Mulheres negras tiveram menos acesso ao pré-natal e maiores índices de mortalidade materna entre 2014 e 2020

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Mulheres negras tiveram menos acesso ao pré-natal e maiores índices de mortalidade materna entre 2014 e 2020
Foto: Divulgação/Fiocruz

O número de mulheres negras que morreram durante a gravidez ou 42 dias após o fim da gestação foi de 8 a mais, a cada 100 mil nascidos vivos, do que entre mulheres brancas entre 2014 e 2019. Os índices de pré-natal adequado também são piores entre as mulheres negras. No primeiro ano da pandemia de Covid-19, o número de gestantes que realizaram o pré-natal de forma adequada caiu 1,44% entre mulheres negras, enquanto a queda foi de 0,54% entre mulheres brancas. Os dados foram apresentados na nota técnica “Desigualdades raciais na saúde: cuidados pré-natais e mortalidade materna no Brasil, 2014-2020” divulgada no dia último dia 17, pelo IEPS.

Segundo Jéssica Remédios, pesquisadora do IEPS e uma das autoras do estudo, a mortalidade materna é um problema que pode ser evitado com investimentos em atenção básica. “Esse é um problema grave de saúde pública, em especial para as mulheres pretas, mas que em 92% dos casos pode ser evitado. Para isso, o poder público precisa fortalecer a atenção primária e implementar a Política Nacional de Saúde da População Negra nos municípios brasileiros”, explica a pesquisadora do IEPS. Entre 2014 e 2019, a média da Razão de Mortalidade Materna (RMM) para mulheres negras foi de 61,6, enquanto para mulheres brancas foi de 53,8.

Na atenção primária, o fortalecimento da Estratégia de Saúde da Família (ESF) é um das ações práticas que podem contribuir para a redução das desigualdades raciais na saúde brasileira. Segundo Rony Coelho, pesquisador de Economia da Saúde do IEPS, o fortalecimento da estratégia de Saúde da Família, por exemplo, é um caminho eficiente para reduzir as desigualdades entre mulheres negras e brancas. “Um dos focos centrais da Saúde da Família é o acesso ao pré-natal adequado. O atendimento contínuo por equipes multiprofissionais é a melhor forma de detectar complicações de forma precoce. O que ajuda, inclusive, na redução de mortes maternas, que em sua maioria acontecem por causas evitáveis”, explica o pesquisador do IEPS.

A pandemia também prejudicou o acesso de mães negras aos cuidados pré-natais. Os dados apontavam para uma redução do diferencial entre gestantes negras e brancas nos anos anteriores à crise sanitária. “A pandemia de Covid-19 aprofundou as desigualdades sociais em diferentes sentidos, inclusive em relação à saúde das mães negras do nosso país. Os ganhos que obtivemos entre 2014 e 2019, que já não eram tão expressivos, foram perdidos em 2020. É urgente que haja políticas de fortalecimento da Atenção Primária e de ações voltadas ao cuidado das mães e mulheres negras”, afirma Jéssica Remédios.

Pré-natal: mais da metade das mulheres pretas da região norte do Brasil não tiveram acesso adequado em 2014

As desigualdades raciais também marcam as diferentes regiões do Brasil. A nota técnica mostra que, em 2014, 52,9% das gestantes pretas do norte do país não tiveram acesso adequado ao pré-natal. No mesmo ano, gestantes brancas da região sudeste apresentaram 21,7% de pré-natais inadequados. No comparativo, os índices de consultas pré-natais inadequadas foi 2,4 vezes maior entre mulheres pretas no norte do Brasil.

No Norte, mesmo em 2019 e 2020, anos que apresentam índices melhores, o número de pré-natais inadequados permaneceu alto entre mulheres pretas, variando de 42,9% para 44,7% no período. É considerado pré-natal inadequado os casos em que a assistência médica começou apenas após o terceiro mês de gestação ou que foram realizadas menos de seis consultas durante toda a gravidez.

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