Nego Di e as “minorias” na política brasileira

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Nas últimas semanas, as discussões – e flexibilizações – do conceito de representatividade estão à toda por conta do Big Brother Brasil. Aparentemente, após esta edição do reality show, ficou evidente que a cor da pele não é o bastante para unificar pessoas em torno de um competidor do programa-  Nego Di que o diga. A defesa do direito de sermos múltiplos e diversos mesmo dentro de um grupo é legítima e nos humaniza, mas, então, quem representa o quê quando a pauta é representatividade na política?

No que se refere à questão de gênero, já se sabe que as mulheres não são um grupo uniforme politicamente. De acordo com o Radar Congresso, do Congresso em Foco, das 77 mulheres eleitas deputadas federais em 2018, 55 votaram de acordo com as diretrizes do presidente da república em mais de 50% das vezes e este alinhamento tem crescido com o passar dos meses. 

No Senado, a situação é ainda mais contrastante: das dez senadoras da República, todas votaram de acordo com o presidente em mais de 50% das votações. Um aparente contrassenso quando se pensa no que é entendido como “pauta feminina” e as principais bandeiras defendidas pelo atual mandante do governo federal. 

As eleições municipais de 2020 pareceram acenar com um suspiro de esperança de mais representatividade de pessoas negras e LGBT comprometidas com pautas chamadas progressistas, vindas principalmente de partidos já conhecidos da esquerda brasileira, mas não é bem assim. De acordo com levantamento feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), das 30 candidaturas de pessoas trans eleitas em 2020, 14 (46,7%) estão em partidos de direita.

Embora partidos de esquerda tenham apresentado um maior número de candidaturas negras, os partidos que mais elegeram, proporcionalmente, candidatos autodeclarados negros para prefeituras em 2020 foram MDB (234) , PP (222) , PSD (228), e PSDB (93). Todos partidos de centro-direita, com uma maior quantidade dinheiro, de candidaturas e capilaridade no país. Mas faz pensar, não faz? No país que tem um presidente da Fundação Palmares que nega o racismo, este não parece ser mesmo um caso isolado, tem mais cara de projeto político. 

Me parece então que a representatividade da esquerda brasileira está precisando de uma turbinada, já que os números não estão exatamente muito melhores que os da direita. Palavras de ordem, estética negra e práticas brancas não estão sendo toleradas em reality show, mas furam o bloqueio dos partidos e do sistema político e têm tido boas respostas nas urnas.

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