Outro grande prêmio da gastronomia foi anunciado e a falta de presença de chefs pretos, mulheres e LGBTQIA+ me fez questionar  se existiu curadoria de diversidade ou a escolha do line up deste evento foi feito de forma proposital.

O ano é 2022 e um dos maiores eventos de gastronomia do país, o Mesa SP, conta com um número ínfimo de chefs de cozinha pretos. Se formos recortar este mesmo índice para além do aspecto racial, temos um total de 0% de chefs travestis e transexuais e apenas homens gays aparecem dentro do evento como possibilidades.

Diferente do que vem acontecendo nos dias de hoje, onde há uma preocupação legal em estimar o casting em 50% de pessoas pretas e ou indígenas, os eventos de gastronomia continuam exercendo o seu direito de desrespeitar quem carrega a gastronomia do pais nas costas. Pessoas pretas, segundo o Restaurant Opportunities Centers United, são a maioria esmagadora dentro das cozinhas pelo mundo, mas 81% dos cargos de gerência são ocupados por pessoas brancas.

Chef Edouardo Jordan. Foto: The Strand House.

Porque estes eventos que deveriam comemorar e incentivar a pluralidade do Brasil continuam sendo representados por homens cis e pessoas brancas? Dentro deste evento em questão, o time preto falará sobre restaurantes comunitários e em como a periferia trata a sustentabilidade na prática. Porque novamente seremos reduzidos a contar histórias de superação onde deveríamos ser espelho para as gerações pretas que querem e almejam alcançar o sucesso?

Não poderia ser diferente, afinal, existe um histórico no mundo da gastronomia em não premiar pessoas pretas. Até o ano de 2018 apenas DOIS chefs no mundo detinham o (extinto) “Guide Michellin”. Se fizermos um recorte de gênero, pulamos para o ano de 2020 onde Mariya Russel foi a primeira mulher negra a ganhar uma estrela. Se formos falar sobre pessoas travestis e transexuais, pularemos novamente para um total de zero pessoas até o ano de 2022.

Esperaremos quantos anos para sermos vistos? Esperaremos quantos anos para entenderem que estamos dentro de suas cozinhas e nossas histórias são para além de tristezas e superação. Se pudermos falar sobre memórias gastronômicas, como a identidade do pais foi moldada por nós e como a gastronomia do Brasil foi construída através de nosso sangue e suor nunca mais precisaremos contar histórias tristes e de superação.

Esperaremos quantos prêmios e festivais acontecerem para que possamos nos ver nestes palcos para além de falas tristes?

Existem muitos de nós, temos listas e mais listas de chefs pretos de sucesso. Somos homens e mulheres, somos para além de olhares curiosos. Estamos fazendo história dentro de cozinhas espalhadas pelo Brasil. Formamos identidades gastronômicas, mas não somos reconhecidos dentro de grandes prêmios.

Respeitem nossa história, não falem sobre nós em terceira pessoa. Desafio este e os demais prêmios a convidadarem chefs trans, pretos, mulheres e pessoas não heterossexuais para estarem dentro deste line, mostrando que nossos sorrisos inspiram muito mais do que falar sobre nossas dores.

Texto: Thales Alves, Gastrônomo Especialista & Consultor.

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