência clínica no Rio de Janeiro.

A pandemia fez com que pessoas e empresas passassem a dar mais valor aos cuidados com a saúde mental. “O avanço foi e é enorme. Para ser ótimo profissional, pai, mãe, amigo, cônjuge, é preciso possuir habilidades esquematizadas emocionalmente. Os casos de sucesso durante a pandemia devem-se à estrutura emocional que as pessoas tiveram. Oscilando, claro, mas mantendo minimamente o equilíbrio intelectual, social, religioso, por meio da terapia”, reconhece Cíntia.

Tudo o que Cíntia Aleixo almeja com seu trabalho, que perpassa por transformações sociais, é fortalecer pessoas psiquicamente. “O fortalecer é diretamente ligado à autoestima. Uma vez que aumenta, novas possibilidades serão encontradas e aproveitadas. É preciso mover estruturas sociais de dentro pra fora”, explica a psicóloga.

E será que está dando resultado? O mercado vem mudando? “Bastante. Recentemente, apliquei uma pesquisa de clima numa conta multinacional, e os resultados reforçaram a missão da consultoria nas empresas: promover segurança para liderança, conquistas, autopercepção e autovalor nos profissionais pretos entrevistados. É preciso continuar”, motiva-se a terapeuta.

Desafios e missões. Para uma mulher negra, psicóloga e empreendedora são muitos. “Eu sei onde estou. Sei meu potencial e sei que o valor de mercado não chega por ser uma mulher preta. Tenho muitas ideias brilhantes que não saem do papel, mas estão guardadas para que, no momento certo, eu possa colocar em prática. Meu salário e visibilidade são inferiores aos de pessoas brancas, muitas das quais andam sendo referência naquilo que não são, apenas por serem brancas. Fazem hoje o que faço há anos, ganham mais. Mas jamais vou deixar de trabalhar e fazer o que amo por esse motivo”, conclui altiva Cíntia Aleixo.

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