Os assuntos que envolvem a menopausa e o envelhecimento nas mulheres ainda são silenciados e tratados com pouca importância em âmbitos como saúde, sociedade e informação. Mulheres a partir dos 40 anos começam a sentir os sintomas da perimenopausa, período de transição, em que o corpo começa a manifestar os primeiros sinais, porém, em sua maioria e principalmente em territórios periféricos, não associam essas reações à menopausa e, muito menos, sabem lidar com elas.
É o que aponta o estudo antropológico realizado pela Avon Renew no Brasil e no México. A pesquisa entrevistou mulheres de áreas afastadas desses países, com idades entre 36 e 71 anos. Nessas comunidades, o cenário revela vulnerabilidades entre as mulheres. Com mais de 16,3 milhões de habitantes, com maioria feminina de mais de 50%, o cotidiano dessas mulheres é marcado por acúmulo de silenciamentos, dificuldades geográficas no acesso à saúde pública e profunda exaustão física e mental.
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No Brasil, o estudo contemplou territórios em São Paulo, nos bairros de Osasco, Taboão da Serra, Diadema, Vila Leopoldina, Comunidade São Remo, Vila Guarani, além de cidades do interior, como Jundiaí, Boituva, Votorantim e Sorocaba. A pesquisa também alcançou outras regiões do país, com entrevistas realizadas no Nordeste, em Parque São Cristóvão e Valente, na Bahia, além de Mariópolis, no Paraná. De acordo com o levantamento, uma em cada cinco mulheres que vive em áreas periféricas são majoritariamente negras e indígenas. Além disso, cerca de 50% delas trabalham em atividades informais, no qual muitas transformam suas casas em espaços de trabalho.
Em ambos os países estudados, apareceram sintomas semelhantes à menopausa, como por exemplo ondas de calor, alterações de humor, insônia, cansaço e mudanças na pele. O climatério ocorre, em geral, entre os 40 e os 60 anos, e seus sintomas podem variar de mulher para mulher. As manifestações físicas ainda vêm acompanhadas de desinformação, vergonha e pouco acesso a atendimentos médicos.
Entre as mulheres negras, o estudo observou relatos de uma percepção mais precoce dos sintomas em comparação às mulheres brancas, além de maior intensidade das manifestações e uma incidência elevada de insônia. Esses aspectos reforçam que a experiência do climatério não é homogênea e pode ser atravessada por fatores como raça, condições socioeconômicas e acesso à informação e aos cuidados de saúde.
“Muitas mulheres começam a perceber alterações no corpo, no humor e na rotina, mas não associam esses sinais imediatamente ao climatério ou à menopausa”, diz Priscila Moncayo, Gerente de Desenvolvimento de Produtos na Natura e Avon, cientista que participou do estudo. “As principais queixas vão além dos sintomas físicos. Muitas relatam mudanças que impactam a autoestima, a relação com o próprio corpo, descobrindo alergias que nunca tiveram, sensibilidades e a maneira como se reconhecem diante do envelhecimento”.
Sintomas físicos severos, como calor extremo, ressecamento e sensibilidade da pele, surgimento de melasma e dores articulares, misturam-se a impactos psicológicos como irritabilidade, insônia e exaustão. “Estou enfrentando um climatério precoce, ganho de peso, melasma gritando, cabelo caindo. [Isso] mexe no físico e no psicológico”, afirma a brasileira Vanderleya, uma das entrevistadas do estudo.
Apesar do sofrimento, o estudo destaca que a menopausa raramente surge como um tema espontâneo, o que é um reflexo de normas sociais e culturais que moldaram a maneira como as mulheres percebem e comunicam essa transição. Fruto de gerações silenciadas, essa experiência revela que a menopausa, muitas vezes, precisa ser vivida, mas não é necessariamente nomeada. As entrevistadas relatam ter aprendido a lidar silenciosamente com as transformações de seus corpos, fazendo da omissão uma estratégia de autoproteção diante do preconceito social que ainda permeia o processo de envelhecimento.
Improvisação como resultado da falta de acesso
Segundo a cientista Priscila Moncayo, em resultado da falta de atenção social à saúde, e acesso a medicamentos e produtos farmacêuticos, essas mulheres acabam recorrendo a saberes ancestrais, remédios e improvisos caseiros, como chás, toalha gelada, banhos frios de madrugada, esfoliante de iogurte, entre outros. Essas estratégias são disseminadas entre a comunidade, como alternativa para os fogachos e para a melhora na qualidade do sono.
Já no âmbito da beleza, a falta de acesso a tratamentos caros não significa negligência com o corpo. O estudo evidencia o conceito de “beleza possível”, adaptando suas rotinas de cuidados de skincare à própria realidade financeira e fazendo escolhas criativas para manter a vaidade, utilizando produtos acessíveis.
As rotinas de cuidados são adaptadas de forma criativa, provando que a periferia é um espaço de invenção, resistência, solidariedade e de forte potência cultural e feminina.
Além das limitações de acesso à saúde, a pesquisa evidenciou a falta de informação, de espaços de escuta e de redes de apoio para compartilhar experiências e dúvidas sobre essa fase, segundo Priscila Moncayo.
“O silêncio em torno da menopausa pode fazer com que muitas mulheres vivenciem as mudanças de forma mais solitária, sem reconhecer que determinados sintomas fazem parte desse período ou sem saber a quem recorrer. Os relatos também mostram a importância das relações de amizade, familiares e comunitárias como espaços de acolhimento, troca de experiências e incentivo ao cuidado, reforçando a necessidade de ampliar as conversas sobre a menopausa de forma mais aberta e acessível”, conclui a cientista.
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