“Nunca vi tanta violência contra pessoas negras, de tantos tipos, concentrada num mesmo produto audiovisual. A ficção que se propõe a gerar uma atmosfera assustadora para entreter causa repulsa por proporcionar um verdadeiro manual de como torturar física e psicologicamente pessoas negras”. Essa é a visão sobre o filme Them ( Amazon Prime) da escritora e podcaster Mariah Morena.

Ela não está sozinha. Tem muita gente não recomendando a série de Little Marvin por conta da violência explícita e terror psicológico. Com 10 episódios, a série se passa na década de 1950, contando a história de uma família negra que se muda do estado da Carolina do Norte para uma vizinhança composta apenas por pessoas brancas na cidade de Los Angeles durante o período conhecido como ‘A Grande Migração’. Até Stephen King, o mestre do terror, disse que ficou assustado coma série. “E olha que é difícil de assustar”, disse o escritor ma sua conta do Twitter.

Outra história que não é unanime, no sentido se devemos ver ou não, é Dois Estranhos ( Netflix). O creator Ale Garcia inclusive fez um vídeo no seu canal no Youtube sobre isso e reforçou em seu Instagram: “Não assista a Dois Estranhos se você está cansado de ver negros morrendo ou tendo encontros violentos com a polícia”. O curta foi o vencedor do prêmio de Melhor Curta Metragem do ‘African American Film Critics Association – AAFCA’ e está na disputa pelo Oscar. A história é um looping sem fim onde um jovem tenta se livrar, de todas as formas, do fim trágico resultados do encontro com um policial branco.

A quem serve essas narrativas onde negros aparecem em cenas de violência e racismo de forma crua e explicita. Precisamos reviver essas histórias na ficção para ter consciência de como o mundo pode ser perverso para pessoas como nós? Vale a pena chorar e despertar gatilhos vendo filmes na TV ou deveríamos poupar nosso emocional?

A professora e psicanalista Vanessa Rodrigues explicou para gente seu ponto de vista sobre esses dois filmes.

Mundo Negro – Sobre a série Them, assistir ou não?

Vanessa Rodrigues: Eu acho que são muitas questões a serem abordadas. Não dá para dizer assista ou não assista. Por exemplo em Them, que é uma serie existem vários elementos que remonta um racismo em si, não é? A problemática racista, a intolerância, mas o que eu percebo é que essa série Them não está falando de racismo especificamente, mas de uma neurose social. Essa neurose, começa lá atrás com um cara que é um pastor, muito religioso. Isso tem um recorte importante dentro do pensamento antirracista, porque o racismo começa com o aval da religião. Depois ele cria um espaço mítico para aquela família negra que vai morar onde não é aceito pessoas pretas de nenhuma forma. Essas pessoas começam a sofrer violências enormes por meio de uma personagem branca, muito branca, que também tem problemas psicológicos. Ela (a série) trata de psicopatológicas sociais e dentre elas, de plano de fundo, o racismo. Ela é muito violenta, porque é traumática, ela é uma alegoria do trauma.

“Dois estranhos” é um curta que também tem despertado vários gatilhos na audiência negra. Tem alguma diferença entre os dois?

Os “Dois Estranhos” eu acho mais enfática na questão antirracista porque ela se vincula com uma ideia de looping. Como se não houvesse nada que pudesse ser feito, para que isso acabe ao não ser que as pessoas brancas acordem para essa ideia que é preciso pensar que pessoas pretas são pessoas.

Só que isso é muito complicado, então é muito difícil dizer quais gatilhos abrirão nas pessoas brancas ou pretas. Na pessoa branca pode ser que ela se vincule a uma ideia de negação total. Como “isso acontece, mas EU não faço”. Apesar de parecer improvável isso pode desencadear uma espécie de trauma em pessoas brancas, inclusive. Eu não posso dizer quem deve ou não assistir, mas que pode dar traumas se a pessoa já está traumatizada com esses gatilhos.

E como observar esses filmes do ponto de vista artístico?

Importante frisar que o papel da arte é exatamente esse. É tocar na emoção seja ela uma emoção estética, seja ela uma emoção vinculada a uma experiência já vivida. Ser ou não ser gatilho, não é uma discussão da arte, não é uma discussão do cinema. É uma discussão que está vinculada a outras questões. Não existe uma responsabilidade do autor em que gatilho isso vai causar no outro. Então de qualquer forma acho válido. Acho que todo mundo tem que assistir. Mas se vai ou não dar gatilho, é uma possibilidade, mas até o BBB dá gatilho.

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